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E hoje no Em 40 Minutos na Rádio Observador recebemos Eduardo Madeira. Muito bom dia, boa tarde.

Olá, Eduardo.

Bom dia.

Eu sou a Rita Camarneiro, ao meu lado também Luís Soares. Excepcionalmente estamos aqui nós.

É um duplo improvável.

Exatamente. Eduardo Madeira, bem-disposto? Estás sempre, não é?

Sim, normalmente estou bem-disposto. É preciso alguém com muita capacidade para me estragar o dia. Ou seja, só dou esse privilégio a alguns, é muito poucos.

Olha, nasceste na Guiné-Bissau, algo que por acaso eu não fazia ideia, mas com um ano vieste para Portugal, para Coimbra, de onde é o teu pai, não é?

Sim.

E viveste lá até os 12 anos.

Sim.

Por acaso costuma ser ao contrário, as pessoas costumam viver em Coimbra um pouquinho mais tarde. Tu nasceste direto.

Pois é, eu fui mais cedo. Fiz a faculdade entre um ano e os 12.

Lembras-te bem, gostaste de viver em Coimbra?

Sim, claro. É uma idade muito marcante, a infância, e Coimbra marcou-me imenso. É uma cidade muito especial pra mim. Curiosamente, depois quando foi a altura da faculdade, também entrei em Coimbra.

Ah, foi? Em Direito.

Não, entrei em História.

Primeiro foste História.

E eu disse pro meu pai: "Ah, entrei em Coimbra, e se calhar vou pra lá." Meu pai disse: "Nem pensar."

Nem pensar, por quê?

Porque já sabia que eu ia, se fosse preciso, ia andar por lá anos e anos na farra, e o curso provavelmente ficaria pra trás. Mas é uma cidade muito especial pra mim, todas as minhas recordações de infância estão lá.

Ficaram lá muitos amigos.

Ficaram lá muitos amigos, os miúdos todos. Os meus amigos da minha rua, do meu bairro. E por acaso há uma história gira. Eu estive muitos anos sem lá voltar. Estive cinco ou seis anos sem voltar a Coimbra mesmo, porque voltava às vezes, ali perto, Figueira, não sei o quê, mas a Coimbra, não. E quando voltei, fui sozinho, e tinha já talvez 18 anos. E fiz uma coisa: fui à minha rua e ao meu bairro. Estive com um dos meus amigos da altura, que era o Richard, que vivia ali ao lado. E houve aquela sensação de que faltou qualquer coisa ali.

Faltou ali uma ligação.

Porque a cidade fica mais fria.

Porque se for na juventude ainda fica, mas na infância parece que é mesmo um gap muito grande.

Porque mudaste muito.

Mudamos muito, estivemos com outras pessoas, vivemos outras experiências. E depois fui à minha casa, onde eu passei a minha infância toda, e toquei a campainha, porque meti na cabeça que gostava de ver aquela casa mais uma vez, ou uma última vez. Meti na cabeça, fui lá e toquei a campainha e veio uma velhota e eu disse: "Olha, desculpe lá estar a incomodar, mas eu vivi aqui entre um ano e meio e os 12 anos e gostava de ver agora a casa onde eu passei a minha infância toda mais uma vez. Não a queria incomodar, era uma coisa rápida, mas era uma agonia que me dava e nem sei o que vai acontecer, mas achava muito bonito, acha que é possível?" Ela disse: "Não!" E fechou-me a porta na cara. Pronto, e pronto. Não acho que jamais voltei à minha casa.

Será que ela não te reconheceu?

Não, eu tinha 18 anos. Era só um jovem com uma ideia louca de ir entrar na casa de uma velhota, sim.

Isso fez-me lembrar um vídeo da Jennifer Lopez. Aquela música: " I'm still, I'm still Jennifer from the block". E ela foi à sua rua tentar visitar a casa onde tinha vivido e o senhor também não deixou, nem sequer a reconheceu.

Nem sequer a reconheceu. Mas a mim não era natural que não me reconhecessem, porque, na verdade, ninguém me conhecia.

Tens de tentar outra vez.

Já não será essa senhora, aos anos que foi. Quer dizer, se fosse essa mesma senhora é que era espetacular. Já com 132 anos.

Sim. Um dia também bateram à porta para ver a casa onde tinham vivido, que agora estava lá eu.

A sério?

E eu deixei entrar. E depois, por acaso, foi curioso, porque eu recebia muitas cartas para o dono daquela casa anterior. Conclusão: eram as cinzas do pai da rapariga. Não eram as cinzas, era o cemitério a dizer que tinham de fazer alguma coisa. Eram as ossadas. E eu não dei vazão e acho que acabou por ir pro lixo municipal.

Caramba! Que história tão animada.

Adiante.

Então vamos sempre bater por aí abaixo, até acabarmos todos aqui a cortar as pulgas.

Às vezes até é bom não deixar entrar.

É melhor.

Mas depois, Eduardo Madeira, foste para a Margem Sul. A Margem Sul foi uma grande viragem na tua vida, não é?

Foi total.

Foi marcante até na tua carreira como humorista.

Eu acho que foi talvez o mais importante pra minha carreira como humorista, porque a minha infância é uma infância, até certo ponto, com coisas muito marcantes e cômicas, mas feliz. Até o momento em que eu tenho que sair de Coimbra, é uma infância feliz e quase sem aqueles picos dramáticos de vida. Mas a Margem Sul não, é uma montanha-russa. E eu saio de Coimbra, andava num colégio, e vou pra Margem Sul, e como a minha tia era professora, os meus pais acharam por bem meter-me numa escola pública da Margem Sul, porque tinha lá a minha tia.

80, 80.

Não, 90. Era por aí 90 e poucos.

Não, tu foste 84, saíste de Coimbra.

Não, eu saí de Coimbra em 84. Era para 87, 88.

Ok.

Tal e para que dizemos 90. Agora, de repente, estamos aqui todos baralhados.

Não, mas foi a transição, também, porque estiveste lá nos anos 90.

Sim.

Foste os primeiros do Weasel.

Tal e qual. Finais de anos 80, e vou para uma escola que muda totalmente tudo que eu estava habituado e faz de mim uma pessoa completamente diferente, porque vejo realidades e estou com pessoas que me abrem completamente a cabeça. Até sais de um meio pequeno e vais para um meio maior. Eu estava num colégio, que era um colégio ainda por cima de inspiração católica, que era João XXIII, que é uma espécie de Salesianos, Maristas em Coimbra, e vou para a Escola Secundária do Mira Tejo, Laranjeiras. A minha turma era aquela malta, aqueles rappers do início, Black Bull, não sabe? Eram da minha turma.

Black Panther.

Exatamente. Eram da minha turma, o Malcolm X e essa malta toda. O Augusto e tal, eram da minha turma. Portanto, aquilo foi uma experiência tipo wow!

Sim, o oposto, não é?

Sim.

Deve ter sido bem inspirador, por acaso.

Olha, e como é que eu salvei a minha vida? Como é que eu não sou-

Assaltado todos os dias.

Sim, e morto mesmo.

Morto.

Através, se calhar, já um bocadinho do humor. Que eu começo a descomplicar situações. A torná-las mais leves? A tornar mais leves. E apesar de chegar lá e ter notas que o resto da malta olhava para mim de lado.

Porque eras bom aluno, não é?

Era bom aluno e não tinha que me esforçar muito naquele momento. Fazia os possíveis para ser também rebelde e ir para a rua e não sei o quê, que era para a malta dizer: "Eia, o gajo é um dos nossos".

Integravas-te bem.

E com piadas e não sei o quê. E foi um bocadinho o meu escudo de proteção contra a cena. E depois endureces, porque passas por coisas muito duras e difíceis. Hoje em dia acho que a ver seria a partir do telejornal, mas na altura era o nosso dia a dia.

Mas chegaste a ser assaltado?

Tudo o que tu possas imaginar e mais alguma coisa.

É porque parece um bocado um clichê, não é?

Não, não fazes ideia do que era uma escola daquelas naquela altura. Não tem nada a ver. Hoje seria, provavelmente, a CMTV teria um piquete, teria um escritório naquela escola porque tinha pano para manga. Tudo. Todos os dias havia espancamentos, alunos que atiravam cadeiras para o conselho diretivo. Era a cena do dia. E era giro, porque não era monótono.

Sim.

Não era monótono, não rezavas o Pai Nosso. Não havia momentos parados. E passei por aquilo, e aquilo marca-me imenso num crescimento. Os meus pais sempre naquela: "Vamos aguentar isto, vamos deixá-lo aqui". Mas depois as notas eram tão fixes.

Ainda por cima destacavas-te bem, não é?

As notas eram tão boas que eles pensavam: "Epá".

Está a lidar bem com isto.

"Ele não está morto. De vez em quando aparece em casa sem um sapato e tal, mas enquanto as notas estiverem..." E lá fui até ao 12º, até à universidade.

Isto quer dizer que era normal sofrer bullying por ti e por toda a gente?

Esquece. Nem sequer havia nenhuma espécie de conceito de bullying, porque enquanto foi mais pequenino, era começar a levar porrada às 8h da manhã e acabar à noite. Sem nenhuma espécie de contemplação, nem de queixas, nem te podias queixar a ninguém, porque se fores queixar, pioravas a situação. A ideia era passar despercebido e ser aceite. E foi assim que aconteceu, e era muito mau.

Mas levavas mais tu por teres vindo de fora?

Não.

Ou era bastante geral?

Eu consegui, não sei como, eu acho que foi quase um milagre, mas fui roubado e levei uns caldos e gozado, mas consegui um bocado passar entre os pingos da chuva. Havia casos bem mais graves que eu me lembro. E depois tive sempre uma coisa, que é: apesar de ter entrado completamente no grupo dos fixes, dos cool, da malta fixe da escola, eu sempre me dei bem com toda a gente. E então, às vezes andava com os cromos porque achava alguns cromos muito interessantes, mais interessantes que os fixes.

Tornavas os cromos mais fixes também.

Exato. E depois a malta dizia-me: "Epá, mas tu andas com aquele cromo, o que vocês falam?" E não levavas por tabela por andares com os cromos? Não consegui. Conseguias equilibrar as coisas. Consegui fazer um agente- Um mediador. Era um mediador, quase. Às vezes correndo riscos de acontecer isso, mas não. Nem a malta mais ao lado me excluía, nem aquilo era suficientemente grave para os fixes me excluírem. Portanto, andava ali num território, ia ali, ia acolá. Eras um diplomata. Era um diplomata.

Mas no entanto tens uma máxima que é: não se pode agradar a toda a gente. Mas é engraçado teres essa máxima e agradares toda a gente. Mas não fazes grande esforço, não é?

Não, eu não agrado a toda a gente.

Não sei.

Calma lá. Não agrado a toda a gente.

És provavelmente a pessoa mais fixe em Portugal. Tem que ser dito.

Não sou. Eu não agrado a toda a gente, nem é hoje uma preocupação. É uma preocupação na tua vida durante muito tempo, mas depois eu acho que a idade é que te tira um bocadinho essa cena. O que tu metes na tua cabeça é: eu sou assim, eu faço as coisas assim e é a minha maneira. Quem não quer, tem tantas hipóteses de nem sequer olhar pra mim, nem sequer falar pra mim. E está tudo bem, estamos todos bem.

Ainda há boleia daquilo de haver um monte de coisas na tua escola que hoje em dia seriam vistas de outra forma. Andavas a escrever há uns tempos, não sei se era uma peça, algo baseado na observação de coisas que no teu tempo eram normais e que agora davam prisão.

Sim. Eu vou fazer o meu próximo espetáculo que passa um bocadinho por aí. Já fiz algumas coisas neste último solo, mas o solo não foi bem aquilo que eu queria, porque acabei por entrar em um território de compromisso, mas o meu próximo espetáculo, que será talvez no início do próximo ano, é sobre histórias que aconteceram comigo. E há, de facto, coisas que me acontecem. Por exemplo, eu tive um tio que me ofereceu uma espingarda aos 11 anos. E 200 chumbos. Eu podia ir pra Ucrânia com 11 anos lutar e estava lá há um ano, na boa, que não faltava munição. Hoje, provavelmente, seria retirada a minha família pela Segurança Social, porque eram todos loucos.

Uma espingarda. Isso é extraordinário.

Sim. Para mim foi muito estranho, porque apesar de vir de uma família de caçadores, nunca me interessou nada a caça. Nada, zero. E a minha cena era: eu não tenho nenhuma necessidade de matar bichos, porque há bichos no supermercado. Eu pensei isto com 11 anos.

Já estão bem assim.

Os bichos no supermercado já estão-

Já bem aman hados.

Estão disponíveis.

Estão prontos a ser consumidos e a gente não vê nenhuma espécie de cena e está tudo ok. Portanto, eu não preciso de andar a matar nada, mas treinei muito a pontaria em lá.

Mas dá pro tiro.

Eu acho que ainda tenho essa espingarda, estará algures na casa dos meus pais.

Isso deve valer um dinheirão.

Se calhar. Tenho aqui uma espingarda. "150 mil €", e eu: "Não!"

Tu agora andas a testar material.

Sim.

Tens andado a fazer stand-up comedy e fará parte desse solo de experiências?

Não, este material que eu estou a falar que vai ser pro próximo ano, eu ainda nunca tinha experimentado até esta semana, curiosamente. Sim, tive com o Bruno Nogueira e com o Salvador Martinha e vou voltar mais vezes com eles. Aliás, eu já tinha estado com eles no outro espetáculo anterior e neste não estive, porque estava a fazer um filme, mas agora já tenho disponibilidade e experimentei essas histórias pela primeira vez e foi muito giro. Portanto, estou a começar a testar esse material, se bem que eu não sei exatamente ainda quais vão ser os contornos do espetáculo. Por quê? Porque não é stand-up comedy pura, é quase um storytelling.

Mas também já não existe propriamente um conceito formal de stand-up comedy.

Eu acho que sim.

Quanto mais criativo, melhor.

Eu acho que sim, também. Eu partilho essa ideia, mas de qualquer forma, eu não sei se isso não se aproximará mais de um storytelling meu, de coisas minhas, que me aconteceram. E foi um bocado o Bruno, o Salvador e o Luís Franco Bastos também, que já da outra vez me tinham dito: "Tu tens é que contar as tuas histórias, porque são melhores do que qualquer stand-up que tu faças ou personagem, porque são histórias inacreditáveis." Isso só interessa numa jantarada, não interessa ao público. Mas eles tinham razão, eu experimentei.

Tem essas histórias.

Teve boa recepção?

Boa recepção logo à primeira, que é uma coisa que às vezes não acontece. A gente às vezes experimenta uma piada e ninguém ri, tu ficas: "Ok, isto era bom na minha cabeça." Eu acho que eles tinham razão, estranho que pareça.

Isso de ser um storytelling permite também passar não só por histórias divertidas, mas por outras mais emocionantes.

Eu acho que há momentos que são tudo menos cômicos. A comédia pode estar em fundo, mas é aquela comédia que é melhor, não é? Aquela comédia que tem um lado de tristeza muito forte. Ou seja, eu acho que vou fazer uma coisa muito introspectiva, aquilo que se calhar devia fazer em psicanálise.

Ia dizer, ia quase no psicólogo.

Vou fazer lá no palco. É por aí.

Eu acho ótimo. Eduardo Madeira, vamos fazer aqui uma curta pausa pra atualizar toda a informação na Rádio Observador. Regressamos na segunda parte. Até já.

Até já.

E regressamos agora mesmo. Estivemos a falar do stand-up comedy, como tu vais integrar experiências da tua vida, algo também mais introspectivo, uma espécie de storytelling. Fazer stand-up comedy é um desafio porque não estás em uma personagem. Algo que te é muito confortável.

Sim, claro.

Em que tens de te confrontar a ti próprio, não é?

Sim, eu acho que mesmo a fazer stand-up comedy, eu acho que todos nós criamos uma personagem. E eu acho que a minha personagem do stand-up comedy é um nadinha mais histriônica do que o Eduardo Madeira, e as pessoas ficam com a ideia que eu estou sempre naquela frequência, mas não sou sempre aquela pessoa. Lá está, vesti uma pele para me sentir mais confortável, porque a cena do stand-up comedy é violentíssima. Tu estás sozinho E tu estás sozinho num palco com muita gente a olhar pra ti. Eu não acredito que haja nada mais violento ou ir só um monólogo no teatro.

Ou andar na tua escola na Margem Sul.

Ou uma escola na Margem Sul, sim. Também é complicado. Mas eu acho que quem faz sabe a violência que é, mas é uma espécie de escolha. Se calhar nem é uma escolha, se calhar é uma coisa que tens que fazer. Por mais que te doa, tens que fazer.

Mas sentes que tens de fazer para te sentires concretizado de alguma forma? Muitas vezes existe aquela ideia: "Para ser comediante é preciso fazer stand-up comedy". Não, necessariamente.

Não, necessariamente.

Costumo dizer que o Conan O'Brien pra mim é dos melhores comediantes.

Sim, há muitos que não fazem. O Mark, o César Mourão, são comediantes excelentes e não fazem stand-up comedy.

É mais porque tens isso em ti, não é?

Eu acho que aqui é uma espécie de, é como aquela malta que tem que saltar de paraquedas.

Sim.

Não tem lógica. Não há nenhuma coisa no ser humano que diga: "Saltar de paraquedas é um espetáculo". Não, tens que fazê-lo, está lá. Há alguma coisa na tua cabeça que diz: "Vai, força, salta."

É como fazeres surf, se calhar.

É como fazer surf também. Sabes que o surf, no meu caso, com os anos eu fui cada vez fazendo menos e continuo a fazer, mas muito menos do que fazia. Mas há uma coisa muito estranha, eu não sei se isto acontece com outros surfistas. Acho que nunca fiz esta pergunta. Não me lembro de ter feito, pelo menos, nem de ter tido esta conversa. Mas eu sonho muitas vezes que vou fazer ondas incríveis.

Ah, que giro.

Muitas vezes. E sinto aquela sensação, a velocidade, a adrenalina, aquela adrenalina que nos faz quase sentir que não temos força nas pernas, vai ali haver um momento em que não vamos aguentar. Sonho muitas vezes com isso, e o vento e a água.

Mas desculpa.

Ia só perguntar de onde é que vem esse fascínio, no fundo, pelo mar, pelas ondas?

Olha, o fascínio do mar eu não consigo explicar. Lá está, eu acho que começo a perceber. Quando eu era miúdo, lá em Coimbra não havia mar.

Andavam às Figueiras.

Pronto, íamos muitas vezes pra Figueira, também pra São Pedro de Moel. Eu passava sempre as férias em São Pedro de Moel ou na Figueira da Foz. E eu lembro-me, miúdo, os meus tios e o meu pai tinham que estar sempre em contenção comigo, que de repente eu andava no meio das ondas. O mar sempre fez muito significado pra mim.

Mas sem medo, não é?

Sem medo nenhum. Com respeito, mas sem medo nenhum. Com muito respeito pelo mar, sei o que é que o mar é. Já tive muitas situações complicadas no mar, de salvar pessoas e de ajudar, mas só por respeito. E o pior dentro do mar é perder a calma. Mas sabes que eu próprio já estive em situações complicadas dentro do mar. E vou dizer aqui uma coisa que se calhar vai ser complicado de perceber, mas naquele momento, quando eu estou lá e penso assim: "Isto pode correr mal." Eu penso assim: "Mas também, se eu tiver que morrer, acho que é esta a morte que eu quero."

Eia! A sério?

Ya, no mar.

Ou seja, isso dá-te uma coragem sobre-humana.

Sim, eu acho que sim. É mesmo isso. É a cena mais próxima que eu tenho com outra parte que é a morte, que é estar lá do outro lado. Ou seja, estou ali numa espécie de fronteira em que se tivesse que acontecer e se acontecesse agora, não era o mais grave. É mais grave se fosse num fogo ou numa coisa assim, mas no mar, não.

Isso é poética. Não, é pura poesia.

É, se calhar. Mas já pensei nisso várias vezes e já estive a fazer surf à noite. Tu entras até o final da tarde. Não tiveste tempo, a tua vida, mas ainda queres ir. E depois estás à noite a ver a terra e também pode chover. Também já me aconteceu à noite a chover com as luzes e tu dizes: "Estou aqui sozinho. Pode acontecer qualquer coisa, posso ter um ataque, pode-me cair um raio em cima. Mas isto é absolutamente incrível. Eu estou a ver uma cena que é absolutamente incrível."

O que é extraordinário é isso, não te angustiar. Pelo contrário, até te relaxar de alguma forma.

Relaxar muito. Há um ponto um bocado perigoso.

Sim.

Sim. Eu durante muito tempo andei a treinar. Eu tinha umas coisas parvas das apostas, agora já deixei completamente isso, mas uma vez apostei que ia atravessar o Tejo a nadar.

Sim, e aconteceu ou não? Chegaste a nadar?

Aconteceu, mas pra treinar pra isso, eu nadava em mar aberto durante muito tempo. E então ia de São Pedro pra Parede a nadar e voltava. São não sei quantos quilómetros, são três quilómetros ou quatro. E fiz isso muitas vezes e não te consigo explicar o prazer que isso me dava. É um prazer absolutamente solitário e inexplicável. Não há nenhuma explicação lógica pra isso.

E é preciso ter fôlego também.

Isso é impossível. Mesmo a temperatura da água, como é que tu lidavas? Como é que preparavas de alguma forma ou é muito mais psicológico?

Não, eu lembro-me de estar na praia com um amigo que encontrei, ele estava com a família e eu via na praia e encontrei: "Estás bom, Carlitos?" Ficamos ali um bocado a falar e depois de repente eu disse: "Bem, vou ali à parede." E ele: "Vais à parede? Mas tens alguma coisa?" "Não, vou à parede a nadar e volto."

Vou ali e já venho.

"Estás maluco?" E eu: "Não, estou a falar sério, porque ando a fazer esse treino." E atenção, essa pessoa com quem eu estava a falar é É dos melhores surfistas que eu conheci na minha vida. É um tipo que domina as ondas e faz aquelas ondas gigantes. E ele ficou surpreendido. Mas era normal, porque eu estava a fazer um treino quase diariamente. Não dava para fazer todos os dias, mas de dois em dois dias entrava em São Pedro, na praia, ia nadar, voltava.

Isso parece mesmo fora. É incrível. E levavas uma boia ou uma coisa? Ou é só freestyle?

Não, a boia é precisa por motivos de segurança.

Porque às vezes vejo pessoas a nadar.

Por motivos de segurança, eu acho que é mais lógico andar com a boia e tudo mais. O que é que acontecia? Conhecendo muito bem aquelas praias, e sendo uma coisa que é durante o dia e relativamente controlada, e eu paro a meio, eu não vou nadar até lá e volto. Há uma altura que eu paro.

Mas paras a meio, mas não tens pé.

Não, não tenho pé, mas consigo descansar a meio. Sim, há técnicas. Tu baixas completamente o ritmo, boias um bocadinho.

Fazes os golfinhos.

Pronto. Depois voltas. Não é assim tão difícil quanto isso.

E também fazes mergulho, não é?

Eu faço mergulho, mas menos porque faço muitas coisas ligadas ao mar. E o mergulho é das mais intensas, é das mais difíceis.

Mas mar só dentro do mar ou mar também em barcos?

Mar também em barcos. Mas, por exemplo, tenho uma prancha com a qual vou passear. Tenho várias pranchas de surf. Também às vezes faço canoagem. Faço tudo.

Tudo o que é relacionado com-

Na verdade, é o mar. Nem é o surf, nem é nada. É o mar

É um conceito muito bonito. Não sei se viste aquele documentário, A Sabedoria do Polvo.

Não.

Pronto, achei. Vais adorar, de certeza. Em que o mar, o oceano, é o mundo ao contrário. Porque também existem florestas, também são densas.

É verdade. Exatamente.

Os animais, há muito mais por descobrir.

Até por descobrir. Sim, sem dúvida.

Existe quase algo de espiritual no fundo do mar.

Ainda há muito mistério no mar, que na Terra já vai começando a escassear, porque a gente já se meteu em todo lado.

É muita coisa.

Já nos enfiamos em todo lado.

Verdade. Tu és superfacetado, já fizeste muita coisa. Autor, ator, humorista, escreveste uma série de coisas, teatro. Há algum projeto que gostarias de fazer um comeback, ou seja, que gostarias que voltasse? Ou quando acabas um projeto, acabou mesmo?

Eu acho que-

Não és muito saudosista.

Não sou muito saudosista, até porque a minha vida não me permitiu isso. Ou seja: "Foi muito fixe. Ok, vamos em frente." Eu acho que todas as cenas realmente importantes são as que eu ainda vou fazer. O que já fiz está feito, foi giro, foi uma época, marcou uma pessoa ou outra, mas a cena é ir para frente. Sem estar obcecado com o futuro. Às vezes as pessoas perguntam. Eu tenho um problema, que eu não sei se é químico, se é físico. Não tenho o avisador de perigo no cérebro.

Mas nota-se quando estás no meio do mar à noite.

Não tenho. E o que é que acontece? Acontece que muitas vezes, quando tu estás lost in translation, ou seja, estás entre projetos, muitos amigos e muitos colegas ficam: "Mas agora o que é que vais fazer?" E normalmente eu digo: "Vai acontecer qualquer coisa. Vamos com calma, vai acontecer qualquer cena, vai acontecer." E tem resultado sempre na minha vida.

É como o mar, o movimento do mar. Vai e vem.

Eu acho que sim. Eu acho que é um bocadinho assim. É só estares ali um bocado calma, até porque estares calmo ou não estares, também não vai mudar grande coisa.

E é com esse espírito também que enviaste os textos para as Produções Fictícias com os quais depois acabaste por ser contratado. É esse o espírito também que te levou nessa altura a tomar essa iniciativa?

Eu acho que nessa altura nunca me passou pela cabeça que pudesse acontecer essa cena. Eu conheci o João Quadros num jantar de amigos.

E deve ter sido um belo jantar. De certeza.

Foi uma época de loucura total. E o Quadros foi o Quadros. Na verdade, foi o Quadros que disse: "Tu tens aí mais qualquer coisa. Tens que mandar uns textos para uma coisa, que é a malta que escreve para o Herman". E eu: "Malta que escreve para o Herman, ok, isso parece muito bem". E mandei os textos. E depois, a surpresa das surpresas, é quando te ligam e dizem: "Olha, duas coisas. Primeira, o Herman vai fazer aquele teu texto, não sei o quê, em sketch."

E tu ficaste como?

Ficaste mais nervoso do que no meio do mar.

Sim, muito mais. Jesus! Eu acho que é como tu quereres ser músico e de repente telefonam-te e dizem: "Olha, temos aqui a oportunidade de tocares com os Beatles ou com os Rolling Stones."

Paul McCartney viu-te e adorou.

Paul McCartney viu aquela tua canção e vai gravá-la. E quer te conhecer. E pronto, foi isso que aconteceu. E outra cena foi: "E também queremos que faças um curso de escrita criativa, se tiveres disponibilidade, a fim de haver uma seleção de quem é que fica aqui nas Produções Fictícias a trabalhar". E eu fiz esse curso. O sketch que eu tinha escrito foi o de: "Onde é que tu estavas em 95?".

Tu és o autor dessa frase.

Fiz o curso com o Ricardo Araújo Pereira, com o Filipe Almeida Fonseca. Era um grupo de malta que depois fez um bocado de história por aí. E ficaram três ou quatro, e eu fui um deles. E foi aí que começou a minha vida.

E como é que foi ver ao vivo ou na televisão aquele sketch que tu tinhas escrito pela primeira vez?

Foi sentires assim: "Ok. Pode acabar aqui. A minha carreira pode acabar aqui. Já fiz, já cheguei lá". Não sabia que era o princípio. Eu pensava que aquilo era o fim.

E os teus pais também se sentiram orgulhosos? O Herman sempre foi ou não ligavam tanto?

Não, os meus pais, nunca foi bem a cena que eles tinham idealizado pra mim, não foi fácil. Mas pra mim foi de facto importante e tive que ter muita coragem até pra lhe explicar que: "Olha, eu o que eu vou fazer se calhar não tem nada a ver com o que tínhamos falado, mas é outra coisa." E há uma história muito gira que é quando eu conheço o Herman, que é lá nas Produções Fictícias. Eu vou com o Henrique, que foi também comigo coautor e que andávamos sempre juntos naquela altura, andávamos sempre juntos, faculdade, não sei o quê. E somos convidados para ir a uma festa nas Produções Fictícias e sabemos que o Herman vai estar presente. Tudo aquilo era um mundo novo pra nós. E entretanto, as Produções Fictícias tinham feito obras. E dois dos convidados eram dois dos senhores, dos empreiteiros, pedreiros mesmo, que fizeram as obras. E aquilo tinha uma sala onde tinha uma mesa de snooker e estavam lá os pedreiros a jogar snooker. E a gente quando entrou não conhecia ninguém. Ficamos ali um bocado pendurados, então vimos a mesa de snooker, fomos pra ali e eles depois disseram: "Querem jogar a pares?" "Pode ser", não sei o quê. Entretanto, eles foram-se embora e eu fiquei a jogar com o Henrique. Não conhecíamos praticamente ninguém, tirando o Quadros. Os pedreiros foram à vida deles e entretanto chega o Herman e o Nuno Artur Silva. Como os pedreiros da última vez estavam a jogar snooker, diz: "Olha, são as obras e tal. Os senhores que fizeram as obras, os pedreiros estão aqui a jogar snooker." E o Herman entra na sala do snooker e diz: "Sim, senhor, parabéns, vocês fizeram uma bela obra."

Essa é a tua primeira interação com o Herman.

Foi. O Herman pensou que eu era um pedreiro. E depois o Herman disse: "Ó Nuno Artur, os pedreiros têm muito bom aspeto. Parecem dois rapazinhos." E o Nuno Artur olha melhor e diz: "Não, aqueles não são os pedreiros, são aqueles dois que estão ali fora. Estes dois são os que escreveram o sketch." "Ah, ok!" E nós também percebemos. Ou seja, a primeira vez que eu conheci aquele que era o meu ídolo da comédia, ele achou que eu era pedreiro. Enfim, foi assim.

E ainda hoje confessas que ainda sentes alguma ansiedade a falar com o Herman. É verdade?

Sim.

Por quê? É respeito, não é?

É respeito. Eu acho que sim. Eu acho que em psicologia há aquela coisa que é matar o pai, chama-se matar o pai. Que significa uma altura em que tu deixas de ver o teu pai como a referência das referências e o pões em causa e o queres superar e queres te afirmar como homem também. Em termos artísticos, acho que o Herman significava ou significa um bocado pra mim isso. Sendo que eu não tenho grande necessidade de matar o pai. Portanto, o Herman pode ficar descansado.

Mas é engraçado tiveres dito isso.

Mesmo como pai artístico, não. Porque, na verdade, eu acho que o papel dele é um e é único, e o meu papel será outro.

Sim, há espaço pra toda gente.

Há espaço pra toda gente, como é óbvio.

Tiveres que confrontar, lá está, o teu pai na altura da infância.

Mas é a pessoa que mais me deixa desconfortável.

Isso é muito interessante.

E já trabalhei com ele muitas vezes, já contracenei com ele muitas vezes. Uma coisa ótima nele é que ele continua a ser um miúdo e eu também, e então a gente ri-se muito a fazer coisas. Mas mesmo assim, eu sei sempre que nunca estou 100% à vontade, porque está ali o mestre.

Aquela figura.

Está ali o mestre.

Um dia também serás o mestre para muita gente.

Talvez.

Com certeza.

Não talvez, não sei.

Não, sim, és. Também tens aqui um filme, "Vive e Deixa Andar", do Gonçalo Cadilhe.

Sim, do Miguel Cadilhe.

Miguel.

É o primo. Não estás muito longe, estás em família.

Sim. Estou a safar-me.

Sim.

Mas já foram feitas as rodagens?

Sim, o filme já acabou, foi um mês e meio, foi muito intenso. Fiquei de rastos, porque foi muito intenso fisicamente e em termos da entrega. O filme era uma ideia do próprio Miguel Cadilhe já há muitos anos. Ele é meu amigo mesmo. E ele sempre me disse que queria fazer esse filme e queria que eu fosse o personagem principal do filme. Quando ele me disse aquilo há quase 20 anos, eu falei: "Ok, boa, Miguel, sim, claro que sim."

20 anos depois fazer a ideia.

E quase 20 anos depois, ele faz o filme, porque ele tem finalmente a capacidade, as hipóteses e o tempo, tudo pra fazer o filme. E eu disse: "Epá, ele é de ideias fixas, ele realmente fez o filme." E o filme acho que está giro Está com muito cuidado, com muita atenção ao detalhe, a um ponto que eu não tenho visto muitas vezes em Portugal. Porque às vezes as coisas em Portugal é um bocado a lógica do desenrasca. Nós somos bons nisso, mas também ao mesmo tempo isso não é bom. Nem sempre é bom.

Sim, ser a regra.

Sim, ser a regra é mau, é bom quando é uma exceção. E este filme eu senti tudo muito bem feito.

Eu vi-te de trotinete no ar.

Sim, andei pelos ares.

Lá está aquela coragem. Tu não tiveste medo?

Não tenho avisador.

Não há aquele som daquela sirene.

Várias pessoas me disseram: "Como é que tu fizeste aquilo?"

É que não tinhas propriamente um paraquedas, não tinhas nada.

Não tinha.

Tinhas até uma mochila bem grande atrás de ti.

Sim.

Que não era um paraquedas.

Não, não era um paraquedas.

Isso é extraordinário. Sei lá, aquilo voou imenso.

Voou.

Uns bons metros.

Sim.

E voltaste a cair em pé.

E voltei a cair em pé. Mas calma, tinha ali uns truques, umas coisas. Atenção.

Há sempre uma técnica.

Eu ando lá em cima e há vento, há perigos e há tudo mais. Mas também não estava huhu! Deixem-no ir.

Sim, podias morrer se quisesses, mas qualquer pessoa pode.

Qualquer pessoa pode.

E tens medo de alguma coisa, por exemplo, de voar, andar de avião? O que é que te deixa ansioso?

Não é o que me deixa mais confortável andar de avião, mas também não tenho propriamente medo. Voo e durmo nos aviões e tudo mais, não me faz grande confusão. Mas, por exemplo, como eu te estava a dizer há bocado, nunca há uma coisa que me digam assim. Eu posso dizer: "Pronto, metia-me medo saltar de paraquedas". Mas é uma coisa que eu faço, se tiver que fazer, eu faço.

Se tiver que fazer.

Se tiver que fazer, faço.

Se for preciso mesmo para algo.

Porque é uma coisa que eu acho que tem que ser assim.

Quando é preciso fazer, é para fazer.

Temos que fazer. Até mesmo para te confrontares contigo próprio e para confrontares os teus medos. Tem que ser, tem que ser e faz. Em relação a tudo.

A tua entrega é de facto formidável, em tudo. Por isso é que, por exemplo, quando fazes teatro não consegues pensar em mais nada, ou lá está o filme. Tudo te esgota porque te entregas totalmente.

Eu gosto muito de teatro, mas o teatro é muito absorvente e é isso, a gente entrega-se de uma maneira que depois à volta não podes quase fazer mais nada. Eu admiro muito pessoas que estão a fazer teatro e ao mesmo tempo estão a gravar intensamente. Não quer dizer que eu não tenha que fazer, mas o teatro talvez seja a coisa mais intensa. Porque, por exemplo, a última peça que eu fiz tinha muito texto.

Qual foi?

Foi o Orlando.

O Orlando. Em que tu eras um bobo.

Sim, exatamente.

E é uma música incrível, tu tocas.

Sim, exatamente.

E também escreveste, atenção.

Tinha muito texto e era muito intenso, e é forte, e a tua cabeça está ali, ali e ali. Não pode estar em muitos mais sítios. E portanto eu adoro teatro. Mas tem que ter muita disponibilidade para conseguir fazer e gostar muito do projeto, da ideia.

E de certeza que tu davas um personagem, farias um dramalhão. Eu acho que serias exímio também numa personagem dramática.

Pois não sei.

De certeza.

Talvez. É daquelas coisas que, lá está, chama-se sair da nossa zona de conforto, percebes?

Sim, tu estás habituado a certain modo. Não é algo que te assuste.

Há coisas que a gente faz e está por ali e sabe que mais ou menos está bem ou está controlado. Nunca está, mas estás ali. E fazer um drama, eu acho que o problema das pessoas que trabalham com humor, é que quando fazem drama, têm medo.

De não serem correntes.

Exatamente, têm medo do ridículo, se quiseres. Ou seja, o problema do humorista é esse.

Mas é um problema que tu não tens, lá está.

Sim. Eu não ponho de parte essa hipótese, sabes? Fazer drama nem é uma coisa que me faça muita confusão. E já houve um ou outro convite que eu não pude, na verdade, fazer porque tinha muita coisa.

Porque lá está, tu entregas-te de maneira, tem que ser uma coisa de cada vez.

E não queria estar a dispersar-me. E eu acho que isso vai ser um desafio que eu vou ter que enfrentar, lá está, é como uma peça de teatro. É um desafio que eu vou ter que enfrentar com muita: "Ok, então vamos lá fazer isto e vamos lá fazer isto bem." Vai acontecer, um dia vai acontecer.

Certamente.

Qualquer personagem de comédia tem também um lado muito dramático, não é? E que toda a gente lida com ele.

Eu acho que a comédia é melhor quando há um lado dramático ali. Eu não sei se iria para o trágico. É assim, o Chaplin dizia que uma situação vista de perto é uma tragédia e vista de longe é comédia. Ou seja, uma pessoa que cai lá ao longe, é tipo: " olha o gajo que caiu!" Se fores lá perto e vires as dores da pessoa e a pessoa olhar-te nos olhos e chorar à tua frente, é uma tragédia, já não tens vontade de rir.

Claro.

E é um bocado isso. E a defesa do cômico é precisamente que as pessoas o vejam de longe. Porque se as pessoas aproximarem muito, percebem que está lá a tragédia toda também.

Isso é muito bonito. Perfeito. Eduardo Madeira, muito obrigada.

Obrigado, Eduardo.

Obrigado eu, pelo convite.

Ficamos por aqui. Havia muito mais coisas para falar, é sempre assim. Muito obrigada.

Obrigado.

Obrigado eu.

Foi o "Em 40 Minutos" desta semana. Pode sempre ouvir em podcast. Nós regressamos para a semana.