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É aquilo a que se pode chamar um alentejano de gema. A par da voz autêntica e que nos leva a viajar por sítios únicos e a sentir saudade, é alguém que gosta de criar e dar novas roupagens à música portuguesa. Sem máscaras ou capas, ouvi-lo é como entrar num universo em que nunca sabemos bem o que esperar, mas no final sentimos sempre um abraço. Luís Trigacheiro, em 40 minutos. Sê muito bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, boa tarde a todos.

Fez jus esta introdução àquilo que-

Foi das melhores.

Não estou a dizer isto para me dizeres isso, mas quero saber se é aquilo que tu também sentes daquilo que tu ouves das pessoas, daquilo que tu transmites através da tua música e não só.

Do geral, do que tenho apanhado, do feedback das pessoas, vai muito de encontro.

Muito bem.

Está muito boa.

Tu hoje em dia, não sei se ficas ou se já sentiste isso ou se lidas bem com isso, mas ficas nervoso quando há este tipo de entrevistas e enquanto te elogiam? Como é que tu lidas com a questão do elogio?

Lido bem.

Começaste numa plataforma que é o The Voice Portugal, que foi uma montra pra ti e já vamos falar sobre isso, mas há sempre artistas que têm dificuldade em lidar com elogio ou não sabem lidar com elogio.

Eu acho que é uma questão de tu te habituares à coisa, porque imagina, no início foi uma novidade também. Já me tinham elogiado até aí. Mas agora, a partir daí, as coisas começam a tomar outras proporções e os elogios começam a ser, isto na parte boa, mais e com mais frequência. Então é tipo: "Ok, já me disseram isso várias vezes", mas as pessoas não sabem que outras pessoas também já disseram aquilo, então tu tens que aceitar e tens que ser grato só. Não há muito mais a fazer, é sorrir e pronto, e obrigado.

Tu estás numa fase de, não vamos dizer descoberta, mas também pode ser, porque tens um novo trabalho que está aí e está público, chama-se "Ela" e quero que me expliques primeiro este álbum, que é muito dedicado ao universo feminino e configuras femininas que tu trabalhaste e quero saber como é que foi todo este processo de trabalhar e criar com pessoas que sei que uma delas e tu admiras imenso, mas há outras mais presentes neste álbum, quero que me contes tudo. Até porque há aqui uma questão que eu quero muito saber. É uma questão que está ligada também um bocadinho àquilo que eu sinto e à parte familiar que é sempre muito importante, que é: tens uma canção, que é a que abre o álbum, que é dedicada à tua avó paterna.

É. Se calhar podemos começar por aí.

Podemos por aí.

A minha avó faleceu, fez agora no dia 25 de dezembro, na altura de um tal de dois anos. E foi uma situação chata. Aquela canção surgiu no momento em que a minha avó estava hospitalizada. E aprouve-me, senti que tinha que expressar alguma coisa por ali.

É mais fácil pra ti escrever num ambiente ou num momento de tristeza?

Não sei. Escrever pra mim nunca é uma coisa muito fácil. É uma coisa que eu tenho vindo a exercitar, mas não é uma coisa muito óbvia, não é uma coisa que é instantânea. Se calhar estar nesses ambientes ajuda um bocado ou facilitas o processo. Mas voltando atrás, essa homenagem surge porque aproveitando o facto dessa música lá estar e fazer sentido lá estar, fazia muito sentido que essa música fizesse parte do disco. E como existiam outras músicas que se debruçavam muito sobre a figura feminina, achou-se que faria sentido criar aqui uma espécie também de homenagem a essa figura feminina e à mulher em si. E depois foi também produzido por uma mulher, que é a Luísa Sobral.

Luísa Sobral, com quem já tinhas trabalhado no teu primeiro álbum.

Com quem já tinha trabalhado no primeiro disco, sim. E eu pensei assim: "Ok, está-se tudo aqui a juntar, estás aqui a criar umas sinergias interessantes, por que não este álbum ter assim um nome mais feminino?" E depois os nomes todos que me vinham à cabeça não havia ali nenhum match, então pensei assim: "'Ela' é bom". Esse ela também surge um bocado do tema com a sala do Sobral, que se chama Imagina a Cara Dela, então começamos ali a descortinar um bocado as coisas e surgiu o Ela. Eu costumo dizer que a melhor definição para este ela, porque o ela e o ele são coisas, normalmente tratas com desprezo, tipo ele ou aquele ou aquilo.

Uma coisa às vezes tão banal, não é?

Sim.

Mas aqui tu dás uma importância extra.

Dás importância a este ela, porque é um ela com E grande. Então é por aí.

E esta Rosa Pequenina, que é a música que abre o álbum, que é dedicada à tua avó paterna, o que ela quer contar?

Esta música, de uma forma mais pincelada, fala muito sobre o que é saberes que estás prestes a perder alguém. E não queres que essa pessoa se vá embora. É um bocado por aí, é essa mensagem que eu acho que se transmite.

É a canção mais difícil de cantar pra ti ou de interpretar?

Sabes que eu sou uma pessoa muito fria nessas coisas, então consigo separar bem as dores e as mágoas. E interpreto as coisas como: isto é uma canção que claro que não é igual às outras. É uma canção especial para mim.

Tem um significado especial.

Sim, mas eu consigo separar as coisas e no momento não. Acho que consigo, se calhar o próximo disco é uma surpresa.

Sim. Quem sabe nos Coliseus?

Vamos ver.

Já em outubro pode acontecer.

Está quase.

O ambiente pode proporcionar, mas já vamos falar sobre isso. E nestes vários temas que tu escolhes para interpretar, ao todo são 14 os que fazem parte deste álbum, "Ela". Tu escreves a pensar naquilo que as pessoas, escreves e isto escreves em grupo e as outras pessoas também compõem para ti, mas naquilo que tu escreves, escreves a pensar naquilo que as pessoas vão achar ou isso vem só depois? Ou seja, quando estás a escrever, pensas já de imediato: será que vão gostar?

Não me preocupo muito com isso. Claro que tento que a linguagem que ali se escreve e que ali se fala, seja uma coisa abrangente, não que seja demasiado óbvia, mas eu também não sou um escritor profissional, dentro das minhas limitações.

Tu dizes muito que ainda estás nessa fase também de descoberta e adoras compor em grupo, não é?

Gosto muito de compor em grupo. Para mim as residências artísticas, não faço muitas, mas quando faço adoro fazê-las. Porque imagina, as dificuldades que eu tenho, outros não têm. Então as coisas acabam por, exatamente. Então é estilo, eu tenho ideias, meto essas ideias em cima da mesa, outra pessoa tem ideias, mete essas ideias em cima da mesa, então acabamos por limar e não sei quê, e aquilo acaba por ir para um lado e surge mais do que uma canção. São várias cabeças a pensar com várias linguagens também ali a pensar e a surgir, então isso acaba por ser bom.

Vamos falar da infância vivida em Beja e muita gente diz que Luís Trigacheiro é Beja e quero saber o significado disso, até porque quero saber se isso te deixa orgulhoso, saber que és uma pessoa que é reconhecida por isso, porque acho que confere-te muita portugalidade, ser fiel às nossas origens. E quando nós olhamos para ti e te vimos, se calhar pela primeira vez, no palco do The Voice, quando tu te apresentaste pela primeira vez, foi isso que nos transmitiu, que é isto é Portugal, isto é Portugal no seu máximo esplendor.

Eu acho que essa foi a primeira ideia, a primeira imagem com que as pessoas ficaram minha. E é ótimo ter isso. Eu não sou só isso, tenho outras partes minhas que dou a descobrir e demonstro neste disco e que vai acontecer daqui adiante, porque eu acho que as pessoas não devem conhecer só uma fase tua. Aos poucos deves ir, e eu também vou saber mostrar essas outras partes às pessoas. Isso é bom. Em relação a ser de Beja e ao facto de me orgulhar, claro que sim, é a minha terra, é a minha gente, é dali que eu venho, é ali que começa tudo. Acho que nós devemos sempre saber de onde é que vimos e devemos sempre saber e ser fiéis a isso. Não sabemos nunca para onde é que vamos.

Exato.

Então é um bocado por aí.

As origens servem para isso mesmo.

São as mais certas.

E até para nos manter, às vezes...

Com os pés na terra.

Exato, pés assentes na terra para aquilo que aí vem, porque um dia podemos estar muito bem.

E no outro dia pode estar...

Exatamente. Olha, e como é que tu eras em criança? Tu tens cara de reguila, vou dizer. Tu deste muito trabalho aos teus pais ou nem por isso?

Dei algum. Houve ali uma fase que as professoras achavam que eu era hiperativo, mas não, eu era só uma criança cheia de energia. Chegava à escola e não me conseguia concentrar nas aulas ou queria era brincar, queria era falar.

Mas pedias atenção com o quê?

Era aquela criança que chegava às aulas e eu precisava cortar as borrachinhas em quadrados para fazer guerras. Era esse miúdo.

Não me enganaste. É assim que te vi.

Dei alguns problemas, mas tudo coisas muito pacíficas. Coisas da adolescência e de infância normalíssimas.

E quais eram as disciplinas favoritas?

Olha, gostava muito de Português. Gostava de História. Gostava de História, de Geografia e de Educação Física. E depois as outras era assim, mediana a cair para o mau, algumas. Matemática, odiava Matemática. Eu era aquele miúdo que quando gostava, gostava mesmo, fazia com gosto e aquilo não havia sacrifício nenhum.

Eu adorava História também e não sentia nada que estava a estudar. Agora Matemática...

Quando não gostava, esquece.

Estamos juntos.

Nem à pazada aquilo.

Percebo esse flagelo. Mas olha, continuamos a falar aqui do Alentejo e nessa zona do país que é tão bonita. E quando pensamos no Alentejo e depois temos essas imagens que muitas vezes nos passam na televisão, às vezes também sons na rádio, pensamos que qualquer pessoa sabe cantar minimamente bem. Pelo menos nós, que não somos do Alentejo, temos sempre esta imagem de que qualquer pessoa diz uma cantiga e canta minimamente bem. É algo que não se explica. Com que idade é que tu percebeste que, se calhar, tem aqui uma voz...

Imagina isto.

Por aquilo que eu sei, por aquilo que eu andei a pesquisar, tu sempre foste um bocadinho... Quem te inscreveu no The Voice foram os teus amigos.

Sim.

Por isso, não sei se eras um bocadinho inseguro ou não tinhas total consciência daquilo que podia ser a tua voz.

Era um bocado por aí. Era um bocado a insegurança, para te explicar. Eu tocava num grupo com os meus melhores amigos, e essa amizade mantém-se até hoje, espero que permaneça, que se chamava Os Improvisados. Os meus primeiros passos começaram a ser dados ali. Comecei num grupo coral com a minha avó e eram pessoas mais velhinhas, não sei o quê.

Lembras-te de alguma cantiga desse tempo?

Lembro-me de muitas. Há um baú, há uma enciclopédia gigante de cantalentigem. Eu sei que sei mais de mil modas, mas agora não me vem tudo à cabeça.

Não vem nenhuma à cabeça.

Mas há muitas. Há uma que é gira, que é tipo vai arrumando, vai arrumando, vai arrumando o seu barquinho, vai, amor, não tenhas pena de eu ficar aqui sozinho.

Agora ficamos assim até o fim. Agora vou embalado assim até o fim.

Foi das primeiras modas que eu aprendi e que hoje em dia ainda se mantém cá. Eu sei-as todas de cor, mas às vezes é preciso uma lembrança.

Sim, às vezes só uma pequena lembrança te leva também a recordar as outras todas.

Estávamos onde? Perdi-me.

Estavas a falar do grupo coral, dos Improvisados.

Dos Improvisados e depois, imagina, eu tinha aquela segurança que era, eu nunca tinha cantado sozinho.

Foi sempre em grupo, não é?

Foi sempre em grupo. Então sair dali e ir para um palco onde tenho milhares de pessoas a olhar para mim, era uma coisa que me estava a assustar.

Quando é que foi a primeira vez que pisaste um palco sozinho?

Foi no "The Voice" mesmo. Sozinho, sozinho, foi a partir daí. E chegas ali, tens câmaras a apontar para ti, pessoas ali, pessoas em casa, tu não sabes onde. Depois no outro dia, tudo a ligar, tudo a encher. Peguei o telemóvel, meti em modo avião para ver. Tipo: "Parem". E depois foi a partir daí que as coisas foram começando a acontecer.

E nessa altura era só um hobby?

A partir daí deixou de ser um hobby.

Ok. A partir do "The Voice"?

A partir do "The Voice". Até aí era visto como um hobby, tinha outro foco, estava a estudar agronomia e queria ir por aí e queria que a música continuasse a ser um hobby meu, mas depois a vida deu-me uma volta grande e ainda bem. E hoje o foco é outro.

Por que escolheste esse curso de agronomia?

Já é uma área com muita oferta na minha região. E depois foi uma área com a qual eu sempre vivi desde miúdo. Então para mim sempre fez sentido e gostava daquela área e tudo mais, então fazia-me sentido estar a estudar isso.

E os teus pais, nessa altura em que depois se dá o "The Voice" e aparece, abre-te a porta. Como é que eles lidaram com esse passar de plano A de agronomia para plano B? Foi uma decisão fácil ou eles acompanharam-te?

Não, eu nunca pedi muito a opinião aos meus pais. Foi tipo, eu vou fazer isto. Eu sempre fui muito assim, eu aviso que vou fazer, não pergunto opinião. Eu não digo: "Acham que devia fazer?" Não, eu digo: "Eu vou fazer".

Tu já fizeste.

Ya, eu já fiz, mas estou a contar, eu vou fazer. E depois logo se vê, se correr mal, correu mal, se correr bem, empurro. Sou um bocado inconsciente nessas decisões, mas até agora tem-me corrido bem.

Tem-te corrido muito bem.

Muito bem.

Já vamos falar sobre essa experiência do "The Voice", mas antes queria saber, uma vez que a música entrou aqui numa fase da tua vida em que eras muito jovem também, tu agora trabalhas com imensos artistas, se algum artista que tu ouvias na tua infância e que se mantém como um ídolo, uma inspiração até os dias de hoje.

Há uns tempos, eu não vou falar de marcas para não fazer aqui publicidade, mas há uma plataforma musical que quando está a chegar ao final do ano, eles te enviam.

Sim, eu sei qual é. Acho que todos sabemos.

Sabemos todos. Eles te enviam, fazem-te um relatório das músicas mais ouvidas, não sei o quê. E o meu artista mais ouvido é sempre o mesmo há quatro anos.

E quem é que é?

É os Zambujo.

Claro. Já calculava.

Sempre nesta data eu envio sempre o mesmo. Continuas cá. É sempre o mesmo por acaso. Tenho que me atualizar um bocado, vou deixar de ouvir António Zambujo.

Não vais. Duvido, duvido que consigas. Acho que qualquer mortal não consegue. E nessa altura, tu lembras-te da primeira canção que ouviste dos Zambujos e pensaste assim: "Fogo, gostava de um dia..."

Olha, a primeira canção nem foi o "Pica do Sete".

Que foi aquela que se calhar o catapultou para o grande público.

Sim, uma das, mas se calhar a mais. Eu tenho a ideia ao ter sido o Zorro, tenho a ideia ter sido o Zorro ou o Barata Tonta, que é uma música que pouca gente conhece. E a partir daí comecei a apanhar as músicas de todos.

E tu cantavas músicas deles?

Cantava só as mais conhecidas. Normalmente, quando tu cantas covers, não vais cantar aquelas que cantas uma ou outra que ninguém conhece, mas depois és obrigado quase a cantar os hits.

Muito bem. Olha, o "The Voice Portugal" veio-te trocar as voltas todas da tua vida, porque tu achavas que ias lá, fazias uma audição, com sorte se calhar vinhas para casa.

Juro-te que foi mesmo isso.

Foi isso que pensaste.

Juro-te que foi mesmo isso.

Pensaste mesmo que ias só lá cantar, fazer a minha cena e vão-me embora. Mas não.

Mas não.

Quando aquelas quatro cadeiras se viram, e ainda hoje eu estava a ouvir a tua prova cega, a preparar a entrevista, e é inevitável, eu acho que qualquer pessoa, quer seja portuguesa ou não, a forma como tu cantas e como tu interpretaste, arrepia.

Sei.

O que é que tu sentiste naquele momento?

Eu não senti nada. Percebi que as cadeiras tinham virado, mas pensei: "Ok, vou esquecer que isto está a acontecer, vou me focar na minha cena. Quando acabar, já abro os olhos, já vejo quem é que está aqui".

Esqueceste os nomes dos jurados, tudo.

Tudo, continuando, não sei o quê, aquilo acabou, as pessoas a bater palmas, tudo de melhor, sim, senhor. Agora sim. Aí é que eu fico nervoso.

Isso é muito bom, não ter atrapalhado, porque às vezes nestas questões...

A malta que se atrapalha, porque aquilo também faz algum barulho. Então a malta começa com o barulho daquilo, ou deixam de cantar.

Muito bem.

Mas lá está.

E correu como correu.

Correu como correu.

Vamos continuar a falar sobre esta experiência que mudou a tua vida. Vamos só fazer aqui uma pequena pausa para as notícias e já voltamos. Luís Trigacheiro em 40 minutos na Rádio Observador. Estamos de volta à segunda parte do "Em 40 Minutos". Continuamos com o Luís Trigacheiro, que já me embalou aqui um bocadinho. Tenho a certeza que até o final ainda vou arrancar aqui mais uma modinha, vamos dizer assim. Luís, estávamos a falar do The Voice Portugal, da forma como mudou a tua vida em 2020. Tu foste avançando nas várias fases de competição. Isto agora é uma fase um bocadinho resumida. Chegaste à final. No momento em que tu ouves o teu nome e percebes que és o vencedor, perguntar se durante as fases da competição tiveste consciência daquilo que estava a acontecer ou daquilo que se podia tornar, ou só mesmo no final?

Não, tu começas a chegar ali fase a fase. E até com o apoio do público, com as votações. Eu destacava-me imenso em termos de votações dos outros concorrentes. Pensava assim: "Mas como é que é possível?" Podia haver ali uma diferença de 2%, 3%, mas não, era 10%, 5%, 12%. Aquilo era uma diferença grandiosa. "Mas será que está tudo bem?"

Mas sentias algum tipo de pressão extra por isso?

Não senti nenhuma pressão, mas comecei a perceber: "Será que há possibilidade de ganhar isto?" Depois comecei a encarar aquilo numa de: "Já agora, cheguei até aqui, agora quero. Agora vou lá buscá-lo". Depois, no fim, quando dizem o meu nome, eu fiquei assim: "Estás a brincar". Aquilo é um misto de emoção tão grande.

Sim, acredito.

É tipo, tens os concorrentes que não conseguiram atrás de ti, tens tu que conseguiste à frente. Tens tudo aos pulos, aos saltos, confetes.

A tua família.

Os meus pais também eufóricos. Chego cá fora, começo a receber videochamadas dos meus amigos, pandemia.

Sim, e ainda por cima foi naquela altura.

Pós-pandemia, mas ainda havia ali algumas restrições. Eu lembro-me que a malta se juntou toda na casa de um amigo meu, era tipo 20 pessoas a ver aquilo em casa, tudo aos pulos. Amigos meus a virem de Évora ter comigo e foguetes na barroca de Alvin. Não estás a ver.

Incrível.

Foi muito fixe.

E para alguém tão jovem, tu na altura tinhas que idade? 21?

21, 22. Não, tinha mais, tinha 23. Para aí, 22, 23.

Ok. Vinhas do Alentejo, do ambiente mais pacato, com menos holofotes. Como é que tu lidaste com esta mudança de Luís Trigacheiro, a pessoa que cantava nos grupos e que fazia as delícias dos amigos, para Luís Trigacheiro, vencedor do The Voice Portugal, e lidar com a questão da imprensa, com entrevistas. Como é que lidaste com essa parte e como foi feita essa transição? Sempre de forma muito natural?

Mais ou menos. Foi aqui uma adaptação, mas trabalho com uma agência que também me deu algum suporte, algum apoio e dicas para saber lidar com isso.

Sim. Porque é uma fase um bocadinho violenta, não é?

É uma fase violenta e é ingrata, porque imagina, a verdade é que tu na comunicação social dizes algumas coisas que te saem sem intenção.

Sim.

Ou que o foco nem sequer é para ali e fazes notícia daquilo.

Sim, às vezes um título só e a notícia vai-se a ver e não tem nada a ver com o que tu disseste.

E não tem nada a ver com aquilo que tu disseste. Era assim: "Ele disse isto". Depois tu vais ler a notícia e nem sequer se direciona para ali. Era desnecessário. Então foi tendo aqui algum aconselhamento e sendo guiado de alguma forma, para, por exemplo, chegar aqui ao pé de ti hoje e estar completamente à vontade a falar contigo. E isso não acontecia há um ano ou dois atrás. Foi uma fase de adaptação.

Uma fase de descoberta, não é? Temos de dizer. Olha, eu fui recuperar aqui uma frase que tu disseste em 2020, sabe-se lá agora o que é que eu vou dizer. Mas não é nada comprometedor. Mas acho que diz muito sobre o artista que eu tenho aqui à minha frente. E a frase é a seguinte: "A música não tem só que ser cantada com força e power, a música tem silêncio e deve ser respeitado". Tu na altura que começaste no The Voice, disseste que tinhas uma forma muito brusca de cantar.

Sim.

Como é que se aprende a moldar essa forma sem perder a identidade? Porque tu nunca perdeste a tua identidade e aquela portugalidade que fomos falando aqui ao longo desta entrevista. Como é que isso não se perde?

Eu acho que a estrada também te dá muito isso. Tu começas a entender que os produtores dos discos, os teus colegas, os discos que tu vais ouvindo, e imagina, dos mesmos artistas que também vais vendo essa evolução, ou seja, é uma coisa notável. Portanto, tu vais te consciencializando disso e começas a perceber que as pessoas querem aquilo, sim, mas querem aquilo em momentos específicos, não querem aquilo sempre. Portanto, tens que construir aqui um caminho para chegar ali e esse caminho não pode ser, vou fazer aqui uma comparação tonta, mas é quase como se tu comparasses um combate de kickboxing a um concerto. O combate de kickboxing é assim pá, pá, pá, sem parar.

Sim.

E um concerto não pode ser isso, porque senão é muito violento. Isto é a minha opinião, atenção. E pode cansar as pessoas. Tu sabes que elas querem aquilo, mas vais-lhes dando.

E tiveste ajuda nesse sentido também para perceber de que forma ou como podias chegar lá?

Sim, os músicos vão te ajudando nisso.

Exatamente, era isso que eu ia falar.

A estrada dá-te esse caldo.

Existe essa entreajuda entre todos. Falando aqui, e continuamos na questão do The Voice, para inserir aqui outro tema que eu gostava de falar contigo e queria perceber aquilo que tu pensas sobre isto. Eu fui rever a tua prova cega, como já disse, em 2020, com a canção "As Mondadeiras", quase 3,5 milhões De visualizações. Muitos comentários, todos muito elogiosos, positivos, mas houve um deles que me chamou a atenção. Por acaso não tirei aqui o nome da pessoa, mas o comentário era o seguinte: "Metam este senhor a representar Portugal na Eurovisão".

Pois, até chegar aí tem que há outro processo, há outro caminho.

Mas é um objetivo? Gostavas?

Gostava. Acho que todos os cantores do nosso país e dos outros países quase querem.

Até porque estás muito bem com uma pessoa que já venceu.

Que já venceu?

O Salvador Sobral.

O Salvador Sobral, sim. Pois é, nem me estava a lembrar.

Nem te estavas a lembrar disso.

Tens razão. Sim. Eu acho que vencer uma Eurovisão é uma coisa já noutro patamar. Chegar lá, gostava, sim, mas para chegar lá, há todo outro processo. Tens que participar no Festival da Canção, etc. E até agora nunca surgiu esse convite, mas também nos timings e na estratégia que nós temos feito, no timing em que poderia surgir, não sei se seria de encontro ao que nós estamos a fazer. Mas gostava, claro que sim. É sempre um prazer poder representar o meu país, honrá-lo e defendê-lo.

E a acontecer, seria para manter a mesma identidade, aquilo que sempre mostraste.

Não sei.

Ou ias mostrar aqui uma nova-

Não sei. Sabe-se lá. Imagina isso. Depois depende da canção que surgir. Mas não te sei responder isso.

Olha, falando aqui da parte da composição, tu dizes que é algo que ainda estás a explorar e estás a perceber de que forma é que te podes tornar melhor e melhor compositor. A construção de uma canção sozinho, não falando agora da parte em grupo, é algo que pode tornar um artista muito perfecionista no sentido de querer casar tudo bem e tudo muito harmonioso, ou sentes que é exatamente o contrário, ou seja, torna-te também mais desprendido e a querer experimentar novas coisas?

Eu acho que é um bocado os dois. Só que lá está, o facto de tu compores sozinho e chegares a um resultado final sozinho, é ótimo. Se aquilo correu bem, se foi bom, é motivo de orgulho. Mas, por outro lado, teres uma opinião de alguém: "Faz assim, experimenta assim", acaba por ser diferente, porque tu às vezes estás tão certo de que é assim que queres, e às vezes não é. A tua opinião pode ser errada.

Sim.

E a canção pode ser incrível, mas se calhar ainda ganha mais noutra perspectiva. Mas eu também não tenho essa experiência de chegar e dizer assim: "Não, a canção é assim, eu vejo lá assim".

Tu és muito teimoso ou nem por isso?

Sou muito teimoso quando acho que tenho razão. Mas depois também se achar que não tenho, sou o primeiro a dizer assim: "Ok, tens razão, desculpa".

Até porque agora, neste novo álbum, o "Ela", estiveste em conjunto com a Luísa Sobral.

Sim.

E pelo que sei, na questão dos músicos, foi metade-metade, não é?

Foi metade-metade, sim. Eu disse à Luísa: "Luísa, eu gostava de tocar com os meus músicos todos". E a Luísa disse-me assim: "Não, então vamos fazer assim. Tu levas metade, eu levo a outra metade". E eu: "Ok".

E o difícil foi escolher, não é? Porque gostas de todos.

Foi escolher, porque tanto os meus como os da Luísa são incríveis. Sabes que eu fiquei muito surpreendido porque eles chegaram, nunca tinham trabalhado uns com os outros. E aquilo casou à primeira. Nunca houve uma discordância. Tocavam todos, porque eles são incrivelmente bons. Criou-se ali uma empatia brutal.

Olhar para as novas gerações, as novas músicas, os novos cantores que surgem. Tu tens um estilo muito próprio, mas com certeza que também consegues avaliar e conseguir ser crítico daquilo que se faz por aqui em Portugal. A ideia que nós temos e de quando te ouvimos, é que é tudo feito com muita verdade. Aquilo que tu fazes, aquilo que tu cantas, aquilo que tu interpretas. Tu sentes que estamos nessa fase, nessa boa fase, em que realmente há essa verdade de um intérprete perante o seu público, ou isto vai variando também de artista para artista?

Eu acho que isso pode ser variável. Mas eu acho que a música toda tem verdade. Porque se tu estás a fazer assim, independentemente de estilos ou de interpretações, é porque aquilo a ti te diz alguma coisa. Não vais fazer só porque o público vai gostar.

Sim.

Pode acontecer, mas eu não quero acreditar nisso. Isso, se calhar, é um ponto comum aos vários tipos de estilos musicais que existem, e ainda bem que eles existem, e ainda bem que a música está em constante evolução e numa evolução cada vez mais rápida. Eu acho é que existe espaço para todos. Imagina, a pessoa que consome uma música mais urbana, também consome uma música mais orgânica, se calhar, como a minha. Eu próprio consumo uma música mais urbana, mais atual. Eu tenho 27 anos, não tenho 60. Consigo conciliar as coisas, consigo apreciar as duas coisas. E também estou disposto, e já estive a fazer algumas coisas recentemente, mais a ir a esse caminho, mas sei que o meu lugar é aquele. Ou acho eu que o meu lugar é aquele. Posso mudar de opinião amanhã.

Sim, daqui a um ano, por exemplo.

Sim.

E sentes-te bem no desconforto? Ou seja, quando estás a fazer uma coisa que não é tão bem o teu estilo e fazes ali um bocadinho a...

Sinto-me bem quando consigo fazer. Sinto-me horrivelmente mal até conseguir fazer.

Porque és muito exigente.

Sou exigente e depois começo a ficar frustrado, começo: "Mas não estou a conseguir, não vai dar". E depois aquilo dá. Dá porque calha, é tipo, tanto insistis, tanto insistis, que acabas por lá ir, mas já sem grande contentamento.

Até lá é um processo ainda longo. Como já dissemos aqui, tu venceste o The Voice em 2020. Entretanto, passaram-se quatro anos. Vamos a caminho do quinto ano. Muito mudou, muito criaste desde daí. O Cantalentetano É uma das tuas bases? É algo que tu nasceste com essa realidade? É algo que nunca vais querer arrancar de ti?

Sim. Eu acho que mesmo que queira não sai daqui.

Já não sai. E sentes ou já sentiste, de certa forma, uma pressão extra para tentar perder, não é na totalidade, mas um bocadinho dessa essência ou nunca existiu? E sentes que nunca vai existir?

Pode existir, mas eu sei aquilo que quero.

Teimoso como és.

O meu não me defende o eu. Mesmo que isso exista, se não me fizer sentido, não acontece.

Muito bem. Olhando aqui para o Alentejo, para a tua família, e já falámos aqui quando se deu essa vitória no The Voice, como é que eles olham para o caminho que tu tens feito? Já lançaste dois álbuns, vem o Coliseu. São pessoas que te elogiam muito ou são aquelas pessoas mais contidas e que escolhem aqueles momentos certos?

Eu acho que sim, escolhem os momentos certos. Por exemplo, a minha mãe não, a minha mãe é estilo: "Estavas tão giro na televisão". É mais mimosa.

Diz bem de tudo, não é?

Diz bem de tudo. "O meu filho é o maior". Agora, o meu pai é uma pessoa mais reservada, sente, guarda e no momento certo chega ao pé de mim e diz: "Bem, puto".

E se calhar até é capaz de estar com os amigos dele e até em alto certo elogiar-te, mas tu não sabes.

Isso eu sei que sim. Mas diretamente a mim, ele quer-me dizer uma coisa de mil palavras, mas diz-me em duas. Mas eu já sei o que é, portanto percebo.

E o resto da família, como é que lidam com isto?

O resto da família adora a ideia.

A ideia de ter uma pessoa famosa.

A ideia de ter uma pessoa mais conhecida. E isso é uma coisa que me chateia, que é, mas eu acho que isso é geral. Os familiares, por norma, vivem muito o facto de alguém não gostar ou alguém não concordar. Não é tanto por aí, é mais o facto de alguém falar mal, sabes? Ou de alguém criticar. E isso às vezes chateia-me, porque não liguem a isso, deixem estar, vivam a vossa vida. Eu não me preocupo, por que vocês estão a se chatear com isso? É um bocado por aí.

Luís, tu neste momento, tendo em conta a fase da vida em que estás, em que estás feliz, vem o Coliseu. Já vamos lá, eu prometo que vamos falar do Coliseu. Mas se a tua vida fosse resumida numa das tuas canções, só uma, esta fase de vida que estás a viver, qual é que seria e por quê?

Do novo álbum ou de...

Deixo à tua consideração.

É que as minhas canções falam todas de amor.

Mas isso não é mau. Estás a pôr isto no patamar em que falar de amor...

Que pergunta agora. Eu se calhar punha aqui o "Amanhã é Melhor". Não que o hoje seja mau, nada a ver com a canción, mas é no estilo de amanhã ainda vai ser melhor. Percebe que eu sou uma pessoa ambiciosa e hoje é bom, mas amanhã ainda vai ser melhor.

E para os nossos ouvintes que vão agora no carro e que estão a pensar: "Por acaso agora não me estou a lembrar desta música, como é que soa, mais ou menos?"

Ele a querer arrancar-me a manga.

E soa assim.

Como é que é? Acaba assim: "Vai amanhã que é melhor". Acaba assim, o refrão.

Muito bem. Eu bem tento, caro ouvinte, eu bem tento. Mas pronto, o Luís Trigacheiro é assim uma pessoa que também é já um convite para ouvirmos o teu trabalho, também para deixar aqui um pequeno teaser. Também não vamos revelar tudo agora. Passando aqui quatro anos para trás, sentes que estás na fase ou imaginavas estar neste patamar que estás agora?

Imaginava, sim.

Sentes que foi demasiado rápido ou foi tudo a seu tempo?

Foi tudo a seu tempo. Isto é um processo e não sei se tu concordas, mas a nossa geração é toda muito ansiosa. Nós queremos tudo para amanhã ou para ontem, até. E não, as coisas levam tempo. E contra mim falo, atenção.

Muitas vezes também há essa pressão involuntária de pessoas da nossa família, que às vezes nos fazem perguntas e aquilo fica às vezes aí a coar na nossa cabeça.

Não é tanto isso. Há uma certa pressão social, há uma certa pressão que tu metes em ti próprio, que é: eu quero ser bem-sucedido, eu quero chegar aqui, quero chegar ali. E tu te esqueces que há um percurso para chegares até aí. E podes não chegar.

E às vezes o percurso de uma pessoa não é igual ao de outra pessoa.

Exatamente.

São tudo percursos diferentes.

Nós todos queremos chegar ao auge da nossa carreira, ao auge da nossa vida familiar. Mas as coisas levam tempo. É o que é.

Coliseu. Coliseu dos Recreios.

Coliseu dos Recreios de Lisboa.

E as pessoas estão a ouvir agora e vão pensar assim: "Mas isso é só em outubro". Não tem mal. Já podem comprar, não já?

Já podem e tem estado a correr muito bem as vendas. Aquilo já está bem composto.

Vais de certeza ter de abrir mais datas.

Espero que sim.

Se isso acontecer, é um bom sinal.

Espero que sim.

Mas o que é que podemos esperar deste Coliseu? O que é que aí vem?

O nosso Coliseu vai ser preparado da seguinte forma, sem levantar muito o véu: nós vamos montar um concerto da estrada adaptativo ao Coliseu, de forma a criar um fio condutor. Imagina que foste ver um concerto dos Primários em janeiro, em fevereiro, em março. Chegas ao Coliseu e pensas: "Era aqui que eles queriam chegar". Estás a perceber? Porque isto não é só cantar, há o pilar que traz, há luzes, há coisas que acontecem que conjugam tudo. Então o nosso Coliseu está a ser desenhado nesse sentido.

E podemos esperar então uma grande viagem por todo o teu repertório.

Sim, pelo meu repertório.

E por aquilo que nos fazes viajar. E aquilo que eu dizia no início é mesmo verdade. Quem te ouve sente sempre um abraço e eu acho que isto é dos melhores elogios que se pode dar.

É, dos melhores. Tu és bom ouvinte.

Acho que sim. Não, acho que sim, não. Acho que faz jus àquilo que tu és enquanto artista e enquanto pessoa, porque foi uma conversa muito agradável.

Obrigado.

E dizer então que o Coliseu dos Recreios espera pelo Luís Trigacheiro dia 25 de outubro. É um sábado, portanto.

25 de outubro de 2025.

Dia perfeito para ires, com a família, com a namorada, com os filhos.

Não há desculpa.

Não há desculpas. Luís Trigacheiro, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador.

Obrigado eu.

Foi uma grande conversa pelas tuas origens, pela tua música, por aquilo que nos fazes sentir e muito obrigado por isso.

Obrigado, boa tarde a todos.

O Em 40 Minutos está de regresso na próxima semana. Até lá.