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De uma forma geral, o fado tem muito mais respeito hoje em dia pelos portugueses do que tinha há uns anos, mas continuo a achar que muitas vezes nas casas de fado o pior público é o português. Às vezes por um olhar para isto quase de uma forma menor, do gênero: se eu tivesse a ver no Altice Arena os Scorpions, é uma coisa. Agora estou a ver o fadista, o guitarrista. Percebes? Há sempre ali um pequeno desdém.
Na adolescência, ouvia o que os jovens dos anos 80 e 90 ouviam: Scorpions, Men at Work, muito rock. Ainda assim, foi o fado, com o qual não tinha proximidade quase nenhuma, que apareceu e transformou-lhe a vida. Hoje é ouvido nos quatro cantos do mundo e é reconhecido por todos como um daqueles que reavivou e deu uma nova roupagem ao fado. Para quem o conhece bem, será sempre o bom rapaz de Amarante que chegou a Lisboa com o sonho de ser cantor. Marco Rodrigues, em 40 Minutos. Muito bem-vindo aqui ao programa, Marco Rodrigues.
Muito obrigado. Mais uma vez, e estávamos a falar aqui há pouco em off, recordo-me perfeitamente do vosso início como rádio, como notícias, e um dos meus discos foi promovido quando vocês estavam mesmo a começar. Portanto, fico muito contente, passado estes anos todos, estarmos aqui e vocês crescerem desta forma como cresceram.
E é bom ainda te lembrares disso, que é sinal que é um lugar de boa memória. E nós temos muito a celebrar.
Sem dúvidas. Obrigado.
Estamos muito felizes por isso. E para começar esta conversa, quando falamos em Marco Rodrigues, obrigatoriamente pensamos em fado.
Sim.
E a primeira pergunta que eu tenho para te fazer é se o fado transformou a tua vida em todos os sentidos. Serias outro homem se não cantasses o fado?
Sem dúvida, até porque o fado tem um circuito muito específico, que as pessoas são obrigadas a entrar dentro dele de uma forma muito intensa, que é as noites de fado, as noites do Bairro Alto, as noites de Alfama. E eu estive ligado intrinsecamente a essas noites. Eu tenho o privilégio de ter cantado em duas das maiores casas de fado que nós temos, o Luz e a Adega Machado.
O Luz, que foi onde tu começaste.
Exatamente. Cantei, toquei, fiz gestão artística das duas casas. A minha infância foi passada ali. Claro que parte daquilo que eu sou também faz parte desse percurso. Até porque, como disse, é um meio muito intenso e naturalmente, um jovem que passe por esse circuito será diferente de um jovem que nunca tenha passado por esse circuito.
Marco, tu nasceste em Amarante no início da década de 80. Depois mudaste com a tua família para Arcos de Valdevez, no Alto Minho. Tinhas apenas oito anos. Ou seja, uma infância muito marcada também pela música, porque acompanhavas o teu pai em bailes, em feiras, festas populares.
Tudo que era festa.
São memórias bonitas que guardas desses tempos?
São, claro que sim, são memórias bonitas e muito enriquecedoras. Até porque, como vocês devem calcular, não eram os sítios com as melhores condições do mundo, muitas vezes, onde nós cantávamos e tocávamos.
Consigo imaginar o cenário na minha cabeça.
Epá, se calhar ainda é pior.
Ainda pior?
Se eu te disser que cheguei a cantar em palcos que estavam construídos no meio de uma estrada onde todos os dias passavam, por exemplo, animais, e que de repente os animais se davam com o palco ali a meio do caminho, e que houve situações em que estávamos a cantar e a tocar e de repente as vacas a atravessarem o palco para poderem passar, porque para elas não há cá Festa da Nossa Senhora da Grelha.
Sabemos bem o que é isso.
Exatamente. Foi aí que eu percebi que eu tinha mesmo paixão por isto, tinha paixão pelo palco, pelos aplausos e sentir as pessoas felizes ao ouvirem-me cantar. A música estava presente lá em casa porque o meu pai ensaiava na garagem e naturalmente eu me aproximei dela, porque ela estando presente é mais fácil também.
O que é que ainda há do norte em ti, hoje em dia?
Tal como a pergunta anterior, o fado fez de mim aquilo que eu sou, tal como o sítio onde eu nasci, as pessoas que me rodeavam, a minha família também fez de mim aquilo que eu sou hoje. E eu sou um nortenho orgulhoso, sem dúvida. Mas quando me perguntam: "Ah, sentes-te mais do Norte ou de Lisboa?" Efetivamente, eu estou há metade da minha vida, praticamente, em Lisboa. Lisboa deu-me a linguagem musical que eu hoje faço. Lisboa fez-me crescer enquanto homem, foi aqui que eu tive os meus filhos.
Acaba por ser ingrata essa comparação, porque são épocas muito diferentes.
Eu acho que nós somos o retalho daquilo que nós vivemos. Eu sou um bocadinho do rapaz que nasceu e teve aquela infância de aldeia completamente livre, de descer a ravina para ir pro rio. Coisa que eu hoje em dia pensar que os meus filhos podem fazer isso é impensável. Mas eu tive essa infância de jogar ao pião. Depois tive essa proximidade com a música a partir dos oito anos, com o meu pai, e depois vim para Lisboa e eu acho que sou um bocadinho o resultado destes sítios todos onde eu já estive.
Quero voltar um pouco à questão dos arraiais quando eras mais novo. Os arraiais em que estiveste e tocaste muitos com o teu pai, prepararam-te para o palco que mais tarde o fado deu? Ou são contextos muito diferentes?
Essa pergunta é curiosa, porque a casa de fado onde eu comecei a cantar, o Café Luzo, tinha um palco de sete metros, ao contrário da maior parte das outras casas de fado, que é tudo junto às mesas.
Estamos habituados a essa intimidade entre o fadista e o público que o está a ouvir.
Muitas vezes até lá mesmo no meio das mesas. A Adega Machado já funcionava assim, mas o Café Luzo funcionava há muitos anos a essa parte com um espetáculo de folclore também, que representava as várias zonas do país. E por isso tínhamos um palco enorme de sete metros e sem dúvida que a quantidade de arraiais, casamentos, batizados, só não fazíamos funerais porque não era a ocasião, ajudou-me a que não tremesse tanto, se calhar, e tivesse um background maior para poder, aos 16 anos, subir ao palco do Luzo e cantar todas as noites.
Mas ainda assim, a primeira vez que subiste a um palco, lembras como é que foi? Como é que foi a sensação que tiveste?
A sensação, não me lembro. Posso dizer que seguramente estava excitadíssimo. Lembro-me quando foi a primeira vez. Foi num casamento que o meu pai foi convidado para fazer a animação. E recordo-me que como eu apanhava o meu pai muitas vezes a ensaiar lá embaixo e sentava-me em cima das colunas e começava a fazer back vocals e a fazer umas segundas vozes e que não fazia ideia daquilo que estava a fazer. Mas o meu pai houve um dia que disse: "Pai, sabes o que estás a fazer?" "Não". "Estás a fazer uma segunda voz, pai, isso é muito fixe. Olha, já agora faz também neste tema, vê se consegues". E a dada altura comecei a fazer coros, digamos assim, com o meu pai. E recordo-me que era num restaurante chamado Alameda, onde tinha umas mesas corridas com os convidados todos. E lá estava eu com uma pandeireta e com o microfone aqui embaixo. E recordo-me disso. É das poucas lembranças que eu tenho. Claro que estaria excitadíssimo, seguramente.
Não havia espaço para nervos.
Não, porque a responsabilidade também com oito anos é diferente.
Estás ali para te divertires.
E eu estava muito mais excitado com a cena de estar em cima do palco do que propriamente com aquela preocupação de: "Vou desafinar". Não, nessa altura não tinha nada disso.
A tua relação com o teu pai tornou-se melhor com a música? A música ajudou a que vocês tivessem uma aproximação diferente?
Sim, eu acho que houve dois períodos distintos. Houve uma altura em que eu, quando estava a viver lá com o meu pai, a música acabou por nos aproximar e a nossa relação enquanto pai e filho. Mas depois também sinto que quando eu me vim embora do norte, houve ali um período em que o meu pai precisou de mastigar um bocadinho essa minha vinda para Lisboa e não era uma coisa muito feliz para ele ver que eu estava a crescer a nível profissional.
Estás a seguir o sonho da música.
Sim. Mas foi preciso fazer ali um pequeno trabalho e foi preciso passar algum tempo para o meu pai começar a olhar para mim enquanto cantor, enquanto intérprete, se calhar de uma forma um bocadinho mais saudável.
Os teus pais separaram-se quando tu eras adolescente. Foi nessa altura também que vieste para Lisboa. Na altura conseguiste perceber e entender os trâmites dessa decisão? Percebeste se era melhor para os dois e até mesmo para ti? E como é que se encara toda essa rutura, sendo ainda um jovem adolescente?
Olha, em primeiro lugar, sim, foi o melhor. Sim, eu tinha noção que ia ser melhor, porque o ambiente familiar já estava muito mal, estava muito deteriorado. E no fundo, também já era quase uma vontade minha que eles se separassem de uma vez por todas e que parassem as discussões. Por outro lado, houve aqui uma série de coisas que tiveram que ser trabalhadas. Depois aprendi a palavra bullying, que era uma coisa-
Que na altura não tinha esse nome, de certeza.
Exatamente, não tinha. Agora ultimamente tem esse nome. Mas sim, eu era um rapaz particularmente forte, para não dizer gordo mesmo. Até aos meus 20 e poucos anos. Tinha um sotaque do norte, eu cheguei a Lisboa e tinha todos os requisitos para poder sofrer de bullying. E lembro-me que houve ali um período um bocadinho complicado, mas eu sempre tive muita facilidade em socializar e arranjar amigos, digamos assim. E acabou por ser um período felizmente curto. Mas sim, lembro-me de sentir aqui uma diferença gigante entre o que eu tinha lá em cima no norte, vindo de um meio tão pequeno, toda a gente me conhecia e como já fazia alguns concursos de televisão, claro que o impacto nestas zonas é completamente diferente. Para um sítio onde as pessoas nem sequer se cumprimentavam, e eu estava habituado a dizer olá e bom dia a toda a gente. Houve aí um pequeno choque.
Foi aqui que descobriste que querias fazer da música a tua vida. Ou seja, tu já tinhas esta experiência dos arraiais com o teu pai, em que fazias todas as festas e mais algumas, até chegaste a falar em funerais, que não chegaste a fazer.
Que não cheguei.
Mas foi em Lisboa que houve essa consciência de que realmente eu posso fazer disto a minha vida?
Sim, a paixão já lá estava, efetivamente. Aquela coisa que as pessoas dizem: "Estava cá o bichinho". Eu sei que sempre fui apaixonado pela música e por fazer música. A paixão já cá estava. O que eu acho que depois ajudou a que isso se fosse concretizar enquanto sonho, foi a forma como eu me apaixonei pelo fado. Efetivamente. Ao contrário da música que eu fazia, dos concertos que eu fazia lá em cima com o meu pai, em que as pessoas, a maior parte delas, estavam de costas viradas para o palco a beber cerveja e a não dar importância nenhuma, e aos berros. De repente, caio numa casa de fado com a minha mãe, a minha mãe leva-me até uma casa de fado.
Com os olhos fixos em ti.
Não, eu fui ver.
Sim, o plano em ti, no artista.
Sim, exatamente. De repente eu começo a perceber: a luz baixou, entrou a fadista com um xaile, o som da guitarra portuguesa, está toda a gente calada, silêncio. Se calhar também se pode fazer este tipo de música que as pessoas têm respeito.
Mas é uma grande diferença, não é?
É uma diferença brutal. E eu acho que isso acabou por me dizer: "Não, é isto que eu quero fazer, é este tipo de música que eu quero fazer". E essa paixão fez com que eu quisesse evoluir, conhecer as características do fado, aprender a tocar fado também. Acho que foi nessa altura, a primeira vez que eu vi fado assim numa casa de fado, para além da música, todo o misticismo que está à volta dela e tudo que preenche a música Acho que foi o que me apaixonou e o que me deu o clique.
Falavas da tua mãe, que é a tua grande inspiração. Não te cansas de o dizer, dizes várias vezes. Eu li muitas entrevistas tuas e está sempre presente de alguma forma. Ela já partiu. É um exemplo de força, porque sempre acreditou em ti e de certa forma também fez com que tu nunca desistisses deste sonho, que depois se tornou realidade. Tenho uma pergunta para te fazer que vai à questão do luto. E perguntar-te se o luto acaba por ser um bocadinho mais difícil pelo fato da tua mãe ter estado tão presente neste teu caminho da música e ser uma realidade tão presente nos teus dias. Acabas por te lembrar mais vezes dela?
Eu acho que esta história dos lutos são coisas que nós conseguimos fazer por camadas, muitas vezes, dependendo da dor que temos. A minha mãe deu a vida por mim. Tudo aquilo que ela fez foi em função da minha vida. Chegou a Lisboa sem trabalho, com um rapaz com 15 anos a estudar, que tinha um sonho de ser músico, cantor. Ela não tinha trabalho. Teve formação na hotelaria na Suíça, falava inglês, falava francês, falava italiano, alemão, era uma profissional incrível, mas depois quando veio para o norte e quando teve a viver com meu pai, não podia trabalhar. Na altura, as coisas ainda eram um bocadinho antiquadas. E quando chegou a Lisboa comigo, nós tínhamos a roupa que tínhamos no corpo, não tínhamos absolutamente mais nada. E a minha mãe conseguiu, passado uns anos, ser governanta de um dos melhores hotéis da cidade de Lisboa. Conseguiu ajudar-me a construir a minha carreira. Viemos para a casa dos meus tios, passado um ano e pouco, já tínhamos a nossa casa. A presença dela vai estar sempre. Eu acho que resolvido do luto nós nunca vamos ficar, até porque eu posso ter um mês em que está tudo tranquilo, que nem sequer penso naquela coisa da morte da minha mãe, de não estar cá, e se ela estivesse. Mas basta haver uma noite em que sonhe com ela, que no dia a seguir, quando me levanto, é uma chapada de realidade.
Alturas que são mais difíceis. Há meses, por exemplo, o aniversário.
Eu tenho muita facilidade em não dar importância a datas, porque eu não gosto de datas. Eu tenho muita dificuldade em gostar de datas e isso ajuda-me um bocado em algumas coisas.
A distanciar-te dessa questão.
Não sei se já é uma defesa.
Pode ser.
Sim, mas já há muito tempo que eu não gosto de datas. E quem é meu amigo, por exemplo, tem que ter essa característica sempre à frente.
"Eu vou me esquecer do teu aniversário".
"Não, ele não me ligou porque nem se lembrou de mim". Não, é o Marco. Mas se calhar no dia a seguir: "Como é que é? Vamos jantar, vamos almoçar". Eu posso te dizer uma coisa, que tu se calhar não vais acreditar, mas eu não sei qual é o dia em que a minha mãe faleceu. Sei qual é o mês. E sei que é a partir de 20 e qualquer coisa. Mas faço questão, e eu agradeço que as pessoas não me lembrem. Agradeço que as pessoas no dia não tenham aquela coisa, que não é por mal, eu sei, mas eu recebo muitas mensagens no Instagram de pessoas a dizer: "Marco, um grande abraço".
Pessoas atentas que sabem o que aconteceu. Já fizeste a paz com a dor de teres perdido a tua mãe?
Acho que não. E vou te explicar por quê. Porque foi muito esquizofrênica a altura em que ela morreu, porque ela morreu em 2020, em janeiro, em março nós entramos numa pandemia e em abril eu estou a ser pai pela segunda vez.
Um turbilhão de emoções.
Sim.
Realidade de confinamento, ser pai, perder alguém que te formou enquanto pessoa. É a pessoa mais importante da tua vida.
E o bem que ela poderia fazer aos meus filhos e os meus filhos, o bem que lhe poderiam fazer a ela, que é aquilo que mais lamento e a maior perda, efetivamente, é só ter tido um dos meus filhos a conhecer a minha mãe e não poder ter os meus filhos à volta da minha mãe. Essa, para mim, é a imagem que eu sinto que perdi e que nunca vou conseguir chegar lá.
Tenho a certeza que qualquer um dos teus filhos tem um bocadinho da tua mãe, assim como tu tens. De alguma forma. E agora quando crescerem, se calhar vai se notar isso mesmo.
Se eles forem o meu reflexo, seguramente que eu tenho muitas características vindas da minha mãe. E se eles forem o meu reflexo, durante a vida, a minha mãe vai estar presente em muitas coisas.
E ela estará certamente muito orgulhosa. Marco Rodrigues, vamos só fazer aqui uma pequena pausa para atualizarmos as notícias, mas já voltamos. Até já. Estamos de regresso para o "Em 40 Minutos", segunda parte com o fadista Marco Rodrigues. Ainda não cantaste.
Não, ainda não.
Ainda vais, ainda te vamos arrancar aqui qualquer coisa.
Acho que há muita gente a pedir-te para cantares. Sim, é aquela coisa normal. A malta que faz música, normalmente as pessoas costumam pedir sempre: "Toca aí uma musiquinha".
Cantar e comprovar se és mesmo tu e se cantas mesmo bem, se não és tu, se não tens aí nada.
Eu espero que isso seja uma coisa que as pessoas comecem a ter alguma exigência, até porque agora com a inteligência artificial, eu espero que agora dê a volta, que as pessoas comecem a pensar: "Não, eu agora quero ver, mas é tu a fazer aqui à frente".
Exatamente.
Isso é bom sinal.
Na altura em que tu começaste, o fado era muitas vezes associado para pessoas mais velhas. Tu até dizes que tinhas algum receio de dizer que cantavas fado.
Vergonha mesmo, na altura.
Porque havia esse preconceito. Não é preconceito, mas havia essa associação à imagem de uma pessoa mais velha que cantava o fado.
Era preconceito mesmo.
É preconceito? Então pronto, está bem usado. Está mais debatido hoje?
Claro que sim. Aliás, tudo o que tem acontecido no fado, que é incrível. Quando cheguei a Lisboa, foi no final dos anos 90, eu recordo-me que o Bairro Alto era só mesmo meia dúzia de estrangeiros. Os portugueses olhavam pro fado de uma forma preconceituosa, mesmo. Tipo, isto é uma coisa pra velhos, que cena ultrapassada, que som fuleiro e que não sei quanto. E eu, quando ganhei a Grã-Noite o Fado, em 99, tive efetivamente vergonha de dizer na escola que tinha ganho a Grã-Noite o Fado.
E achavas que ninguém ia saber.
Pois, só que nessa altura a RTP passava o nome dos vencedores no jornal do dia da segunda-feira, no jornal da tarde.
Foste tramado pela RTP.
Fui um bocadinho tramado, mas depois acabei também por ter alguns benefícios em relação a isso. Comecei a ter algumas pessoas que até nem me falavam, ou uns miúdos que não me falavam, depois achavam piada porque era o fadista.
Tornou-se alcunha, o fadista?
Chegou a ser alcunha. Sim, ali no Liceu Camões, tinha alguns colegas meus que me tratavam por fadista, mas não era o fadista, não, era o fadesta.
Quase para se meterem contigo.
Exatamente. "Ah, isso foi fadesta".
Bem, vamos falar de um nome que diz muito: Carlos do Carmo.
Certíssimo.
Bastaria dizer o nome que tu certamente estarias aqui preparado para falar durante largos minutos. Marcou o teu percurso, era alguém por quem tinhas e tens ainda bastante admiração. Ele teve sempre muito cuidado contigo ao longo de vários anos, foi uma pessoa muito presente no teu processo de crescimento e de te mostrares, de certa forma, ao grande público. Quero que me expliques essa ligação que tens com o Carlos do Carmo e também se é daí que vem a necessidade de fazer um álbum como aquele que fizeste o ano passado, em que cantas Carlos do Carmo. E que é um álbum incrível.
Muito obrigado.
Porque é verdade e temos de relevar isso mesmo, porque ouvi na altura quando saiu e, de facto, transportou-me também para aquilo que era o Carlos do Carmo e que é e continua a ser. E acho que é uma homenagem mais do que merecida.
Sem dúvida. Por partes. Como é que eu conheci o Carlos do Carmo? O meu primeiro disco, chamado "Fados da Tristeza Alegre", foi apresentado no Speakeasy. Na altura, o Speakeasy era gerido pelo filho mais novo do Carlos, pelo Gil do Carmo. E o Gil disse naturalmente ao pai e à Judite: "Olha, vai lá um rapaz hoje lançar um disco de fado, se vocês quiserem lá ir jantar". E assim foi, o Carlos pegou na Judite e foram jantar ao Speakeasy.
Tu não sabias que ele ia.
Não, eu não sabia que ele ia. Aliás, soube no início da noite, quando lá cheguei a fazer som, o Gil do Carmo disse: "Epá, acho que o meu pai é capaz de aparecer aí com a minha mãe".
Tremeste?
Sim, um bocadinho. Nessa altura, tremi um bocadinho. Era a apresentação do meu primeiro disco.
O que é que disseste, Gil? O que é que foste dizer?
Tremi, mas depois acho que até acabou por me dar ali uma força extra pra me poder mostrar, digamos assim. O Carlos do Carmo, no final do pequeno showcase, eu fui ter com ele e com a Judite, com o disco na mão, armei-me em atrevido e disse: "Olhe, Carlos, pra mim é uma referência". A verdade é que as minhas duas grandes referências no fado era o Carlos do Carmo e o Camané. "Eu tenho aqui o meu disco, gostava que o Carlos ouvisse e gostava que me desse o seu feedback, porque pra mim era importante a sua opinião, é o meu primeiro disco, queria perceber se o caminho era este".
"Tá aqui o disco, tá aqui o número, depois ligo-me".
Não, nem sequer lhe dei o número de telefone na altura. Estava naquela do vamos acabar por encontrar por aí.
Neste circuito é fácil encontrar.
Exatamente. A verdade é que dois meses passaram e ainda não tinha recebido feedback nenhum do Carlos, mas entretanto eu sou convidado pra ir a Paris cantar com a Ana Moura e com o Carlos do Carmo, fazermos uma noite de fado. E no final fui ter com ele ao camarim e perguntei-lhe: "Olhe, Carlos, desculpe lá estar a chateá-lo novamente, mas gostava mesmo de saber se já ouviu o meu disco e qual é a opinião que tem sobre o disco".
Bastante atrevido. Não tinhas medo nenhum.
Não, não tinha medo.
Às vezes podia haver uma espécie de receio por ser o Carlos do Carmo.
Eu estava ansioso pra ouvi-lo, mas medo não, até porque eu gostava do disco e sabia que o meu primeiro disco era um disco bastante digno pra primeiro disco. Foi com produção do Ricardo Cruz. E o Carlos virou-se pra mim e disse-me aquilo que eu nunca na vida, aliás, não queria que ele me dissesse isso e também não estava à espera de ouvir isso, que era: "Olhe, Marco, eu vou lhe ser muito sincero. A minha opinião é capaz de não ser aquilo que você quer ouvir, mas o seu disco, eu ouvi outro dia e fiquei com muita pena, porque acho que é um disco demasiado pesado, demasiado velho. Você não tem idade pra cantar estes poemas assim, desta maneira. Tem que ser um bocado mais leve, um bocado mais fresco, não sei quanto. Desculpe lá, mas olha, esta é a minha opinião". Bem, como devem calcular, aquilo bateu-me de uma maneira que eu fiquei duas semanas quase sem querer cantar. E a minha mãe lá está, a segurar o barco, a dizer: "Não, mas ouve, mas isso é a opinião dele e pronto, e se calhar tens que pedir opinião a outras pessoas também e tens que se calhar fazer um disco diferente e não sei quanto, mas não, isto não é pra desistires, alguma vez ele te ia dizer isto pra tu desistires. Ele até gostou tanto de te ouvir cantar na apresentação do disco e não sei quanto". Bem, aquilo passou-se e passado duas, três semanas, eu estou na Suíça a fazer uma pequena tour e recebo um telefonema de Portugal do Carlos do Carmo. "Alô, Marco, olhe, é o Carlos do Carmo". Pá, eu reconheci logo e disse: "Sim, Carlos, está tudo bem?" "Sim, está tudo bem, mas olha, tenho um pedido de desculpa a fazer-lhe". E eu: "Desculpe, mas por quê?" "Porque olhe, no outro dia, quando você me perguntou lá em Paris, quando me perguntou A opinião sobre o seu disco foi fundamentada noutro disco, não no seu, porque eu fiz confusão.
Ele trocou os discos.
Eu tinha ouvido um outro disco e agora que acabei de ouvir o seu disco, estou lhe a ligar, porque eu na altura até comentei com a Judite que a minha opinião que eu lhe dei foi mesmo o que eu achei e afinal era o disco de uma outra pessoa, de um outro colega meu. "Acabei de ouvir. Olhe, parabéns, Marco, que belo disco, um disco fresco, os arranjos muito bonitos, os poemas muito bonitos. Falou aqui com o Aldeir Moutinho. Muito bem, parabéns". Aquilo deu-me um...
Voltaste a crescer.
Parecia um sapo. Eu acho que ali no aeroporto, em Zurique, parecia um sapo autêntico quando estava a ouvir isto, estava a inchar.
Quase como uma bênção.
Quando ligas o telefone, a quem é que ligas primeiro para contar o que tinha acabado de acontecer?
Foi à minha mãe, claro. Até porque nem sequer estava cá em Portugal. Liguei logo para a minha mãe, superentusiasmado e disse: "Estás a ver? Eu não te disse", e estava a espalhar com coisas. O que isto quer dizer para mim? A importância e o cuidado que o Carlos tinha comigo. Mas esta importância e este cuidado que ele tinha era com a nova geração, de uma forma geral. E eu conheci, tive o privilégio de partilhar noites de fado com o Fernando Maurício, com a Beatriz da Conceição, com o Carlos do Carmo. Não juntando estas nomeações que fiz agora aqui, mas eu vi muito poucas pessoas dessa geração a ter o cuidado que o Carlos do Carmo tinha com a nova geração de fadistas. E mais uma vez, falei em dois nomes, que não é o caso. Não estou a falar deste caso, mas há muita gente que tinha muita dificuldade em aceitar a nova geração.
Mas é importante, porque tu ficaste aqui.
Claro que é importante.
E estás a dar uma nova roupagem ao fado, uma nova forma de se abordar o fado, mas acima de tudo, também acredito que tenhas essa preocupação com as novas gerações que já se estão a formar.
Claro, eu tenho n guitarristas e miúdos que eu, como tive a possibilidade de fazer gestão artística nas casas que vos disse, n guitarristas e músicos e fadistas que estão aí hoje, ou do Alentejo, que havia dúvidas na altura e eu, se precisasse de um deles e soubesse, e já os conhecesse e sabia o talento que eles tinham, tirava-lhes as dúvidas. Há uma série de músicos aí. Lembro-me agora, por exemplo, do Bruno Chaveiro, que veio do Alentejo, o próprio Buba Espinho teve-me a substituir durante uma série de tempo na casa de fado onde eu cantava, na Vega Machado. Eu cheguei a ter conversas com eles e dizer: "Miúdos, vocês não tenham medo de vir para Lisboa, porque a forma como vocês cantam e tocam, vocês vão ter trabalho que nunca mais acaba, seguramente". E assim foi.
O fado está a precisar de uma renovação ou esse processo já está a ser feito?
Eu acho que o processo naturalmente começou a ser feito depois da morte da Amália. Sem dúvida.
Um rejuvenescimento.
Sim, e tem uma razão muito simples. Quer queiramos, quer não, o fado é um estilo de música, ponto final. Um estilo de música tradicional, com as características típicas das músicas tradicionais, ok, tudo bem. Mas a partir de uma certa altura em que começa a aparecer uma nova geração, as crianças que não olhavam sequer para esta música começam a perceber que também é possível ser artista e ter sucesso a cantar esta música. Começam a ver esta música aparecer mais vezes na televisão. Depois da morte da Amália, começam a ver uma nova geração de artistas a fazer sucesso internacionalmente. Começam a perceber que, afinal, o fado e a música não é assim uma coisa tão tosca e tão antiga como diziam que era. Começam a perceber o interesse que os estrangeiros têm na nossa música, a importância e as salas incríveis.
O poder da palavra.
O poder da palavra.
Não sei se também partilhas desta opinião e desculpa interromper-te, Marco. Quando nós vamos ouvir fado, falo por mim, estamos ali a ouvir cada palavra que vocês estão a dizer e sentimos aquilo de uma forma diferente. E eu acho que o fado marca por isso mesmo, é nós estarmos disponíveis para vos ouvir.
Tens toda a razão, mas eu ainda vou um bocadinho mais à frente, que é: e quando saem de lá chineses completamente passados e a chorar baba e ranho, que não perceberam uma única palavra.
Sim.
É a textura da música.
Não notas diferença quando é um português a ouvir a um estrangeiro?
Noto. E muitas vezes não para melhor, infelizmente. Eu acho que, de uma forma geral, o fado tem muito mais respeito hoje em dia pelos portugueses do que tinha há uns anos atrás, mas continuo a achar que muitas vezes nas casas de fado, o pior público é o português. E às vezes por uma questão de característica mesmo, às vezes é um olhar para isto quase de uma forma menor, do gênero, se eu tivesse a ver no Altice Arena os Scorpions, é uma coisa. Agora estou a ver ali o fadista, ali o guitarrista, percebes? Há sempre ali um pequeno desdém. Claro que eu não quero generalizar. Há muita gente que hoje em dia já vai assistir a noites de fado por muito gosto e sai de lá completamente arrepiado. Mas de uma forma não regular, mas de uma forma bastante assídua, há às vezes um comportamento dos portugueses nas casas de fado um bocadinho menos saudável. Mas nota-se uma diferença muito grande de público. Quanto a mim, o público asiático, tudo que é arte eles tratam com um respeito inacreditável. Portanto, têm isso cultural. Alguns países da Europa são um bocadinho mais complicados Os espanhóis adoram fado, mas têm uma característica um bocadinho complicada para ouvir fado, que é: falam muito alto. E normalmente nas casas de fado não há som. E os franceses são um bocadinho esnobes, às vezes, na forma como também estão nas casas de fado. Mas há uma diferença grande.
Quando se dá o boom e um artista começa a ser conhecido, podemos aqui falar do teu caso, pelas tuas canções, pela tua arte, pode ficar condicionado por um sucesso? Ou seja, tu, por exemplo, no processo de criação, preocupas-te com aquilo que as pessoas podem pensar, se vão ou não gostar? Isso começa desde logo no início?
Isso no meio do fado é uma coisa natural inicialmente, mas para se conseguir construir uma carreira, isso tem que ser das coisas menos importantes e nós não podemos dar importância a isso. Se a arte, toda a arte é contemporânea, o que eu estou a fazer hoje em dia é impossível há 50 anos fazerem da mesma maneira, até porque eu já ouvi outras coisas que as pessoas há 50 anos também não ouviram. A forma como se escreve é completamente diferente, a forma como se compõe, a forma como se grava, como se capta. Portanto, eu acho que mais importante do que tudo é quando mexe numa música tradicional, é saber mexer na música tradicional. Ou seja, tu tens que a conhecer. Não é só dizer: "Agora vou juntar aqui um fado com um pop, ou um fado com uma música eletrónica".
Nem tudo resulta.
Nem tudo resulta e se tu não conheceres as características da música tradicional, dificilmente vai resultar.
E pode deixar de cumprir o seu propósito também.
Lá está. Pode deixar de cumprir o seu propósito. Eu sempre me senti muito confortável em cantar temas que não são fado, mas é um fadista a cantá-los. E eu acho que no fundo é um bocadinho o que tem ajudado as pessoas pegarem mais nestas minhas interpretações, que é, por exemplo, uma música como "O Tempo". Se fosse cantada por alguém que não tivesse a minha linguagem, ia ser completamente diferente.
Sim, a abordagem.
Exatamente, a abordagem ia ser completamente diferente.
Se calhar é um tema até muito mais pop e fora daquele registo.
Lá está. O que eu acho que muitas vezes as pessoas pegam, agarram e depois até gostam de ouvir as músicas como bandas sonoras nas novelas, é exatamente isso. É ser um fadista a interpretar um tema que não é fado, mas que tem aquela carga de interpretação em que a palavra é muito mais redonda, tem muito mais peso.
Mas essa também é a beleza da própria música e das canções, que é: temos tantos artistas e a forma como cada um pega numa, estavas a falar agora de "O Tempo", se calhar se fosse, por exemplo, vou dar agora um exemplo do Fernando Daniel a pegar naquela canção, ia ser completamente diferente. E essa também é a beleza deste meio.
Claro, sem dúvida.
De facto, temos tanta diferença.
Sem dúvida nenhuma. E deixa-me dizer-te que há características que mudam isto tudo e que muitas vezes as pessoas nem sequer estão atentas a elas. Olha, eu posso dizer uma que eu costumo dizer muitas vezes. Quando me questionam essa história do se é fado, se não é fado, se canta, se interpreta fado, se não. Por exemplo, um dos grandes, e atenção, vou falar de uma das pessoas que é para mim quase um mito musical em Portugal, chamado Rui Veloso. Que para além de ser um grande amigo, sou um fã incondicional. Mas, por exemplo, nenhum fadista poderia cantar: "Quem vem e atravessa o rio". Um fadista poderia cantar: "Quem vem e atravessa o rio". Assim já faz sentido. E este tipo de coisas, a nível interpretativo, faz toda a diferença no final do poema. E um fadista tem que fazer isto. Um cantor pop não é obrigado a fazer isso. Pode servir mais a música do que a letra. Nós não. Nós temos que servir em primeiro lugar a letra e depois então servir a música. E isso muitas vezes, quanto a mim, que faz a diferença destes temas que não são fados, são canções mais pop, até muitas vezes, mas que são interpretadas por um fadista que tem esta linguagem.
Foi uma bela explicação, Marco, gostei bastante.
Obrigado.
Já o ouvimos aqui a cantar um verso. Marco, temos de falar do Festival da Canção. Participaste este ano, a canção "A Minha Casa". Chegaste à final. Que balanço é que fazes da experiência?
Aceitei o convite porque já estava com alguma vontade de, depois do disco do Carlos do Carmo ter saído, de lançar um single novo, uma coisa diferente. Quis muito levar aquilo que me representa. Lá está, e é um pouco aquilo o que estávamos a falar há pouco. É uma canção. Eu acho que Portugal, para além do fado, do folclore, do cante e do bailinho da Madeira e de uma série de outras músicas tradicionais, tem uma que para mim também é tradicional, que se chama a canção à portuguesa. Na época do Ary dos Santos, do Paulo de Carvalho, do Fernando Toro. Atenção, Paulo de Carvalho, ainda é época dele. Está aí vivendo.
Ainda está aí para as coisas.
Exatamente. Do Carlos do Carmo. Portanto, esta malta também criou aqui uma coisa que, quanto a mim, também faz parte da nossa tradição, que é a canção à portuguesa. E eu quis levar exatamente isso. Eu com o Tiago Machado temos feito muito este tipo de música, que são canções, que muitas vezes têm um arranjo um pouco mais pop, mas ao mesmo tempo é um fadista a interpretar esta música. Foi muito bom. Na primeira semifinal fomos a música mais votada por televoto. Eu sabia perfeitamente que neste momento não era música para poder ir à Eurovisão.
Mas foi uma final muito disputada no júri.
Sim, foi uma final-
A cada 12 pontos ia para uma canção diferente.
Sim, foi um bocado esquizofrénico também.
Aquilo chegamos ao final e ficamos à espera do voto popular e ficamos do gênero: "Mas qualquer uma pode ganhar".
Sim, exatamente. É muito bom. Olha, deixa-me aproveitar só um bocadinho de tempo para te dizer isto. Eu fiquei muito feliz por perceber que, e é sem dúvida, isto não é balelas nem é conversa de café, o ambiente entre os músicos, cantores e toda a gente que faz parte do festival, mesmo a equipa técnica da RTP e essa malta toda, o ambiente é muito bom. É mesmo muito bom, isto não é balelas. O que me surpreendeu pela negativa foi a forma como eu via ser destilado ódio nas páginas sociais entre a malta que é amante, efetivamente, da Eurovisão e do Festival da Canção. Não estava à espera. Estava à espera da inclusão, estava à espera da partilha, estava à espera da aceitação.
Porque o festival é isso mesmo, o Festival da Canção e depois a Eurovisão.
Exatamente. E eu que até tive muito bons comentários, claro, tive um ou outro menos agradável, mas de uma forma geral tive muito bons comentários e a música muito partilhada. Mas custou-me muito perceber que havia à volta do festival e da Eurovisão algo quase podre, algo difícil, que é: estamos a falar de música, malta, isto é música, isto não faz mal a ninguém. Porque é que de repente... E depois viu-se no resultado final. Eu acho que foi incrível, a música dos Napa é espetacular. Acho que faz lembrar os Beatles e o tipo de composição que os Beatles faziam antigamente, porque é bem construída, tem um A, tem uma bridge, tem um refrão, tem um riff giro. E os miúdos começaram a ser maltratados.
Sim, só por ganharam.
Por ganharam o Festival da Canção. E essa parte, se por um lado eu tenho que dizer que o ambiente era maravilhoso entre os artistas, entre as pessoas todas que fizeram o Festival da Canção, por outro lado, essa parte desiludiu-me um bocadinho, efetivamente.
Estamos infelizmente nesta era em que as pessoas podem dar realmente a sua opinião, mas às vezes é preciso filtrar um bocadinho, porque às vezes não temos noção de como as palavras nos podem-
Mas sabes o que me deixa mesmo triste? É porque as pessoas têm necessidade de ouvir música, carregam num botão que se chama play. Normalmente, no mesmo botão, nem precisam de desviar o dedo, dá para pôr pausa e depois passa para a frente, deixa estar. A música é uma coisa que nasceu para unir as pessoas, para as pessoas se comunicarem. Portanto, chegamos a esta altura e começamos a perceber que a música faz com que as pessoas quase se odeiem umas às outras, por porem emojis nas páginas dos outros, muito foleiros. Essa parte foi a parte menos agradável, se calhar.
E não faz sentido. Marco Rodrigues, vamos fechar esta conversa, o tempo passa a voar. Se pudesses escolher um fado para pintar esta fase da tua vida, qual é que escolhias?
Olha, para pintar esta fase da minha vida, como isto foi uma conversa muito agradável.
Obrigado.
Se calhar, vou terminar desta maneira. "Seja bem-vindo, meu amigo, à nossa rua. Faz algum tempo não o via por aqui. Nunca é demais, há sempre espaço. Venha cá dar-me um abraço, porque à noite Lisboa sorri".
Bem, por agora não dizemos mais nada. Gostámos muito deste abraço.
Muito obrigado.
E gostámos muito de receber Marco Rodrigues. Muito obrigado.
Muito obrigado.
Até breve e muito sucesso.
Muito obrigado. Até já. Obrigado.