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O convidado de hoje é instrumentista, compositor, produtor e intérprete. É um dos nomes mais relevantes do fado. Acompanhou Amália Rodrigues em palco aqui em estúdio na semana passada. Aliás, fez ontem uma semana, subiu ao palco para celebrar 50 anos de "Boa Noite, Solidão". E há muito mais para conversar, como a paternidade. Enfim, nós queremos saber tudo e mais alguma coisa. Hoje em 40 minutos recebemos Jorge Fernando. Bem-vindo.
Muito obrigado.
Bem-vindo, Jorge.
Prazer. E obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Eu é que agradeço o vosso convite. Vou procurar ser sintético para podermos falar o mais possível.
De tudo.
Sim, eu tento aqui nas minhas introduções, eu tento nunca tirar muito tempo. Há muito mais, obviamente, para colocar, mas senão depois tiramos o protagonismo e nós não queremos, até porque temos muita coisa aqui para partilhar.
Não é por isso. É que nem sempre se tem a oportunidade de ter entrevistas onde se pode falar de tudo para além da música.
Claro.
E então eu aproveito sempre que me é possível dar-me a conhecer um pouco mais para além daquilo que faço na música. Daí eu estar a dizer que vou aproveitar para hoje falar o mais possível de mim, para que as pessoas também possam conhecer o meu outro lado.
E já agora, nós combinamos aqui, o Fernando disse logo: "É para tratar por tu, por favor". Portanto, que não soe estranho. Tu sentes isso mesmo, que as pessoas não te conhecem ou, por exemplo, limitam-te a um tema? Às vezes é esta questão de sentes que não há espaço para verem para além daquilo que conhecem, que sabem.
Para lá do microfone, não é?
São vários motivos que levam a isso, é um facto, mas são vários motivos. Primeiro, que as pessoas também não têm muito tempo para pararem a escutar, muitas vezes, muitas coisas ou tentarem saber e pesquisar. O tempo hoje urge. Tempo é dinheiro, que é a máxima aqui do Ocidente, contrariamente aos nossos amigos lá que saber esperar é uma virtude. É a máxima deles, contrapõe à nossa. Isso leva com que as pessoas não tenham muito tempo para dar de si próprias, para saber dos outros. Portanto, nós coabitamos num espaço onde somos perfeitamente estranhos, se calhar até estranhos à própria condição humana, que é o mais grave disso tudo. Essa correria, tudo aquilo que nos é dado e prendado diariamente com as novas tecnologias, que são maravilhosas, mas que trazem também o seu quê, que é aquilo de nos isolar e tornar-nos, digamos assim, pouco conhecedores uns dos outros, muito umbigais, será que existe a palavra? Muito com o nosso umbigo, e não percebermos que nós fazemos todos parte de qualquer coisa que tem a ver com todos nós. E seria bom olharmos mais uns para os outros, percebermos mais e tornar-nos mais tolerantes em relação a isso, porque quando a gente está sempre a apontar erros nos outros, é para afastar o pensamento dos nossos erros. Não sei se já disse alguma coisa que tenha interesse.
Nada, eu até peguei por aí, porque nós até íamos começar exatamente pela celebração da semana passada. Fez ontem uma semana que subiste ao palco, precisamente ao Tivoli, para comemorar os 50 anos, "Boa Noite, Solidão". Como é que foi 50 anos? Isto é um número muito redondo.
À medida que o tempo físico me vai afastando desses meus 16 anos, quando escrevi a "Boa Noite, Solidão" para o Fernando Maurício, mais eu vou percebendo que, e precisamente com esta festa que me foi feita, que mostrou mais uma vez o carinho que tem-se portado toda a minha carreira. Eu não sou uma pessoa muito mediática, até por escolha própria. Já passei por esse mediatismo e não gostei muito no tempo do "Um Badá" e da Lua. Eu gosto, é evidente, todos nós. Eu estou a falar e parece que me estou a contradizer, porque todos nós, eu quando era menino sonhava chegar ao grande público.
Claro.
Mas na medida em que cheguei com o Badá, que era quase assalto diário na rua.
E por que não gostaste? O que havia nessa altura?
Não é a minha natureza. Gosto da maneira como sou conhecido hoje, de uma forma mais saudável. As pessoas conhecem: "Olha, o Viola da Amália, olha o do Um Badá". Isso sim, percebes. Acho que há espaço para eu ser eu e não ficar intimidado com o sucesso que tive.
Claro.
Que me intimidou, é um facto, que foi muito bom, que hoje dura, repare, eu vou ser sempre Um Badá para toda a vida.
Eu ia falar disso.
Vou ser sempre, o que é ótimo.
Estávamos a falar sobre isso.
Isso não te causa nenhum desconforto? E até falávamos no início da entrevista, do fato de muitas vezes os artistas serem vítimas, entre aspas, do sucesso e ficarem ali quase fechados nesse sucesso. Para ti, isso não é um problema seres conhecido como o homem do Um Badá?
Não, porque eu acho que nenhum de nós pode estar perturbado pelo fato de ter usado fralda, já não usamos. Tudo é um crescimento, nós todos passamos por diversas fases na vida. Além disso, não me parece que Um Badá tenha sido assim tão perturbador que eu tenha que fechar os olhos de vergonha quando canto.
Nem de perto, nem de longe.
Depois, o que eu acho é que outros temas que eu escrevi para outros e para mim, como a Chuva, o Quem Vai ao Fado, o Pode Ser Saudade, essas coisas todas que eu escrevi, os Búzios, tudo depois foram amenizando um pouco o fato de estar só agarrado a Um Badá. E se calhar hoje a Chuva é muito mais.
Posso dizer de uma coisa muito curiosa. Eu, antes de vir para esta entrevista, o meu irmão mais novo perguntou-me quem é que nós íamos entrevistar hoje. Eu disse que íamos falar com o Jorge Fernando e ele, que tem 20 anos, uma geração totalmente diferente, virou-se e disse logo: "É o da Chuva".
A sério? Com 20 anos. Portanto, isso mostra também como a tua música tem essa transversalidade de gerações. Por acaso dizia-me isto neste sábado. Estava a falar com um amigo meu, Pedro Campos, que é administrador na SPL, dizia que percebia que a minha música era abrangente. Respondendo à tua pergunta, que mais posso eu agradecer à vida do que isso? De conseguir que a minha música chegue às pessoas de uma forma mais saudável. Claro. Jorge, falámos aqui há pouco da questão do tempo, e estavas a comparar que nós no Ocidente somos mais apressados, queremos mais ao mesmo tempo e mais rapidamente. 50 anos depois, ainda há tempo para mais? Achas que ainda há tempo para fazer coisas novas ou agora é tempo de olhar para o que já foi feito? A minha inquietação ainda não me deixou. Sou muito inquieto nessas coisas. É essa inquietude que me leva a trazer as baterias para o fado, que foi o que as trouxe, nos primeiros discos que gravei com a Brigada Vitor Jara. No fado, claro, porque eu sabia que a Brigada era especialista em ritmos portugueses e para meter bateria no fado, eu teria que levar ritmos portugueses, estar a pôr folques. É importante que tu chegues a algum lado com percussão ou bateria, mas que saiba a Portugal. Isso é importante. Uma vez vi uma entrevista brilhante do Piazzolla, que ele dizia que mexe-se na forma, mas não no conteúdo. E o conteúdo, neste caso, também passa pela força rítmica. Se tu, em vez de um malhão, estivesses a tocar um folque, estás a levar isto para a Califórnia. Portanto, há que respeitar essa coisa no fado, senão desvirtua-se. Não é que fique feio ou bonito, pode ficar muito bonito. O que é facto é que deixa de ser um apelo português à portugalidade. E penso que quando qualquer um de nós vai lá fora, quem nos vai ouvir vai esperar se sentir através desta linguagem universal, que não precisa de palavras, que é a música, sentir o peso do país de onde eu vou. Portanto, isso é que é importante deixar marcado. E com isto tudo, acho que me perdi na pergunta que fizeste. Do tempo, se ainda tinhas tempo, se achas que ainda há tempo para fazer mais. Eu acho que sim, enquanto isso preservar em mim, eu vou me sentindo vivo. Não estamos num país fácil, mesmo a nível de música. Eu acho que isto está a acontecer um pouco no mundo. Eu quando vim para a música, quando nasci para a música, quando começo a perceber a música, o que era importante era a diferença. Tu recuas no tempo, nos tempos em que eu era menino e começo a ouvir as grandes bandas mundiais e portuguesas, o que era importante era a diferença. Os Genesis eram diferentes dos Floyd, os Floyd eram diferentes dos Deep Purple. Por quê? Porque quem estava à frente das editoras eram músicos. A música não é do senso comum, não é a mesma coisa que fazer omeletes. Não é mesmo, não tem mesmo a ver essa ciência exata. E hoje, passado uns tempos, com a industrialização musical, à frente das editoras, começam a estar pessoas que estão mais ligadas ao negócio e a fazer dinheiro do que propriamente à música, se bem que não deem pelo facto de que uma coisa traz outra. E hoje, vais a uma editora e estás a falar com uma pessoa que possivelmente não tem senso musical, porque eu quando falo em músico não quero dizer que a pessoa toque ou cante, quero dizer que tenha musicalidade. E às vezes o que tem é jeito para o negócio. Sensibilidade. Música é sensibilidade. É sensibilidade, não tem nada a ver com tocar ou cantar. E essa sensibilidade nem toda a gente tem. E como hoje eu não a vejo muito essa sensibilidade, que me perdoem, me desculpem a sinceridade, então com quem tu estás a falar, tens que perceber como é que ela define a música, se é parecido com aquilo que está a ser tocado ou não. Se for parecido com aquilo que lhe está na cabeça, que vem de fora e que está a vender, é bom. Se for diferente, já não presta. Significa o quê? Meteste a música numa caixa onde dificilmente nestes tempos próximos poderão sair, a não ser copiarem-se uns aos outros. O "Boa Noite, Solidão", engraçado, tu escreveste aos 16. Não foi a primeira música, segundo sei. A primeira foi aos 14. Aos 15. Aos 15. "Trigueirinha". "Trigueirinha", muito bem. Olhando para a letra do "Boa Noite, Solidão", já agora, que escreveste para o Fernando Maurício, uma das maiores lendas do fado. Primeiro, que história está por trás desta canção e como é que aos 16 anos há sensibilidade para escrever uma música? Para quem conhece a letra, é fácil perceber o que eu quero dizer. Para quem não conhece, fica a sugestão de ouvir e de olhar para a letra, porque mesmo com 16 anos, como é que tu consegues escrever uma música como "Boa Noite, Solidão"? Olha, a história do Fernando eu posso contar fácil. Fernando era uma pessoa apaixonada aliás, notas pelo seu canto. E ele andava de paixão com uma fadista também. E numa altura em que se separaram, ele estava em queda emocional, estava em sofrimento, estava a padecer. Eu já lhe tinha mostrado dois versos que ele tinha adorado, que foi o meu amigo João, que ele gravou, e o "Arco da Velha", que começa: "Tenho as estrelas por telha, por meu leito um velho barco, por paredes a maresia, espreita-me o arco da velha, como se a velha e o arco me fizessem companhia". Ele já cantava esses dois temas meus. E então esses versos que eu tinha escrito. Não eram temas, eram versos. E então ele diz: "Por que não escreves uma história sobre este desamor que eu estou a sentir?" E eu acho que consegui captar aquela angústia que ele estava a passar na altura, porque eu nessa altura não tinha muitas angústias de amor, era muito cedo para ter essas angústias. Mas percebi, senti nele, acho que captei essa energia dele e lembro perfeitamente estar a escrever. Aliás, o espetáculo começou com uma parte assim meio teatral, em que tu só ouves o som, do que se passou. Eu a escrever, a minha mãe a chamar-me para comer, ele a ligar. Começou assim o espetáculo, foi uma ideia que eu tive descrevendo exatamente o momento, porque me recordo como se hoje fosse, quando escrevi a "Boa Noite, Solidão". A segunda parte, como é que eu escrevi isso com 16 anos, não sei. Mas esse meu lado triste veio comigo e vai comigo. Eu tenho esse lado.
E que não consegues explicar?
Não, não consigo te explicar. Quando eu me fecho em mim, é difícil. Se eu fosse o Fernando Pessoa, diria o que ele diz sobre o fado. Há um intervalo próprio ali em que todos nós às vezes estamos. E o meu é esse. Eu não sei bem se é triste, se é melancólico, é qualquer coisa de especial que me faz às vezes estar e eu não estar. Por exemplo, na Casa do Linhares, na Casa de Fado, todos já me conhecem. Quando estão a falar comigo, eu estou a abanar a cabeça, a dizer que sim ou dizer que não, eles já sabem: "Ele vai escrever, deixa-o estar".
E tu aos 16 anos-
Não estou a ouvir nada.
Como é que era o Jorge Fernando aos 16 anos? Já tinha esse lado triste também, melancólico, ou ainda não tinha maturidade para o sentir?
Esse lado veio comigo. Há coisas que eu acho que nós trazemos. Cada vez mais o avanço da ciência prova que são coisas que se trazem através do nosso carimbo. É uma coisa muito curiosa. E mais tarde eu comecei a perceber isso através de estudos, do Anaxágoras. Lês Anaxágoras, percebes que os arquétipos já se manifestaram no ar. O Platão mais tarde dá avanço a isso. Eu acho que era muito importante as pessoas perceberem essa coisa, porque realmente a vida pode tornar-se de um momento para outro uma coisa diferente se nós apercebermos. Nós temos o livre-arbítrio, mas o livre-arbítrio é uma coisa que, digamos, como estares no ringue com um boxer, tu podes fugir do boxer, mas não podes sair das quatro linhas. Então Anaxágoras diz isso, porque tudo para o Anaxágoras já estava plasmado no éter cósmico, à espera de descer à terceira dimensão. Como tu pões a semente na terra, se puseres a semente de alhos, por mais que tu queiras, aquilo nunca vai ser uma cebola, já lá está. Está plasmado na semente o que vai ser, ponto final. E o Anaxágoras defendia isso. Platão vai um pouco mais longe, diz mesmo que um cavalo, mesmo que lhe cortes as pernas, não deixa de ser um cavalo, será sempre um cavalo. Eu quero dizer isto que nós trazemos no nosso ADN, imputado em nós. Quem o faz é que eu não sei, nem estou interessado em saber, porque não me vai ser dado saber, mas alguma inteligência, alguma coisa rara, alguma energia, como eu costumo dizer, está por trás de tudo isto, num encantador segredo, que faz com que a gente nasça e já traga a nobreza para a qual acaba por nascer. E no fundo, para mim, o que é importante é chegarmos ao fim da vida e cumprir essa nobreza. O bate-chapa, que é bom arranjar o carro, o eletricista, que é bom arranjar a luz, e cada um cumprir da melhor maneira aquilo para o qual eu acho que nasce.
E neste caso, não sei se era isso que ias perguntar à Catarina. Quando esse dia chegar, tu achas que cumpriste também?
Acho que sim. Mas sinceramente, perdoe-me, acho que sim. Repara, muita vez na minha vida, sei lá, deixa-me dar-te um exemplo. Eu chego à Holanda, a um festival no Quartier Latin, em Paris, onde é o Sorbonne. Eu já lá tinha estado uma vez a ver um discurso brilhante do Jorge Luís Borges, de quem eu sou um grande fã. E depois tem no Quartier Latin, no European Paris, uma semana de fado. Carlos Zelos, Antonio Santos, Camané, Carlos do Carmo, a Nessie Varela, eu. E uns promotores da Holanda ficam comigo. Talvez pelo meu fado ser mais aberto, menos fechado, é comigo que ficam. E eu gravo um disco para essa editora onde levo mais tarde a Mariza, que é a World Connection, e levo também para esses promotores. Vai também a Ana Moura mais tarde para lá. E faço 21 concertos lotadíssimos. O meu disco tem quatro estrelas e meio atrás do disco do Sting, que teve cinco estrelas, que saiu na mesma altura. E depois aparece a Ana Moura, e eu acho que aquele talento é tanto, que esqueço a minha carreira completamente e dedico-me à carreira da Ana Moura, e ainda bem que o fiz, porque através dos discos que eu lhe fiz, veio o Prince à carreira dela, vem os Rolling Stones. Então acho que essa é a real nobreza pela qual eu nasci. Acho que o mais importante que eu trouxe comigo é a capacidade que eu tenho, que eu tive, para já, de desenhar carreiras, como o primeiro disco da Mariza, que é o único disco premiado dela. Foi o disco que eu produzi, que a trouxe, que é esta capacidade que eu tenho de observar onde melhor colocar as vozes e desenhar-lhes uma carreira que mais tarde acabam por dar frutos.
E para ti é importante que as pessoas saibam, por exemplo, porque eu acredito que a maioria não saiba sequer que tu estás por trás
Do sucesso dessas carreiras. Falaste na Mariza, falaste na Ana Moura.
Sim, na Raquel Tavares, na Flávia, no Ricardo Ribeiro. Sou eu que faço os primeiros discos. Não acho importante. Se souberem, melhor, fico contente. Se tu chegares ao pé de me dizer: "Olha, parabéns pelos discos que fizeste com a Ana". Está a ser feito um documentário. Já está feito, está a ser misturado e editado. Sobre mim, onde aparece a Ana a falar do que o Prince dizia dos meus discos, o Prince a tocar uma música minha, os Rolling Stones a cantar, por exemplo, "No Expectation" com letra em português misturada com a de inglês, como me tornou a parecer deles. Vai aparecer, por exemplo, o último documentário da Madonna, eu a cantar e a Madonna a dançar. Tudo isso são coisas que as pessoas não sabem e o Francisco Vasconcelos, tal como tu acabaste de referir, disse: "As pessoas têm que saber disso". Ótimo, se vierem saber, muito bem. Que seja o mais importante, até aqui não tem sido.
São muitas ligações, até porque há aqui outras que vamos explorar. Por exemplo, temos de falar também sobre a Amália Rodrigues, mas vamos deixar para a segunda parte.
Já para a segunda parte? Não sei. A segunda parte vai ter de esticar.
Vai.
Porque ainda temos muita coisa. Muito bem, hoje com o Jorge Fernando, convidado em "40 Minutos", aqui na Rádio Observador. Vamos então fazer uma pausa. Voltamos já, já a seguir. Estamos de regresso, depois da síntese e hoje à conversa com o Jorge Fernando em "40 Minutos". Começámos aqui por falar na celebração dos 50 anos de "Boa Noite, Solidão". Temos vindo aqui falar também da carreira e como tu estás também ligado a outros nomes do fado, mas temos de falar, obviamente, desta ligação à Amália Rodrigues. Nós queremos saber tudo.
Como é que eu hei de dizer isso? Até ao fim da minha vida. É Umbanda e é Amália Rodrigues, o viola da Amália.
Tens saudades dela?
É muitas saudades. Dela, de Fernando. E acredita que é saudades deles, não se trata de reflexos condicionados. Aqui Pavlov no meio. Não é eu estar a ter saudades de mim daquele tempo. Claro que tenho saudades de mim daquele tempo, mas tenho verdadeiramente saudades da Amália e das nossas conversas. Eu tenho um dos meus CDs que eu gravei com ela. Os últimos CDs que eu gravei. Ela escreveu, que é a minha grande pérola: "Jorge Fernando gosta de si como filho". Repara que não é como um filho, é como filho. Ou seja, eu fui o filho que ela gostaria de ter tido. E então nós éramos muito chegados, tínhamos uma cumplicidade tremenda. E então eu tenho saudades disso, tenho saudades das diabruras do Fernando Maurício. Ele era muito brincalhão, estava sempre a pregar partidas aos colegas, a toda a gente. E sobretudo das conversas com a Amália, porque vocês não imaginam a capacidade da Amália. Dificilmente se encontra dentro de uma pessoa, porque a fronteira é muito ténue, uma coisa que é argúcia e inteligência, ou ser arguto ou ser inteligente. Uma coisa normalmente não coabita com outra, raramente isso acontece. A Amália, não. A Amália, eu costumo dizer que Deus mostra que também tem o seu lado mau. Nem tudo é bom em Deus, porque pôs tudo dentro da Amália e nós demos bocadinhos.
Não distribuiu pelo resto.
Não distribuiu. Até Deus está intrinsecamente ligado ao mal, o que é um facto. Se é omnipresente, está em tudo. Isto foi uma brincadeira agora de passagem. As conversas com ela eram... Imagina um menino de 20 anos a ouvir-lhe dizer coisas que me marcaram para a vida toda, que se tornaram eu. Essas coisas dela se tornaram eu, tanto eu sentir a verdade das coisas que me eram ditas. De repente, sei lá, eu disse: "Ó Amália, mas a Amália não disse que não sei o quê, mas na entrevista..." E ela dizia, por exemplo: "Ó Jorge, muitas vezes eu não disse o que devia, mas nunca disse o que não devia". E estas coisas foram cimentando o meu caráter com 20 anos e percebendo que a Amália foi, no fundo, a minha universidade. Tinha tido o Fernando como instrução primária. Com 16 anos conheço o Fernando, depois a Amália, que a vida me pôs na vida para eu me tornar, com certeza, uma pessoa melhor, e que hoje não seria o que sou sem ter passado por ela, de jeito nenhum.
E há alguma história de bastidores que o Fernando goste de recordar com a Amália?
Há tantas. Eu acho que uma das coisas que a Amália gostava em mim era porque eu, também um pouco na minha inocência dos 20 anos, não era fingidor, não fingia. A gente às vezes discutíamos. Eu lembro uma vez, a Amália tinha uma carrinha Mercedes, ela viajava à frente, ao lado do condutor e o banco rodava, estava preparado para rodar para ela se virar para nós, para trás, para falar. E pegámos numa discussão educada, claro, sempre. Eu dizia: "Não, Amália, olhe que é". A Amália: "Não é". E eu: "É, não é?" E ela de repente diz: "Ó Jorge Fernando, daqui a pouco um dos dois está aqui a mais".
A partir desta história, parece que conseguimos ouvir isto com a voz da Amália.
Ela era muito inteligente. A inteligência por si só é um relógio de repetição. Às vezes é muito confundível o facto de uma pessoa ter uma grande memória, ler muito E estar a comer um caldo verde e a recitar Fernando Pessoa ou falar de Rembrandt. Eu prefiro falar do chouriço e do caldo verde. Mas normalmente confunde-se um pouco isso. Na minha opinião, o que torna a pessoa realmente inteligente é uma coisa que se chama intuição, que permitia à Amália, de repente, passados cinco minutos de estar numa conversa da qual ela nada sabia, já estar a discuti-la. Ela percebia imediatamente. Era impressionante. E essa intuição danada que ela tinha fazia com que a velocidade das suas respostas fossem tremendas. Naquele tempo não havia telefones, telemóveis. A Amália ligou-me num sábado a dizer que domingo estaria lá o José Manuel Louzdro, meu querido amigo, que também é uma pessoa que me deixa saudades, e o Rubens de Carvalho, por causa da Festa do Avante. Naquele tempo, a Festa do Avante conotava muito mais os artistas à filosofia do Partido Comunista do que propriamente hoje. Hoje há gente que não tem nada a ver com o Partido Comunista e vai à festa. Naquele tempo, não. Ainda há pouco tempo eu cantei em Itália com o Eugénio Finardi, que fez o primeiro Avante, e estávamos a falar sobre isso. E então o Rubens de Carvalho estava a dizer à Amália: "Amália, a Amália tem que perceber que vai cantar para dois milhões de pessoas. Passam na Festa do Avante dois milhões de pessoas". E a Amália logo: "Pois é, Rubens, mas depois preocupam-me os outros oito milhões que não vão lá estar". Portanto, esta velocidade de raciocínio desarmante, que desarma completamente qualquer pessoa.
Sim, não há resposta para isso.
Não há resposta. Realmente, você é vista por todos. E os outros oito milhões? Como ela não tem nada a ver com política, mesmo aquele lado que lhe é atribuído, da ajuda a muita gente revolucionária, tinha mais a ver com o lado humano do que o lado político, porque ela era uma pessoa muito humana. Ela achava por bem, mas o que é observável, no sentido de perceber o que a Amália era, é a velocidade de raciocínio dela, como de repente ela desarma quem lhe está a propor realmente ser vista por dois milhões de pessoas. Quem é que não quer ser visto? O problema são os outros oito, que não têm nada a ver com filosofias daquele tipo e que estão: "A Amália agora". Portanto, ela era muito cuidadosa, era muito inteligente. Foi um ser que foi realmente, sem dúvida, o ser mais importante no meu crescimento enquanto ser humano.
Acredito que sim.
Jorge, falando desse crescimento, queremos olhar aqui para algumas coisas mais pessoais, mas antes de fecharmos o capítulo profissional, não podemos não falar, e já falámos aqui um bocadinho do "Umbadá". '85, Festival RTP da Canção, quarto lugar, 168 pontos. Não ganhaste o festival, mas ganhaste o coração das pessoas, porque "Umbadá" foi talvez o maior sucesso desse festival, apesar de não ter ganho.
Umba deu.
Exato.
É inevitável, a pessoa fala e começa logo a acrescentar. Não é?
Obrigado.
Mas esperavas tanto sucesso na altura? Até pelo facto de não teres conseguido ganhar.
Como é que eu hei de explicar isso sem parecer uma coisa má? Eu desde que me conheço e comecei, que eu sabia que ia ter sucesso. Como é que eu te explico isto? É qualquer coisa interior que me diz: "É por aqui, não tens mais nada que fazer". Eu nas férias, uma vez quis comprar uma chatinha, que é um barco muito pequenino. Morava no Barreiro. Passei a minha vida toda no Barreiro e fui assentar alcatifas e colar papel de parede pra ganhar dinheiro pro barco. Também foi logo ao fundo. Chamei-me de chata. Eu andei, tentei outras coisas, mas eu sabia que é intransmissível. Eu sabia que era música, não havia nada a fazer. Curiosamente, a minha mãe, isso eu até tenho relatado. Eu não estudava, mas tinha boas notas, era bom aluno. E a minha mãe queria que o filho se formasse, o que era natural. Eu venho de um bairro pobre. A minha mãe sacrificou-se a vida inteira por mim e pelo meu irmão, porque nós ficamos cedo sem pai. Ela sacrificou-se para que os filhos tivessem um grau de instrução superior. E então não via com bons olhos o fato do filho andar-
Na música.
Sim, eu aos 13 anos já tinha um grupo de baile. Eu começo no grupo de baile. Antes de voltar ao fado, através da mão do Fernando Maurício, aos 15. Só quando eu vou tocar pra Amália é que ela percebe que não há nada a fazer. Ao contrário de mim, que eu sempre soube que não havia nada a fazer, que era por ali. E nunca foi fácil comigo. Eu via chegar gente de repente à música, ia a uma editora e já estava. E eu andava ali de um lado pro outro, e mostrava. Percebes? Nunca foi fácil pra mim, mas eu sabia que era assim. E se calhar, o fato de não ser fácil faz com que eu dê muito mais valor a isso.
Estavas a falar do "Umbadá", e eu tenho mesmo que recordar isto, porque eu acho que tu também vais lembrar desta situação, só pra encerrarmos este capítulo. Lembras-te da mixaria de temáticas da Rádio Comercial e o Ricardo Araújo Pereira? Na altura, ele disse que tinha sido uma injustiça e ele incentivou os portugueses a aderirem ao movimento "Umbadá Never Forget". Lembras?
Eu sei, o Ricardo disse-me que inundaram a RTP.
O Ricardo fez esse apelo. Pronto, e eu achei que tínhamos que falar e queria só te lembrar.
E resultou.
Porque tu na altura também te manifestaste.
Sim, e fui lá, fomos cantar juntos o "Umbadá". O Ricardo é incrível.
Mas resultou, porque estamos em 2023 e continuamos a falar.
E ainda hoje tens que cantar esse tema.
Tenho. Acabei o espetáculo. E sabes uma coisa? Há bocado estavas a referir à chuva Eu às vezes estou nos espetáculos aqui nas nossas terras maravilhosas. E eu vejo meninos de 15, 16, 17 anos: "'Um Badá'! 'Um Badá'! 'Um Badá'." Mas como é que um Badá chegou? São os pais, vão passando, uma canção fácil. No fundo, é isso, o segredo de Um Badá é ser uma canção fácil, é ser uma canção que qualquer um de nós poderia ter escrito e como tal, sentia como se fosse dele.
Isso também foi uma forma de tu tentares fazer uma pausa no fado?
Foi. Sabes, é a minha inquietação. Eu nunca estou parado. É daí que nascem os duetos com o Sam the Kid, com os Expensive Soul. No outro dia o Fausto dizia uma coisa e eu sinto isso um pouco na pele. Isso tem uma fatura, isso paga uma fatura. Repara que eu gravo os primeiros discos com baterias. Atenção que Adultos já tinham usado eletrónica. Justiça se faça a essa grande artista, sobretudo ao Zé da Ponte, porque a ideia foi dele. Com o Fairlight, que era um teclado computador que existia, já aparece com aquelas percussõezinhas, mas as baterias são eu que trago. E só em 16, 17 é que rebenta quando a Ana Moura e a Mariza e toda a gente começa a usar baterias, mas eu já as tinha. Portanto, já tinha dois discos com elas. Esta inquietação tem um preço.
Claro.
Tem um preço, porque tal como eu disse, hoje lidas com gente que está na música e que se calhar nem todos têm essa sensibilidade de perceber coisas.
Jorge, temos mais ou menos 10 minutinhos até o final. Já falámos aqui também de muitos renascimentos que tiveste ao longo da tua carreira, também essa inquietação que tens e que te faz reinventar.
Pareces a Mário.
Inquietação, inquietação, cada vez que tu falas a minha cabeça anda-
Não há como fugir. Mas houve aqui um renascimento. Tu tiveste também, em termos pessoais, em maio, tiveste uma operação muito delicada, muito difícil, durou sete horas, ao coração. Numa altura como essa, na preparação dessa operação, porque pelo que percebi, já sabias que ia acontecer essa operação, o que é que se pensa? Chegando aos 66 anos, uma vida inteira e de repente tens uma operação tão difícil para fazer.
Eu acho que primeiro que tudo, o segredo é não pensar. Mas claro que não consegues. É assim, eu sempre fiz desporto a vida inteira, fui internacional júnior.
A sério?
Sim.
Futebol?
Sim, fiz karaté a vida toda. Aos 40 anos deixo o karaté, vou pro boxe com o Orlando Jesus, sempre ligado ao desporto do mais alto nível. E eu nasço, sem saber, com uma válvula bicúspide. Significa que tem dois orifícios de saída para expelir o sangue, em vez de três. E não sabia.
Quando é que descobriste?
Por volta dos 60 anos, andava a jogar à bola com os embujos, com o Marco Rodrigo, a gente jogava à bola e claro, venho de escola de jogador. Sempre adorei jogar e começo a sentir que tenho que me baixar de vez em quando.
Sentes que algo não estava bem.
Aos 60, repare, sou operado aos 66. Começo a sentir suores, acordar de noite a suar, estar a comer, começar a suar, faltar-me o ar. E a Fábia dizia-me: "Não tenho bom feeling, temos que ir ao médico". E um dia foi de tal maneira que eu fui mesmo ao hospital e fiquei logo lá. Estava à beira de um fulminante. Foi quase, digamos que a Fábia foi minha fada madrinha, para além de mulher naquele instante. Estive internado e daí para cá tenho vindo a ser observado. Como tu sabes, o ser humano tem essa capacidade tremenda de se ir habituando às coisas, mesmo as maleitas.
Claro.
Se tiveres um acidente e ficares a coxear, tu habituas-te a andar assim. E eu fui me habituando ao facto dessa insuficiência estar dentro de mim. Até que, de repente, nos últimos exames que faço, a aorta estava com um aneurisma enorme, pronta a rebentar, e sou assim operado de urgência. Não dá para pensar. A única coisa que eu me lembro é quando vou para ser operado, porque a gente estuda, vai à net e estuda, vê como é que aquilo é. Tu sabes que o teu coração vai sair fora, vai estar dentro de um líquido, que o teu sangue vai chegar ao cérebro por uma máquina. São coisas que os médicos maravilhosos que não ganham como os Ronaldos desta vida, mas que na minha opinião, têm muito mais importância que o resto todo, porque nos vão salvando assim e dando mais qualidade de vida à gente. A única coisa que acho que cai um pouco em mim foi quando se fecha a porta do elevador. A Fábia foi-me levar ao elevador e ela começa a chorar. Aí é que eu achei: "Epá, espera aí". Aí é que houve, digamos que um baque. Fiquei assim. Porque de resto, eu sou muito positivo, eu aguento-me bem, não tenho assim esse tipo de momentos.
Nota-se bem.
Isto para te dizer, a primeira coisa que eu sinto, há duas sensações quando acordo. Eu, entretanto, a anestesista era uma senhora fantástica. Nós estávamos a falar e ela disse: "Eu vou-lhe administrando devagarinho a anestesia", porque aquilo eram médicos por todo lado. E eu lembro-me de ter dito assim: "Ó doutora, realmente esta coisa que eu estou a sentir faz-me pensar que eu às vezes quando penso que nós não somos apenas isto, nós não somos uma coisa que dure uma paixão efémera, que dure do berço à cova, não somos apenas isto. Está a tomar forma agora que estou a ser anestesiado, porque nunca o fui Porque parece que estou num sítio, agora percebo porque é que eu digo o meu dedo e não o eu dedo. Eu não sou o dedo. Eu digo a minha perna, não digo eu perna. Eu não sou a perna. Há qualquer coisa que possui tudo isto que me é dado, que é o corpo. Porque estava ali num sítio realmente onde eu nunca tinha estado. Já tinha sido sedado, mas nunca anestesiado. E a última coisa que me recordo é ela dizer: "Pode contar isso a quem quiser, porque eu atesto aquilo que me está a dizer. E agora vá descansar". E quando acordo, as duas sensações que eu tenho: a primeira é de aflição, porque tinha o tubo na garganta, porque tu quando és anestesiado deixas de respirar por ti. É a diferença da sedação. E tiram-me logo o tubo e depois é o alívio com que eu estou a respirar. É incrível. A primeira coisa que eu sinto podiam ser as dores, porque abrem-te o peito, cortam-te ao meio o esterno, têm que abrir, têm que rasgar tendões, é tudo puxado. Mas a primeira coisa que eu sinto é o alívio do meu peito.
É o fôlego.
É respirar, a leveza. E com toda esta minha conversa, quero deixar aqui realmente um abraço a toda esta gente que se dedica a sermos melhor enquanto seres humanos viventes neste corpo. Acho que eles merecem tudo.
E tu ainda por cima foste operado e tinhas a tua filha pequenina.
Tinha a minha filha pequenina.
Já são quantas?
É o quinto filho.
Quinto filho.
Não, fico por aqui, calma. Já pensei num chinês, não tenho nenhum chinês. Se fosse o Amrelino ficava giro.
Mas não estás farto de filhos ainda?
Não, os filhos nunca fartam.
Como farto? Nada de farto.
Com tantos? Credo.
Não. Eu adoro crianças, não sei se é a ingenuidade deles, se é a pureza deles que me encanta, o tamanhinho. Adoro crianças.
E o facto de teres sido pai agora nesta fase dá-te que pensar ou levas com muita leveza?
Não. Levo com muito menos leveza, porque quando tive os meus outros quatro filhos, inclusivamente a Maria, que já tinha 40 e tantos anos, não tinha tempo físico, tempo de espaço. A minha cabeça ainda se preocupava com coisas que hoje não se preocupam, porque nós vamos crescendo.
Aprendes a relativizar.
Exatamente. Hoje, esta menina está a levar de mim muito mais do que os outros, porque para além de tempo, já tenho outro espaço mental.
Outra sabedoria.
Para não estar preso a coisas que não me interessam agora para nada. Outra sabedoria, sim, exato. Tenho muito mais para dar e eu próprio, aí é que está, estou desfrutando mais.
Olha, e é inevitável esta pergunta final. André, estás a dizer que não, já estamos mesmo no limite. Mas estou mesmo para, e é quase que o universo. Tu estás com a Fábia, que é prima da Amália Rodrigues. Isto estava escrito.
Referes-te às voltas que a vida dá.
É o universo, o destino.
Porque a Fábia é consanguínea ainda com a Amália. É terceiro grau, portanto não é uma prima afastada, é uma prima muito chegada à Amália, consanguínea ainda. E eu venho a ter uma filha que é prima em quarto grau da Amália e da Celeste, a minha queridinha Celeste, irmã da Amália, e ter por companheira na minha vida uma prima de ambas.
Estava escrito, achas?
Pois, eu não sei. Será que essa afinidade que eu senti com a Amália já tem muito a ver com aquilo que a gente não vê e está à espera de ser visto? Portanto, olha, o tempo dirá. Eu sei que um dia... Eu tenho esta coisa, eu estudo muito. Estudei muito religião, andei pelo espiritismo, enfim, tudo o que é religião.
A parte metafísica.
Exatamente, a parte mais metafísica, sempre ligada à ciência. Não consigo separar. Só a fé, a fé cega é uma coisa que comigo não funciona. Ou tenho que aperceber através do sentir ou então não contem comigo para isso. Não é aquele tipo de jogador que imagina: vai marcar um penalti e reza, falha o penalti, então Deus já não existe. Estás a perceber? Não é por aí que eu vou. Eu tinha algumas discussões com amigos meus sobre a matéria negra, energia negra, o buraco negro, e os meus colegas às vezes diziam: "Estás a ver, Deus existe, por quê? Isto é tudo científico." E eu dizia: "Não, eu acho que isso ainda prova mais que Deus existe, porque isso não é moeda ao ar. Tens o buraco negro, tens a energia negra que prende tudo o que está no sítio, a lua não está pregada com prego, e depois haverá matéria negra onde se supõe que Andrômeda vai absorver a Via Láctea e por aí fora. Portanto, isto não é moeda ao ar, não é ao calha. Mas se sente uma inteligência superior por trás disto tudo. O que é? Não me perguntem, quem sou eu, coitadinho, para saber disso. Era o que faltava, agora ser o escolhido.
Olha, já estamos mesmo no limite. Portanto, temos que ficar por aqui. Com muita pena. Foi um prazer receber-te.
Muito obrigado.
Volta sempre. Hoje, Jorge Fernando. Em 40 minutos, na Rádio Observador. Estamos de regresso para a semana.
Até à próxima.
Até à semana.