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Tímida, os sapatos vermelhos eram uma espécie de superpoder para subir ao palco. Cantora, compositora e multi-instrumentista, para além da sua carreira na música a solo, Rita Redshoes é também conhecida no mundo dos mais pequenos pelas muitas iniciativas que já criou e que já participou. Aliás, tem novidades. Chinfrim é o novo espetáculo para crianças. Eu também já revelei: hoje recebemos Rita Redshoes em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Bem-vinda, Rita.

Bem-vinda, Rita.

Obrigada. Olá.

Sempre um prazer. Já não nos víamos há tanto tempo e já vamos obviamente falar aqui do Chinfrim, que é este espetáculo que já deste o pontapé de saída, mas já lá vamos. Tu disseste numa entrevista que gostavas de escrever sobre o mistério da vida e sobre o que estamos aqui a fazer. Nestes teus anos de vida, já descobriste o que estás aqui a fazer?

Tem dias.

Uns mais, outros menos.

É complexo. Eu acho que é daquelas questões existenciais, que se descobrirmos depois também perde a piada. Há uns dias que eu acho que sim, outros dias que eu digo: "Não, não percebo nada disto". Confesso que desde que fui mãe, se tornou mais claro. Neste momento, obviamente, o meu propósito maior é criar a minha filha.

Claro.

Antes disso era mais confuso, mas também acho que sinto cada vez mais que este caminho que fui fazendo através da música, um dos meus propósitos é dar e aprender a não esperar para receber. É só dar. Mas é um caminho um bocado ingrato, às vezes, e confuso.

Sim, e nessa diferença entre a tua persona musical, a Rita Redshoes e a Rita Pereira, a tua persona mais pessoal, que diferenças é que há entre uma e outra? Consegues notar diferença?

Não, também é um pouco confuso, porque na verdade aquilo que faço na música, aquilo que escrevo, é um espelho de ampliação daquilo que eu sou enquanto pessoa e daquilo que eu vou vivendo. Das histórias que vou colecionando.

Tu foste escrevendo sobre ti as músicas que foste lançando ao longo da carreira, notas que são sempre um bocadinho sobre ti, sobre aquilo que vês?

Sim, nem sempre sobre mim, mas sobre histórias que eu vou recolhendo, como dizia, de pessoas com quem me cruzo ou histórias que ouço, coleio. Eu não sou aquela pessoa que escreve sobre personagens nas canções. É raro, já me aconteceu, mas é uma coisa um bocadinho mais de testemunho do que de história propriamente, ou de crítica mais interventiva, social. Não é tanto esse o meu campo de criação.

Claro. E essa tua timidez que eu falava do início?

Está aqui, não reparaste?

Ainda.

Não!

No palco já não se nota.

É verdade. Sim, se calhar.

No palco, uma das diferenças é essa, é que obrigatoriamente-

Tu transformas

...tenho que arranjar maneira de não ir para trás da bateria cantar. Me tapar.

Tu sempre foste assim, mesmo em criança e tudo, tímida?

Sim, eu era terrivelmente tímida. Eu tinha quase fobia social.

Uau!

Sim. E portanto, a primeira vez que a família me viu em palco, disse: "Não, isto é estranhíssimo".

A sério?

Porque eu era a miúda dos primos todos, que ninguém diria que alguma vez subia a um palco, porque eu era mesmo muito tímida. Aliás, eu fugia. Naquelas coisas de peças de teatro da escola e isso tudo, nos ensaios eu fazia, no dia eu fugia, não aparecia.

A sério?

Sim.

Chegaste a faltar?

Cheguei. Mesmo em coisas de família, a minha mãe às vezes ensaiava umas peças para o Natal com os primos.

Que giro.

E eu na altura fugia. Ninguém sabia onde é que eu estava. Vejam lá.

E foi essa pessoa que deu Música.

É verdade. É uma coisa bizarra. É uma espécie de uma vingança autopessoal.

Sim. E tu ainda por cima és licenciada em Psicologia. Como é que surgiu de repente o curso, a música?

A música surgiu antes, na verdade. Eu fui estudar música no 10º ano, fui tirar um curso profissional e depois entrei na Escola Superior de Música, mas não me dei bem lá e portanto desisti. E nesse interregno, não sabia bem o que é que havia de fazer, mas era uma miúda, portanto queria estudar, mas não sabia bem o quê. Não é como música, que felizmente há muitas escolas e podes estudar música. E então comecei a fazer terapia e percebi que era um processo interessantíssimo. E então disse: "Olha, isto é uma coisa interessante para estudar". E fui tirar uma licenciatura, não com o intuito de vir a exercer, mas com o intuito mesmo de aprender, de conhecimento, de curiosidade.

E daquilo que aprendeste na psicologia clínica, que pontos em comum é que há entre a música e a psicologia, se é que há alguns? Acredito que haja.

Estamos sempre a falar das emoções e do ser humano, de alguma forma. Portanto, essa é a ponte. Mas eu não uso a psicologia ou aquilo que aprendi na psicologia para fazer música. Aliás, até é bom que esteja longe, porque considero que o espaço artístico é um espaço de instinto E, portanto, não de racionalidade. E a psicologia obviamente também depende da observação do comportamento e já requer algum pensamento sobre isso. Há uma racionalidade. Portanto, eu acho que a arte é o espaço em que eu devo permitir que isso não entre. Depois, quando uma pessoa já está há muito tempo na indústria, é muito difícil de fazer.

Pois. E, por exemplo, a psicologia ajudou te a encarar a indústria da música? Eu faço esta pergunta porque nós sabemos que, e acho que hoje em dia a maior parte das pessoas já percebeu, que não é um mundo tão glamoroso como há uns tempos se pintava, e nós temos recebido muitos nomes da música aqui no "40 Minutos", e nós sabemos que é um meio, à semelhança de tantos outros, difícil, que tem sempre alguns preconceitos. Ainda há pouco, em off, estávamos a falar que há uma fase agora um bocadinho estranha na música. Em algum tempo a psicologia ajudou-te ou deu-te algumas ferramentas para encarares de outra forma uma coisa que se calhar estava completamente abaixo, mas conseguiste encontrar ali outra razão ou dar a volta?

É difícil. Os meus professores na faculdade diziam muito isso: "Bom, provavelmente muitos de vocês vêm aqui tratar-se, mas tirem essa ideia da cabeça, porque ninguém se trata a si próprio sozinho ou por conhecimentos de psicologia". Na verdade, eu acho que nós só nos apercebemos da nossa existência e do nosso comportamento em relação com outros. E, portanto, posso ter uma visão um bocadinho mais aprofundada nalgumas situações do que é o meu comportamento, ou uma maior consciência, ou até do comportamento de pessoas com quem eu tenho que me relacionar na indústria. Mas depois aquilo que se sente, no meu caso, é muito mais forte do que a racionalidade. Falamos daquilo que eu mais gosto de fazer na vida, que mexe com emoções e é muito difícil de tentar justificar algumas coisas racionalmente. Ou melhor, tenho momentos em que possa ter essa lucidez, mas depois aquilo mexe mesmo conosco e o aspecto de tentar analisar pode ajudar, mas não cura, não trata.

Claro.

Sim, e por falar em preconceito, para além de ser uma indústria que é competitiva, muito rápida, às vezes até violenta, também há a questão, e já mencionámos aqui muitas vezes, que é a questão de seres mulher. Notaste que no início também olhavam pra ti com algum preconceito, alguma reticência? Olhavam pra ti e se calhar diziam: "É mais uma cara bonita, não é tanto pelo talento." Notaste isso no início?

Sim, em determinados contextos, sim. Havia um bocadinho isso, mas também beneficiei disso, de não haver muitas mulheres, na altura, compositoras a aparecer. E de ter uma cara apresentável.

Apresentável.

Pronto.

Aspas.

Porque obviamente que isso não vale a pena estar aqui com falsas modéstias. O facto da pessoa ter um aspecto que chama a atenção nalgum sentido, ter um bom ar ou um ar saudável, isso pode facilitar. O ser humano é muito aberto a estas coisas. Mas sim, noutros contextos senti. Hoje não tanto, porque já passaram muitos anos, já fiz muitas coisas e sobretudo eu não sinto que tenho que provar nada.

Isso é maravilhoso, não é? Dá uma certa leveza.

Dá muita leveza. Muita leveza mesmo. E mesmo em situações que eu perceba: "Bom, esta pessoa acha que eu se calhar cheguei ontem ou que não sei o que é que estou a fazer", a minha calma é muito maior em relação a isso. Eu já não fico irritada, não me zango com isso. Só tento desculpar e tentar compreender que se calhar a pessoa não sabe o que já foi palmilhado. Mas no início era duro, porque cheguei a ouvir coisas de que afinal não fui eu que fiz as canções ou que eu não estava a tocar em palco, era só tipo o boneco. Ou sobretudo quando trabalhava em parceria com outros homens, era completamente posta de lado. Eu cheguei a ouvir coisas do gênero: "Vê lá se a munição dela está bem." Comigo ali. Eu não sou surda. Portanto, houve vários episódios um bocadinho inusitados em relação a isso. Hoje em dia, se uma coisa dessas acontecer, já não me afeta dessa forma, mas é uma luta que eu acho que tem que ser travada. Mas curiosamente, nos dias que correm, é muito interessante, eu fico muito feliz. A maior parte dos hits que estão na rádio e dos grandes concertos que são feitos são por mulheres portuguesas, e não só. Esse aspecto mudou muito, o que quer dizer que alguma coisa está a mudar também. Eu fico muito feliz de que, se calhar, muitas colegas minhas muito mais novas já não vão passar essa discriminação tão estranha.

Neste teu trajeto pela música, há algum nome que tu terás sempre que agradecer? Alguém que tenha estado ao teu lado? Muitas colaborações e toda a gente se conhece no mundo da música, mas há alguém que pra ti seja sempre aquela pessoa?

Olha, felizmente eu tive e tenho muitas pessoas com quem trabalhei e que me ajudaram em pontos diferentes da minha carreira, em alturas diferentes. Inicialmente a minha banda, que eram os meus amigos, e que foi com eles que eu descobri que era isto que eu queria fazer. E portanto, ter esse espaço de conforto e de amizade para poder descobrir-me. Portanto, agradeço muito aos músicos da minha primeira banda, que eram meus amigos.

Os Atomic Bees?

Exatamente, os Atomic Bees. Ao meu irmão, que fazia parte dos Atomic Bees e que sempre me apoiou e que sempre me motivou e dizia: "Não, tu vais fazer e as coisas vão acontecer". Depois disso, eu diria que o David Fonseca, por me ter convidado a tocar com ele e por ter tido a paciência de ouvir as minhas primeiras maquetes e de dizer: "Não, Milda, tu um dia estás a gravar um disco, não vais ficar aqui a tocar comigo o tempo todo". Depois à Paulo Homem, que foi a primeira pessoa na indústria que também se sentou comigo a ouvir as minhas maquetes e que disse: "Vamos aguardar, mas tu vais editar". Depois, à minha primeira agência, ao Paulo Salgado e à Atish. Há muita gente, e hoje em dia à minha agência atual, a Sons em Trânsito, ao Vasco Sacramento e às pessoas que trabalharam comigo no duro, no campo. De ir para o palco, aos músicos que me ajudaram, aos técnicos que me ajudaram. Ainda hoje, por exemplo, o Carlos Carvalho, que é um técnico de luz maravilhoso, que trabalha há anos e que começou desde o início comigo, ainda continua. Foi comigo fazer o Chinfrim para o norte no dia 15, sempre com a mesma vontade. Há pessoas que em diferentes trabalhos, em diferentes áreas, me ajudaram e que me inspiram. E eu gosto muito de sentir essa coisa da família. E eu sou mesmo muito grata a essas pessoas todas, que eu sei que elas sabem quem são, e eu não quero estar aqui também a nomear, porque me posso esquecer de alguém.

Sim, claro, óbvio.

Mas são muitas, felizmente.

Cada uma na sua altura, não é?

Sim, e com o seu trabalho, ajudou-me em diferentes áreas.

E que são mais do que teus colegas, consideras como teus amigos. É difícil fazer amigos na indústria da música?

Depende. Muitos deles eu considero meus amigos, aliás, considero quase a minha família. É a minha segunda família. Eu brinco e costumo dizer que é mesmo a minha segunda família. E é, nós passamos muito tempo na estrada, muito tempo com estas pessoas, em situações às vezes de cansaço extremo, de desilusão. Passamos por muitos estados e estas pessoas continuam lá.

Pois, porque nós aqui, estou a falar eu e a Catarina, mas também os nossos ouvintes, se calhar não temos bem noção o que é andar na estrada, em tour, durante meses e meses sem ver a família. Isso é mais violento do que as pessoas pensam?

É.

Também é mais divertido, certamente, não é?

Também.

Tem os dois lados.

Tem os dois lados. Claro que eu costumo brincar que os músicos são infantis para sempre. Crianças para sempre, porque têm uma profissão, que também é uma coisa que depois sofrem às vezes consequências disso, porque as pessoas acham: "Ah, eles adoram fazer isto, não é preciso pagar." É um bocadinho isto.

Sim.

O que é verdade, no sentido em que eu não conheço ninguém na indústria que não adore isto, isto é um vício.

É aquela linha muito ténue entre o trabalho e o amor.

É, é uma linha muito ténue, porque até em casa eu costumo dizer: eu não tenho horário de trabalho, eu não tenho férias. Por quê? Porque no meu caso, como crio coisas, a minha cabeça está sempre a trabalhar. Eu não desligo um horário, não chego a casa e desligo. Não, eu estou 24 horas, ou as horas em que estiver acordada, eu estou a tentar criar coisas, ou canções, ou espetáculos, ou ideias.

Vais apontando no bloco de notas?

Sim. E penso: "Ok, isto não é para já, mas vou trabalhar nisto, se calhar daqui a dois anos", como foi o caso do espetáculo do Chinfrim. Isto tem o seu lado desgastante. Quando as coisas acontecem, depois é um orgulho imenso. Mas é uma coisa desgastante do ponto de vista emocional e depois é interessante, mas a família ou acompanha este ritmo e está em sintonia com isto, ou então começamos a criar uma coisa estranha. Porque de repente, a pessoa está sempre embrenhada ou não está presente. Ou está um bocadinho a pensar em coisas, a criar coisas, portanto, está num mundo próprio. Desde que a minha filha nasceu, tento muito separar. E quando estou com ela, estou com ela. Ou estou com ela a tentar criar coisas. Porque é uma maneira de a integrar e dela perceber o que é que se está a passar na minha cabeça. E não ficar em separação. Mas é duro, porque depois são muitas horas com cansaço, a comer mal, a dormir mal. E toda gente tem a sua personalidade.

Claro.

E tu estavas a falar da tua filha. A tua relação com a música mudou depois de teres sido mãe?

Eu acho que não muito. Eu acho que só fiquei mais viva. Ficou tudo um bocadinho mais à flor da pele, porque ela veio dar mais sentido às coisas e à minha própria existência.

Aquele sentido que falávamos no início.

Exatamente. E portanto, desse ponto de vista, sim. Do ponto de vista da paixão que eu tenho pela música, eu acho que desde sempre nunca mudou, graças a Deus. No dia que mudar, deixa de fazer sentido.

Vamos falar bastante sobre crianças, sobre a tua relação com a tua filha, mas principalmente sobre o Chinfrim.

É nesta altura que vais pôr agora a cama.

É nesta parte.

Pronto, é sempre. Eu reparei, quando eu lancei esta última pergunta à Rita, eu olhei.

Mas eu fiz o sinal errado, porque o sinal que eu te fiz foi, assinei que sim com a cabeça, e depois pensei: "Devia ter assinado que não, porque eu assinar que sim, estou no fundo a dar-te a mensagem de não, podes avançar."

Mas eu já consigo ver pelo teu olhar. O teu olhar não foi daquele do género: vai sem medo. Foi mesmo aquele de: pronto, ok, vamos lá. Muito bem, hoje Rita Red Shoes em "40 Minutos". Vamos agora às notícias. Já voltamos então à conversa. Deixe-se ficar está com a Rádio Observador. Estamos de regresso e hoje à conversa com Rita Red Shoes em "40 Minutos" aqui na Rádio Observador. Já falámos muito no início, temos vindo a falar também da tua relação com a música, o teu curso. Ficámos na maternidade e temos também o espetáculo Sinfrinho para falar, que é a grande novidade. Mas ficámos naquela pergunta, eu coloquei a questão se a maternidade tinha mexido, nunca questionando o teu amor pela música, porque aliás, voltando aqui, sempre foi muito claro. Era mais claro que tu querias fazer música do que propriamente exercer psicologia.

Sim, claríssimo.

Isso claríssimo. Lembrei-me, quando tu disseste que querias fazer música, o que os teus pais disseram? Esta é sempre aquela pergunta que nós fazemos, porque sabemos que é sempre um meio muito incerto e os pais nunca querem.

Sim. Eu espero que a minha filha não seja música. Digo-lhe muitas vezes: "Não, filha, médica". Os médicos, coitados, também, enfim.

Sim, exato.

Mas pronto.

Saúde e vocação nesta fase.

Enfim. Ela será o que ela quiser. Os meus pais foram muito queridos, foram muito compreensivos.

Que bom!

Eu acho que, de certa forma, ajudou os meus pais gostarem muito de música. O meu pai ter uma profissão também pouco convencional, porque o meu pai foi jogador de futebol profissional. E a minha mãe ter também uma mentalidade aberta e, de certa maneira, como gostava muito de arte, pensar: "Pode ser. Logo se vê." E portanto, apoiaram-me bastante desde a banda, deixarem-me ir com 14, 15 anos tocar à noite. Estava lá o meu irmão mais velho.

Quando a tua filha pedir.

Não, aos 14, 15 anos, não. Ainda estamos a brincar com bonecas. Eu às vezes penso nisso. Não sei, vamos ver. Vamos ver como é que eu vou lidar com essa parte. Mas sim, os meus pais foram mesmo muito compreensivos e portanto apoiaram-me a ir estudar música. Eu acho que hoje em dia esta ideia de ter profissões certas também já desapareceu um bocado.

Sim, claramente.

E não é por ter um curso superior que se vai ter um emprego. Mas na altura, não.

Há uns anos, a instabilidade estava associada a tudo que era arte. O teatro, o cinema, a televisão, a música.

E continua, porque são profissões que não são certas, e há muita gente, há cada vez mais gente a fazer. E o meio, sobretudo o português, se nos cingirmos só ao meio português, de facto é pequenino, portanto, se calhar não dá para toda a gente. Mas hoje em dia ninguém pode dizer: "Ok, tirei este curso, vou exercer isto o resto da minha vida e vou ter uma vida muito estável". Isso não existe.

Sim, cada vez menos. Rita, já percebemos desde o início o papel que a música tem em ti, o que significa pra ti. Gostava de olhar aqui pro papel que a música teve numa altura menos boa da tua vida, e explicaste isso muito bem e de forma muito transparente. Aliás, eu sou completamente fã, vi todas as entrevistas do Labirinto aqui da Rádio Observador. Para quem não conhece, são entrevistas sobre-

E agora em livro

...e agora em livro, exatamente, também editado recentemente, sobre saúde mental, sobre vários domínios da saúde mental. No teu caso, falaste com a Sara Antunes de Oliveira sobre uma depressão pós-parto que tiveste.

Com a Carla Jorge.

Com a Carla Jorge Carvalho, exatamente, com esta dupla que nós tínhamos. De que forma é que a música, nessa altura, te ajudou também a ultrapassar aquela altura mais difícil?

Enfim, quando eu estava no epicentro da coisa, não se consegue fazer nada.

Sim.

Porque é um pânico total e portanto ficamos completamente toldados de movimentos. A seguir, quando eu comecei a conseguir voltar a mim, escrevi muitas das canções do meu último disco, do lado um, ainda um bocadinho neste espírito da depressão pós-parto, mas já com a esperança de que já estou a ver a luz ao fundo do túnel. Aliás, há uma das canções do disco que é muito clara em relação a isso, que se chama "Vai Tristeza". Tentando desmistificar um pouco.

Que é importante.

Que é importante. Eu acho que a maternidade tem coisas maravilhosas e há pessoas para quem tudo é bom e harmonioso e que corre tudo muito bem, mas o outro lado também existe e muito, mas no silêncio. E estas pessoas ficam muito isoladas, com vergonha. Eu acho que há uma vergonha e uma culpabilidade brutal em cima das mães por sentirem que não estão a sentir o que era suposto. "Eu finalmente sou mãe, tenho aqui um bebê, que bênção." É tudo isso, mas também é um lado muito duro e muito desgastante. Ainda hoje falava de manhã com uma amiga sobre isso. Eu, por exemplo, amamentei a minha filha três anos e meio. É uma violência fisicamente. Claro que eu podia, e tinha algumas pessoas: "Mas corta isso". Mas isto depois, na prática, não funciona também bem assim. Porque nós temos ali uma criança que amamos profundamente e vamos dizer: "Não, a partir de hoje acabou a amamentação", por exemplo. Eu não consegui fazer isso, não consegui em muitos casos ter essa calma, se calhar, para tentar gerir as coisas de outra forma menos desgastante pra mim E, portanto, eu sou uma pessoa intensa e que para mim a maternidade representa muitas coisas. Eu acho que há pessoas mais descontraídas, felizmente, do que eu. Mas também há muita gente que vive isto como a grande viagem da vida para uma mulher ou para um homem. Só que isso acarreta muitas coisas. E, portanto, uma pessoa sentir que afinal não era bem o que tinha imaginado, que é um bebê lindo, que é tudo perfeito, lacinhos ou calcinhas. Não é bem assim. É um desgaste brutal. Eu dormia de meia em meia hora, estava a ser acordada para amamentar, por exemplo. Isto é muito duro. E depois acho que é esta ideia de: há ajuda, é possível ser de outra maneira. Eu acho que isto é muito importante. E está bem, está tudo bem. E eu não acho que seja pior mãe, nem fui pior mãe por ter passado por isto. Não acho que a minha filha tenha sido afetada emocionalmente ou no seu crescimento. A minha filha é uma miúda super feliz, cheia de energia, podia ter um bocadinho menos. E, portanto, não acho que isso tenha sido uma coisa penosa. E é isso que eu também gostava de passar às mães: calma, isto é uma fase, vai passar, vai mesmo e vamos conseguir usufruir dos nossos filhos e da maternidade e não somos piores mães por isso.

E só para quem não acompanhou, quando é que tu tiveste noção do que estavas a passar?

Eu tive relativamente cedo, porque aí ajudou-me ter um curso de psicologia, porque eu comecei a perceber.

Fizeste o teu próprio diagnóstico?

Sim. Ou seja, há ali aquela fase chamada mais ou menos normal, que é o baby blues, ali uns dias a seguir ao parto. Só que o meu baby blues estava aí muitos dias. E depois como eu tenho um historial de depressão, não só no pós-parto. Eu desde pequenina tive muitos episódios de ansiedade e de depressão, eu já conseguia detectar o que é que estava a resvalar. E portanto, apercebi-me relativamente cedo. Ali duas semanas depois do parto, eu disse: "Ok, isto já não está a ir pelo caminho certo." E agi, fui à procura de ajuda e encontrei o Centro do Bebé, que recomendo. Tem equipa de profissionais maravilhosa, psicólogos, psiquiatras, enfermeiras, centradas não só no bebê, mas na mãe, porque a mãe também é uma mãe bebê.

Claro. E por falar na ajuda, tu notaste que a entrevista que deste, que é maravilhosa, muito transparente, muito corajosa, está no YouTube e também nas nossas plataformas, para quem ainda não viu. Notaste que a entrevista também teve esse impacto nos teus fãs, nas mães que conhecias? Notaste, por exemplo, que houve mães que tentaram chegar a ti também nem que fosse para dizer: "Eu senti o mesmo ou estou a sentir o mesmo." Notaste isso?

Olha, foi muito-

Ou agradecer a ajuda, esclarecimento.

Foi muito bonito. Ainda hoje eu recebo alguns testemunhos, provavelmente mães que estão a passar por uma fase dessas e que vão à internet à procura de ajuda, que eu também o fiz. Testemunhos de outras mães, enfim, companhia nesses testemunhos. E eu recebi e quero agradecer ao Observador o facto de ter dado esse espaço à saúde mental, porque eu acho que indiretamente consegui apaziguar um bocadinho algumas pessoas. Muitas mães escreveram, alguns pais, a dizer que sentiam que as mulheres estavam a passar por uma situação desse gênero e onde é que podiam recorrer. Eu lembro-me que o Centro do Bebé, depois eu fiquei amiga da mentora do Centro do Bebé, a Constança, e da equipa. Choveram chamadas. Elas disseram: "Rita, tu não estás a perceber, nós não temos mãos para atender os telefonemas." E por um lado é triste, mas por outro lado é muito feliz, porque eu sei que a maior parte das pessoas conseguiu encontrar ali ajuda e eu espero que hoje em dia estejam muito melhores.

Às vezes o importante é dar o passo, não é? Aquilo que tu estavas a dizer, há um bocadinho aquela vergonha, principalmente no que toca à maternidade. Porque as pessoas pensam: "Ok, mas isto devia deixar-te feliz." E deixa.

Mas são coisas que nós não controlamos, nós mulheres.

E uma coisa não impede a outra.

Exatamente. Sim. Eu acho que a mulher sente uma culpabilidade e uma vergonha gigantescas em assumir isto. A maternidade e a paternidade têm coisas maravilhosas, têm outras que não são assim tão maravilhosas.

Como várias coisas.

Como tudo na vida.

Completamente.

E há que assumir isso e há que não culpabilizar as pessoas por sentirmos isso, somos humanos.

Claro. Olha, e o teu espetáculo, agora o Chinfrim. Falemos um bocadinho dele. Achas que tanto o Chinfrim como todos os outros conteúdos que já fizeste para crianças, que são vários, desde livros, música, ajudou também a fazeres as pazes com esse teu lado materno, esse teu lado da maternidade? Achas que ajudou também?

Eu, mesmo antes de ser mãe, para mim, as crianças, eu sempre tive muita facilidade em comunicar com crianças. Pronto, sou música, sou criança. Mas sim, é uma linguagem mais despida, menos polida, mais de contacto. E eu gosto muito disso, gosto muito dessa verdade nas crianças. E à medida que fui crescendo, ainda fiquei a gostar mais, porque vamos perdendo muitas dessas coisas, infelizmente. E para mim, o universo da infância, e pegando outra vez na psicologia, é onde tudo acontece.

Marca para o resto da vida.

Marca para o resto da vida. Claro que há coisas que depois em adulto podemos trabalhar, que possam não ter corrido tão bem, e haverá sempre, mas de facto é uma altura fulcral para nos formarmos enquanto adultos, depois enquanto adultos confiantes, com amor próprio, com capacidade de amar os outros. E então Para mim essa fase é tão importante que eu nunca gosto muito de me afastar dessa consciência. E naquilo que eu conseguir contribuir, nem que seja 10 minutos, para que uma criança sorria e que naquele momento seja mesmo criança, e por isso é que é fazer chinfrim, que é isso que as crianças têm que fazer. Para mim, enche-me a alma, preenche-me o coração. Eu digo sempre: eu não dou bons conselhos às crianças no chinfrim.

Mas a fazer chinfrim, que façam fora de casa, não é?

Exato. Os pais talvez possam ficar um pouco zangados comigo, mas eu digo já que eu também sou mãe, eu também sofro. Portanto, eu agora já posso dizer, mas eu estou sempre do lado das crianças. Portanto, há conselhos como não tomar banho.

Mítico.

Eu também sei o que isso é, uma conversação, uma negociação muito acesa com as crianças.

É verdade.

Que eu não consigo perceber. Por quê?

É universal, não sei. Na fase dos patinhos, na água, ainda a coisa vai. Depois é um horror.

É verdade. A minha filha faz negócios comigo de promessas, de: "Não, mãe, amanhã eu vou lavar o cabelo e amanhã vai ser muito melhor, meu cabelo vai ficar mais bonito ainda". Enfim, eu sei o que é, mas eu estou do lado das crianças.

Fala mais um bocadinho. Primeiro que tudo, como é que nasceu este espetáculo?

Obviamente, muitas das coisas são inspiradas depois de eu ter sido mãe. Nestes processos que eu ouvia do meu sobrinho ou de outros pais, mas vivê-los é sempre diferente. É um bocadinho esta ideia de ter para os adultos, e eu divirto-me à grande a fazer isto, é um bocadinho o momento, são mais ou menos 40 minutos em que: bora fazer-

Chinfrim?

Chinfrim. Bora fazer asneiras, pode ser? E eu acho que é libertador. Infelizmente, porque a vida é assim e os pais têm que trabalhar e têm horários muito complexos, as crianças na escola, muitas vezes são muito domadas.

Muito presas.

Muito presas.

Achas que brincam menos agora?

Eu não sei se brincam menos.

Têm menos tempo para ser crianças?

É, eu acho que sim. Vão cedo pra escola. Tem que haver regras, que também são importantes, obviamente, mas regras nós já vamos ter a maior parte da nossa vida. Vamos ter que estar sentados, a trabalhar, vamos ter que não fazer barulho, não podemos estar sempre aos gritos, não podemos dizer ao colega: "Eu odeio-te, eu não queria trabalhar contigo." Enfim, somos domados. E o espaço da criança é esse, é fazer barulho, é dizer: "Eu não quero, eu não gosto, me apetece, eu não." É chato para os pais, claro, e para os educadores, mas na verdade temos que tentar dar-lhes essa hipótese nessa altura, porque depois já não vai ser assim. E então é muito inspirado neste espaço de liberdade e das coisas que os fazem rir, e que a nós também, por exemplo, falar sobre puns.

É aquele clássico, não é?

É um clássico.

E pegam nesses temas. Portanto, não tomar banho, os puns, temas obviamente diferentes do que aqueles que tu começaste a tua carreira. É mais difícil escrever uma letra, uma canção para crianças ou escrever aquelas que tu escrevias como Rita Red Shoes, quando fizeste as colaborações, quando foste instrumentista? É mais difícil qual dos dois desafios?

É muito mais difícil escrever para adultos, entre aspas. Eu divirto-me muito mais. Imaginem escrever sobre puns.

Claro, quem não?

Quem não ri? Óbvio que vai ser divertido. Enfim, por isso é que eu disse, eu neste espetáculo, e o facto de estávamos a falar disto antes da entrevista começar, de que este período para mim eu quero divertir-me. O peso das emoções adultas, que eu transporto para as canções e que depois vão para os concertos e tudo isso. Neste momento da minha carreira não me apetecia outra vez isso. E portanto, nada melhor do que escrever livremente sobre isso ou sobre a amizade. Também tem coisas sérias. Tem a importância da amizade, que é imensa também para as crianças. É aí que construímos com os nossos amigos a noção de relação com o outro, sem ser a nossa família, e o quão importante, muitas vezes, se tornam amigos, até mais do que a nossa família. Portanto, essa relação é importante que deve ser cultivada. Tem temas variados que eu acho que são os temas que são mais presentes nesta fase, a partir dos três anos, dois anos e meio, três, até o início da adolescência, diria.

E como é que foi o pontapé de saída do chinfrim? Que já foi dado?

Sim. Foi maravilhoso. Nós gravámos algumas coisas e eu quando estava a cantar e a fazer a performance, nem sequer consegui absorver tudo, mas quando vi as imagens do público Emocionei-me porque os miúdos, a cara deles era mesmo de: "Estou a curtir isto". E dos pais também. Foi um momento muito bonito de comunhão familiar, que eu acho que é uma coisa também muito importante. E de espaço de liberdade, e deles dançarem. Era esse o meu objetivo e foi mesmo muito bonito de ver que isso passou para o público.

Rita, para terminarmos, porque infelizmente isto passa a correr. Já sabemos que as músicas do espetáculo já foram lançadas também para toda a gente ouvir, foi no dia 13 de outubro. Quem ainda não ouviu, é ouvir. Mas em termos de espetáculo, datas, locais, já tens toda essa agenda para os nossos ouvintes apontarem?

Não tenho, mas em breve terei e vai ser divulgado. Mas fica a promessa, que esse é o nosso objetivo, de passar um bocadinho pelo país todo. Não vamos só levar o Chimfrim às cidades maiores, queremos mesmo levar o Chimfrim e fazer todas as crianças do país a fazerem muito Chimfrim. E ilhas.

Quem quiser depois ficar a par, é estar atento às tuas redes, que certamente também vais partilhar. E acabamos só por voltar aqui ao início, porque na introdução eu falei desta tua questão do Red Shoes. Sempre foi aquela pergunta, o porquê do Red Shoes. Eu já sabia da história, mas é engraçado como realmente o universo infantil tem muito a ver. Porque os sapatos para superares e no limite vai dar ao Feiticeiro de Oz. No fundo, achas que isto realmente é tudo um ciclo.

Podes dizer, Catarina, eu sou uma eterna criança.

Não. Eu estava a olhar pra ti e a pensar: "Já nem te vi há imenso tempo e estás na mesma". O tempo não passa por ti. Ponto número um. Mas continuas, e isso é que é maravilhoso, que com estes anos, eu tenho o prazer já de te conhecer há alguns, continuas com a mesma leveza, simpatia e disponibilidade de sempre. Não sei se é dos sapatos ou do que é, mas isto dá para dizer que acabamos por voltar aqui ao início do Red Shoes. Rita, foi um prazer.

O prazer foi meu.

Muito obrigada pela tua partilha, pela tua disponibilidade. Ficamos então à espera, para quem quiser saber por onde é que o Chimfrim vai andar é ficar atento às redes da Rita. E nós também, obviamente, vamos partilhando por aqui pelo Observador. Muito obrigada.

Obrigado, Rita.

O "40 Minutos" fica por aqui. Estamos de regresso para a semana.

Até para a semana.