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Nasceu em Lisboa, mas nunca esqueceu as raízes angolanas da família. Aos 12 anos herdou da mãe uma guitarra e foi aí que imortalizou os ritmos africanos que lhe correm no sangue. É licenciada em Artes Performativas, canta, dança, representa, seja em musicais ou no pequeno ecrã, sem nunca esquecer as lutas fora da arte. Hoje temos conosco em 40 Minutos, Irma. Bem-vinda.
Bem-vinda, Irma.
Não sei se falhámos aqui alguma coisa nesta introdução.
Não, superfixe.
Boa. Tu levas ao expoente máximo o que é ser artista. Tu é música, representação. Quando é que podemos esperar aqui uma exposição tua de pintura ou algo do gênero?
Escultura.
Sou péssima.
Não, se já és tão virada para as artes, essa vertente está viva?
Eu acho que está superarrumada essa vertente, porque pintar não é a minha cena.
Não é mesmo a tua cena. Ora, só justo.
Mas me ajuda a todos.
Mas tu, portanto, é representação, é música, dança também, um passinho.
Um passinho ou dois.
O que te falta fazer em termos artísticos?
Tanta coisa.
Mas sentes isso? Sentes que gostavas de experimentar coisas novas também, para além de tudo que já fizeste?
Um dos meus sonhos grandes é fazer cinema.
Amava.
Que bom. Sei lá, tenho tanta coisa para fazer.
Ainda na bucket list. Ainda falta muito tempo.
Aqui quem estiver a ouvir, cinema.
Irma.
Exato. Olha, Irma, já vamos à música, claro, que é onde tens apostado mais ultimamente, mas vamos começar também no pequeno ecrã. Tu deste nas vistas no início nos Morangos com Açúcar, em 2010, onde interpretaste a Violeta. A tua interpretação da Violeta era uma das alunas mais promissoras do curso de canto. Ou seja, podemos dizer que a Irma fez de Irma nos Morangos com Açúcar.
Por acaso, foi uma coincidência muito grande, que a Violeta era uma personagem que eu tinha muito amor. Desculpem esta voz, é que eu estive mesmo doente.
Está tudo certo. Não se nota, estás a disfarçar bem.
Mas é que eu adoro esta voz de rádio. Queria estar a sentir esta voz. Boa. Mas é muito engraçado, porque essa personagem, eu tinha mesmo um carinho por ela, porque era sobre uma miúda que vivia num orfanato. E então ela fugiu do orfanato para ir estudar para esta escola, para a escola de artes performativas, que foi o curso que eu tirei. E ela vivia dentro da escola às escondidas para fazer parte do curso, porque depois não podia entrar e sair e dar muito nas vistas, então dormia lá dentro da escola. E aquilo foi muito engraçado, porque foram supercoincidências na altura, porque eu vivi com os meus avós, eu não tenho pais. De repente estava tudo ligado e eu na ficção nunca tive pais. A primeira novela que eu tive pais, que eu tinha pai e mãe, foi na Única Mulher, que foi a primeira novela onde de repente se falava sobre mestiçagem e meio que era difícil arranjar-me um pai e uma mãe, porque as novelas não tinham negros. Então, de repente, a Única Mulher foi a primeira novela onde eu tinha uma mãe negra e um pai branco. E então, de repente, Morangos com Açúcar, eu não tinha pais. Então sei lá, foram montes de coincidências, eu tenho muito carinho por essa. Mas 2010 agora de repente bateu-me.
Já passamos 14 anos.
14 anos.
14 anos. E gostaste da experiência na altura?
Sim, é superclichê dizer isto, mas Morangos é uma escola. É mesmo uma escola.
Tu aprendes muita coisa ali, não é?
Não, e não é só isso. A primeira série que eu fiz na vida eu tinha 12 anos, foi na RTP 2. Foi uma série supervanguarda, era meio uma distopia aquilo.
Como é que se chamava?
Chamava-se PICA. Era a sigla para Plano de Intervenção em Canal Alternativo. E aquilo tinha um conceito muito fixe, que aquilo era sobre dois irmãos que conseguiam cortar a emissão da RTP e emitir durante 20 minutos reportagens de amigos. Então havia amigos para tudo. Havia um amigo que fazia as estreias dos filmes, as estreias das peças, havia outro que era tipo jogos, videogame, não sei quê. E quem escrevia as minhas peças era o Bondage, o Carlos Afonso, que eu adoro e tenho um carinho enorme por ele. Foi uma referência muito grande na altura, eu era muito miúda e ele era muito livre, muito desconstruído e foi muito fixe, porque eu fazia as coisas que ele fazia, o Bondage, que era meio pranks na rua, apanhar assim. Então eu fiz o PICA e de repente com 17 anos fiz os Morangos e aquilo foi quando eu acabei o secundário e já foi no final do secundário e foi ali um ajuste e um contrato com os meus avós. Eu prometo que eu entrego tudo a tempo e que faço tudo e que tenho boas notas e que faço os exames e que vai correr tudo bem, mas deixem-me fazer.
Sim, mas tu sempre quiseste ser atriz? Ou seja, era o objetivo principal?
Não, eu acho que eu sempre quis ser músico Eu sempre quis cantar, mas eu sempre quis ser atriz também.
Aliás, lidavas as duas coisas também.
Sim, e eu sentia que para estar em palco tinha meio que estar à vontade com tudo. E então por isso é que também fui tirar aquele curso e não concorri à escola de cinema, porque achava que a escola de cinema era só teatro. Sentia que tinha que me complementar em tudo.
Claro que sim.
Falaste há pouco na Única Mulher, também estiveste no Vidas Opostas. Por que não seguiste depois por aí fora com uma carreira de atriz e acabaste por virar um bocadinho pra música? A música foi sempre o objetivo principal?
É muito engraçado, fazem-me essa pergunta imensas vezes. Eu sempre fiz música, foi sempre uma constante, só que eu fazia música para ganhar trocos. Eu cantava nos quiosques da avenida e em bares, a receber muito mal, a tocar três horas à guitarra e a receber 60 paus. E a música sempre foi uma coisa constante. Eu sempre compus, eu sempre tive vontade de fazer música e sempre quis ser atriz também. Só que o que me dava dinheiro naquela altura era ser atriz.
Claro.
E é muito estranho, quando tu começas a ganhar dinheiro muito cedo, é muito difícil também parares. A partir do momento que começas a ganhar dinheiro.
Começa a ser uma garantia e vais ficando.
E de repente a vida está a correr bem naquilo e tu pensas: "Ok, isto está estável". É muito fixe, porque na verdade eu virei-me para a Carolina em 2018, 2019 e disse: "Olha, eu vou lançar as minhas coisas, eu quero lançar música e quero fazer música. Eu estou farta de cantar em bares e só fazer novelas e eu estou insatisfeita com isto. Eu quero fazer mais coisas". E eu quero muito fazer música, porque quase que a música tinha um lugar muito urgente na minha vida. Eu não fazia música porque precisava de dinheiro, eu fazia música porque eu precisava. E então eu comecei a dar mais importância a isso e liguei à Carolina e a Carolina, passado aí um mês, ligou-me a dizer: "Irmã, estás aí? Estás sentada?" Eu: "Estou, por quê?" E ela: "Eu estou a fazer curadoria de um dos palcos do Sudoeste e queria que tu fosses lá cantar".
Portanto, correu bem.
E eu assim: "Mas eu não tenho nada, eu não lancei nada, o que eu faço?"
Você rasca.
E ela: "Vamos ter que tratar disso". Então lancei o meu primeiro single nessa altura, antes do Sudoeste, e as coisas começaram a acontecer. A minha agência foi ver esse concerto e convidou-me para fazer parte e para cuidarem de mim, e cuidam de mim até hoje. Que foi lindo.
Que bom. Irma, e hoje, por exemplo, quando te reconhecem na rua, que acredito que aconteça, sentes que é mais por causa da música ou pela televisão também? A presença também no geral.
Acho que é muito engraçado. Claro que a televisão é uma coisa que invade a casa dos outros. Muito mais, é físico, é visual.
Sempre tens ali a imagem.
Mas é muito engraçado que acontece uma coisa muito fixe que é: quando eu fazia novelas, diziam: "Olha a menina da televisão". E quase que tu não tens nome, tens o nome da personagem.
Sim.
E agora quando me veem é a Irma.
Ganhaste o nome.
E o nome próprio, isso acho que é importante também.
E é uma coisa que acontece muito ser atriz e ser cantora. Quando tu vais a audições é muito ingrato, porque muitas vezes podes não ficar com o papel. Não é por falta de meritocracia, não é por falta de mérito, não é por falta de talento, é porque simplesmente tens caracóis em vez de teres cabelo liso. E então, quando vão à procura da Irma cantora, é porque querem a Irma. Então isso quase dá uma sensação de: "É a mim que vocês querem, não podia estar outra pessoa neste lugar".
Claro que sim.
Então dá um bocado essa-
Sabe bem
...quase validação, mas que não é que seja preciso, mas é sempre bom.
Sabe bem. Como é óbvio.
Claro que sim.
Por falar em televisão, tu participaste no "Idolos", em 2009. Chegaste à fase do auditório dos oceanos, ou seja, aquela antes das galas ao vivo. E normalmente quando os concorrentes ficam pelo caminho, nós ouvimos sempre os jurados dizer aquelas frases feitas do: "Isto não acaba aqui" e "Não desistas" e "Vai, tu vais conseguir". E tu acabaste por conseguir, apesar de não teres passado. Mas na altura, como é que foi lidar com isto? Porque acredito que para um jovem não deve ser fácil, mesmo com essas frases, esses clichês.
Olha, eu fiz "Idolos" muito nova. Eu fiz "Idolos" em 2009.
Tinhas que idade?
Tinha 16 anos. E foi muito violento nessa fase para mim, porque correu mal. Mas muito engraçado, que agora há pouco tempo eu fui ao Herman, ao programa dele, e encontrei lá o Manuel. O Manuel Moura dos Santos. E ele olhou para mim e disse assim: "Eu conheço-te".
"Tua cara não é estranha".
"Sou a Irma." E ele: "Irma? Eu lembro-me de ti. Tu estavas a cantar, eu vi-te. Ai, que bom!" E eu a pensar: "Este trombudo disse-me que não".
Não, não me disse que não. Como é óbvio que ele não disse que não. Não foi como é óbvio que ele me disse que não. Eu nem sei como é que eu cheguei ali, porque aquilo correu tudo mal. Mas ficámos um monte de tempo a falar
Ele estava mesmo tipo: "Que bom que a vida está a correr, eu tenho visto e eu tenho não sei o quê. E lançaste um álbum, e lançaste um EP. Eu ouvi o 'Filha da Tuga'", porque ele tem estado muito em Angola e disse que ouviu aquilo lá. E eu pensei: fogo, espetacular. Foi muito fixe isso e meio que me tirou o trauma.
Sim.
Que eu tinha aquilo meio que: "Ok".
Quase como uma nuvem negra de toda aquela experiência, não é?
Não vou falar mal, porque o processo é bom e o caminho é muito importante, mais do que a chegada. Foi uma experiência doida.
Sim, e foi uma edição muito forte. Participaste tu, Diana Piedade, Carolina Torres, Salvador Sobral, que ninguém sabe o que é. Portanto, foi um grupo com muito potencial. Isso já se notava na altura?
Já. O Sal sempre foi enorme. O Salvador era-
Inconfundível.
É.
Não dava para escapar.
Não dá. Já toda a gente sabia: "Tu vai dar certo".
E deu. E bem deu.
Por falar no Salvador Sobral, é a figura máxima do Festival da Canção, onde tu também participaste em 2021 com o "Livros". Ficaste pela semifinal. Estavas à espera de ir um bocadinho mais longe? Quais é que eram as expectativas para o festival?
Ninguém gosta, mas eu especialmente não gosto de perder.
Tens mau perder.
Ficas meio chateada. Mas eu vou para um jogo de Uno, eu quero ganhar o jogo.
Claro.
Irmã, vai com tudo, aposta em tudo.
É isso. A expectativa, como é óbvio, eu vou sempre pra expectativa, eu visualizo as coisas.
Vias-te a ganhar o Festival da Canção.
Deve fazer o meu discurso do meu Globo, que eu vou ganhar, que ainda não ganhei. Eu às vezes imagino.
É manifestar.
No banho com o champô. Imagina, eu quero agradecer à minha avó, eu quero agradecer ao filho. Eu sou assim. Claro que a expectativa não era, a expectativa era passar. Mas é muito ingrato também, um concurso sobre música. O que é que decide que é uma boa canção? Quem é a pessoa que decide que é uma boa canção? Redimensionar essa expectativa foi um bocadinho doido. Só que é muito engraçado, porque o festival era num sábado e eu segunda-feira acordei com um febrão e tinha uma bactéria nas vias respiratórias. Então fiquei afônica, perdi a voz essa semana, então tive que fazer terapia da fala e levar injeções. Isso meio que me tirou esta pressão do ganhar. Eu só queria cantar, eu só queria ter pejo.
Chegar lá e não estares afônica.
Aumentou muito os nervos, como é óbvio, porque é muito ansiosa, mas fiquei com a sensação de acho que assim é saudável fazer aquilo, eu só quero mostrar a minha canção. Super que me orgulho da canção que levei e aquilo fez supersentido para aquele lugar e para aquela experiência, foi superfiche.
Irmã, antes de fazermos aqui uma pausa para as notícias, já falámos do pequeno ecrã, com as novelas, com ídolos, mas estás também em palco com o teatro, com uma variedade muito grande, a Carta, o Eusébio in Futebol, Fátima. Como é que surgiu esta oportunidade para ires para os palcos?
Olha, eu na verdade sou licenciada em teatro, eu sempre quis fazer. O teatro musical é muito específico, porque eu cresci muito com teatro musical em casa, com os meus avós.
Mas tipo revista?
Não. Musicais antigos, tipo Jesus Cristo Superstar, Música no Coração, Mary Poppins, era uma coisa que eu tinha muito essa coisa de: uau, as pessoas estão a falar e de repente já não conseguem falar e têm que começar a cantar, e nem se percebe onde é que mudam de fala para cantar. Sempre amei teatro musical e tive o privilégio de uma das minhas melhores amigas, que é a Matilde Trocado, foi minha professora na faculdade de teatro musical, e depois eu fiz audições para ela e fui fazendo peças dela e hoje em dia somos muito amigas. E eu tenho uma admiração muito grande pelas peças que ela escreve e por ela e o Artur, que são duas pessoas muito importantes e muito boas no teatro musical em Portugal. As peças deles é uma coisa que eu se pudesse escrever um contrato vitalício, eu dizia: "Por favor, deixa-me fazer sempre as vossas peças". Então, sim, o teatro musical é uma cena que eu gosto.
E sentes que o fato de estares habituada a fazer teatro te ajuda hoje em dia no palco como cantora?
Eu acho que o teatro não me ensina só estar, sem dúvida que me ensina a estar no palco, performaticamente falando, mas mais do que tudo, ensina-me a ter sentido de grupo profundo. A música é um processo muito solitário, às vezes. Eu estou sempre à procura do grupo. Eu acabei de fazer um writing camp e eu romantizo esses momentos de união, porque eu preciso de pessoas. Eu gosto muito de pessoas. Eu gosto muito de me conectar. Eu não acho nada aquela coisa, eu sozinha estou muito bem, eu não sou assim. Eu gosto mesmo de me conhecer e de abraçar. Eu sou muito assim. E o teatro E é muito engraçado que eu também estou um pouco neste processo de aceitar que isto não é uma fraqueza, porque eu sempre achei que ser vulnerável e estar com pessoas e precisar de pessoas era meio uma fraqueza, mas eu gosto desta coisa das pontes que se criam. E neste writing camp eu meio que romantizei muito aqueles três dias, porque foram três dias que eu pensei: nunca ninguém chegaria a isto sem ser em conjunto. E isso é uma coisa que me comove muito, o grupo e o conjunto.
A troca de ideias.
A troca de ideias. E o teatro fez muito isso, deu-me muito esta noção. A música é um processo às vezes solitário. Tens a tua banda, a tua comitiva, pagas a tua comitiva e tu é que mandas, supostamente. E eu estou sempre a cortar com isso e a fazer com que sejamos sempre o grupo. E eu tenho sempre muita vontade disso. Há um excerto do Walter Hugo Kayman que eu adoro, do Desumanização, que eu lembro muitas vezes dele, que é: "a beleza da lagoa é sempre alguém, porque a beleza da lagoa só existe porque a posso partilhar".
Claro que sim.
É tipo, só existe porque nós estamos aqui.
Claro que sim.
E pronto.
Isso é ótimo.
Estou a falar muito, desculpa.
Não, força, para nós é melhor ainda.
Mas só podes falar mais na segunda parte.
Na segunda parte. Vamos fazer aqui uma pausa para atualizar as notícias. Até já.
Até já.
Vamos à segunda parte do "Em 40 Minutos" esta semana. Estamos à conversa com a Irma. Bem-vinda mais uma vez. Irma, vamos puxar a ficha, a fita atrás. Tu nasceste em Lisboa, mas são inegáveis as tuas raízes à África, à Angola, mais especificamente. País dos teus avós, não é?
E dos meus pais.
E dos teus pais. Cresceste com os teus avós. Visitas Angola com frequência ou nem por isso?
Vou lá este ano pela primeira vez.
É a primeira vez?
É.
Boa! E como é que te sentes?
Com muita sede de ir lá, por todas as razões. Tenho muita família lá e ando a sentir que estou a ser meio negligente até com a minha própria vida, de não conhecer o sítio onde a minha mãe nasceu e onde os meus avós viveram e onde eu tenho lá muita família e onde eu também vou buscar muito da cultura que eu vivo. Eu tenho uma cultura em casa muito com essas raízes e com Angola. E acho que vai ser bom, porque acho que vai coser a vida, como eu costumo dizer.
Estás nervosa?
Não. É uma coisa que todos os países que me trazem duas polaridades, Brasil, Angola, onde se vê muito a discrepância social, é uma coisa que me aflige muito. E deixa-me ser um bocadinho ansiosa, mas estou muito contente.
Vai correr bem, vais ver.
Acho que sim.
Os teus avós tinham alguma ligação à música, alguém da tua família tinha? Ajudaram-te nessa proximidade que tens também a estabeleceres essas raízes?
Já sabemos que cresceste muito com o teatro musical, vias os musicais.
Sim, a minha avó adora cantar e canta super bem.
Que bom!
A minha mãe também cantava muito bem. O meu pai também. O meu padrinho era o Raul Indipo. Era cantor. Temos muita ligação com música, sim, acho que sim. Nada assim super profissional.
Portanto, a música sempre esteve presente, de alguma maneira.
Sempre. E eu acho que cresci muito, eu entro na casa dos meus avós sempre e o gira-discos do meu avô está sempre a tocar. O meu avô adora ouvir música, adora ouvir os vinis e toda essa coisa de crescer com Beatles, Beach Boys, Nat King Cole.
Boas referências.
Coisas muito antigas. Eu tenho muita influência musical e um leque muito grande.
Isso é ótimo.
E isso eu acho que foi super importante para a música que eu gosto e que faço.
Claro que sim, depois reflete-se na tua música. Olha, aos 12 anos, pelo que sabemos, herdaste uma guitarra da tua mãe. Qual foi a importância desse momento para a tua carreira? Teve algum impacto em ti?
Sabes que eu quando era chavala, nessa altura, eu tinha um programa de rádio inventado com uma amiga minha, que se chama Leonor Silvano, que eu já não estou há muitos anos, tenho muitas saudades dela, e nós tínhamos uma rádio que se chamava Black and White. Era uma rádio que nós gravávamos no Movie Maker. Gravávamos uma timeline de voz e nós tínhamos essa rádio. E eu lembro, imagina, uma rádio, quem é que ouvia? Zero pessoas. Nós.
Não importa.
E era tudo gravado. E pronto, aquilo éramos nós a apresentar um programa de rádio.
Fixe.
E eu lembro-me quando recebi a guitarra, e por isso foi muito emocionante quando eu vi a minha música a passar na rádio pela primeira vez, que dá vontade de dizer: "Ei, avisem lá aquela miúda de 12 anos que ela um dia vai ter uma música na rádio". E eu lembro-me de pensar assim: eu gravava a minha música e dizia: "E agora, a seguir, Irma a cantar não sei o quê". E eu punha play e fingia que eu estava na rádio.
Que bom!
Eu não acredito que eu estou a contar isto a isto.
Não, desculpa, é ótimo.
Isso é delicioso.
Muito bom.
Então quando eu ouvi a minha música na rádio pela primeira vez, está filmado, é um pouco constrangedor.
Eu acho que pra um artista é sempre bom ouvir pela primeira vez um tema teu passar na rádio.
Não, e no supermercado, quando está a dar a minha música, apetece-me ir ter com o senhor da secção dos iogurtes e dizer assim: "É a minha música e ninguém vai mudar, agora vão ouvir todos".
Enquanto eu estou a ir fazer as suas compras do mês, vão levar com a minha música.
Vão levar com a minha música. No outro dia o Moa chegou à senhora da peixaria e disse assim: "É a minha mãe está a tocar".
Que fofo, que muito querida.
Olha, precisamente sobre o teu filho, acredito que continues também a querer passar essas raízes que tens ao Moa. O que aprendeste com ele também?
Ufa, diversas coisas. O Moa ensina-me um bocado a olhar pro pequenino, a apreciar os pormenores. Nós temos uma coisa que acho que muita gente deve fazer, mas temos um ritual antes de ir dormir, que é contar a coisa boa e a coisa má do dia. E as coisas boas dele são sempre tão pequeninas. E ele ensina-me muito a apreciar o pormenor, a apreciar as coisas pequeninas.
Porque elas estão lá. Nós é que às vezes crescemos e parece que vamos desvalorizando, mas acho que é importante ir aprendendo isso também com ele.
Estamos numa fase da vida tão rápida em tudo, tudo tem que ser agora, tudo tem que ser hoje.
Sim, queremos tanto tão rápido.
Queremos tudo muito rápido e não apreciamos às vezes esta coisa do caminho.
Isso aprendes com ele. Uma das coisas que aprendes com ele. Olha, também, Irma, estreaste com o single "Da Mesma Pele", em 2019, se não me engano. Um ano depois, lançaste o teu primeiro álbum, "Primavera". Como é que foi o processo de criação deste primeiro álbum?
Olha, o "Primavera" foi um álbum super interessante. Eu decidi fazer este álbum com uma das minhas pessoas no core duro, o PT é da minha família. Eu estava a contar isso. O PT é uma referência pra mim, é muito guia pra mim de tomar decisões.
É um excelente músico.
Ele é um bom músico e não é só isso, é boa pessoa. E eu amo muito, e ele é muito lúcido e muito claro, tem muito sentido da relação que eu tenho com a música, de ser fiel àquilo que eu faço, àquilo que eu gosto. E eu fiz o "Primavera", e ele disse: "Nós vamos agarrar em tudo que tu tens feito desde que és pita", que eu acho que isso é que é bonito, o caminho também é o importante.
Claro que sim.
E eu, de repente, tinha músicas num álbum com 10 anos. Ou "A Qualquer Hora", eu tinha feito miúda, mesmo muito miúda.
Pois, nós queríamos saber, porque deixaste 10 anos na gaveta o "A Qualquer Hora". O que é que sentiste ao vê-la cá fora?
Uma música que eu cantava nos bares.
Pois.
A receber 50 paus, a cantar três horas.
Já a ficar com calos nos dedos.
Com calos nos dedos e a levar com fumo de cigarro dos cheitos que ainda se podia fumar. Mas foi superfiz.
Depois de passado 10 anos, está cá fora naquele álbum.
Sim, está cá fora e é mesmo fixo. Às vezes, quando encontras colegas da escola antigos, ou professores, dizem assim: "Irma, tenho-te visto, a vida está a correr tão bem". E é preciso fazer o exercício de: "Está, pois está. Não, a vida está a correr superbem".
Se não usavam a do dia a dia.
Mas ainda faltam coisas por fazer, mas eu não tenho assim tantos shows marcados como me gostava, não tenho tanto não sei o quê. E de repente: não, a vida está a correr muito bem.
Pô, em perspectiva, está a correr muito bem.
E é muito fixe.
Claro que sim. Em 2022, também lançaste o EP "Filha da Tuga". O que é que quiseste trazer com esse EP? Ou seja, que outro lado da Irma Vá é que querias passar cá pra fora?
Então, o "Filha da Tuga" foi um EP que eu sinto que uma das grandes dificuldades é que eu tenho muito medo do erro, eu tenho muito medo de falhar.
És perfeccionista?
Eu não sou perfeccionista, mas eu tenho muito medo, muito menos agora, porque faço terapia.
É sempre bom.
Mas eu tinha muito medo de falhar. Então, o "Filha da Tuga" foi assim meio uma sensação de: "Eu posso adorar ser mulher, eu posso adorar sentir-me bonita, isso não quer dizer que eu sou autocentrada. Eu posso adorar ser mulher e ser sexy, e isso não quer dizer que eu sou uma oferecida". Estás a perceber? Foi uma desconstrução de montes de coisas.
Ajudou-te também ali.
Muito numa fase superinício. Eu lembro-me que foi o início de uma libertação, sendo que, por exemplo O que eu estou a fazer agora faz muito parte de um lugar muito mais emancipado meu e mais livre. Muita noção que eu ando a ter de ser mulher. Estou com muita consciência do que é ser mulher e do que é ser mãe.
E já encontraste a resposta?
Não, acho que estou sempre a aprender e eu acho que isto é que faz o comboio andar. É eu estar sempre a descobrir-me em várias coisas, nas minhas relações com as minhas amigas, com os meus amigos, como namorada, como mãe. E é muito fixe ir descobrindo o que é ser eu e não ter medo de errar e não ter medo de mostrar um lado mais sombra que todos temos, um lado lunar. Eu tinha sempre muito medo, estava sempre: "Não, olha eu, como sou direitinha, perfeitinha, não erro". Às vezes não somos sempre assim e não tem mal.
E nem temos de ser. Irma, tu falaste há pouco desta emancipação das mulheres. O teu single mais recente é o "Toca-me", de 2023, que fala precisamente sobre o universo feminino. Perguntava-te se este é um começo, uma nova fase da música para a Irma ou se foi só um passar por ela.
O "Toca-me" é, há bocado estava a falar sobre isso, é mesmo um tema que vem um bocadinho descodificar toda esta noção que eu achava muito que esta coisa da conexão e desta minha necessidade em conectar-me com as pessoas, eu achava que era uma fraqueza minha, tipo: "Olha tu que não consegues estar no Tibete a meditar sozinha e como bem contigo sozinha". Eu consigo, eu adoro. Eu adoro estar em casa a ler um livro, eu adoro estar em casa a ver uma série, eu adoro ir passear o meu cão à praia, eu adoro fazer coisas sozinha ou quase sozinha, mas eu gosto muito de pessoas e o "Toca-me" veio um bocadinho abrir este processo todo. O "Toca-me" é a abertura do meu novo álbum, do que vem aí.
Anticipou-se à nossa última pergunta.
Desculpa!
Não, não tem mal. Nós sabemos que vem um disco novo, mas, por favor, continua.
Mas o "Toca-me" veio um bocadinho abrir esta coisa, porque este disco vem tocar em muitos pontos que eu resolvi nos últimos três anos que estou a fazer psicoterapia. E tocar em vários pontos, muito na relação comigo, na relação que eu tenho comigo, na relação com os outros, na forma como eu me vejo, na forma como eu sou mulher e gosto de ser mulher e nestas lutas todas que ainda existem e que estão meio camufladas, às vezes comigo. Eu tenho-me apercebido que eu era até machista às vezes. Eu tinha pensamentos machistas e não me apercebia disso, totalmente enraizados da educação.
Enquanto vamos crescendo e fazendo o nosso trabalho, vamos desconstruindo isso.
É superfixe. Eu ando a fazer muito esse trabalho e a refletir e a pensar muito sobre isto e a compor sobre isto. E a minha intro dos meus concertos é muito sobre isto, é muito sobre esta coisa de ser mulher. E o "Toca-me" foi um tema muito importante para abrir esta relação comigo.
Para te preparar o caminho.
Para me preparar o caminho.
Para o novo disco que vem aí.
É isso.
Vai sair já este ano? Se calhar estou a fazer perguntas que não devia fazer. Já temos a Madre de Deus a olhar para nós.
A Madre está a olhar para mim, sim.
Vai sair algures.
Vai sair em breve.
Portanto, vamos esperar novidades.
Mas eu vou lançar muita música ainda este ano.
É isso que nós queremos saber, que bom!
Eu vou lançar muita música e muita música muito boa.
Não se esperaria outra coisa, portanto, vamos ter concertos bons, música boa.
Vamos ter concertos bons, música boa. São coisas boas.
Para quem não está a ver em vídeo, os olhos da Irma brilham de uma forma.
Está agitadinha.
Como não estar, não é?
Claro. Olha, Irma, falavas aqui da desconstrução e da desconstrução que tiveste de fazer também, que fizeste nos últimos tempos como mulher, mas na primeira parte da nossa conversa falaste aqui também de um ponto que é muito importante desconstruirmos na nossa sociedade, que é o fato de continuarmos a colocar as pessoas em caixas, principalmente na questão do racismo, na questão racial. E falavas há pouco, disseste de uma forma muito fugaz que às vezes não olhavam tanto para a tua voz, mas olhavam para se tinhas caracóis ou cabelo liso. Tu notas que isso também foi um obstáculo na tua carreira ou no caminho da tua carreira?
Mais como atriz, se calhar. Também com a saída de "Filha da Tuga", houve uma polêmica grande. Sim, acho que nós estamos numa fase meio de transição, de consciencialização, e isso causa sempre algumas. Abrir assunto. Todas as revoluções não são do guardanapo no colo e talheres. Todas as lutas, todas as transformações podem até ser um bocadinho grotescas. Talvez não seja uma forma superleve. Fala-se muito sobre isto e eu sinto isso muito na minha vida, senti isso muito como atriz, muito nos papéis que tinha de não ter pais. A única mulher que abriu o caminho para se falar mais sobre negritude, mas antes não havia. Acho que só estamos numa fase de transição.
Ou seja, ainda não chegamos lá.
Ainda não chegamos lá, acho que não. Estamos no caminho. Mas também acho uma coisa que é: não há mais racismo. Acho só que se fala mais sobre o assunto. Às vezes as pessoas dizem: "Não, nós não somos." Não, eu não estou a dizer que há mais. Fala-se é mais sobre o assunto. Fala-se mais sobre direitos humanos, fala-se mais sobre LGBT. "Agora são todos gays." Não, não são todos. As pessoas não têm medo de falar e de dizer. Por isso é muito importante dar muito valor a esta fase de transição, que é muito dolorosa, acho eu, que está cheia de incoerências, às vezes, e as pessoas podem meter os pés pelas mãos e podem dizer coisas. É muito importante ouvir. Acho que é muito importante ouvir, ler sobre os assuntos e tentar ser empático com o outro e entender.
Claro que sim. É uma luta.
É uma luta, mas é bom. É preferível isso do que uma vida flat.
Claro, não tinha tanta emoção. Olha, Irma, infelizmente, não vamos ter mais tempo para a nossa conversa. Ficamos aqui três horas a conversar. Mas olha, foi um gosto ter-te aqui conosco.
Obrigada.
Obrigado.
Hoje tivemos Irma, em "40 Minutos" na Rádio Observador. Nós voltamos para a semana. Irma, obrigada mais uma vez.
Muito obrigada.