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Eu senti que estava a entrar numa espiral que não era positiva para mim psicologicamente e por isso retraí-me na comunicação nas redes sociais. Não só falando da Palestina, mas falando do meu trabalho e das minhas questões pessoais. Afastei-me um bocadinho, durante um período, das redes sociais, porque estava a ficar deprimido com esta questão, mas sobretudo pela indiferença do nosso país, europeia e mundial. O extraordinário é que eu não me considero nada vigilante. O que eu acho é que está toda a gente a dormir. Eu não estou vigilante, eu estou só com os olhos abertos. Uma pessoa vigilante é alguém que está alerta em relação a uma situação qualquer ou porque a qualquer momento pode acontecer qualquer coisa. Estou vigilante. Eu estou vivo e naturalmente estando vivo, olho, reparo e vejo e não consigo ficar indiferente, mesmo que isso me prejudique profissionalmente.

Cresceu entre silêncios que não escolheu, entre ausências que o ensinaram demasiado cedo a ser forte. Da infância carrega marcas que não se veem, mas que deixaram raízes profundas. A perda, o bullying, a dureza da vida quando ainda se é pequeno demais para entender o mundo. Dentro desse cenário de fragilidade, encontrou uma capacidade rara de resistência, fez do humor um refúgio, descobriu no palco um lugar onde podia ser todas as versões de si próprio, inclusive aquelas que durante anos não teve a liberdade de mostrar. Hoje é um pai dedicado, companheiro, profissional intenso, homem sensível e inquieto, alguém que diz o que sente, que assume as dúvidas e que não esconde as suas fragilidades e que acredita ainda que a vida só faz sentido quando a vivemos com verdade. Jorge Corrula, em "40 Minutos". Muito bem-vindo. Aqui é a Rádio Observador.

Ufa! Boa, João. Grande introdução, deixa-me só beber água. Uau, obrigado pelas palavras.

Foi intensa, como o homem que tenho aqui à minha frente. Acho que faz jus.

Isso não sei. Francamente, ainda me estou a descobrir, portanto, sei lá o que é que anda aqui nestas pernas.

E temos 40 minutos agora pela frente. Não sei se isso ajuda de alguma forma também para descobrirmos mais um bocadinho daquilo que ainda não sabemos sobre ti.

Eu próprio também não sei. Estas entrevistas, eu acho que pelo menos comigo funciona assim, eu às vezes acabo por me descobrir também nas entrevistas. Às vezes fazem-me perguntas que eu ainda não fiz a mim próprio e às vezes não pratiquei bem as respostas, portanto é uma forma de autoconhecimento as entrevistas.

Há alguma dessas perguntas que tenhas agora na cabeça e que muitas vezes foges dela porque não gostares da resposta?

Sei lá, devo ter muitas, com certeza.

Alguma inquietação, algo que te, sei lá, enquanto pai, por exemplo, alguma preocupação maior?

Pois, claro, isso é óbvio. Eu diria que isso é óbvio. Quando passamos pela paternidade, temos essa inquietação constante do futuro, porque de repente temos seres que dependem de nós. Uma coisa é as nossas dificuldades conosco, outra coisa são as dificuldades que nos são apresentadas e pessoas que de repente dependem inteiramente de nós. Muito mais quando são menores. Portanto, eu estou ansioso que elas saiam de casa e possam tomar conta de mim.

Eu duvido tanto disso. Duvido tanto.

Eu espero que sim. Outra coisa que me inquieta muito, a propósito dessa pergunta, é a velhice. Enfim, não só noutros meios profissionais, mas no meio artístico. É muito complicado, a partir de uma certa idade, primeiro ter trabalho, e depois há uma estrutura social, ou não existe uma estrutura social que ampare, por assim dizer, as pessoas mais velhas, as pessoas mais maduras que temos neste país, muito menos os artistas.

Mas tu ainda não sentes isso na pele. Nem chegámos aqui à barreira dos 50.

Mas olha que é uma inquietação que já tenho há alguns anos. A propósito da tua introdução, eu fui criado com a minha avó e eu acho que tenho essa sensibilidade também do cuidado com as pessoas mais velhas. Acompanhei, entretanto, também a doença, o afastamento dos filhos, e eu acho que é muito comum, é transversal à sociedade portuguesa, a forma como nós não cuidamos dos nossos mais maduros.

E essa questão da inquietação que tu revelas e mostras aqui quanto à velhice, ela ainda se manifesta em pequenas alturas da tua vida, ou seja, no teu cotidiano, ou é uma coisa que tu projetas muito mais pra frente? Porque volto aqui a reforçar, a barreira dos 50 ainda não está ultrapassada, mas daquilo que partilhas aqui, essas inquietações até parecem ser mais com o lado artístico e com o futuro da profissão, ou estou errado?

Francamente, o que me inquieta mais é o futuro da próxima geração. Isso é o que me inquieta mais. E eu, naturalmente, tenho que pensar nas minhas filhas. Não são exatamente a próxima geração, mas são as gerações vindouras. Tu, por exemplo, não sei que idade é que tens, João, mas eu tenho 47, vou fazer 48, mas efetivamente sinto-me umas vezes com 15, outras vezes com 30, no máximo 31. Nunca me sinto com mais do que isso. Mas a minha principal preocupação é, de facto, as gerações vindouras que continuam a depender muito daquilo que nós estamos a fazer no presente. E sendo um bocadinho realista, não tem nada a ver com pessimismo, sendo um bocadinho realista, acho que não estamos a fazer um muito bom trabalho, portanto, não auguro um bom futuro.

Mas um bom trabalho enquanto sociedade, referes-te a isso enquanto um todo?

Todos nós. Eu, tu, enquanto comunidade, acho que nós trabalhamos a pensar apenas nas consequências imediatas e isso é transversal, vem desde de cima, desde os nossos governantes até nós próprios, preocupamo-nos com o trabalho que vamos ter a seguir. E sabemos que o trabalho é cada vez mais precário. Nós falávamos em off, ver de repente o Observador a crescer em tão pouco tempo, mas por outro lado, temos outros meios de comunicação social a desaparecerem e as pessoas a serem despedidas por isso.

Ou a tentar sobreviver.

E portanto, é uma sobrevivência constante, mas é uma sobrevivência muito mais inquietante do que era há uns anos atrás, porque é quase diária. E isso é o que me provoca mais inquietação, é esse futuro.

Falaste aqui do futuro, até do papel dos nossos governantes. Nós daqui a muito pouco tempo, daqui a uma semana, estamos aqui a falar para dia 11 de janeiro, as eleições são dia 18, vamos ter uma decisão importante a fazer nas urnas, vamos eleger o próximo presidente da República, ainda que esteja tudo inclinado para que haja uma segunda volta, que vai acontecer no dia 8 de fevereiro. Eu queria aqui recuperar umas declarações que tu fizeste e que na altura suscitaram tanto debate, tanto rebuliço nas redes sociais, a propósito de André Ventura, que é um dos candidatos presidenciais, e que tu disseste, e passo a citar: "Desejo que André Ventura vá à segunda volta e seja eleito".

Na introdução que tu fizeste sobre mim, e eu concordo com ela, é que muitas vezes eu uso o humor como capa.

E quem te conhece sabe que isso é uma característica tua e que te define enquanto pessoa e enquanto também artista, não é?

Claro, a ironia e a comédia têm de estar sempre presentes na minha profissão, mas eu especialmente uso muito a ironia e a comédia. E naturalmente a ironia tem também depois esse lado subversivo da comicidade. Mas eu acho que é uma meia verdade, porque há quem diga que ele é necessário no Parlamento. E assim era uma forma de o afastarmos do Parlamento, era uma forma de vermos qual é efetivamente a verdadeira força dessa força política.

E vamos ver o que é que vai acontecer até dia 18.

Eu confesso que não sei ainda, não me perguntaste, mas eu vou dizer, não sei ainda em quem é que eu vou votar. Mas curiosamente também estou estupefacto com o facto de nós levarmos no boletim de voto com os candidatos que nem sequer reuniram condições para ser candidatos efetivos. Eu não sei se é a primeira vez que isto acontece ou não.

Não é a primeira vez. Já percebi e fui-me mando também com as notícias.

Questões temáticas.

Possivelmente, burocracias, porque já não é a primeira vez que acontece. Vamos ter 14 candidatos no boletim, quando só 11 podem ser presidente, neste caso, da República.

Esperemos que não seja eleito um desses três.

E uma cruz colocada numa candidata, por exemplo, a Joana Amaral Dias, que não pode ser eleita enquanto presidente, é um voto nulo e contará assim mesmo enquanto voto nulo. Pelo que percebi, não é uma questão nova, mas é uma questão que devia ser resolvida, porque acho que acaba por criar mais ruído.

É surreal. É mesmo, cria mais ruído e com certeza vai contribuir para os votos nulos. Não tenho dúvidas que isso acontece. Já quando os boletins estão completamente corretos, isso acontece, às vezes as pessoas enganam-se.

Sim, e nas últimas eleições, nas legislativas, não sei se te recordas daquela confusão entre AD e ADN. E muitas pessoas alegam que se enganaram e que acabaram por votar no ADN quando queriam votar na AD.

Eu acredito que isso tenha acontecido.

Exato.

Mas isto para te dizer que apesar dessa minha frase ser irônica, eu não vou votar André Ventura. Não vou dizer em quem é que vou votar, mas aí digo-te que não vou votar em André Ventura. Portanto, isto é um sinônimo de que aquilo que eu disse era pura ironia.

Sim. Quando a disseste e depois percebeste o eco e muitos comentários que surgiram à volta disso, arrependeste-te logo no momento a seguir?

Não me arrependi de absolutamente nada, porque tal como estamos agora a conversar, e esta conversa vai ter 40 minutos, sensivelmente, ou menos, provavelmente vai ter menos, que vai ser menos interessante. Mas quando eu tive essa conversa, nós falámos de muita coisa e de repente, aquele momento que talvez tenha sido três minutos da conversa, passou a ser a chamada de capa. Isso foi uma opção completamente da jornalista, portanto editorial. Eu ficaria mais satisfeito se pegassem noutra coisa que eu disse, mas eu percebo que é só para criar buzz, só para chamar a atenção.

A questão dos números, a ditadura dos números, entre aspas, ainda move.

Sim. Pena que o Trump não consiga sacar essa ditadura dos números.

Falaste de políticas também, na forma como se governa Portugal. Tu já viveste bastantes anos, bem mais do que eu.

Estou sempre a falar de política, já viste? É uma coisa que às vezes até me aborrece. Sim, se calhar a palavra não sei se é bem escolhida, mas aborrece-me falar sobre política. Mas na vida tudo é política, até ir comprar pão. O sítio onde eu escolho comprar pão é um ato político, quer se queira, quer não. Eu posso ir comprar pão à mercearia da minha rua, ou ao senhor, ou à padaria que já existe há não sei quantos anos, ou posso ir a uma grande superfície e com isso contribuir para a fuga de impostos na Holanda. Portanto, tudo é um ato político. As pessoas podem ter ou podem não ter esta consciência. Mas nos dias que correm, aborrece-me um bocadinho falar sobre política, porque já não é apenas falar sobre quais são as consequências políticas que um ato simples de uma pessoa tem no seu dia a dia. Não, como tu disseste acerca da ditadura dos números, está tudo muito relacionado com isso. A agenda política move-se sob essa espada da ditadura dos números e não por uma questão altruísta ou apaixonada, romântica, quase, que eu assisti e que eu aprendi a ver nos nossos políticos após 25 de abril e que tem morrido ao longo do tempo, muito mais ainda com o surgimento do Chega. Vou dar um exemplo: há bem pouco tempo, uma das rampas de lançamento, falando das presidenciais, para seres um candidato à Presidência da República, eventualmente seria a Câmara Municipal de Lisboa. Se já tivesses passado pela Câmara Municipal de Lisboa, era uma boa rampa de lançamento para te candidatares a primeiro-ministro, a presidente da República. Agora a rampa de lançamento, pelos vistos, são cartazes Preferencialmente disruptivos, controversos, que tenham inclusivamente de passar pelo Tribunal Constitucional ou redes sociais como o TikTok. Portanto, isto já tem pouco a ver com política propriamente. É nesse sentido que eu digo que a política aborrece-me.

Vamos deixar a política.

Não, tudo é político.

Mas se calhar ainda vamos voltar a ela. Tu também és um homem de causas e isso está muito patente precisamente através das tuas redes sociais e além das redes sociais, naquilo que tu defendes e naquilo que tu acreditas. Portanto, possivelmente ainda vamos voltar a esse tema noutros moldes ao longo destes 40 minutos, mas queria ir à tua infância. Tu já falaste da tua avó, de uma pessoa muito importante na tua vida. Tu nasceste em Lisboa, aos cinco anos foste viver para Alter do Chão, viveste na vila alentejana até aos 12 anos. O que há ainda desse tempo e como é que esses anos moldaram o Jorge Corrula e o que ainda há desse menino em ti?

Não sei qual é a porcentagem.

70, 80.

Não sei qual é a porcentagem, mas há uma grande dose, sem dúvida, isso vai me acompanhar para sempre. Eu acho que hoje em dia fala-se muito de as crianças não saberem estar no aborrecimento. Também se fala, em termos artísticos, que do aborrecimento é que surge a criatividade. E eu acredito muito nisso. Eu passei muitas tardes a brincar sozinho ou a brincar só com um amigo ou com poucos brinquedos, sem distrações, nem vou falar dos telemóveis, mas sem esse tipo de distrações que são quotidianas hoje, das redes sociais, dos smartphones. E eu não tenho dúvidas nenhumas que isso estimulou muito o meu lado criativo e que é uma ferramenta vital pro meu trabalho de ator. E também é uma ferramenta vital enquanto pai, é uma ferramenta vital enquanto entrevistado. De maneira que lia muito mais nessa altura do que leio hoje em dia, por exemplo, de modo que todo esse lado do tempo, que tem outro tempo, por assim dizer, no Alentejo, isso é uma característica humana que me vai acompanhar para sempre e que, de certa forma, eu tento passar isso também a espaços, porque nem sempre tenho essa oportunidade, às minhas filhas.

E vês muito de ti, desse miúdo que dizias que brincava muito sozinho, agora nas tuas filhas, nessas brincadeiras que fazias em criança ou nem por isso?

Não, são brincadeiras completamente diferentes. Não, só no sentido que estava a dizer, no meu lado criativo, de introduzir brincadeiras com elas, só nesse sentido. Não, porque se calhar era muito solitário e hoje em dia eu gosto muito de estar só. Sou aquele tipo de pessoa que falo sozinho, comigo.

Estás a cozinhar.

Estou a cozinhar, estou na bricolage, estou às vezes a passar texto, estou só a ver notícias e falo em voz alta. Sou essa pessoa que tenho pequenos monólogos comigo. Estou na casa de banho e tenho, sobre coisas que aconteceram comigo no dia anterior. É uma forma de, se calhar, ouvir os meus pensamentos pra perceber se fazem algum sentido ou não. Mas eu tenho muita necessidade de estar sozinho. E com elas as brincadeiras são completamente diferentes daquelas que eu tinha.

E sentes-te confortável sozinho e nesse silêncio?

Sim, sem dúvida. Sinto-me muito confortável sozinho. Aliás, eu antes de vir pra cá, tinha algumas questões de bricolage pra resolver em casa, mas também estava com o pensamento a ir andar de bicicleta. E pra mim, andar de bicicleta ou fazer qualquer tipo de esporte é sinônimo de estar sozinho ou é sinônimo de ouvir um podcast, por exemplo, é sinônimo de ouvir música, descobrir álbuns novos ou de trabalho também. Uso muitas vezes essas saídas sozinho quando tenho que decorar algum texto, gravo o texto e vou ouvir de maneira que a repetição me obriga a enfiar o texto na memória. Estava na dúvida se fazia o trabalho que tinha que fazer ou se ia pro meu ato de contrição solitário, de repente andar de bicicleta e espairecer um bocadinho.

Que é também um novo escape, por aquilo que sei. As bicicletas.

O desporto sempre foi. Eu acho que é uma forma de eu conseguir justificar a não ida à psicoterapia e também poupar algum dinheiro.

É uma forma de libertação, não é?

É uma forma de psicanálise, de autoanálise, não tenho dúvidas nenhumas, através do atletismo. Eu sonhava fazer a maratona e há uns anos fiz a maratona de Nova York e depois fiz a maratona de Londres e andava a treinar diariamente. E eu descobri através da repetição e do treino, a meditação, que nunca consegui. Já tinha tentado fazer meditação, mas nunca consegui. Foi através do desporto que eu consegui fazer a meditação. Portanto, eu não tenho dúvidas nenhumas que eu uso o desporto muito mais do que uma questão de saúde ou de fitness. Não sou nada preocupado com o fitness, com os ginásios. Não gosto nada de ginásios, me enfiar no ginásio, dessas coisas, mas o desporto é pra mim uma forma de cura.

Isso é ótimo. Ainda que haja maratonas pelo meio, e isso é só pra bravos e corajosos.

É parvo. Não é necessário correr 42 quilômetros pra descontrair.

Acho que é uma forma de superação. Eu adorava conseguir fazê-lo. Dou muito valor a quem o faz.

Podes só fazer uma caminhada no Pardão durante meia hora, está bom. Não é preciso fazer 42 quilômetros.

Jorge Corrula, vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos para a segunda parte em 40 minutos. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana estamos com o ator Jorge Corrula, também outrora corredor de maratonas. Eu fiquei curioso há bocadinho, porque falaste em álbuns e eu gosto muito de saber o que as pessoas andam a ouvir em termos de música. Conta-me tudo.

Eu sou eclético, eu ouço de tudo e com isto não quero dizer que não vou responder à pergunta, vou com muito gosto, mas seria um podcast só dedicado à música. Para mim, música é talvez uma das vertentes da arte que eu era incapaz de abdicar. Era capaz de abdicar, se tivesse de abdicar, da imagem, de alguma das vertentes da imagem, como a fotografia, escultura. Agora, música, quem me tira música logo pela manhã, à noite, durante a tarde, nos momentos de trabalho em que preciso de estar concentrado ou preciso de zanufiar, a música é essencial, é uma espécie de banda sonora. Obviamente, no cinema mudo não havia som, mas mesmo no cinema mudo tu consegues imaginar qual é a música que se encaixa naquela cena. De maneira que a música é uma outra forma de nós contarmos histórias, mas com notas musicais. O que é que eu ando a ouvir? Para responder diretamente, para não estar aqui a divagar. Eu continuo a acompanhar e continuo fascinado com uma miúda de Setúbal chamada Cátia, mais conhecida por A Garota Não. Obviamente pelas letras, que são poesia, mas é também música de intervenção com músicas que eu ouvi desde influências que ela também tem, que eu também tive de Adriano Correia de Oliveira, de José Afonso, mais recentemente Sérgio Godinho, José Mário Branco. E ela fá-lo de uma forma muito atual.

Preocupada?

Virtuosa. Ela é uma poetisa. É fascinante. Eu fiquei muito orgulhoso de repente, porque andava em repeat a ouvir o primeiro álbum dela e de repente ela, há dois anos, ganhou o Globo de Música. E este ano ela lançou o último álbum, o "Ferry Gold", quando tu achas que de repente, porque é difícil, imagino, deve ser angustiante voltares para estúdio depois de um grande sucesso. E o "Ferry Gold", o último álbum que ela lançou, as comparações não são justas, mas eu diria que é ainda melhor que o álbum anterior e é ainda mais atual e mais pertinente com a atualidade. E depois, nós não temos o hábito já de comprar CDs.

Sim.

Mas eu tenho o CD em casa e a capa do CD é cosida à mão e é ela si. Não te sei dizer de quem é a ilustração de corte, teria de ir pesquisar, mas ela própria é uma obra de arte. Este ano, só em novembro é que eu tirei o CD da mochila. Andou comigo ainda, sempre, não só para ouvir as músicas, mas para ler as letras das músicas. A Garota Não é talvez o álbum e a artista que eu mais ouvi este ano, falando de música portuguesa.

E a beleza da música é isso mesmo, não é? Além da sonoridade, que às vezes nos pode parecer muito bem, se as letras depois também nos obrigarem a esse questionamento, a esse pensamento, acho que é esse o propósito da música, mais do que acharmos uma melodia interessante ou altamente consumível, vamos dizer assim, por entre aspas. É esse o propósito.

Pois. Às vezes nós gostamos de uma música e não prestamos atenção à letra.

Sim.

Isto aconteceu anos mais tarde, de repente, quando eu presto atenção à letra, é quase um ato inconsciente. Depois de prestares atenção à letra e do quão a letra é significativa para ti, quase que tu pensas que estava destinada a ti, estava destinada a ouvir, independentemente de não conheceres a letra. Isso por acaso acontece muito, mas essa é a magia também da música.

Vamos voltar à tua infância. É curioso pensar que aqui à minha frente tenho um homem com 48 anos, mas que teve um início de vida-

47, faço em março.

Pronto. Eu acho que disse a caminho, não sei. Mas pronto, falta pouco. Eu faço já em janeiro, portanto, estamos quites.

Sabes que é estranho dizer 48, porque não me encaixa.

Tens complexo com a idade?

Não, nenhum. Não tenho nenhum, precisamente por causa disto. Eu sei que isto é lugar-comum esta frase, mas é mesmo só um número.

A idade é aquilo que nós fazemos dela. Há pessoas com 60 anos que parecem que têm 40 ou 30.

Pois, e ultimamente há pessoas com 20 e tal que parece que têm 70.

Também há esse fenómeno.

Mas quer em termos físicos, quer sobretudo em termos de maturidade, não me sinto nada com a idade que tenho. Mas complexo zero, nenhum.

Pronto. 47 anos, para não haver equívocos.

Caminhos de 48.

Um início de vida, não diria complicado, mas marcado por acontecimentos de vida demasiado duros para alguém que é tão novo, nomeadamente a perda da tua mãe e depois acontece o bullying, a propósito dessa questão. E foi uma partilha que tu fizeste na altura com o Daniel Oliveira. Penso que também suscitou muitos alarmes no que toca à proteção das crianças que passam por esses acontecimentos que podem ser traumáticos. No teu caso, queria perceber a perda de uma mãe, e tu acabas por dizer que não tens grandes memórias, aliás, as fotografias não sei se também te causam algum tipo de sensação ao recordar e ao vê-las, mas a questão do bullying acabou por ser importante pra ti, na medida em que também te deixou alerta para a fase que estás a viver agora enquanto pai e na proteção normal que um pai tem que dar aos filhos.

Sim, essa pergunta tem várias questões, mas no que me diz respeito, a sensibilidade pro bullying não me surgiu naturalmente após ser pai. Eu já tinha isso antes, primeiro porque sofri bullying e depois porque cresci a observar e a tomar partido e a defender quem sofria esses atos de bullying. Há algumas palavras que estão na moda e eu tento fugir a essas palavras, como bullying, empatia. Tento fugir a essas palavras, porque às tantas as pessoas como estão sempre a ouvi-las, tiram-lhes a importância e deixam de ver o verdadeiro significado e a importância que essas palavras têm. Eu acho que o que acontece com o bullying é um ato da maioria contra uma minoria e, portanto, isso é transversal à sociedade. É mais grave quando acontece numa escola, porque nós estamos a formar-nos, estamos sensíveis, somos naturalmente mais frágeis porque estamos ainda em crescimento e isso naturalmente pode deixar sequelas para sempre. E a mim deixou-me sequelas para sempre. Mas repara, quando eu digo sequelas, não vou dizer que o bullying é uma coisa positiva, mas eu duvido que fosse tão atento a estas questões se não tivesse passado por isso. Trata-se de te pores nos sapatos dos outros. Eu, neste caso, não preciso me pôr nos sapatos, porque aqueles sapatos eram meus. Se calhar, por esta experiência, não se trata de gostar, é quase um mecanismo automático, eu coloco-me constantemente nos sapatos dos outros. Quer numa questão tão importante como o bullying, quer numa questão tão simples como o dia a dia.

Injustiça social.

Não, tão simples como segurar uma porta a alguém que chega pra entrar e tu vais a passar. Um simples ato de gentileza, quero dizer. De maneira que eu acho que é esse ato de gentileza, essa preocupação com o outro, aquilo que dizíamos no início da conversa, nós vivemos a pensar no instantâneo. Vivemos quase como se tivéssemos apenas um prazo de 24 horas pra viver. E naturalmente não queremos ceder minutos que são nossos aos outros. Mas a experiência dos meus 47, a caminho dos 48, diz-me que lá longe, lá à frente, tu de alguma forma vais ter retorno nos minutos que dispensas aos outros. Tu resgatas esses minutos mais à frente, quer seja também com atos de gentileza, quer seja com simplesmente dormires melhor à noite, ou quer seja também através de alguém reconhecer e agradecer o ato de gentileza que tiveste com ele.

Há mágoas ainda dessa altura ou está tudo devidamente arrumado no lugar onde deve estar?

Está tudo devidamente arrumado, eu acho. Em relação à questão da perda da minha mãe, do bullying. Alguns dos que me faziam bullying, somos amigos, quer dizer, não somos amigos de casa, mas ainda hoje falamos e que está tudo perfeitamente resolvido. No fundo, o bully é apenas alguém muito frustrado e muito inseguro em relação a si e está apenas a descarregar a sua frustração nos outros ou a tentar mostrar a sua superioridade, calcando ou menosprezando os outros. É só um ato de fraqueza e de insegurança, não é mais do que isso. E à distância eu consigo ver isso e reconhecer isso e ver que a fragilidade maior não está em quem sofre, mas em quem pratica bullying.

A história ensina-nos isso com vários relatos, tanto o teu como de outros.

Mas isso não significa que não devam sofrer as consequências.

Claro. E na altura, não sei precisar há quanto tempo é que foi, na tua idade falava-se menos disso, não é? E muitas vezes, não tenho noção disto, se no teu meio era assim, mas não se dava tanta atenção a estes comportamentos. Hoje em dia a atenção se calhar é diferente Mas desvalorizava-se mais a questão? Não tenho bem a noção de como é que funcionava.

Não era tema. Aliás, essa palavra sendo um neologismo, nem sequer existia.

Existia.

Mas nem sequera era tema. Essa perversidade escolar fazia parte da educação. Eu devo te confessar que eu ainda sou do tempo

Quem diz isto.

Eu ainda sou do tempo em que eu entrava na escola primária, portanto, a primeira, segunda, terceira e quarta classe, que eu tive a Dona Lúcia, que era a minha professora da primária, no primeiro, segundo, terceiro e até a quarta classe, foi sempre a mesma professora. E desde o primeiro ano até à quarta classe, nós entrávamos na sala da aula de manhã e benziamo-nos, dizíamos: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém." Antes dizíamos: "Bom dia, professora." Rezávamos uma Ave Maria, um Pai Nosso e a professora tinha uma régua de madeira, quem se portava mal levava porrada, quer nas mãos, e tinha uma cana, que usava para apontar pro quadro, dardosa, e com essa mesma cana também nos batia na cabeça. E vou te dizer que não era devagar. E eu era muitas vezes visado.

Hoje os tempos são bem diferentes.

Hoje em dia era impensável. Hoje em dia temos exatamente o oposto. Às vezes as crianças são superprotegidas, quase que retiramos a importância do professor e a capacidade que o professor tem de disciplinar também os próprios alunos, não só para dar matéria, mas para os disciplinar em termos de concentração, da atenção que eles devem ter na sala da aula, da assiduidade e dos trabalhos de casa que têm que fazer. Quase que retiramos essa autoridade ao professor e os pais querem se imiscuir em tudo que diz respeito à educação, que deve ser uma coisa, diria eu, exclusivamente quando se trata de confinada na escola. Exclusivamente da função dos professores e, portanto, passamos de uma situação em que a religião fazia parte quase do currículo escolar, em que a violência fazia parte do currículo escolar, passamos dessa situação para, de repente, despedimos todos os professores e tiramos de todo e qualquer poder, e mesmo o Ministério da Educação, em que tipo de matérias é que se devem ensinar nas escolas, os pais querem se imiscuir e querem retirar essa autoridade da escola. E enfim, os filhos passam a viver apenas numa redoma, e uma redoma muito pequena, que apenas diz respeito a cada um dos encarregados de educação.

Bem, vamos aqui voltar ao centro da questão, à ficção e à televisão. Há bocadinho falávamos na questão da política das redes sociais, isto está sempre aqui, das redes sociais, do TikTok, do Instagram. E eu acho que nós vivemos agora um tempo muito desafiante, tu se calhar também enquanto ator sentes isso, que é a exigência de ter cada vez mais produtos que agarrem o telespectador. Tu agora estás num projeto recente na SIC, numa novela, "Vitória". Acreditas que a televisão neste momento cumpre o seu propósito, tendo em conta a exigência do tempo em que estamos a viver?

Eu tenho alguma dificuldade em acreditar que exista uma única pessoa que saiba qual é o propósito da televisão atualmente. Qual é o propósito da televisão a não ser audiências? Não sei qual é. Até a própria RTP já é empurrada para as audiências. Isto já é uma conversa de há muitos anos, que a RTP é empurrada em várias direções, na direção dos privados, como se tivessem exatamente a mesma função, que não faz sentido nenhum. Mas, francamente, eu não sei responder essa. Qual é a função, qual é o propósito da televisão? É informar, é entreter, é adormecer? Eu acho que hoje em dia é mais adormecer do que entreter. Falamos em programas de entretenimento, se calhar, os ansiolíticos fazem menos efeito. Contra mim falo das telenovelas. Por contraponto, já há muitos anos que eu ouço falar em audiências, na guerra de audiências e em que a televisão naturalmente iria terminar e íamos apenas dedicar-nos aos streamings e ao pay-per-view. De maneira que eu não sei por onde é que está a caminhar a televisão. Nem sei se há alguém que consiga responder a isso.

Mas isso assusta de alguma forma enquanto ator, enquanto alguém que está posicionado no meio?

Volto às minhas inquietações, obviamente que eu quero ter trabalho, naturalmente. E os últimos anos eu consigo reconhecer que eu tenho feito muito mais telenovelas do que eu tenho feito teatro ou do que eu tenho feito cinema. De maneira que eu vivo essa inquietação e naturalmente quero ter trabalho e vou te dizer que faço a novela, vou para os estúdios de televisão gravar 20 ou 30 cenas por dia com a mesma disponibilidade e a mesma convicção com que sou capaz de fazer Shakespeare no Trindade. Não tenho toda essa presunção em relação às telenovelas. Mas acho que podemos e devemos diversificar conceitos, produtos, nomeadamente, se calhar, não estender uma novela durante 200 episódios e não repetindo até à exaustão o episódio de ontem, no dia a seguir mais 40 vezes e as pessoas com isso sentem-se defraudadas e traídas com as histórias. Porque no fundo as pessoas ficam agarradas é com a história. A história é intemporal. As histórias estão todas contadas. A novela já foi escrita por Shakespeare há muitos anos. De maneira que não estamos a fazer nada de novo. Podemos é ser mais fiéis, respeitar mais o público. E a televisão estatal serve para isso mesmo também, para nós mantermos uma certa bitola, não ser apenas a ditadura, a tal ditadura dos números, a ditar o que é que nós vamos apresentar às pessoas, com o que é que vamos adormecer as pessoas.

Tu agora és presença assídua, de segunda a sexta, com a novela que está no ar, és um dos protagonistas. Ao fim de tantos anos e tantos papéis que já fizeste, continuas a ser muito criterioso no sentido de cada projeto que te oferecem, avalias sempre a profundidade, aquilo que ele te vai dar, porque ao fim de tantos anos, não sei se pensas nisto, que é: "Bem, se calhar já fiz tudo, qual é a personagem que vai calhar a seguir? Será que há mais algum papel para mim?" Não sei se essas questões te invadem.

Eu tenho-me deixado levar na onda. Muitas vezes os projetos vêm ter comigo, eu não os procuro. Se calhar devia ser mais proativo. Já tenho alguns meses disto, efetivamente. Há uma coisa que o tempo me tem ensinado, que é: eu sou constantemente surpreendido. Pode não ser com a cadência, se calhar, que eu gostava, mas quando eu acho que posso cair no entorpecimento, em que de repente posso ficar congelado com um determinado formato, sou surpreendido com um convite, quer para o cinema, quer numa telenovela. Falando de telenovelas, mesmo sendo este formato, que eu também critico, de um episódio se prolongar e das novelas muitas vezes prolongarem as questões dramáticas, há trabalho, há personagens com determinadas características ou com uma determinada profundidade, que em termos de trabalho de ator são muito desafiantes. Já nem estou a falar da questão de gravar 30 cenas por dia e disso, em termos físicos, obrigar a uma elasticidade grande enquanto ator.

De emoções, não é?

Sim, é quase como se fosse um ginásio. É quase um ginásio dos atores fazer telenovela. Mas eu tenho sido constantemente surpreendido com personagens que eu não tenho dúvidas nenhumas. Imaginemos, se eu só fizesse cinema ou só fizesse teatro, eu tenho a certeza absoluta que a palete de personagens que eu já consegui fazer em televisão e o que elas me obrigaram a fazer, ou pelo menos que me pediram, e umas vezes eu consegui, outras vezes não consegui. Essa palete de emoções que me foi apresentada e as oportunidades que eu já tive, em termos de diversidade de personagens, eu tenho algumas dúvidas que eu conseguisse ter estas mesmas oportunidades num outro formato. Portanto, nesse sentido, quando eu às vezes fico um bocadinho preocupado se devia fazer mais cinema ou devia fazer mais teatro, estes papéis, estas personagens, estes desafios que me têm sido lançados neste formato de telenovela, são um sinónimo de estar satisfeito, otimista com todos estes projetos até agora.

Até porque daquilo que tu estás a dizer, e fala-se muitas vezes nisto, há muita tendência de tirar um bocadinho do valor da novela, às vezes, e aos atores. Mas é isso, a questão que tu referes das 30 cenas por dia e tu enquanto protagonista, se calhar, trabalha ainda por cima redobrado, e da profundidade das camadas que vocês têm de fazer. E essa questão de muitas vezes termos personagens que são tão profundas que podiam perfeitamente, ou se calhar nós olhamos para uma novela e não damos esse valor, mas se for a mesma personagem, que não é, mas feita no cinema, se calhar o valor que damos àquilo é diferente. Acreditas que ainda há muita tendência de tornar a novela como um conteúdo mais, entre aspas, popular e descredibilizar um pouco esse trabalho todo que é feito por vocês enquanto atores?

Sim, isso acontece, mas eu acho que é natural que aconteça, porque o que nos cativa é uma coisa misteriosa. Às vezes apaixonamo-nos por alguém ou por uma coisa, pelo mistério, pelo desconhecimento, pela curiosidade de saber como é que é. Como é que é o ator para além do personagem? Ou como é que é a personagem fora desta cena? E em telenovela quase que não há espaço para o mistério, porque nós vemos aquela personagem todos os dias, nós vemo-la em milhentas situações, quase não há espaço para o mistério e o interesse perde-se e desvalorizamos o personagem, desvalorizamos aquilo que estamos a ver. Por isso é que às vezes em cinema temos apenas um personagem que aparece numa cena ou em duas cenas e nós ficamos cativos daquele personagem, ficamos deslumbrados e conseguimos mais facilmente elogiar aquele trabalho pelo mistério e pelo desconhecimento, porque de repente nem tudo é revelado. Portanto, é natural que esse fenómeno de desvalorizar o trabalho das novelas aconteça. Eu percebo perfeitamente. Vou dar-te outro exemplo. É muito mais fácil tu ficares cativo de uma personagem feita por um ator que tu não conheces de lado nenhum No sentido em que não é que não conheces de lado nenhum, nunca viste o trabalho dele, é muito mais difícil, por oposição, tu achares interessante o trabalho de um ator que já viste em vários papéis diversas vezes. E se calhar, outra pessoa a ver aquele ator, que não o viu tantas vezes quanto tu viste, vai ter outro critério sobre aquele trabalho. Isso tem a ver com o grau de exposição. Volto ao mistério. A novela deixa pouco espaço ao mistério, quer na escrita, que é um bocadinho ilustrativa. Por acaso, esta novela que eu fiz ultimamente, eu achei que estava muito bem escrita, mas às vezes a novela, e nós atores também temos que ter essa capacidade, e muitos têm, quer através da direção de atores e da realização, também nos ajudam nesse sentido, de às vezes limar o texto no sentido de lhe acrescentar algum mistério, de lhe acrescentar camadas, que não seja só tudo explicadinho, tudo entregue no colo do espectador. A novela tem este defeito. Muitas vezes quer entregar tudo explicadinho no colo do espectador. E é preciso, volto a utilizar esta palavra, que eu acho que é muito adequada para esta pergunta, que é o mistério, tem de estar sempre presente para nós ficarmos cativos ou acharmos o trabalho interessante, seja ele qual for, quer o trabalho de ator, quer o trabalho de jornalista.

E tu em casa tens alguém que partilhe esta mesma paixão contigo, a Paula Lobo Antunes. Vocês discutem muitas vezes estas inquietações ou nem por isso?

Não. Nós falamos pouquíssimo de trabalho. Quando falamos é cirúrgico. Ou às vezes eu peço-lhe uma opinião, ou ela a mim. Enfim, também por questões do quotidiano, temos mais que conversar do que do trabalho. Mas eu acho que quando as pessoas são muito próximas, as opiniões não se pedem ou as conversas não se puxam. Se houver alguma coisa a dizer, o ato mais simbólico e mais sincero é quando a conversa é espontânea. E, portanto, o mesmo acontece conosco. Se eu tenho alguma coisa a dizer em relação ao trabalho da Paula, eu digo, de outra forma acontece. Raramente puxamos conversa de trabalho. São às vezes apontamentos cirúrgicos, porque naturalmente nos conhecemos muito bem e quando uma pessoa te conhece muito bem ou quando te vê a trabalhar muitas vezes, eu acho que essa, se calhar, é a melhor pessoa para avaliar o teu trabalho.

E falam sobre futebol ou nem por isso? O Benfica não está assim tão bem, não é?

Obviamente gosto de falar de futebol, mas quando o nosso clube não está muito bem, já não gosto tanto de falar de futebol.

Mas tu és aquele adepto fervoroso, e tivemos agora eleições há pouco tempo, nem vou falar sobre essa questão, mas que gosta de exaltar e de falar, criticar quando está mal, ou és uma pessoa mais tranquila? Quem é, por exemplo, o Jorge Corrula no Estádio da Luz?

Olha, eu sou o primeiro a levantar-me e a iniciar um cântico.

Boa.

Mas também sou o primeiro a assobiar. Portanto, eu sou de extremos, mas porque o meu clube também assim se reflete. A isso me obriga. Somos capazes de grandes vitórias, como na semana a seguir somos capazes de derrotas inimagináveis e de comportamentos inimagináveis. Mas há uma questão de respeito que eu nunca ultrapasso, nem com os meus, nem com o meu clube, muito menos com o clube adversário, nem com o árbitro. Isso é uma coisa que eu não consigo perceber. Falta de fair play no desporto é uma coisa que eu acho abominável e esse comportamento eu não tenho. Seria a única questão que não me faria ir para junto de uma claque, porque se tivesse sempre tudo positivo

Tu estavas lá.

Eu estava lá. Não com highlights, mas com cânticos, estaria com toda a certeza, com empurrões e amassos alegres. Agora não contem comigo para chamar nomes ao adversário.

E esta época acreditas que as coisas estão complicadas. O Benfica está a 10 pontos da liderança, acabou de ser eliminado da Taça da Liga. Estamos a gravar o programa, aliás, já no dia 9 de janeiro, dia 10, que é amanhã, temos a final da Taça da Liga, ou seja, quando este programa for para o ar, já saberemos quem venceu, o Braga ou o Vitória Sport Clube. Antecipas uma época difícil até ao final para o Benfica?

Eu não antecipo nada, nós estamos a meio da época.

Ainda é possível, o Benfica já ganhou campeonatos com, salvo erro, 10 ou 7 pontos de desvantagem, ou 8.

Vamos falar outra vez da ditadura dos números. Eu não acredito que seja possível. Quer dizer, matematicamente é possível, claro que é possível. Tudo é possível matematicamente, mas efetivamente o comportamento, a experiência, empiricamente nós sabemos que seria preciso ir a Fátima várias vezes. Como? A Fátima? De bicicleta iria sim, dar um passeio, sem dúvidas.

Já é outra questão. Mas quem já fez uma maratona, ia a Fátima.

Sim, não por razões religiosas, mas iria, claro. Por que não? Sim. Mas eu acho que é preciso muito mais do que um milagre para acontecer algo positivo ao Benfica, que não apenas a vitória na Supertaça no início da época. Acho que não vai acontecer mais nada, infelizmente.

Veremos. Estaremos cá e, se possível, lá para maio envio-te uma mensagem para falarmos e recuperamos esta conversa, a fita atrás, para perceber se estás num bom caminho ou não.

Nesse caso, sou eu que vou enviar a mensagem, já percebi.

Pronto, fica combinado. Andamos aqui a saltitar entre temas e eu disse que íamos falar sobre isto. Tu és um homem de causas e considero-te uma pessoa vigilante. Não sei se gostas de te definir com esta questão, mas tu és uma pessoa muito ativa nas redes sociais no sentido de te posicionares sobre determinados temas. Posicionaste-te, por exemplo, na questão do genocídio em Gaza e tiveste posições fortes no sentido de defender que aquilo que estava a acontecer em Gaza era um genocídio. Aliás, disseste numa entrevista que foste aconselhado a não falar mais desse episódio e que podias vir a ser prejudicado profissionalmente nesse sentido. Isso nunca te fez retrair das tuas posições, de continuar a querer dizer aquilo que pensas, aquilo em que acreditas, nunca te fez retrair em nenhum momento?

A única coisa que me fez retrair foi a minha saúde mental e muito honesto em relação a isto. Já ultrapassamos os dois anos deste último massacre em Gaza, tenho dificuldade em chamar-lhe conflito ou guerra, e por estar tão por dentro, por estar a ver notícias todos os dias, as imagens eram fortes, eu senti que estava a entrar numa espiral que não era positiva para mim psicologicamente e por isso retraí-me na comunicação nas redes sociais. Não só falando da Palestina, mas falando do meu trabalho e falando das minhas questões pessoais. Afastei-me um bocadinho, durante um período, das redes sociais, porque estava a ficar deprimido com esta questão. Não só pela questão em si, pelo ato desumano que ainda sucede no momento em que estamos a gravar este podcast, mas sobretudo pela indiferença do nosso país, europeia, enfim, mundial. E quando tu, no início, me perguntavas se eu me considero vigilante, o extraordinário é que eu não me considero nada vigilante. O que eu acho é que está toda a gente a dormir. Eu não estou vigilante, eu estou só com os olhos abertos. Uma pessoa vigilante é alguém que está alerta em relação a uma situação qualquer ou porque a qualquer momento pode acontecer qualquer coisa. Estou vigilante. Eu estou vivo e naturalmente, estando vivo, olho, reparo e vejo, e não consigo ficar indiferente, mesmo que isso me prejudique profissionalmente. Não só nesse tema, mas esse tema é fraturante e por vários interesses pouco claros, há consequências profissionais. Enfim, não é só no trabalho de artista.

Em termos de convites, é aquilo que tu te referes neste momento.

Vou ser muito franco. Eu quando dei essa entrevista não tinha ainda os meus números, mas em dois anos, eu posso te garantir que em termos de publicidade para mim, neste último ano, eu tive menos 80% dos trabalhos que tinha anteriormente. Agora, eu posso dizer assim: "Foi por acaso". Sim, posso acreditar que é por acaso, mas a experiência e a probabilidade de ser por acaso, numa altura em que eu estou a ter até mais visibilidade num canal de televisão, onde tenho mais seguidores, onde fiz há pouco tempo um programa de entretenimento na SIC, não faz sentido. É quase em contraciclo. Alguém tem mais visibilidade e faz menos publicidade, não faz sentido. Isto foi uma consequência da minha comunicação, não tenho dúvidas nenhumas.

Claro, até porque és uma pessoa mais próxima, digamos, entre aspas, do público. Se é uma pessoa mais presente, se calhar convém ter aquela pessoa a aparecer mais, porque é uma pessoa que o público se sente mais próxima ou sente um certo tipo de ligação.

Vou ser muito básico. Se tenho mais visibilidade, isto falando de uma perspectiva comercial, de marcas, que é isso que eu estou a falar.

É isso que estamos a falar.

Se tenho mais visibilidade, naturalmente sou mais procurado por isso. Vendo melhor.

A lei do mercado funciona assim.

Exatamente.

Não quer dizer que seja o mais correto, mas é como funciona.

Não quer dizer que seja literal. Em termos de venda de produto. Mas, em princípio, quando alguém procura um meio de comunicação para vender qualquer coisa, quer ver os números desse meio de comunicação, ver qual é a visibilidade, qual é o alcance desse meio de comunicação. Numa altura em que o alcance foi maior, de repente, a minha faturação em termos de publicidade desceu, a procura diminuiu. E eu não tenho dúvidas nenhumas que isso é por causa da forma como eu comuniquei este genocídio de Israel contra os palestinianos. Não tenho dúvidas nenhumas. Mas enfim, como eu te disse, não é por isso que eu me retraí. Eu retraí-me apenas porque estava a entrar numa espiral deprimente, mas lá está, eu acho que usando a tua expressão, quem não vive vigilante nos dias de hoje, é muito difícil estar otimista, é muito difícil não ter momentos de profunda depressão com o que se está a passar. Não só falando da Palestina, mas quer dizer, é só abrir o "Correiio da Manhã" e ficar ou ler "O Observador", ou ouvir rádio e não ficar profundamente deprimido com o que se passa no mundo. Já nem vou falar da questão Palestina, mas a questão da Faixa de Gaza é uma história que já se arrasta concretamente desde o final da Segunda Guerra Mundial. O Ocidente tem um grande sentimento de culpa em relação a esse Estado israelita e por isso é condescendente com este ato de barbárie. E isto não quer dizer que não haja Que não hajam lados negativos do outro lado. A questão está tão polarizada que ou és a favor de Israel ou és a favor do Hamas. E eu vou te dizer, há pouco tempo eu juntei-me a uma iniciativa no CCB, que era o Juntos por Gaza, com vários artistas, vários músicos. E o dinheiro que nós conseguimos reunir, que esta semana soube-se que chegamos a quase 80 mil euros, muito pela questão da generosidade das pessoas que estiveram presentes no CCB e compraram bilhete, e que são vigilantes, e que estão vigilantes. Entretanto perdi o que queria dizer.

Estavas a falar do propósito da questão da vigilância e das pessoas estarem atentas. A propósito do concerto também.

Sim. O que eu te queria dizer é que a questão está tão polarizada que ou és a favor de Israel, ou és a favor do Hamas. E este dinheiro que nós reunimos foi para uma organização da ONU que apoia refugiados. Portanto, eu tenho alguma dificuldade em polarizar concretamente esta questão, porque eu sou a favor dos direitos humanos. Ponto. Se eu achasse que o exército, que não existe, ou que o Hamas estava a dizimar, estava num processo de genocídio com as israelitas, eu denunciaria, que no fundo é a única coisa que eu estou a fazer, é dar visibilidade a alguém que não consegue tornar público o que de alguma forma lhe está a acontecer. Ou que, antes pelo contrário, o que lhe acontece é completamente abafado ou publicitado no sentido contrário. A minha vigilância vai, sobretudo, no sentido dos direitos humanos. E eu tenho alguma dificuldade quando as pessoas arranjam desculpas para fugir a essa questão, que é uma questão fundamental, e tentam arranjar argumentos polarizadores. Acho que é apenas uma fuga para a frente, é uma forma de nós continuarmos adormecidos e não tomarmos partido. Não tomar partido é muito mais fácil. Estar quieto é muito mais fácil. Estar na nossa vidinha é muito mais fácil. Não segurar uma porta é muito mais fácil. Não ter opinião é muito mais fácil.

Falamos aqui de causas, de paixões, daquilo que te move. Quem é o Jorge Corrula, além de tudo isto aqui que falámos ao longo destes mais de 40 minutos? Este tempo todo do tempo.

Não sei, eu não sei responder essa pergunta, que é uma pergunta muito concreta. Eu sou aquilo que faço, em grande parte também aquilo que digo, mas sobretudo aquilo que faço. E eu sou a minha profissão, eu sou a forma como sou pai, como sou amante, como sou amigo, como sou também entrevistado. E tento, pegando na tua palavra, que eu acho interessante, tento manter-me vigilante.

Vais sair daqui hoje com ela na cabeça.

Eu gosto. Eu tento manter-me vigilante ou de certa forma, manter junto de mim aqueles que nos dias que escorrem ainda se mantêm vigilantes e vivos, que é talvez a maior dificuldade dos dias que correm, é mantermos vivos.

Jorge Corrula, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos" e não te esqueças: voltamos a falar em maio para saber como é que está o teu Benfica.

Combinado.