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Hoje em dia, eu acho que muitas mulheres têm ao longo da vida, tal como os homens, desejos fora da relação conjugal. Algumas consomam, outras não. Mas a liberdade das mulheres e a capacidade das mulheres, por exemplo, de sair fora de casa, de jantar fora, de viajar por razões de trabalho, isso mudou completamente. Antigamente eram os homens que saltavam a cerca quando iam a um congresso, uma história qualquer. Agora é igual. O "one night stand" passou a ser igual, penso eu.

Sim.

Nunca saberá isso em termos estatísticos. Há uma coisa que eu sei, também digo isso muitas vezes, é que as mulheres demoram mais tempo a ser apanhadas, porque são muito mais agudas que os homens. Nós somos um pouquinho básicos e portanto deixamos muito rasto.

Há pessoas que passam a vida a tentar decifrar os outros, mas há outras que vão mais longe. Dedicam-se a compreender o que une e o que separa as pessoas, o que as faz amar e o que as faz desistir. Há décadas que ouve histórias que se contam em voz baixa, casamentos que se perdem, amores que resistem, famílias que se reinventam, silêncios que dizem mais do que palavras. Fala de temas que muitos evitam: infidelidade, culpa, desejo, perdão. É um homem que já ouviu quase tudo e ainda assim procura compreender o outro. E fica uma pergunta no meio disto tudo: será que o amor, mesmo sendo imperfeito, continua a ser o centro de tudo? José Gameiro, vamos descobrir tudo isto consigo, agora em 40 minutos. Seja muito bem-vindo.

Muito obrigado pelo convite. Boa tarde, bom dia, boa noite, não sei a que horas me estão a ouvir.

O amor é o centro de tudo ainda, com tudo isto que referi aqui na introdução?

Eu acho que para a maior parte das pessoas, a felicidade, não estou a dizer que passa completamente, mas passa muito pelo amor. Há muitos índices de felicidade, há muitas maneiras de a gente ser feliz. Obviamente que há várias vertentes de felicidade, mas eu acho que a maior parte das pessoas privilegia a relação amorosa. A relação amorosa é uma coisa, a conjugualidade é outra.

E pode haver relação amorosa e muitas vezes pode já não haver amor.

Pode não haver. Depende do que está a ser considerada a relação amorosa. Eu costumo dizer que eu, sobre o amor, não consigo fazer nada. Eu consigo trabalhar sobre as relações entre as pessoas que muitas vezes estão a estragar o amor. Porque o amor é um sentimento muito indefinível, é muito diferente de pessoa para pessoa, de duas pessoas para duas pessoas. Eu vi formas de amar que não tinham nada a ver comigo, por exemplo, e que eram perfeitamente boas para as pessoas que estavam a vivê-las. E portanto, uma das coisas que nós temos que ser é neutros face a isso. O que eu trabalhei toda a vida foi na forma que as pessoas, na relação, depois, e isso depende muito do tipo de relação, da forma da relação com casamento ou coabitação, que é igual, ou relação com afastamento logístico. Como é que as pessoas às vezes conseguem estragar o amor e têm uma grande dificuldade em viverem a dois, porque o amor tem que ser vivido a dois. De jogarem, na relação, as suas diferenças, que é das coisas mais importantes que há. Aquilo que eu fazia muito, agora já não vejo primeiros consultórios de casais, mas quando via, aparece um ou outro antigo que vem fazer um refresh, mas é raro. Já faço pouca clínica, mas o que as pessoas muitas vezes faziam era não conseguir trabalhar as suas diferenças. E é muito importante saber aquilo que nas diferenças é possível de mudar e que não é possível de mudar. Eu não percebo nada de futebol, nem sou sequer um grande adepto, mas tenho muitos amigos que são fervorosos adeptos disto ou daquilo. E eu costumo dizer, um exemplo que não terá a ver comigo, mas que acho que as pessoas percebem: ninguém muda de clube. Se muda é um traidor. Por acaso uma vez tive um casal.

Que a discussão era isso?

A discussão foi quando aquele treinador, que era do Benfica, foi para o Sporting ou o Sporting para o Benfica.

Jorge Jesus, possivelmente.

Jorge Jesus, exatamente. O casal era um do Benfica, outro do Sporting, e vieram ter comigo por causa disso. É uma coisa espantosa. Entendiam-se bem nos clubes, mas depois quando um achou que o outro traiu, a relação ficou numa circular. Já não sei quem é que saiu, se foi do Benfica para o Sporting.

Foi. Exatamente. Para adeptos, isso é uma traição também.

Uma traição, e um deles sentiu-se traído e o outro disse: "Mas que parvoíce". Foi uma história com piada, que se resolveu rapidamente. Precisava dizer que quando começa uma relação conjugal, e quando digo conjugal, eu acho que o namoro é um treino muito insuficiente para a relação conjugal.

Por que sente isso?

Porque no namoro as pessoas não vivem juntas, não estão juntas. Podem eventualmente estar de vez em quando, podem passar fim de semana. O namoro mudou muito. Antigamente, não se ia com a namorada passar fim de semana, ou ia-se com uma grande estrada à volta, muito bem embrulhada.

É muito diferente do que é agora.

No meu tempo era assim. Sempre em grupo, nunca saía sozinho, sempre grandes grupos. Agora os namorados vão sozinhos, mas não é uma coisa comum, é evidente, porque o partilhar o dia a dia durante bastante tempo seguido, dá para perceber que a outra pessoa que está conosco tem coisas muito diferentes de nós. E essas coisas muito diferentes podem ser desde coisas que não têm nenhum problema, até coisas que podem ser complicadas. E portanto, essa negociação, com aspas ou sem aspas, como quiser, dessas diferenças, quanto mais rápida for, melhor é. Claro que há diferenças que nunca têm que ser negociadas, que não são nada importantes, mas há outras que são importantes. Vou dar um exemplo que costumo dar muitas vezes. Nós não vivemos com uma pessoa sozinha, nós vivemos com uma pessoa que tem uma família E nós também temos a nossa. Nós trazemos pra relação conjugal modelos de família que não são modelos de cópias à fotocópia, porque a sociedade evoluiu imenso, nós próprios evoluímos imenso, mas são modelos. Dou um exemplo: suponha que você casa com um homem ou com uma mulher em que é obrigatório jantar à quarta-feira, todas as semanas, na casa dos seus sogros. E há famílias, como sabe, que têm rituais desse tipo. E o outro lado, a outra pessoa, você, neste caso, ou outra pessoa qualquer, acha isso uma tolice. Os almoços e jantares combinam-se, não têm que ser obrigatórios. Mas você não ir pode ser sentido como uma ofensa. Para si, não é ofensa nenhuma, é evidente. E pode criar um problema. Isso é um exemplo de uma coisa que muitas vezes tem que se negociar.

E do lado da família, também pode ser visto como uma ofensa, não é?

Obviamente. Ao princípio, há umas desculpas, mas às tantas as desculpas não são mais. E você tem que levar com uma família. Pode gostar da família, até pode achar graça de estar a conversar com as pessoas. Só que acha aquele ritual uma tolice para o seu modelo de estar. Não é tolice, deixa eu dizer, é o seu modelo de estar. Isto é um exemplo de que, ao princípio, às vezes, há esse tipo de coisas. Nós somos muito familiares ainda em Portugal, como sabe. Agora menos, porque a mobilidade das pessoas é maior, portanto, nem toda a gente tem a família ali ao mão de semear como antigamente. Mas, por exemplo, no meu tempo, mais na juventude, tanto numa família como noutra, havia rituais de jantares ou de almoços ao fim de semana. Então quando é ao fim de semana é muito mais complicado ainda, porque lixa, desculpe a expressão, dá cabo dos fins de semana, às vezes os casais. Isto é um exemplo.

E às vezes chega a ser uma obrigação para um dos casos.

É uma obrigação, às vezes é uma obrigação. Isto é um exemplo.

Sim, há muitos.

Há muitos exemplos de coisas, desde aquelas coisas classicamente que se diz: "Deixas a roupa suja no chão, porque eu não sou não sei o quê, vai lá, se apanha da roupa, deixa lá a casa." As histórias da casa de banho dos casais.

Fazer a cama ou não.

Fazer a cama, quem é que faz a cama, quem é que ajuda. O problema da ajuda. As tarefas domésticas ainda são um problema. Não são tanto como antigamente. Até talvez sejam, de certa forma, mais complicadas, porque antigamente as mulheres assumiam, com mais ou menos protesto, as tarefas domésticas e as tarefas de maternidade parentais. Agora, os papéis, não digo que mudaram, porque os homens continuam a ser muito privilegiados em relação às tarefas domésticas, ou seja, não fazem muito menos que as mulheres fazem. E muitas vezes isso é um problema, como é evidente. Porque não basta pôr a mesa e levantar a mesa, é preciso fazer mais qualquer coisa. E muitas vezes isso é um problema, porque as pessoas não têm dinheiro para terem empregados, a maior parte das pessoas não tem dinheiro para terem empregados. A maior parte dos casais trabalham os dois, muitas vezes igual número de horas. E portanto, aquela história que algumas mulheres, e algumas que eu conheço socialmente e familiarmente, se irritam muito quando o marido diz: "Mas eu ajudo". Dizem logo: "Ajuda do tanas". Só o termo ajudar já significa que a responsabilidade é toda minha. Portanto, isso mudou muito, como é evidente, os casais são muito mais iguais hoje em dia nesse tipo de coisas do que eram antigamente, como é evidente.

Queria aqui pegar no mais recente livro, "O Outro". Depois de um guia para ser infiel sem ser apanhado.

Não é essa a ideia.

Não é isto, mas pode ser interpretado assim. Surge este romance.

E foi interpretado assim.

Exato.

Antes de ler, depois as pessoas perceberam que não era.

Com a história. É o seu primeiro romance.

É dito aí que é romance. Eu acho que não é uma história clínica, ou seja, eu não intervenho aí enquanto psiquiatra, é um diário de três pessoas, baseado na minha experiência. Essas personagens não existem, são completamente imaginadas. Não digo que não há aí coisas minhas, pessoais, no sentido íntimo, não, mas de sítios que eu conheço melhor para descrever, etc.

Claro.

Eu não sou um romancista, não me sinto um romancista.

Mesmo depois de escrever, não?

Não me sinto. É ficção, mas não teria o arrojo de lhe chamar romance. Eu com os três diários facilitei aqui, que a maior dificuldade pra mim, que não sou escritor, que é descrever sítios. Eu tentei fazer um livro aqui há uns dois anos ou três atrás, que implicava a descrição, não vou agora contar a história, mas implicava a descrição de sítios, que eu conhecia mal alguns, outros conhecia bem. E percebi que não conseguia fazer isso. Os escritores conseguem pô-lo a si no sítio onde querem pô-lo a si. Eu não tenho essa capacidade, eu não sou escritor. Portanto, romance com muitas aspas, ficção sim, mas romance com muitas aspas. Agora estou a escrever outro. Que casais acabou. Acabei com os casais.

Acabou?

Acabou. Já não consigo escrever sobre casais, ainda que de vez em quando escreva até para os jornais, para as crônicas, mas já chega de casais. Eu repito, forçosamente me repito sobre os casais.

E também há "A Invenção do Amor".

E também há "A Invenção do Amor", que teve casais, mas agora já está noutra onda.

Outros temas também.

Exatamente. Portanto, estou a escrever um livro que é sobre uma relação pai e filho, que é um livro que não tem nada a ver com casais. Quer dizer, há uma história de divórcio pelo meio, que não tem nenhuma importância para o livro, tem importância depois para a relação, mas não para o livro. E portanto, os casais acabaram.

Nós aqui falamos de um diário de três pessoas. Isto lê-se muito bem. Li isto em três dias, portanto, pra quem nos está a ouvir, é um livro que se lê muito bem. Há três personagens, como disse muito bem o José Gameiro. Disse numa entrevista, que eu ouvi, que odeia que se refiram a uma terceira pessoa como o outro ou a outra

E pus isso aí.

E é o título do livro.

E é o título do livro. Para chamar a atenção, a determinada altura ele diz no livro: "Eu deixei de ser o outro". E, portanto, nas terapias de casal, em muitas infidelidades que eu segui. Às vezes apareciam termos que não era o outro, nem a outra, era pior que isso. Não vou repetir as coisas que já ouvi na vida. E eu dizia: "Desculpe, mas não pode ser. A pessoa tem um nome, o primeiro nome, não quer saber quem é, não quer saber nada, quer saber o primeiro nome da pessoa".

Mas também acontece, por exemplo, e se calhar acontecer nas suas consultas, a pessoa saber que está a ser traída ou não, e não saber o nome da pessoa.

Pode. Mas o outro sabe.

Sim.

E, portanto, o outro pode inventar o nome, tanto faz. Matrafona, meretriz ou por aí fora, é que eu não aceito. A outra pessoa é uma pessoa. A gente não tem que julgar as pessoas. Portanto, quem traiu sabe, em princípio, com quem é que o fez.

Esperemos que sim.

Com quem é que o fez e, a partir daí, sempre que isso aparecia, eu dizia: "Desculpe, não quer dizer o nome? Inventa um nome, faça como entender, mas passamos a falar dessa pessoa com o nome". Eu aí, de propósito, pus ao princípio do livro "O Outro", porque é uma história de um triângulo, de um casal com o outro, e a partir de uma altura, ele diz: "Eu não sou o outro, eu sou o Luís" e depois volta a ser o outro. Não vou contar a história, mas é uma ficção sobre um casal que passa por uma crise. Eu não acho que seja uma crise de infidelidade, porque ela rapidamente diz ao marido o que é que se está a passar.

Exato.

Portanto, é muito atípico nesse sentido, é muito raro isso de acontecer na clínica. Na clínica as pessoas são apanhadas. E vêm ter comigo quando foram apanhadas. Aqui ela rapidamente diz ao marido, depois há movimentos para cima e para baixo, no sentido em que ela sai de casa, volta a entrar, tem sempre muitas dúvidas. E o marido também tem uma reação bastante atípica, porque não é aquele tipo de homem que, obviamente fica magoado, que fica muito triste, mas não é aquele tipo de homem que lhe faz a vida negra. Eu não vou contar o livro, mas mesmo a parte final do livro, que é uma parte muito dramática. Antigamente, havia uma coisa que se dizia muito, desculpem o que eu vou dizer, que os cornos masculinos eram mais difíceis de serrar do que os femininos. O que era verdade. E isso, se calhar, ainda é um pouquinho verdade.

Hoje em dia, será que isso-

Os homens têm mais dificuldade em passar por uma crise de infidelidade e continuar um casamento ou uma relação conjugal do que as mulheres. Isto é uma questão cultural. Este homem que eu pus aí é um homem um pouquinho diferente deste estereótipo que nós temos. É o homem que fica muito magoado, mas que nunca usa os filhos para fazer o que fosse, nunca a insulta, exprime só a mágoa e fica muito aflito com o que se está a passar. Nesse sentido, é um homem diferente do habitual.

Aqui nós falamos de um romance a dois, depois surge uma terceira pessoa. Não sei a sua opinião quanto a isto, José Gameiro. Podemos dizer que hoje fala-se mais sobre relações abertas, relações a três.

Não é uma relação a três.

Aqui não é uma relação a três, mas podia, uma vez que estamos aqui a falar no campo da ficção, também podia ter ido para esse lado.

Eu nunca vi nenhuma relação a três aceite pelos três. Nunca vi. Pode ser problema meu. Ou seja, o que eu vi, não digo frequentemente, mas vi, foram relações a três em que uma das pessoas não aceitava, mas mantinha-se lá para não cortar a relação.

Exato, era isso que lhe ia perguntar. Ou seja, parece que há sempre um lado que é o que quer e o outro que tende a aceitar.

Para não perder a relação. É aquilo que se chama, em termos técnicos, de uma pseudo mutualidade, que obviamente rebenta. Ninguém aguenta. Se não está para aí virado, e muito pouca gente está para aí virado. Eu nunca vi, até hoje, mas eu só vi coisas problemáticas, tenho sempre essa ressalva. Mas nunca vi, até hoje, um casal que tivesse aceite bem, durante um tempo longo, ter uma relação aberta.

Até porque o amor não continua igual. A partir do momento em que há essa abertura.

Eu até admito que possa continuar se as pessoas aguentarem. O problema é que as pessoas não aguentam. Você é um homem, por exemplo, tem uma relação com uma mulher. E você sabe, e até disse que sim, que você vai tendo de vez em quando umas histórias por fora e que ela também tem. Não sei se é fácil para a pessoa, a imaginação que lhe vai na cabeça do que está a acontecer do outro lado da cortina. As fantasias das infidelidades. Aqui neste caso não seria uma infidelidade, porque era consentida, com ou sem aspas.

Sim, há esse pacto, vamos dizer assim.

Sim, mas as fantasias são terríveis. Porque a questão da posse dos corpos, a questão da posse do desejo. Nós somos ainda muito possessivos. Culturalmente, somos muito possessivos. Eu não sei se é bom ou se é mau, mas somos, de facto, somos muito possessivos. E portanto, uma das dificuldades, por exemplo, nas terapias que eu fazia da infidelidade, era a pessoa que tinha sido vítima, com aspas ou sem aspas, da infidelidade, querer saber tudo o que se tinha passado do outro lado. E eu dizia sempre a mesma coisa às pessoas: "Primeiro, não vai saber tudo porque não estava lá. E segundo, quanto mais souber, pior é, porque mais fantasias vão ficar na sua cabeça".

Mas essa fantasia também pode, de certa forma, ajudar na relação ou não? Ou essa é pelo lado mau?

Estamos a falar de coisas diferentes. Há casais que fantasiam em conjunto com outras pessoas, mas a outra não está lá. Pode até existir, mas não está lá e não existe uma relação concreta com essa fantasia. Ou até às vezes são fantasias que são imaginadas pelo casal, não existem. Isso não tem problema nenhum. É uma forma de erotismo, até de estimulação de erotismo, que pode ser muito boa para alguns casais, minimamente problemas. Desde que os dois aceitem aquele tipo de fantasia. Se há um que só quer fantasias sadomasoquistas e o outro acha aquilo horrível, não vai correr bem. Vou dar um exemplo. Se for aceite pelos dois: "Não sei quem é que a gente viu, que é muito gira, vamos fantasiar" e falam os dois disso. Não é uma coisa que está lá dentro, não está lá ninguém, está só na cabeça. Isto é uma coisa. Outra coisa é quando acontece infidelidade, você quer saber como é que era com a pessoa com quem o seu marido ou sua mulher foi infiel. Isso é que eu tento travar o mais possível, porque você fica com a cabeça cheia de fantasias que lhe vão dificultar a vida no futuro. Fantasias não só do que se passou, como dos lugares, dos sítios, da frequência, de como é que era, como é que não era. É terrível. Quanto mais a pessoa se preparar a isso, melhor.

José Gameiro, vamos só fazer aqui uma curta pausa. A primeira parte já passou. Voltamos já.

Até já.

Estamos de regresso para a segunda parte do "Bem 40 Minutos", à conversa com o José Gameiro, com o novo livro, chama-se "O Outro", disponível em todas as livrarias. Pode comprar online, pode comprar nas lojas, como quiser. Lê-se muito bem, como já dissemos aqui em três dias. E se calhar, se for uma pessoa que lê ainda mais do que eu, lê isto num dia, porque lê-se mesmo muito bem.

Eu fui até dizer em cinco horas, disseram-me a mim.

Isso é um recorde, já viu.

Não vou dizer quem é, mas é fácil de perceber quem é.

Pois, é alguém muito próximo. Fica no ar. Alguém se vai identificar com isto. Falávamos aqui sobre relações. Está muito habituado à questão de terapia de casais, de relações de infidelidade. Não sei se sente isto hoje, mas sente que as pessoas hoje precisam de mais validação e procuram muitas vezes a validação nas relações e através dos seus companheiros? Sente isso?

O que quer dizer com validação?

Validação até mesmo pessoal.

Não, isso é importante. Claro que sim.

Se sentir bem, no fundo, também.

A relação amorosa conjugalizada, vou dizer, neste momento, é uma relação de grande companheirismo e grande solidariedade. Se funcionar bem, passa por aí. A gente nunca se mostra completamente, mas você tem que confiar na pessoa com quem está. Se você não confia na pessoa com quem está, não é confiar no sentido financeiro. No sentido de você estar aflito, você ter que se abrir com essa pessoa e ter a certeza que aquilo que você diz não é guardado no bolso da outra pessoa como pedras para lhe atirar à cara passado uns tempos. Percebe? Eu costumo sempre dizer isto.

Que é o que acontece na maior parte das vezes.

Que é o que acontece na maior parte, acho que não seja tão pessimista.

Por exemplo, a fasquia é no pior.

Eu dou sempre o mesmo exemplo. Se você for casado ou tiver uma relação, é igual, hoje em dia ser casado é não ser casado, acabou essa diferença na prática, só em termos patrimoniais é que pode ser diferente, o resto é igual. E você chega à casa e teve uma chatice qualquer durante o dia, uma coisa desse tipo, perceba, ou de trabalho, ou com colega, seja o que for. E você tem vontade de falar. E tem que falar com uma pessoa que sabe duas ou três coisas sobre ela. Primeiro, que ela está disponível para ouvir. Segundo, que ela não o julga ou não a julga. E terceiro, que é a pessoa que pode, naquele momento ou passado algum tempo, ir falando consigo sobre uma crise qualquer que você está a passar. Normalmente são coisas profissionais, familiares também. Se você chega à casa e conta uma história qualquer, primeiro, a outra pessoa liga, desliga, liga, desliga, não está muito para aí virada para ouvir a história. E depois diz uma coisa que eu já ouvi muitas vezes, que é terrível, que é também: "Com o teu feitio, o que estavas à espera?"

Isso é um gatilho.

É um gatilho. Eu digo sempre isso: "Não façam isso." É muito chato às vezes ouvir histórias conjugais, o cônjuge ouvir histórias conjugais da outra pessoa. Eu brinco um bocadinho com o meu machismo nisso, porque nós, homens, somos mais sintéticos, em geral, a contar as coisas. As mulheres são mais em discurso direto. Depois ele disse, depois ela disse, depois ele disse, depois ela disse. Pode haver um bocado de machismo, não há problema nenhum. E os homens, às vezes, não têm paciência para este discurso direto, porque dizem: "Abrevia lá isso, faz favor." Não se pode dizer isso. Faz parte do pacote levar com isto. Ou então estão a ouvir e estão a ler a bola ao mesmo tempo ou estão a ver o jogo. Voltando à sua questão da validação. A validação, não tem que ser uma validação completa e absoluta, de modo nenhum. Você pode discordar, pode achar que a outra pessoa não tem as formas de estar na vida igual à sua, pode fazer isso tudo. Não pode é desqualificá-la. E tem que criticá-la o menos possível. Critica, é evidente, a crítica existe, tem que existir. A crítica sistemática é um dos piores indicadores, já disse isso mil vezes, é um dos piores indicadores para um casal.

Mas a crítica também nem sempre é má.

É isso que eu estou a dizer. Uma coisa é a opinião, outra coisa é a crítica. A crítica má para os casais é a crítica que atinge sistematicamente a outra pessoa enquanto pessoa Não se limita a dizer: "Olha, outro dia aconteceu isto e eu acho que podia ser de outra maneira." Não. "Tu és uma besta." E não é dizer isto uma vez, é dizer isto bastantes vezes.

Sim. Há bocadinho, na primeira parte, referiu aí um termo: meretriz.

É uma expressão que aparece às vezes quando há infidelidades.

Mas não é muito usado agora.

Agora já não é muito.

Já não se usa muito.

Agora é pior.

Eu queria pegar nisso, porque a mulher infiel hoje ainda tem um tratamento diferente quando é um homem. Sente isso?

É o que eu dizia há bocado, quando eu dizia a brincar que os cornos dos homens são mais difíceis de serrar do que os cornos femininos. Sim, uma mulher, por exemplo, infiel, é culturalmente e socialmente mais penalizada que o homem infiel. Há um fenômeno interessante, mas muito negativo às vezes, que é: uma mulher é casada, separa-se do marido, começa a não ser tão convidada por outros casais. Começa a ser um bocadinho, não digo ostracizada, talvez um exagero, mas as outras não confiam muito, nem nela, nem nos maridos.

Porque pode ser visto como uma ameaça?

É uma ameaça, exatamente. Enquanto que um homem não é tanto assim, não acontece isto.

Mas por que acha que há essa imagem?

Se você for à história cultural de um país como o nosso e de outros países como o nosso, era permitido aos homens serem infiéis. Praticamente sempre.

Antes do 25 de Abril há muitas histórias sobre isso, não é? E as mulheres eram altamente penalizadas.

Os casais não viviam do amor, viviam de uma relação. Havia amizade muitas vezes, mas muitas vezes eram as próprias mulheres que não se importavam nada que eles fossem procurar outras pra ter sexo, porque o sexo tinha acabado um bocadinho. E fazia parte. A geração do meu pai, eu lembro perfeitamente que eles falavam disso com um à vontade muito grande. Os que tinham mais dinheiro iam pra Sevilha ou pra não sei pra onde, pra não fazer cá em Portugal. Mas fazia parte. E as mulheres, não. Algumas, não vamos falar do caso do Castelo Branco, mas algumas eram presas, como se sabe, e eram fortemente penalizadas. A traição feminina era incomparavelmente mais penalizada que a traição masculina. Com tudo aquilo que mudou nas mulheres, e felizmente que mudou, ficou de igual pra igual. Eu digo também sempre isto: quando dizem que as mulheres são menos infiéis que os homens, eu tenho muitas dúvidas, não tenho estatísticas.

Sim, não há dados, não é?

Mas elas não são infiéis umas com as outras, nem com rapazes solteiros, nem com senhoras. Só as divorciadas é que são infiéis? Não é verdade. Eu, nas entrevistas de terapia de casal, na primeira entrevista fazia sempre uma coisa com os dois, e depois na segunda entrevista separava-os e falava com cada um. E muitas vezes perguntava se havia, do outro lado, que não tinha formalmente sido infiel, se havia alguma coisa em curso. E às vezes havia também. Outras vezes havia casos eventuais que desse ponto de vista terapêutico não tinham importância nenhuma, não tinham pra mim, enquanto terapia de casal. Mas hoje em dia, eu acho que muitas mulheres têm, ao longo da vida, tal como os homens, desejos fora da relação conjugal. Algumas consomam, outras não. Mas a liberdade das mulheres e a capacidade das mulheres, por exemplo, de sair fora de casa, de ir jantar fora, de ir viajar por razões de trabalho, isso mudou completamente. Antigamente eram os homens que saltavam a cerca quando iam a um congresso, ou uma história qualquer. Agora é igual pra igual. O "one night stand" passou a ser de igual pra igual, penso eu. Nunca saberá isso sem termos estatísticos. Há uma coisa que eu sei, também digo isso muitas vezes: as mulheres demoram mais tempo a ser apanhadas, porque são muito mais argutas que os homens. Nós somos um bocadinho básicos e deixamos muito rasto. Já não é a batona e a camisa, mas é mensagens, redes sociais, não sei o quê, não sei como é.

Pois, temos esta toda nova vertente agora.

E elas apagam.

Eu queria pôr aqui um cenário em cima da mesa, porque acho também importante trazer pra discussão. Quando temos um casal, e imaginemos que há uma situação de traição. Quando um filho descobre essa traição.

E acontece às vezes.

E acontece às vezes. Às vezes até pode saber primeiro do que a pessoa que está realmente a ser traída. O que se deve fazer nestas situações?

Quando me pergunta isso, é o que é que se deve, quem é que deve fazer, como é que é?

Neste caso, sendo o filho a descobrir.

A maior parte das vezes vai falar com o outro, com a outra pessoa, vai denunciar. A maior parte das vezes, por sua idade, vai denunciar. Um ou outro guarda pra si. Depois depende das idades, como é evidente. Hoje em dia acontecem coisas dessas por causa dos telefones. " Pai, o telefone está avariado" ou "Mãe, o telefone está..." "Passem-me o telefone." E depois deparam com mensagens lá que não são propriamente entre o pai e a mãe.

Mais uma vez voltamos aqui àquela questão, porque os homens, como dizia, podem deixar mais rasto e às vezes é mais fácil de descobrir.

Ou apagam as mensagens. Eu já vi casos desses e depende um pouco da idade. E depende um pouco do jovem ou da jovem, normalmente não são crianças que fazem isso.

Mas isso tem repercussões?

Tem repercussões.

Na pessoa que descobre.

Exatamente, tem repercussões. Obviamente, tem repercussões. Depois vai depender muito do casal, porque se o casal conseguir reequilibrar-se, apesar de ter havido uma infidelidade, ter sido descoberta pelo filho, passa a um mau bocado mais complexo do que o mau bocado habitual, quando é só uma infidelidade, sem os filhos estarem envolvidos nisso, mas consegue superar também em termos da família. A maior parte dos casais, eu só conheço aqueles que querem recuperar a relação Os outros não sei, não vêm ter comigo e, portanto, não conheço. Os que querem recuperar a relação, digamos que ser descoberto por um filho complexifica, ou seja, complica um bocadinho as coisas, mas a evolução não é muito diferente, a não ser que já tivesse havido anteriormente uma relação complicada desse filho ou dessa filha com aquele que é apanhado ou aquela que é apanhada.

Há aqui uma curiosidade que eu gostava de saber, para alguém que tem tantas histórias, tanta sabedoria neste campo. Por exemplo, quando vai na rua, observa muitas pessoas?

Não.

Não?

Não.

Não é um instrumento de-

De todo. Eu costumo dizer a brincar: "Eu caso só observo e faço-me pagar". Então é óbvio que ele é como é evidente. Mas há muito essa fantasia. Os meus amigos mais íntimos não, claro que não, mas socialmente, se há um jantar ou outro mais social com pessoas menos próximas, às vezes ouço essas conversas. "Então estás aqui a olhar para isto, estás a conhecer-nos a todos?" Não, de todo. Eu chego a casa, eu deixei de ser psiquiatra. Desculpa o que eu vou dizer, sou um gajo como outro qualquer, sou uma besta se for preciso, faço as mesmas coisas que outros fazem. Claro que tenho um know-how e às vezes sou procurado por amigos que estão em crise conjugal para fazer uma espécie de conversa, que não é uma consulta, e depois enviar, se for preciso, para outra pessoa. Portanto, não sou propriamente o cidadão normal, porque tenho esta experiência. Agora, não interpreto nada. Em casa então é a pior coisa que se pode fazer. Alguns psiquiatras e psicólogos fazem um enorme disparate, que é grave porque lá aos outros, em termos conjugais, é por sei interpretar sobre a relação e sobre a outra pessoa. Não. De todo não. Nunca fazer isso. Nunca.

E conseguiu sempre desligar, mesmo tendo esta profissão, ou houve alturas em que foi mais difícil?

Casos muito graves. Mas não são casais, são pessoas. Casais não há problema. Nunca houve problema.

Porque há muitas histórias de dor e sofrimento que chegam até si.

Eu fiz muito individual também, não fiz só casais.

Estamos aqui a personalizar.

Sim, mas eu fiz muito individual e conheci situações. Aquelas que eu falo sempre, que foram talvez as mais difíceis que eu acho que vi ao longo da vida, e vi algumas, infelizmente, foram mortes de filhos.

E é difícil nessas alturas? Não deixa de ser uma pessoa e ter os seus sentimentos.

Aconteceu uma vez ou outra emocionar-me e chorar, e ter que explicar às pessoas o que é que eu estava a fazer.

E a pessoa percebe que isso não deve acontecer?

Eu acho que a pessoa não, by the book, eu tenho que controlar. Isto aconteceu-me, de que eu me lembro agora de repente, em duas situações muito graves do ponto de vista de sofrimento e em que eu próprio tinha perdido a minha mãe. A minha mãe tinha morrido, 2008. E eu estava fragilizado também. E emocionei-me e tive necessidade de explicar às pessoas por que estava emocionado. Muito sinteticamente. "Eu estou a passar uma fase, morreu a minha mãe, desculpe eu ter emocionado". Não chorei convulsivamente, as lágrimas vieram-me aos olhos. E eu acho que deve uma explicação quando isso acontece, como é evidente, a pessoa não vai lá a uma consulta comigo para me ver chorar a mim. Eu estou ali para a ver chorar se for preciso e recebê-la no choro sem problema nenhum. Não é suposto que o técnico ou o médico, neste caso, chore com as pessoas. Vai lá chorar com os amigos ou com a família.

É uma pessoa fria?

Não sou. Está a falar clinicamente ou pessoalmente?

Não, mesmo pessoalmente.

Não sou. Não sou muito de andar aos beijinhos sistematicamente. Nem gosto muito de melgas. Não sou muito apreciador de melgas. Eu não sou melga e não gosto muito de melgas, mas acho que sou uma pessoa afetuosa e gosto que sejam para mim também. Aí eu exijo reciprocidade. Mas acho que sou. Agora, não sou muito de expressão. Eu cresci numa família em que naturalmente que havia amor, apesar de ter havido uma separação precoce dos meus pais, mas a minha mãe era uma pessoa muito importante para mim, mas não era uma pessoa que fosse muito de beijinhos e coisas assim, percebe? Mas era muito presente e muito importante.

A sua memória mais antiga, falava aqui agora dos seus pais.

É andar atrás dela.

Ser uma melga?

Eu tinha para aí.

Por isso é que agora não gosta.

Eu lembro de entrar para o Liceu Francês com cinco anos e logo na fila da entrada para a primeira aula, aquilo começou a correr mal, porque houve um francês qualquer que me chateou, dei-lhe uma carnalada com as botas que tinha que era grande. Essa eu lembro perfeitamente. A gente fazia uma fila para entrar. O Liceu Francês foi uma história que durou uns anos largos e em que os franceses eram menos que nós, portanto nós fazíamos ataques maciços aos franceses. E eu lembro muito bem, a minha mãe, nós morávamos ali num campo pequeno, e a minha mãe, não sei, não me lembro é se não tinha empregada em determinada altura, em casa. Nós tínhamos empregada às vezes, outras vezes não tínhamos. E eu lembro-me perfeitamente da minha mãe andar a encerrar o corredor, era uma daquelas casas antigas, com corredores com 12 ou 13 metros. E eu andar atrás dela a dar-lhe beijinhos. Lembro-me perfeitamente disto. E ela confirma-me isso, enquanto estava viva, confirmou-me isso. Portanto, quando eu era pequeno, provavelmente era mais melga, depois deixei de ser, não sei.

A sua mãe é a pessoa que recorda com maior saudade, é aquela imagem da pessoa. E falava aqui dessa relação que tinha com ela.

Sim, a minha mãe e a minha irmã. Tinha uma irmã que morreu há cinco anos. Psiquiatra também. Minha mãe costumava dizer que devia ser maluca, porque tinha dois filhos psiquiatras. O único caso em Portugal de dois irmãos psiquiatras. E morreu de repente. E a minha irmã era mais velha que eu, quatro anos. A minha mãe fez muita falta, mas é diferente.

Sim. São dores incomparáveis.

O meu pai morreu muito cedo, teve um AVC, depois ficou com uma demência Já lá vão 30 anos, faz agora 30 anos este ano. A seguir morreu a minha mãe em 2008. É engraçado não é a palavra, mas é curioso, porque a minha mãe não era uma pessoa que conversasse muito sobre mim ou com a minha irmã, mas estava muito presente. E a presença dela, sem falar muito, era muito importante.

Enchia a casa?

Não é propriamente aquelas pessoas que enchem a casa, mas estava sempre disponível, sempre estava. E depois cozinhava muito bem. Era muito pela boca que nos apanhava. Era uma excelente cozinheira, aliás, os meus amigos todos gostavam de ir lá para casa. Eu sempre estudei em grupo, desde jovem, porque a minha mãe à meia-noite servia a ceia à malta toda. A minha mãe adorava cozinhar e dormia pouco, como eu, aliás. À meia-noite fazia pão com não sei o quê, chouriço não sei o quê, bolos não sei o quê. Ainda hoje são meus amigos, que andámos a estudar primeiro no liceu alguns. Ainda no tempo do liceu, que era muito rasca, estudávamos em grupo. E depois na faculdade, tenho um grupo que ainda hoje são meus amigos, colegas meus de curso e meus amigos, que havia duas coisas que passavam a ser na minha casa muitas vezes, que era jogar bridge, nós éramos grandes jogadores de bridge, e depois estudarmos a seguir jogar bridge. E pelo meio, lá em casa, a minha mãe à meia-noite, noutra sala está a minha irmã com as colegas a estudar, servia a ceia. Isto é um exemplo. A minha irmã é diferente. Eu tinha uma relação com ela de grande proximidade íntima. Ou seja, quando ela estava aflita, falava comigo, quando eu estava aflito, falava com ela. Muito mais do que com a minha mãe.

Queria pegar aqui na questão das amizades, dos amigos que tem até hoje.

Dos amigos que são fundamentais na minha vida.

Se eu lhes fosse perguntar como é que eles definiam o José Gameiro, o que acha que eles iam dizer?

Olhe, não diziam que eu sou maluco, isso não diziam. Eu acho que eles diziam que eu sou um tipo que cultiva a amizade, que preza a amizade, com quem eles podem vir falar e já vieram muitas vezes. É engraçado, porque eu, mesmo antes de ser psiquiatra, eu era muito melhor ouvinte do que falava.

A sério?

É. E quase todos os meus amigos, uma vez ou outra na vida, já vieram falar comigo de coisas íntimas deles. Como eu disse há pouco, eu não os posso acompanhar enquanto médico.

Sim, claro.

Enquanto que eu, uma vez ou outra, tinha a minha irmã, por um lado, agora deixei de ter. Eu tenho uma amiga, as mulheres são mais sensíveis a algumas coisas, com quem eu posso eventualmente falar de coisas mais complicadas. Também não são sempre complicadas, a minha vida não é assim uma coisa muito complicada. Estou a lembrar agora de um único colega com quem eu falo por telefone quando ando de trás para aqui, não vou dizer quem é, mas é um tipo de colega muito conhecido, grande sportinguista, não digo mais. E é um tipo que fala muito. Falamos muito, mas não é uma relação no sentido de quando estamos à rasca, não escolhemos um ao outro para falar. Agora, amizade é uma coisa. Eu gosto muito de fazer festas de anos.

Gosta?

Adoro fazer festas de anos.

Mas fazer a festa ou fazer anos?

Gosto das duas coisas. Gosto de fazer a festa e fazer anos. Eu tenho 76, não me custa nada fazer anos. Os amigos que vão lá à casa, com alguma outra exceção, que morreram, infelizmente, são os mesmos há não sei quantos anos. E aquilo é um ritual uma vez por ano, e eu tenho uma coisa que espero conseguir para o ano, fiz anos em julho e ainda consegui, que é apagar as velas todas. Ou seja, eu fiz 76 anos de um sopro só, eu costumo dizer. É a minha prova de função respiratória.

Tem esse exame todos os anos.

No ano logo se vê se eu ainda consigo apagar 77 velas.

Vai conseguir, com certeza.

Eu tenho uns truques.

Sim, acredito que sim.

Obrigado pela sua simpatia.

Estamos aqui no "Em 40 Minutos", podcast "O Observador", mas agora "A Invenção do Amor" também é um podcast "O Observador", do José Gameiro, com a jornalista Raquel Marinho. Um podcast que tem tido ótimos resultados. Queria lhe perguntar, agora também com o público, se calhar, mais abrangente. Não sei se sentiram isso, desde que o podcast chegou aqui ao Observador.

Sim, claro. Claramente.

Como é que tem sido este encontro com a Raquel? Porque sei que isto já vinha de um projeto antigo da Raquel, de um programa de televisão que não chegou a acontecer, que agora está em podcast, e como é que tem sido também o feedback com as pessoas?

Eu conheço a Raquel há muitos anos. A Raquel era uma miúda quando eu a conheci, tinha entrado para a SIC, penso eu. Entrevistou-me aquelas declarações que os jornalistas de vez em quando nos pedem. Depois não sabia dela, mas ia sabendo porque ela não é minha amiga, mas é relações cruzadas, portanto ia sabendo. E aqui há não sei quanto tempo, ela pediu para eu entrar no podcast dela sobre poesia. Ela tem um podcast sobre poesia. Eu disse: "Raquel, eu poesia não percebo nada". "Mas você não sei o quê." "Não, poesia não. Não vai cheirar bem, porque eu não sou..." Até escrevia poemas quando era jovem para o juvenil do Diário de Rua, do Castrinho, mas era uma coisa de juventude. Eu não leio poesia, leio uma coisa ou outra, mas não leio poesia. E depois ela desafiou-me pra fazer uma coisa que é a "Invenção do Amor". Foi ela que me desafiou. Fiz um podcast, que a princípio não estava aqui no Observador, era solto, no ar.

Independente.

Independente. E começou por ser sobre casais e neste momento já chega de casais. Portanto, neste momento, sei lá, podemos falar sobre o discurso do ódio, sobre isto, sobre aquilo. Vamos gravar agora dois sobre o Natal e o Ano Novo, mais sobre Natal é famílias, porque o Natal hoje em dia às vezes é uma história: começa a 22 e acaba a 27.

Não, e é uma altura difícil também, às tantas, para muitas famílias, porque é a altura de recordar.

Não só isso, como as famílias: os novos formas de família, com filhos de casamentos anteriores, etc. É logisticamente complicado, às vezes, as pessoas organizarem-se pra passar o Natal, e fazem não sei quantos quilómetros, às vezes.

E é quando surgem também aquelas questões mais complicadas que as pessoas não querem responder.

Sim. E esses saudades que não estão lá.

Exato. Que é um tema muito presente.

O Natal é sempre pra nós, não é propriamente engraçado, a palavra não é exata, mas a maior parte das pessoas, eu acho que a maioria das pessoas diz que é católica em Portugal, ou cristã, mas não é praticante. Quer dizer, praticantes são talvez 30, 40%, não sei bem quantos. Mas o Natal continua a ser um ritual, que é uma festa católica. E não é só católica, é cristã.

É uma festa de encontro, não é?

É uma festa familiar muito importante. E o fato da pessoa estar, não estar, ir, não ir, decidir, os conflitos que se geram, onde é que é o Natal, onde é que não é, qual é o dia em que é, às vezes é complicado.

"A Invenção do Amor", pra ouvir aqui na Rádio Observador, um episódio novo a cada 15 dias.

Exato.

Com José Gameiro e com a Raquel Marinho. Estamos quase a chegar ao final, falámos muito mais de casais nesta conversa, mas a doença mental é também uma doença cada vez mais presente na nossa sociedade. Fala-se cada vez mais e é bom também falarmos sobre isto. No século XXI, ter o privilégio de a poder tratar é um privilégio?

Ainda é um privilégio. A psiquiatria em Portugal e a saúde mental em Portugal, agora melhorou um bocadinho, eu já explico por quê e como, mas sempre foi o parente pobre. Por um lado, a psiquiatria sempre foi uma especialidade, agora já não, vista um bocadinho como especialidade segunda. Antigamente eram os cábulas e os maus alunos que iam pra psiquiatria. O que neste momento já não é verdade. E depois, os psicólogos não existiam ou quando começaram a existir, eram completamente desvalorizados. Os psicólogos são fundamentais, porque não é possível tratar a saúde mental de um país que tem bastantes problemas de saúde mental só com psiquiatras, porque nós não somos infinitos. E portanto, os psiquiatras são muito importantes, por um lado, pra estar com as pessoas, mas pra às medicar, porque os psicólogos não podem medicar.

Exato.

E tratar as coisas graves, que são as depressões graves e as psicoses. Mas depois há toda uma série de coisas que não precisam medicação nenhuma. Portanto, a saúde mental melhorou e há já sinais de melhoria que são importantes com o PRR. Pela primeira vez teve uns milhões, não sei agora de cor quanto é que são, uns milhões pra saúde mental. Saúde mental é relativamente barata, não tem aparelhos, não tem ecografias, não tem TACs, não tem ressonância magnética, tem que ter pessoas. Portanto, as despesas de saúde mental são despesas de pessoal. E o pessoal não é só psicólogos e psiquiatras, são enfermeiros, assistentes sociais, etc. A prevenção da doença mental e diminuir os custos de internamento, pode ser feita, por exemplo, um doente psicótico. Um doente psicótico é um doente que tem uma situação grave, uma esquizofrenia, que exige cuidados de proximidade grandes. Se você tiver uma equipe que vai à casa da pessoa uma vez por mês, não é preciso mais, pra garantir que a medicação é feita, porque muitos psicóticos recaem porque não fazem a medicação. Eu estou a dar o exemplo mais grave da psiquiatria. E a equipe tem que ser duas ou três pessoas, não é mais que isso. Você evita internamentos, evita crises. Cada vez que há uma crise, a doença complica, se percebe. Portanto, estes recursos de saúde mental, que agora começam a aparecer, aliás, o meu colega, que é o responsável pela saúde mental, Miguel Xavier, disse há dois ou três dias que as coisas estão nalguns sítios a melhorar bastante. Porque a saúde mental era paupérrima. Espero que o PRR quando acabar, que continue a haver dinheiro pra isto, porque a gente não precisa de ecografias, precisa de gente.

Sim, e talvez também uma maior facilidade das pessoas a poderem aceder à saúde mental, ao tratamento.

Há pontos do país em que a dificuldade de aceder é enorme. Há distritos do país, eu penso que ainda há um distrito, eu não vou dizer qual é, mas ainda penso que há um distrito que tem um psiquiatra infantil, um pra um distrito inteiro.

Basta estar de férias.

Mesmo que não esteja de férias, não é possível, não dá.

Até porque, lá está, falando aqui de um profissional para abranger todo esse território, leva à exaustão também, pode levar.

Claro, obviamente, sim.

Porque as pessoas não são máquinas.

Eu já tratei burnouts de colegas.

Portanto, é mais comum do que parece.

Sim. E a pandemia não é que destapou, provocou, sobretudo na malta nova, os quadros de ansiedade aumentaram muito. Eu espalhei-me ao comprido na pandemia.

Sente isso, que a pandemia é uma grande responsável?

Aumentou um bocadinho os quadros de ansiedade. Eu espalhei-me ao comprido, porque no princípio da pandemia vieram me perguntar e eu disse: "Não, a malta nova adapta-se, se isto passa, fica tudo igual". Não ficou. Há mais ansiedades.

E ela manifesta-se de que forma nos jovens?

Pode ser com sintomas físicos. Os sintomas de ansiedade clássicos: suores, saleiras, queda de cabelo, coração aos pulos, ou pode ser o mal-estar da ansiedade, não digo permanente, mas quase permanente.

Podemos falar aqui também, e é um conceito que tem vindo a ser falado também muito, às vezes, quando falamos desta questão da pandemia, ansiedade social.

Exatamente.

As pessoas terem estado tanto tempo fechadas em casa.

Têm dificuldades agora em estar. Quando eu digo: "Eu espalhei-me" Espalhei-me, de facto, ao comprido, porque eu pensei, nessa altura, quando começou a pandemia, que o meio digital funcionava e os jovens reuniam-se muito digitalmente, que isso ia funcionar. Apesar de não saber que ia durar tanto tempo como durou. E depois que o digital ia suplantar a presença. Mentira. Espalhei-me ao comprido. Não suplantou. Facilitava a vida, mas não é a mesma coisa. Você estar num grupo a beber umas imperiais, umas bejecas com sete ou oito amigos e amigas do que estar no digital, cada um em sua casa, mesmo que tenha a bejeca à frente. É diferente, é outra coisa. E isso criou ansiedade social a alguns jovens. A alguns, não todos.

José Gameiro, para terminarmos este Em 40 Minutos, mais de 40 anos dedicados à psiquiatria, uma área que estivemos aqui a falar ao longo destes minutos. Nos dias maus, quando é o José Gameiro que está mal, o que é que o salva? Ou quem é que o salva?

Eu tenho muitas formas de me salvar, no sentido que está a perguntar. Felizmente, não tenho dias muito maus, mas há rituais que eu não dispenso. Eu acordo cedo, sou madrugador, eu vou para a rua mal acordo, visto roupa, um fato de treino, tenho necessidade de ir tomar café e vou tomar café às 6:00 a.m.

Quantos cafés é que toma por dia?

Tomo três ou quatro. Eu posso tomar um antes de ir para a cama.

Não faz diferença.

Há uma diferença entre a hora de adormecer. Eu digo que adormeço às 23:30, minha mulher diz que adormeço às 21:30. Nunca chegaremos a acordo.

São percepções.

Mas eu acordo cedo, vou para a rua, eu moro em Cascais e vou ali a uma bomba de gasolina que está aberta toda a noite e tomo café. Vou tomar o café com os gajos do lixo, porque é lá que vem o lixo. E isso abre-me a cabeça. Depois vou escrever. Escrevo muito de manhã. E fui piloto toda a vida.

Sim.

Portanto, a pilotagem, o avião, etc, era uma coisa que me enchia. Leio muito e tenho uma vida familiar muito tranquila agora, a minha mulher está reformada também. Eu vejo muito poucos doentes. Viajamos muito. Sempre viajámos, agora podemos viajar mais.

Há tempo para namorar?

Há, sempre tempo para namorar.

Mas sem melgas.

Sem melgas. Nisso somos parecidos um com o outro, ninguém é muito melga. O dia a dia há rituais conjugais, como, por exemplo, depois eu tomo outro café a seguir, já acompanhado. Há rituais conjugais e depois há coisas que eu, para escrever, sou capaz de estar a manhã inteira a escrever e isso alivia-me as coisas. Felizmente para mim, não me sinto autopesado. De vez em quando tenho alguma ansiedade, faço isto ou faço aquilo. Felizmente, até agora, andei de moto toda a vida, agora tenho pena de não andar. Andei de moto toda a vida e às vezes era perigoso.

Há pessoas que ficam mais descansadas agora.

Exatamente. A família há quatro ou cinco anos disse: "Chega". E eu preferi que chegasse.

Temos aqui este novo livro, "O Outro", o primeiro romance de José Gameiro. Sei que está a escrever outro e em breve falamos sobre isso. Quem sabe aqui na Rádio Observador. Até lá, podem ouvi-lo na "Invenção do Amor".

Muito obrigado.

De 15 em 15 dias.

Muito obrigado.

Muito obrigado por ter vindo aqui à Rádio Observador, José Gameiro. Um grande abraço.

Igualmente.