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O que custa mais, de certa forma, é sempre esse confronto inevitável com os outros. Ou seja, saber que o livro vai ser publicado, saber que o livro vai ser lido e cada vez mais também existir um entendimento da imensa complexidade de olhares. Por um lado, eu acho que preocupa-me a reação dos outros, porque os livros são escritos para eles. São escritos para eles, não para lhes agradar, mas para comunicar com eles, para lhes dizer alguma coisa. Sendo que, talvez até porque hoje vivemos num momento de extrema comunicação, de extrema interação, muitas vezes fica visível os mal-entendidos.

Cresceu entre o silêncio das planícies, onde o tempo não se mede em minutos, mas sim em estações. Aprendeu cedo que as palavras podem guardar aquilo que a vida tira. Transformou a perda em literatura, fez de uma aldeia um mapa emocional e sem nunca sair verdadeiramente desse chão, tornou-se um dos autores portugueses mais lidos além-fronteiras. Não para de encontrar certezas, mas para tocar em algo essencial: a identidade, o luto, a infância, a solidão, o amor, o silêncio que fica depois das palavras. A sua escrita é íntima, sem ser confessional, universal, sem perder o sotaque da terra. Viaja pelo mundo, mas carrega sempre consigo a paisagem onde tudo começou. Já foi prêmio literário cedo, já foi promessa, continua a escrever como se cada livro fosse uma tentativa de responder à mesma pergunta: quem somos quando ninguém está a ver? José Luís Peixoto, em "40 Minutos". Bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Obrigado.

Olá, José Luís.

Quem somos? Ou aliás, quem és tu quando ninguém te está a ver ou a ler?

Essa é a pergunta mais difícil de responder. Nem sei se tem uma resposta, mas acredito que, em certa medida, viver é continuamente tentar encontrar essa resposta e espero que tenhamos, eu tento, faço por isso, tenhamos sempre essa vitalidade de continuarmos a questionar-nos a nós próprios. Acho que esse acaba por ser um dos grandes desafios, que às vezes é assustador, porque às vezes é mais confortável mantermos ou cristalizarmos certas ideias sobre nós próprios, normalmente positivas. Mas eu acho que continuarmos a duvidar, continuarmos a procurar, continuarmos a tentar atualizar-nos, continuarmos a tentar perceber que a pessoa que éramos já mudou, acho que é fundamental e nessa medida, essa resposta nunca é definitiva, embora valha a pena continuar sempre a tentar respondê-la.

Tu achas que é uma pergunta à qual todos os seres humanos procuram resposta?

Um propósito, não é?

É inato a nós ou não?

Penso que nem sempre nos dedicamos a essa resposta. Ou seja, também às vezes há outras questões que se levantam e que às vezes são prementes e que exigem atenção e provavelmente essa pergunta já requer uma série de necessidades satisfeitas.

Ou seja, a introspeção é um luxo.

Não sei se é um luxo, mas pelo menos é uma marca positiva do nosso tempo. Eu acho que muitas vezes nós temos uma série de problemas novos, até, mas também é bom percebermos que temos uma série de privilégios, se quisermos, em relação às gerações anteriores, que também são muito gratificantes.

Esquecemos muito, não é?

Esquecemos, claro.

O ser humano é muito ingrato, não é?

É assim, até que cada pessoa parte de um filtro que é a sua própria perspectiva. E, portanto, a questão do individualismo, que não é só negativa nem só positiva, é um facto que existe e partimos dele. E por isso eu acho que, de certa forma, é muito natural que cada um de nós tenha essa ilusão de que o mundo começou no dia em que nascemos. Mas, na verdade, há muito que nos antecedeu e até muitas vezes aquilo que nos antecedeu era-nos ridiculamente próximo, embora nós achemos que nos é completamente alheio. Eu digo isto, eu que sou uma pessoa que nasceu em setembro de 1974. Em 74, aqui em Portugal, temos o 25 de abril, essa data incontornável. E, no entanto, eu, como provavelmente outras pessoas ali mais ou menos da minha idade, sentimo-nos, de certa forma, alheados desse momento, porque não o vivemos. Isto como exemplo.

Nós temos mais ou menos a mesma idade. Não sei se estás de acordo com esta ideia, sentimos que aquele momento não é nosso, mas que faz parte não fazendo parte da nossa vida. É por aí?

Eu acho que essa já é uma assunção de maturidade. Quando já crescemos, quando já somos adultos, quando já temos uma certa perspectiva, é que nós apercebemos que afinal fomos tão tocados por isso e que afinal isso tudo nos diz tanto respeito. Mas posso dar um exemplo, também dentro dessa linha. Os meus pais foram imigrantes em França. Como muita gente, o meu pai foi ainda mais ou menos no princípio dos anos 60, a minha mãe foi logo a seguir, mas voltaram para Portugal em 72 Era um plano que eles tinham de ir e voltar e depois instalar-se na nossa terra e começar uma outra vida com essa realidade.

Qual era a ideia? Ir ganhar dinheiro?

Sim, ir ganhar dinheiro, voltar. O meu pai que era da área da construção civil, depois voltou, montou a sua empresa. Eu, que tenho duas irmãs mais velhas que eu, durante toda a minha infância e juventude, ouvi as descrições que faziam de França e eu achava isso uma coisa completamente longínqua, que não fazia sentido estarem a falar tanto dela, uma vez que já tinha sido há tanto tempo. E hoje eu percebo que tinha sido há cinco anos, tinha sido há 10 anos, ou seja, tinha sido ontem.

O tempo não é nada, o que conta é a intensidade com que se vive a coisa. É isso?

Eu acho que o que conta é a nossa perspectiva.

E o que fazemos de cada experiência.

O que marca muito a forma como nós vemos o mundo e como nos vemos a nós próprios, que é o que foi o ponto de partida de toda esta conversa, é que nós vemos sempre o mundo a partir do nosso olhar. Isso também não é só negativo, porque também nos permite a cada pessoa termos uma visão única e irrepetível, embora partilhamos tanto com tantas pessoas, mas em última análise, a nossa perspectiva é única e isso é fabuloso.

Estamos aqui a falar do tempo. Já passou muito tempo desde a tua infância, não querendo aqui chamar-te de velho, nem nada disso.

Não, mas eu sinto-me velho.

Não, não te sentes velho.

Por quê?

Não.

Já tenho o cabelo todo branco.

E então? É charmo. Pelo menos tens cabelo.

É verdade. Mas tenho um filho que na semana passada fez 29 anos.

Uau!

Portanto, também já...

Dás-te bem com ele?

Dou-me bem com ele, embora neste momento ele viva fora de Portugal, vive na Holanda. Mas hoje em dia também as distâncias não são o que eram.

É verdade. Voltando à pergunta, a questão da infância, estamos aqui a falar do tempo. Tu ainda te consegues transportar para esse tempo da tua infância? Falavas aqui da questão e deste exemplo de França, das tuas irmãs falarem de cinco, 10 anos e isso para ti parecer muito tempo. Olhar para a tua infância agora, com a idade que tu tens, também é muito tempo? Ainda consegues ter uma imagem mental de tudo aquilo que por lá se passou em Galveias?

Eu acho que a infância é muito marcante para todos, porque efetivamente vivemo-la com uma intensidade única. É um momento de descobertas fundamentais na vida e depois temos o resto da vida inteira para olhar para ela e para analisar, para pensarmos sobre ela.

E às vezes para esquecer, porque há infâncias que são traumáticas.

Também. E aí, às vezes, isso nem é completamente voluntário. Às vezes a própria memória também fica marcada com tudo isso. Mas, no meu caso, a minha infância foi principalmente positiva. Aquilo que eu retiro dela hoje em dia, acho que teve aspectos muito positivos, a liberdade que tinha, também uma certa vivência rica, digamos assim, com muitas gerações, pessoas de muitos tipos com quem lidava, porque naquele contexto de uma vila como Galveias, no concelho de Ponte Sor, que hoje tem cerca de mil pessoas, provavelmente nesse tempo tinha um pouco mais, mas acaba por ser um lugar onde toda a gente se conhece e onde existe muita proximidade. Ainda assim, também é verdade que quanto mais o tempo passa, mais me vou sentindo também distante dessa realidade, porque também não abdico daquilo que vivi a semana passada.

Mas queres sentir-te distante?

Não. Eu mantenho sempre presente essa raiz. Aliás, até tenho trabalhado muito na escrita, tenho vários livros sobre isso e ainda tenho muito para dizer sobre isso.

E tens lá o teu nome escrito em muitas paredes de Galveias.

É verdade. Mas espero ainda voltar a esse tema, porque para mim é como um patrimônio de histórias, de personagens, de temas e de vida que eu posso usar na escrita. Mas também é verdade que eu quero continuar a transformar-me, quero continuar a sentir que ainda posso ser outras coisas.

José Luís Peixoto, é um exercício difícil de fazer, mas quem é que tu serias hoje, ou quão diferente serias do José Luís Peixoto de Galveias, se tivesses crescido como tantos outros jovens adultos como tu, que cresceram nos subúrbios de Lisboa, nos subúrbios do Porto ou noutro lugar do país?

Pois, realmente é um exercício difícil. Eu não posso dizer concretamente quem seria, mas uma coisa posso ter a certeza, que seria realmente muito diferente, porque eu desde que escrevi em 2014 um romance que se chama justamente "Galveias", que eu me tenho interrogado sobre uma questão que no fundo se cruza com a primeira questão que aqui levantamos, que foi esta: quem somos? E a questão que nasceu nesse livro foi De que forma é que o lugar onde nascemos influencia a pessoa que somos? E a minha conclusão é que influencia muito, por muitas razões.

No teu caso, há aquele linguajar lindíssimo do Alentejo. Esse sotaque nunca se perde.

Mais quando falo com a minha mãe.

É? Vem ao de cima o sotaque.

Aproveito até para vos dar a conhecer um podcast que eu faço com a minha mãe, que se chama "Menina Alzira". Se algum dia tiverem curiosidade, procurem. E quando eu estou a falar com ela, às vezes é mais visível. Mas o que eu sinto é que todos temos um lugar. E ao dizer que todos temos um lugar, não gostaria que se entendesse de uma forma simplista, porque eu tenho esse lugar concreto, Galveias, que é quase uma ilha, é um lugar absolutamente definido. Outras pessoas têm lugares com outros tipos de complexidade.

O que se refere-se o termo ilha?

Porque tem as fronteiras muito definidas, é um lugar muito marcado.

Para os ouvintes que não conhecem, é: se olharem para sul, têm Avis. Se olharem para norte, têm Ponte de Sor. E tudo à volta é campo.

Exato.

É isso.

Exato.

A cara do José Luís Peixoto agora. Iluminoso.

16 km para Avis, 12 km para Ponte de Sor. Mas é claro que às vezes há mais complexidade aí. Há pessoas que viveram vidas em muitos lugares, há pessoas que os lugares delas são com o pai numa parte de uma cidade e com a mãe noutra parte. Ou seja, há muita complexidade na definição desse lugar. Mas interrogar-me sobre qual é o meu lugar, sinto que é uma parte importante interrogar-me sobre quem sou, porque o lugar concentra a história, concentra a cultura, concentra uma série de aspetos essenciais que nos marcam e que fazem parte da nossa identidade, e que eu acho que é muito saudável nós valorizarmos essa identidade. Não creio que para isso tenhamos de desvalorizar outras que são diferentes e que têm as suas características, mas valorizarmos a nossa, eu acho que é até um sinal de saúde emocional.

E isso sente-se de alguma forma também através da tua escrita. Falaste de Galveias enquanto livro, enquanto pedaço de território, vamos também lhe chamar assim. É um local que tu referes na tua altura, na tua infância, e se calhar também na tua adolescência, como um lugar em que se pensava muito o futuro. Por que tu sentias isto na altura?

Eu próprio também estava em idades que em que o futuro era tudo o que eu tinha diante de mim. Ainda assim, também sinto que nessa região do nosso país, falando ali em concreto daquela região, mas se quisermos podemos ir de norte a sul, dentro daquilo que nós normalmente chamamos o interior, nas últimas décadas, se perdeu muito uma perspectiva de futuro. E as populações sinto que estão, em grande medida, desanimadas. A meu ver, na minha avaliação, isso tem que ver com uma série de circunstâncias da nossa história nos últimos 30 anos.

Políticas?

Sim, claro, acabam por ser políticas. Tem que ver também até às vezes com a forma como se olha para o território. Nós somos um país, na minha perspectiva, bastante centralizado e teríamos tudo a ganhar se existisse uma visão mais abrangente do território a vários níveis.

Para que os José Luís Peixoto de hoje não tivessem que sair de Galveias aos 18 anos para vir estudar para Lisboa, é isso?

Sim, ou então se o fizessem, que fosse por sua decisão, porque, na verdade, hoje eu considero-me até muito à vontade em Lisboa e noutros lugares, mas devo dizer que quando saí de Galveias para estudar em Lisboa, custou-me. Para mim foi até um pouco agressivo, porque a minha vida, a minha realidade era outra.

Sentiste-te a trair, quase?

Eu senti que houve momentos em que eu pensei em desistir, pensei em voltar para lá.

Mas era o quê? A experiência em Lisboa estava a correr mal ou eram os saudades de Galveias? Ou não era nada disto?

Acho que era sentir que não pertencia, sentir que não tinha um lugar, enquanto que lá eu tinha um lugar, lá eu estava bem integrado. E aquilo que na época era todo o contexto com que eu vinha para Lisboa, era para viver uma vida diferente daquela que os meus pais tinham vivido e que os meus avós tinham vivido.

Tu foste o primeiro diplomado da família?

As minhas irmãs já tinham. As minhas irmãs foram, que são mais velhas do que eu. Mas a verdade é que sempre me era dito isso. Para eu progredir, para eu chegar mais longe, tinha de vir, tinha de estudar, e eu próprio também sabia isso. Mas houve uns momentos em que eu pensei: "Se calhar não é tão mau assim trabalhar com o meu pai e fazer aquela vida." Mas isso foi durante um par de meses, depois também me acostumei e avancei com a minha vida por cá.

Já alimentavas a ideia de viver da escrita nessa altura?

Não. Embora eu já escrevesse e a escrita já tinha muita importância, mas eu nunca pensei viver da escrita. Na verdade, hoje, e isto é importante dizer, eu não vivo da escrita. Já houve tempos em que eu vivi da escrita e também eram tempos diferentes, porque uma coisa que mudou bastante e que inclusivamente para mim era bastante importante no que diz respeito à minha ginástica para viver da escrita, era justamente a força da imprensa escrita em papel, normalmente, que durante muito tempo foi uma plataforma onde eu colaborei bastante e que também me ajudou bastante a viver da escrita, digamos assim. Porque viver dos livros, eu nunca vivi. Porque isso é muito difícil, viver dos livros, da venda dos livros.

Talvez noutro país.

Em alguns países muito específicos, também não são em todos.

José Luís Peixoto é o nosso convidado esta semana do "Em 40 Minutos". Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias e já voltamos. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com José Luís Peixoto. João Miguel Santos, sei que tens muitas perguntas para fazer sobre um tal livro, "A Montanha", não é? E temos aqui o convidado perfeito para nos responder essas perguntas, o autor.

O autor, José Luís Peixoto. Ele é o autor de "A Montanha", o último livro do José Luís Peixoto, que é inspirado, talvez não seja a palavra mais correta, mas é escrito a partir da tua experiência a assistir e a viver e a partilhar momentos com doentes do IPO do Porto.

Sim.

Como é que se escreve um livro sobre pessoas que vivem numa situação limite, sem se instrumentalizar a dor, José Luís Peixoto?

É muito difícil, às vezes, contornar essas fronteiras e também acho que é importante ter algum critério, alguma consciência, mas também não ter medo, porque muitas vezes o medo pode fazer com que fiquemos à distância de coisas que, na verdade, mereciam que nós nos aproximássemos um pouco mais.

Na escrita deste livro, qual era o teu maior medo? Era ser banal, vulgar, explorador da dor alheia?

Sim, esse é um tema que me trouxe muitos problemas em muitos momentos, mas também há um outro aspecto que talvez ainda seja superior a esse, que era não estar à altura das expectativas que essas pessoas depositavam em mim, sendo que eu nunca saberei se estive ou se não estive. E na verdade, agora que o livro está escrito e publicado, também não pretendo averiguar, porque sei que os dados estão lançados. Ainda assim, aqui na escrita literária, há uma série de questões que hoje em dia são muito colocadas e que são muito interessantes e que têm que ver com aquilo que se pode escrever e que não se pode escrever, ou que algumas pessoas acham que se pode escrever e que não se pode escrever. E eu, desde o início, que sempre tenho escrito bastante sobre as minhas próprias experiências e sobre aquilo que são-

A tua razão de ser, no fundo, não é?

As questões que eu vivenciei na primeira pessoa, em que quando eu digo "eu", as pessoas leem e sentem que sou eu, efetivamente.

Mas aqui o exercício era diferente, era mais ambicioso, porque aqui tu conviveste com pessoas que vivem uma situação limite, que é o fato de serem doentes de cancro, e depois escreveres, não necessariamente sobre elas.

Sim, exato.

Enfim, um livro inspirado na vida delas.

Na vida delas, exato. Parcialmente inspirado na vida delas, o que ainda é mais perigoso, na verdade, porque se fosse absolutamente inspirado na vida delas e se tentasse mimetizar tudo isso e não trabalhasse nada disso, acredito que talvez ainda estivesse mais salvaguardado. Ainda assim, como eu dizia, eu acredito que nós podemos escrever para lá da nossa própria experiência. E acredito também que até quando estamos a escrever sobre a nossa própria experiência, também estamos a fazer um exercício de alteridade, também nos estamos a ver a nós próprios, também estamos a trabalhar essa experiência. Ou seja, aquilo que nós ali oferecemos não é neutro, não é isento, não é imparcial. Aquilo que nós oferecemos também é trabalhado E neste caso, este livro vem na sequência de outros livros que escrevi, que de certa forma também já levantavam um pouco este tema. Como é o caso de um que se chama "Almoço de Domingo", que fala da vida do Rui Naveiro, ou como é no caso de um que ironicamente se chama "Autobiografia", mas que também tem muitos momentos da vida do José Saramago, ou como é o caso de um que se chama "Em Teu Ventre", que fala bastante de Fátima e de Lúcia, entre outros livros também. Mas dou estes exemplos porque acho muito curioso este trabalho que junta e que de certa forma confunde também, até de uma forma voluntária, aspectos biográficos factuais com aspectos ficcionais. Eu acho isto interessante a vários níveis. Mas uma vez que estamos aqui numa rádio e num órgão noticioso, eu acho que isso é muito até contemporâneo também na medida em que hoje nós temos este dever de interpretação e que o fazemos a toda hora, porque muitas vezes precisamos de saber que a notícia que estamos a ouvir ou a ler vem de onde, vem como. E tudo isso marca a forma como ela é entendida.

Entendida. Porque a notícia também pode ter um poder transformador, não é?

Sim. O que eu quero dizer é que hoje em dia existe uma complexidade grande no que diz respeito não só à informação, mas no que diz respeito aos dados, digamos assim. Ou seja, até as estatísticas, até os números são subjetivos e requerem uma interpretação. E então na literatura ainda mais. É claro, esse tema é um tema muito sensível, é um tema muito íntimo, é um tema muito pessoal. Essas pessoas têm de ser respeitadas e eu também na minha relação com elas e na forma como todo o projeto foi trabalhado, tentei que isso ficasse salvaguardado. Mas é muito sensível.

É sensível. Na escrita deste livro, do "A Montanha", fizeste muitas vezes backspace no teclado, apagaste muita coisa?

O que está lá tem uma diferença muito grande em relação àquilo que foram as conversas, efetivamente, com as pessoas. Ou seja, existe um trabalho muito grande entre o que falamos e o que está ali.

Ok. Quando te sentaste a escrever, já sabias mais ou menos?

Não. Mas foi um livro, e acho que isso até se nota na leitura, que foi evoluindo à medida que eu fui escrevendo e que teve muitas hesitações e que teve muitas dúvidas. O que não é só positivo, porque acaba por ser um livro também muito fragmentado e que também é fruto disso. Eu acho que se existisse uma ideia muito firme, o livro era mais coeso.

Duas perguntas numa só: como é que nascem as tuas histórias e se há um método José Luís Peixoto?

Acho que não há, porque-

Não há método?

Não. E, na verdade, ainda falando deste último livro, muitas vezes eu me questionei porque é que eu estava a ter tantas dificuldades com este livro, uma vez que já escrevi tantos livros e já tinha acumulado tantas estratégias para resolver este problema e mais aquele, e ainda assim havia ali problemas novos e questões novas. E eu acho que é assim que é certo, e parece-me até que quanto mais livros se escreve, mais difícil é escrever, porque se a pessoa fizer isso como um desafio, se a pessoa levar isso como uma busca efetiva.

O que é que é assustador no teu caso? É a falta de originalidade? Medo que se esgotem os temas, não sei.

A falta de originalidade é interessante porque a partir de certa altura, a pessoa está a escrever e sente ecos. Ecos que já nem sabe bem identificar se escreveu ou se não escreveu.

De trabalhos passados?

Sim. Ideias que não sabe já se as utilizou ou se não as utilizou, porque também é muito difícil mantê-las todas na cabeça.

Como é que tu reages aí como escritor? Autocensuras-te dizendo: "Não, José Luís, tu já disseste isto algures noutro livro ou noutro texto. Homem, apaga isso." Ou à galope nas teclas para ir para adiante?

Tento mais ou menos identificar se efetivamente essa sensação de déjà vu é efetiva ou se é só uma ilusão. E depois depende um pouco. Mas eu acho que o que custa mais, de certa forma, é sempre esse confronto inevitável com os outros. Ou seja, saber que o livro vai ser publicado, saber que o livro vai ser lido e cada vez mais também existir um entendimento da imensa complexidade de olhares que irão, de certa forma, escrutinar aquele texto.

Mas isso é o quê? Preocupa-te a reação dos outros? Ia perguntar isso precisamente, também. Ao longo destes anos, é isso que te assusta mais agora, por exemplo?

Por um lado, eu acho que preocupa-me a reação dos outros, porque os livros são escritos para eles. São escritos para eles, não para lhes agradar, mas para comunicar com eles, para lhes dizer alguma coisa. Sendo que, talvez até porque hoje vivemos num momento de extrema comunicação, de extrema interação, muitas vezes fica visível os mal-entendidos que existem.

Os teus leitores escrevem-te muito, é isso?

Escrevem.

Escrevem.

Mas vamos ver.

E são cruéis?

Não é por aí. Porque vamos ver, também quem tem a oportunidade de ler esse romance, "A Montanha", percebe que não há concessões. Porque muitas vezes é fácil fazer uma leitura simplista disto que eu estou a dizer, no sentido em que querer comunicar com esse leitor não significa facilitar, não significa fazer uma transformação daquilo que se pretendia em função de uma ideia. Não, não existe essa perda. O que acontece é que existe a consciência de que o outro é absurdamente complexo. Talvez, no início, quando comecei a escrever, a minha ideia do outro fosse muito mais simples. Talvez, para mim, as coisas fossem mais preto e branco. Hoje, com 51 anos, as coisas são muito mais complexas.

Dizem que isso é crescer.

Sim, mas lá está, tem aspetos muito vantajosos. E eu acho que depois também, muitas vezes, quanto maior é o desafio, também maior é a realização. Mas claro, as montanhas, utilizando essa palavra, também são cada vez mais altas. Depois de subirmos uma, queremos subir outra mais alta.

Fazendo aqui esse exercício, e vou pegar num dos teus maiores sucessos, e vou te confessar que é um dos livros da minha vida, o "Morreste-me". Identifico-me muito com a história e acho que muita gente também, prova disso é o sucesso que esse livro teve. Deu-nos a conhecer também outra vertente tua e também te leva a falar da perda do teu pai, do reflexo que isso também teve no homem que temos aqui hoje à nossa frente. Falando aqui desse exercício que fizeste aqui para "A Montanha", nesse livro, o desafio era mais no sentido de, sendo uma obra, também ela de ficção ou não, porque também deve ter ali muita verdade, qual foi o desafio naquele livro, naquele trabalho que apresentaste e que tanta gente se identificou? E leva a dizer também, se calhar, muitas vezes, quando te escrevem, que é o livro da vida delas.

Sim, esse é um livro que talvez seja o livro que mais vezes e com mais intensidade me escreveram ao longo dos anos, mas eu acho que esse livro acaba por ser até um caso muito interessante em contraposição justamente ao que estava a dizer, porque quando eu escrevi o "Morreste-me", eu não tinha sequer a consciência de que estava a escrever um livro. Não tinha essa ideia na minha cabeça, porque eu nunca tinha escrito um livro na época e se eu tivesse esse pensamento, provavelmente o desafio que eu lançava a mim próprio era de outra forma. Eu estava preocupado com outras coisas. E assim esse texto foi escrito única e exclusivamente olhando para o que está lá e para aquilo que é o centro daquele texto, que tem que ver com o luto e tem que ver com o meu pai e tem que ver com essa perda nessa época.

Diz-me uma coisa, o que escreves hoje, enfim, utilizando aquela expressão, escreves para a gaveta?

Escrevo. Principalmente poesia. Escrevo muita poesia pra gaveta, que depois, por acaso, já há cinco anos, eu publiquei um livro de poesia que não publicava há 12 anos, antes disso. E, na verdade, muitos dos poemas que tinha escrito nesse período continuaram todos inéditos, porque depois também são poemas muito ocasionais. São textos ocasionais. Mas ainda sobre aquele tema. Quando eu escrevo um livro, como por exemplo, o livro "A Montanha", é praticamente o oposto do que foi escrever o "Morreste-me". Por um lado, existe a expectativa de pessoas que eu envolvi no livro de uma forma que, como se costuma dizer, são como é que é? Pôs tábuas na fogueira ou como é que se diz?

Pôs rochas na fogueira.

Exato. Mas na minha própria fogueira.

Regaste com gasolina e diz que regaste um fosfo.

Ao trazer essas expectativas, dificulta muito a minha tarefa.

Porque o "Morreste-me" foi um texto espontâneo e "A Montanha" é um pedido ou uma encomenda do Pedro.

Não, não é nenhum pedido, nem uma encomenda, porque foi todo feito da minha iniciativa. Mas é um livro que envolve outras pessoas.

Baseado em factos reais, vamos dizer assim.

Sim, mas esse é um equívoco muito comum, porque como não é um livro que Que me sentei de uma forma convencional a escrevê-lo e porque como envolve uma instituição, que é o IPO do Porto, parece que o IPO do Porto me encomendou um livro, mas não foi isso que aconteceu. O que aconteceu foi que em 2019 havia uma série de médicos que tinham projeto de fazer um livro em que um escritor iria escrever sobre um paciente e fariam isso com vários escritores e depois fariam um livro cujo valor revertia para o IPO. Esse livro não aconteceu, mas a partir desse contacto, eu propus esta ideia de eu fazer um livro onde integrasse várias histórias. E depois, a partir daí, quem tem a oportunidade de ler o livro também percebe, esse é um elemento do livro, porque o livro "A Montanha" tem uma série de outras dimensões e tem uma série de outras questões, embora aquela que seja mais fácil de enumerar seja sempre esta, porque é tão diferente e tão fundadora, de certa forma. Ainda assim, como eu dizia, eu sempre escrevi, até mesmo no caso do "Morreste-me", em certa medida, embora aí bastante menos, mas sempre tenho em consideração o outro, porque mesmo no caso do "Morreste-me", se não existisse o outro em consideração, aquele texto nunca seria um texto literário. Eu também escrevo pra gaveta os meus diários, por exemplo. Todos os dias escrevo muitas coisas.

E deixas por lá, arrumado.

Não podem ser-

Ou desarrumado, depende da perspetiva

...não podem ser publicados porque não têm intenção literária, não são um objeto literário que os outros possam transformar em seu. Falavas, por exemplo, como o "Morreste-me" é interessante pra ti ou como te marcou e como também muitas outras pessoas se sentem marcadas. Sentem-se marcadas porque o fazem seu. Não é por causa do meu pai. Isso só a mim é que me afeta e à minha família.

É a perspectiva de cada um sobre aquilo que lemos.

Exato, exatamente.

É a apropriação.

E isso é fabuloso e é genial, porque isso é o que a literatura aspira a ser, é transformar-se como parte do outro. Nós no início desta conversa falávamos de como todos temos uma perspectiva individual do mundo, mas, no entanto, também todos vivemos em comunidade. E eu acho que a literatura faz essa ponte entre indivíduos muitas vezes, mas pra fazer efetivamente, quem lê tem de se apropriar daquilo que leu e tem de o tornar seu, mesmo que seja um texto de há 300 anos, mesmo que seja um texto de outra cultura, mesmo que seja um texto de uma outra realidade.

Só mesmo pra fechar, e enquanto autor muito atento àquilo que acontece tanto por cá e no mundo, como é que avalias o estado deste mundo que hoje pisamos, com tantas transformações? Já falámos muito de Galveias também nesta nossa primeira parte, mas enquanto mundo em geral, estamos nós mais tolerantes, menos tolerantes?

Sinto que temos vivido enormes alterações, muitas, e que têm que ver com revoluções incríveis que estamos a viver, como é o caso da revolução tecnológica, que marca tudo. E sinto que muitas das transformações que essas revoluções têm trazido são altamente impactantes e muito rápidas, e são às vezes até um pouco chocantes por não estarmos preparados pra elas. Mas também sinto que são irreversíveis. Não há possibilidade de regressarmos ao que havia. Temos de tentar transformar aquilo que há e viver com isso.

Não és um saudosista, portanto.

Não sou um saudosista, embora também acho que seja muito importante mantermos vivo o passado e as lições do passado.

E tu és o exemplo disso mesmo.

Não, vamos ver. A literatura, que temos estado aqui a falar um pouco sobre ela, é feita muitas vezes de memória, de passado. A literatura, de certa forma, pode ser relevante de duas formas: ou quando nos mostra aquilo que ainda não existe ou quando nos mostra aquilo que existe, mas que nós nunca tínhamos visto plasmado e estruturado.

Estruturado. José Luís Peixoto, se alguém quisesse a tua vida, o que tu responderias?

Que todas as vidas têm coisas boas e todas as vidas têm coisas más, mas acho que a minha vida-

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...é uma vida que eu estou contente com ela. Também foi uma vida que eu tenho vindo a construir ao longo destes anos e que tem realmente esse aspecto da literatura faz com que seja uma vida muito prazeirosa, no sentido em que é pensada. Tento que os passos que dou venham numa sequência e que tenham uma ideia.

Muito bem, José Luís Peixoto.

Muito obrigado, esteja bem.

Obrigado, eu que agradeço. Uma grande conversa. Muito obrigado.

Obrigado.