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Eu ostento com alegria o meu lado feminino, que é uma coisa que a maior parte dos machos latinos têm uma certa vergonha. Não, pelo contrário. Tudo aquilo que eu apreendia das reações, dos comportamentos, das representações, da sensibilidade que é diferente, até de alguma perversidade, que é muito curiosa, por parte delas lá em casa, deu para eu me aperceber de certas coisas. Enquanto que, por um lado, eu ia apreendendo e aprendendo também a condição feminina, ia também ficando um autêntico dependente, que é aquilo que eu sou. Era mimado no seguinte sentido: "Não faças isso, tu não sabes". O que não é bom.
Em miúdo queria ser funileiro à porta, mas cedo percebeu que o caminho podia e devia ser mais fantasioso. Começou por apresentar peças de teatro em casa, a inventar, a escrever, encenar. Ainda que ao longo da vida se tenha assumido sempre como um trabalhador precário, o seu percurso é digno de registo. Líder de audiências, criativo, com uma visão muito própria do que é o sucesso, nunca tirou os pés do chão. Esperneou, sim, mas sempre longe de qualquer síndrome de vedeta. São mais de 65 anos de carreira, com mágoas, aventuras menos felizes, mas sempre com histórias fascinantes para contar sobre a rádio e a televisão. Um homem que de corpo e alma se dedicou por inteiro e que sempre se recusou à mesmice. Júlio Isidro, em 40 minutos. Bem-vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado. Foi uma abertura fantástica, porque está muito fora da mesmice.
Júlio, é um prazer recebê-lo aqui na Rádio Observador.
Estou ligado. João um, João dois.
João e João, este é o programa do JJ. Júlio, o que o comunicador Júlio Isidro perguntaria ao cidadão Júlio Isidro para início de conversa, que se deseja, obviamente, interessante e que é sempre interessante quando é o Júlio Isidro a conduzir?
"Olha, Júlio", diz Marco, "como é que tu te estás a aguentar nisto há tanto tempo?" E ele diria: "Não sei".
Não sabe mesmo?
Não, eu acho que não sei mesmo.
Não há um segredo que queira partilhar aqui connosco? Vamos precisar daqui a uns anos.
Eu gosto de vir aqui para partilhar segredos e particularmente quando as entrevistas são assim, entrevistas frontais e até mesmo que sejam algo provocatórias. Até gosto, são as que animam mais as artes. Mas de qualquer forma, eu não tenho bem um segredo, porque naveguei sempre à vista e de vez em quando estava encalhado. Como eu sou um precário, sou o precário mais antigo do país, encalhei inúmeras vezes. E nessas alturas tentava sempre fazer uma outra coisa qualquer, porque o importante era, para mim, duas coisas: eu só reconheço a condição de cidadão, o cidadão que trabalha. Quem não trabalha, para mim, não tenho muita consideração. Se tiver um tio da América que lhe tenha deixado uma fortuna, mesmo assim tem a obrigação de trabalhar.
Portanto, dos sete pecados mortais, o Júlio Isidro, o que mais odeia é a preguiça. É?
É, mas não só. A gula nem por isso. Como aliás se pode ver pela gravura, juntamente a viada. Mas em relação à preguiça, tenho uma postura, particularmente se a preguiça for lucrativa. O direito à preguiça às vezes apetece e é justo.
Há dias, com certeza, que não faz nada. E que gosta.
São os dias em que eu faço que não faço nada.
Eu tenho um colega que dizia que ser preguiçoso dá muito trabalho.
E é mesmo.
É ou não é?
Aliás, até se costuma dizer em relação a um povo que eu gosto muito, aos brasileiros, e concretamente aos cariocas, que se levantam mais cedo para estar mais horas sem fazer nenhum. Mas isso é uma piada. Que no fundo é a retribuição daquilo que muitas vezes os brasileiros contam ao nosso propósito.
Muito bem. O Júlio reafirmou aqui a sua condição de precário ao longo da sua carreira. Dizia há instantes que quando não trabalhava procurava, não sei se a expressão era esta, mas entreter-se ou fazer qualquer coisa. O que fazia ou o que fez ao longo da vida quando não fez televisão e rádio?
Esse entretenimento era um entretenimento para ganhar a vida, porque eu também tenho alguns entretenimentos em que ganho a vida também. Não ganho a vida no sentido da conta bancária. Mas como eu comecei a trabalhar na televisão em 1960, dia 16 de janeiro de 1960.
Tinha 15 anos, não é?
Exato. Era um miúdo e portanto fui fazendo pela vida, mas aquilo não estava minimamente nas minhas previsões. O funileiro já tinha passado. Naquela altura já tinha pensado ser toureiro, que era uma coisa inimaginável.
E há memórias disso em casa?
Sim. As minhas irmãs eram tão queridas que se deixavam tourear por mim com um roupão da minha avó que era grená.
Com um roupão grená.
Tinha um roupão grená que me emprestava para eu poder tourear as minhas irmãs. Mas é evidente, depois tive consciência das coisas e não sou propriamente um fã da chamada festa brava. Depois, na altura dos meus 16, 17 anos, eu tinha também uma outra aspiração, que gostava de ter sido cantor lírico. Isso é um facto.
Porque também cantou no coro.
Cantei no Orfeão Lisboa Camões. Primeiro era primeiro tenor, depois passei a segundo tenor e hoje em dia se cantasse era barítono a atirar para o baixo, penso eu. Mas enfim, a voz vai-se modificando. Cantei muito e foi aí que comecei, de alguma maneira, também a fazer pequenas apresentações. Aquilo que disse no princípio, tem razão. Eu fazia peças de teatro em casa, que escrevia. Os meus pais consentiam que eu tirasse as portas das salas, tinham duas salas contíguas, tiravam-se as portas para fazer as partes laterais do palco. O meu pai autorizou que eu fosse a uma casa de tecidos comprar um pano Para ser o pão de boca. E as minhas irmãs aí já não tinham que fazer torros, coitadinhas, faziam dos papéis que eu tinha pensado e tinha mais amigas do que amigos, o que é uma coisa saudável também. E então escrevia peças em função das amigas e dos amigos que tinha.
De onde é que vinha a imaginação para escrever essas histórias?
Eu penso que a imaginação resultava do facto de eu ser o único homem lá da casa, quer dizer, meio homem, havia o meu pai por inteiro. E portanto, fechado no quarto. E como estava fechado no quarto a imaginar coisas, imaginava peças. Não tinha ainda televisão, é evidente. Isto é no caso dos 12 anos, 12, 13 anos. Não tinha ainda televisão e, portanto, inventava histórias. Algumas que eram reproduções muito criativas e muito livres dos livros que eu ia lendo.
Lembra-se assim de alguma, Júlio Isidro?
Lembro-me. Normalmente, metia sempre princesas e príncipes. Eu não podia ter uma bela adormecida, porque não havia nenhum amigo meu que estivesse autorizado a dar um beijo na boca da minha irmã a dormir, portanto, não deixaria. Mas fazia versões soft de alguns livros que eu lia e particularmente livrinhos da Disney. Aliás, a propósito de livrinhos da Disney, eu ia lê-los à biblioteca americana da Embaixada Americana. Ia lê-los e também os emprestavam durante oito dias. Eu levava para casa, lia e aprendi, aliás, muito vocabulário do Brasil, porque aquilo era tudo impresso em português do Brasil. Inspirava-me também para as peças.
Portanto, teve uma infância feliz.
Tive uma infância bastante reprimida, como convém para ser um menino bem-educado, como ainda hoje sou.
E numa casa com muitas mulheres. Há bocadinho falava da questão de um homem e meio, que o meio era o Júlio e o homem era o pai, mas numa casa com muitas mulheres que ajudaram também na questão da sensibilidade. A sensibilidade que tem hoje vem dessa época e dessas mulheres que também o ajudaram a criar, não é, no fundo?
É uma ótima pergunta, porque eu ostento com alegria o meu lado feminino, que é uma coisa que a maior parte dos machos latinos têm uma certa vergonha. Não, pelo contrário.
E como é que se sente essa ostentação, Júlio?
Eu não quero aqui estabelecer, até porque isso dava uma conversa muito longa. Estabelecer grandes diferenças ou as diferenças fundamentais entre o ser mulher e o ser homem. Mas tudo aquilo que eu apreendia das reações, dos comportamentos, das representações, da sensibilidade que é diferente, até de alguma perversidade que é muito curiosa por parte delas lá em casa, deu para eu me aperceber de certas coisas. Simplesmente, enquanto que por um lado eu ia apreendendo e ia aprendendo também a condição feminina, ia também ficando um autêntico dependente, que é aquilo que eu sou, porque se a minha mulher não me fizer o jantar, eu vou comer fora. Quer dizer, não desconfio. Embora visse as minhas avós, porque aquilo começava nas avós, lá em casa. Duas avós e depois por aí fora até às minhas irmãs, para além de duas empregadas e ainda por cima a senhora costureira que ia lá coser coisas todos os dias.
Portanto, o Júlio gostando de uma boa provocação, aqui vai uma: é um homem mimado, é isso?
Era.
E é?
Se eu não for, queixo-me. Era mimado no seguinte sentido: "Não faças isso, tu não sabes". O que não é bom. Eu não posso dizer que fosse uma criança muito feliz, porque, por exemplo, eu fui relativamente rico. A minha avó, que era muito esnobe, dizia que eu tinha nascido em berço de ouro. Deve ter sido, mas depois aquilo começou a desvalorizar-se e deve ter terminado em berço de esferovite. Como teria nascido em berço de ouro, as coisas correram muito bem até aos meus 10 anos, mais ou menos. E em determinada altura, como acontece com os países, com as empresas, a família entrou em default. A partir daí foi bastante mais duro. Mas antes eu era um menino que tinha tudo quanto era brinquedos, só com uma particularidade: as minhas avós mandaram fazer prateleiras no meu quarto, que eu não conseguia atingir, em cima da cama, com os brinquedos. Por quê? Para mostrarem às amigas que o menino tinha brinquedos extraordinários, só que eu não brincava com eles, não deixava. E então aí começou a tal criatividade. Isto, no fundo, está tudo ligado.
É por isso que diz que teve uma infância reprimida?
É. Está a ver? É absolutamente extraordinário ter brinquedos. Ainda me lembro de alguns e tenho hoje em dia um, que consegui comprar uma réplica. Um varredor de rua. Dá-se corda. E uma vez no Porto, numa casa de antiguidades, encontrei um, fiquei encantado, lembrei-me do meu varredor. Por quê? Porque a verdadeira destinatária de todos esses brinquedos com os quais não me deixaram brincar, foi a filha da porteira. Aquilo começou a ficar um bocadinho mais ferrugento e elas iam dando os brinquedos à menina Manuela, e a menina Manuela ficou com os meus brinquedos todos. Mas eu também não me deixava ficar por aí, porque eu tinha um exército de soldados Em cima do meu guarda-fato. Mas eu não podia mexer nos soldados. Simplesmente com molas da roupa, eu pintava as molas da roupa e fazia os meus soldados e punha-os em pé. E portanto, isso começou a desenvolver-se a minha criatividade.
Acha que falta isso hoje às crianças?
Falta tudo. Eu, aliás, a esse nível sou um indignado e gostava de mudar o mundo, mas sou um quixotesco. E portanto, gostava de mudar o mundo, porque gostava muito que os rapazes e raparigas, e naquele tempo ainda por cima era uma coisa mais de rapazes, gastava outro defeito. Rapazes e raparigas se entretivessem com mexer com as mãos e não apenas com os polegares, que é uma coisa que me faz uma grande confusão. Por exemplo, com mantas e os cobertores de papa, lembro-me perfeitamente que eram cobertores grossíssimos, fazia tendas na marquise e dentro da tenda organizava-se um lar e as minhas irmãs eram as donas do lar. E eu era visita. Mas também no jardim, eu construí um castelo fantasma. Um castelo fantasma mesmo para se andar lá dentro. Por quê? Porque no prédio ao lado havia um importador dos flippers, dos jogos americanos, que vinham dos Estados Unidos dentro de uns caixotões enormes em papelão muito grosso. E eu pedia ao senhor, lembro-me do nome dele, se ele me podia dar aqueles caixotões. Eu recortei-os, alinhiei-os e fiz um comboio para ali fora e forrei aquilo tudo a preto. Criei uns esqueletos que eu próprio mexia, esqueletos em cartão, e um carrinho com quatro rodas de esferas, aqueles rolamentos de esferas. E como não havia eletricidade, não havia nenhuma forma propulsora, era eu que empurrava as minhas irmãs dentro do carrinho. Havia só uma combinação, tinham de gritar de susto, mas elas tinham visto fazer aquilo. Mas de qualquer das maneiras para serem agradáveis ao mano, gritavam com os sustos.
Para alguém tão criativo, e está aqui a dar-nos conta disso mesmo, como é que depois vai pra a rádio, é jornalista e no período de censura? Pensar agora em tudo isto, em todas estas histórias que nos contou, como é que depois se vive esta dualidade, porque sabemos que tem histórias sobre isso, da guerra, por exemplo, da guerra colonial, de notícias que não se podiam dar e muitos mais assuntos. Isso não o castrou de alguma forma dessa liberdade e dessa criatividade que tinha?
Olhe, eu troco a expressão, não castrou, estimulou, e mais do que isso, reinventou-me. E não só a mim, como aos meus colegas. É porque eu tive o privilégio ter um chefe extraordinário, que era o Luiz Felipe Costa, que tinha uma voz extraordinária e foi muito inovador, porque quando eu comecei a trabalhar no Rádio Clube Português, no serviço de noticiários, o serviço de noticiários tinha sete elementos. Sete elementos faziam 24 horas de informação por dia, trabalhava-se à séria, e o Luiz Felipe Costa, na impossibilidade de me dar um curso de comunicação social, que hoje em dia qualquer pessoa tem, nem havia, ele escreveu-me, e eu tenho isso guardado, com a letra lindíssima dele, escreveu um manual de como é que se é jornalista. E está lá tudo, curiosamente, por alíneas. E a última parte do manual era só como fintar a censura. Então começou a arte da metáfora, que eu ainda hoje uso, estou a falar convosco e estou a arranjar metáforas. Eu não estou a dizer tal e qual o que estou a pensar.
Sim, para termos uma ideia, qual o tamanho desse volume de jornalismo ou desse manual de jornalismo criado pelo Luiz Felipe Costa?
São seis páginas.
Seis páginas.
Seis páginas. Manuscritas, lindíssimas, que ele tinha uma letra especial, ele gostou muito de mim e tal, eu era o mais novo de todos, e deu-me esse manual. E estava lá tudo, como é que se abria o noticiário. Havia, digamos, um critério diferente do critério de hoje. Eu sou uma pessoa que acompanha muito, mas muito a informação. Havia o critério de primeiro as notícias do país e depois as notícias do estrangeiro, depois desporto, eventualmente alguma coisa de fait divers e finalmente o boletim meteorológico. A ordem era normalmente esta.
A estrutura clássica de um jornal audiovisual. Essa regra também era aplicada na televisão. Tem tantos anos disto. Como é que olha hoje para a informação que se produz no país? Também tem uma visão catastrofista e tremendista do jornalismo?
Não vou a esse nível, mas tenho uma visão pandémica.
Lá está, metáfora. Portanto, é um crítico.
Sou um pouco crítico. É evidente que eu acho que se faz muito bom jornalismo. Acho que há muito bons jornalistas. Acho que o jornalismo de investigação hoje em dia se faz muito mais do que se fazia, eu não vou dizer no meu tempo, meu tempo é hoje, mas no tempo em que eu era jornalista, é evidente que eu considero que o jornalismo de investigação não era muito possível. Quanto mais se investigasse, pior. Dava menos tempo. Eu, por exemplo, lembro-me que fiz, tive assim dois ou três episódios interessantes, fiz uma coisa sobre o aniversário do Picasso e foi cortado. Eu levei aquilo ao censor, porque tinha um censor dentro do rádio, ele disse: "Nem pensar".
O que é que tinha escrito?
Tinha escrito sobre o Picasso, mas como era conotado com essa coisa terrível de ser de esquerda ou dizer se era de esquerda ou não. E fiz uma melhor, ou pior ainda, fiz uma sobre Sobre o António Aleixo.
Sim.
A conversa do António Aleixo também foi cortada. Eu perguntei mesmo ao censor. É um apelido muito conhecido da nossa praça. O apelido, o senhor já cá não está, evidente. Perguntei: "António Aleixo. São umas quadras populares que realmente tocam na nossa vida. Mas António Aleixo?" "Não, esse homem que está lá na Argélia." Ele disse: "Desculpe, ele não está na Argélia. Era algarvio." "Ah, Manuel Alegre!" Então o censor tinha confundido António Aleixo com Manuel Alegre. Depois lá me libertou o António Aleixo.
Juli Isidro, a conversa está ótima, temos muito mais para lhe perguntar. Vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos.
Está bem.
Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos" esta semana, João Miguel Santos, estamos com o Juli Isidro. Juli Isidro. Já nos contou tantas histórias. É verdade. Estávamos a falar da censura e da forma como, antes do 25 de Abril, se fintava a censura. Antes de avançar pra pergunta, e da forma como muitas vezes quem comunicava na rádio e na televisão antes do 25 de Abril, recorria à língua portuguesa para fintar a censura e comunicava através de figuras de estilo, que hoje em dia, as gerações mais novas não sonham, alguns, até que existam. Acha que se escreve pior hoje do que antes do 25 de Abril?
Tocou numa coisa que eu não resisto a dizer, mesmo agora sem metáforas. Realmente há um déficit bastante grande penso eu, no vocabulário. Portanto, acho que o léxico de alguns jornalistas, não são todos, é evidente, é baixinho, é pequenino. Quer dizer, nós temos que ter um léxico maior pra podermos jogar com as palavras. O Luiz gostava muito de mim.
Luiz Felipe Costa.
Luiz Felipe Costa. E dava-me normalmente o "No Mundo Aconteceu", que era da meia-noite à 01:00 a.m. Aí sim, era uma hora de informação, o balanço de tudo que tínhamos feito durante o dia.
Isso hoje era impossível de se fazer, não é?
Mas dava-me um gozo. Ainda tenho alguns.
Tem gravações?
Não, tudo escrito à mão. Por quê? Porque eu ia pegar no cesto, onde tinham ficado os noticiários de todos os meus colegas. Eu entrava às 19h, outras vezes entrava às 07h, mas quer dizer, era 19h às 01h. Ia pegar naquilo tudo, ia ler os jornais, ia ouvir algumas gravações que o meu colega Manuel Bravo, que era um bricoleur por excelência, tinha arranjado de maneira de nós termos uma maquineta que gravava desde a Rádio Argel até a Voz da América, e não sei o quê, e a BBC, ia sacar aquilo tudo e depois compunha um texto. O texto não tinha 50 minutos, porque também se arranjavam um ou outro som. Não muito.
Dessas tais rádios.
Exatamente, aqueles sons que eram passíveis de passar, e compunha o "No Mundo Aconteceu". Dava-me imenso gozo fazer o "No Mundo Aconteceu". Era o balanço do dia e tinha imensos ouvintes. E é evidente que eu próprio, ainda hoje, às vezes faço exercícios de sinonímia. Penso numa palavra, ainda há pouco estava a trabalhar com a minha filha Francisca, que está a fazer a tese de mestrado de cinema na Nova. Quer uma, quer outra, a outra é dentista, não será assim tão precisa. Escrevem ambas muito bem.
Portanto anda sempre à procura de formas diferentes de dizer uma determinada coisa, é isso?
Exatamente. Ela trouxe um texto altamente subjetivo sobre o reflexo do fotograma, uma coisa extraordinária. E de vez em quando eu assim: "Olha, tu agora puseste aqui esta palavra, já não há uma redundância em relação àquela?" Embora ela escreva maravilhosamente bem. E eu acho que devo fazer, de vez em quando, exercícios de sinonímia, porque quando me falha uma palavra, eu vou arranjar uma da mesma família.
Pois.
Ou quando eu tinha vontade de dizer uma palavra e ela pode ser um bocadinho rude demais para aquilo que é o meu critério, eu vou atenuando isso com uma pincelada de doçura.
Isso é um exercício permanente, não é? Eu ouvi dizer que não usava teleponto.
Não.
Portanto, fez televisão-
Nem rafinho de orelha.
Portanto, construiu a sua carreira. Nem isso usava?
Não.
Auricular, neste caso.
Não, nem auricular.
Então como é que o realizador lhe dava ordens?
Um sistema muito simples. Quando eu vou fazer um programa, faço à antiga portuguesa, como eu costumo dizer. Tenho que ter um assistente de realização que tenha uns cartões, onde vai escrevendo uma coisa como, por exemplo: "Anda mais depressa". Não é pra me pôr uma pergunta, é evidente. "Anda mais depressa, anda mais devagar, faltam cinco minutos", que também não é preciso, que eu tenho um cronômetro dentro da cabeça e acabo novamente à hora. E, portanto, quer dizer, faço isso de uma forma muito primária. Eu, por exemplo, agora quando aconteceram os Globos de Ouro, eu não sabia que ia receber. E comecei só a desconfiar a partir dos últimos 10 minutos. E então assim: "Bem, agora tenho que construir aqui uma coisa".
Como é que fez?
Pensei durante 10 minutos. Tenho agora que, de alguma maneira, cativar estas pessoas com o significado de um prêmio de mérito e excelência, que é isto. Que tenho algum mérito? Talvez. Excelência, não sei.
Por que criou a excelência? Quanto à excelência, o mérito leva à excelência, não é?
Sabe, eu tenho algum rebuço em me referir a questões que tenham a ver com mérito, excelência, fama, popularidade, essas coisas todas. Porque há bem poucos anos, eu fui convidado lá na RTP para estar no júri de candidatos a locutores. E concorreram, acho que milhares. E eu devo dizer que para aí 70%, a primeira pergunta que eu fazia: "Então, por que está aqui?" E quase todos respondiam: "Eu quero ser famoso". Isto para mim era altamente deprimente. Para já, aquilo que é a fama é uma coisa tão frágil como o vidro. Aliás, o Benjamin Franklin tem uma frase extraordinária sobre isso: "O vidro, a porcelana e a reputação partem-se com facilidade. Demoram muito tempo ou quase tempo nenhum a conseguirem reconstruir-se". Portanto, não pode ser essa a postura de um profissional. Para mim, o grande profissional é o que trabalha muito, como aliás, o próprio santo, que é o santo padroeiro dos jornalistas, dizem com razão que o barulho não faz bem e o bem não faz barulho. Isso é uma tese para jornalista. E é assim que eu vivo.
Mas não lida mal com o elogio?
Não é nenhuma ostentação. Eu não lido mal com o efeito colateral.
Ou não saber reagir a um elogio, por exemplo.
Estava agora aqui a dar uma de Madre Teresa de Calcutá. Não, pelo amor de Deus! Nada disso.
Mas diga uma coisa, Júlio, em criança, quando organizava aqueles teatros em casa e simulava programas.
E cinemas.
E cinemas. Qual era a ideia? Não era ser famoso?
Não. Era divertir as velhotas que iam lá a casa. Porque o meu público era um público de terceira idade.
E foi isso que tentou fazer sempre ao longo da sua vida, na televisão e na rádio?
Essa pergunta é muito interessante, porque aconteceu-me uma vez, já eu fazia o Passeio dos Alegres. Era um fenômeno de popularidade e de impacto nacional.
1981, 82.
Daí pra frente. Depois foi a mesma coisa. Eu cometi um erro. Se me perguntasse qual é o grande erro que cometeu na sua vida, eu mudei o nome do Passeio dos Alegres, porque a pressão lá dentro da televisão era muito grande. Muda. Depois chamei lhe o Festa é Festa e a Festa Continua, mas era a mesma coisa. Embora com a evolução dos conteúdos. Mas eu, quando fazia esse programa, que tinha imensa popularidade, não dava importância nenhuma aos efeitos colaterais daquilo que é considerada a fama. Até pela ideia que tenho de que isso é finito.
Portanto, ser capa de revista, nada disso o fascinava.
A minha mãe disse-me: "Olha, acho que devias ir embora da televisão, que já estás a ser famoso demais". Disse a minha mãe. Eu: "Desculpa, sim".
Eu falei das capas da revista. Há uma capa de uma revista onde o Júlio aparece com uma guitarra. Era para a fotografia ou toca?
Era uma magazine TV. Tocava.
Toca. Tocava?
Tocava.
Já não toca.
Não, agora é a Francisca que usa as minhas guitarras. E aqui há uma semana ou duas, eu fui apresentar pela terceira vez consecutiva aos Açores a Grande Noite do Fado, o Dia Mundial do Fado, e a homenagem foi ao Rodrigo, justíssima. E depois no final houve um convívio, e estavam lá o Jorge Fernando, aqueles grandes guitarristas. E de repente eu peguei na viola e em vez de cantar um fado, porque não sabia nenhum, cantei uma canção do Juca Chaves que eu gostava muito, era um contestaário romântico. E então ficaram todos muito admirados que eu tirei uns acordes, mas fiquei cheio de dor nos dedos, porque já não toco há muito tempo.
Mas é um melôman, não é? É um grande apreciador de música.
Sim, sou.
Acompanha ou parou? Porque há uma altura na vida em que há muita gente que para.
Não, eu agora é em Porrondo, que é uma coisa maior, que é a família.
Ok.
De vez em quando, eu passei a saber que há uns dois, três anos, quem era e o que valia a Taylor Swift, porque a Francisca e a Mariana estavam completamente embaiçadas com a Taylor Swift.
E gostou?
Gostei muito.
Tem novo álbum agora, é muito recente.
Aqui há um tempo estávamos numa conversa. Eu já antes comprei os álbuns até em vinil para elas. E aqui há uns tempos, há um mês, dois meses, elas disseram: "Papá, agora há aí uma outra cantora, não tem a dimensão espetacular da Taylor Swift, mas é também extraordinária. Nós gostávamos de saber se o papá gostava". E eu disse: "Será a Olivia Dean?"
Também é ótima.
E elas: "O papá sabe quem é a Olivia Dean?" Sei, porque fui a um torneio, deram dois na Inglaterra e um colega meu, da minha idade, disse-me que ia ver agora em março o concerto no O2 da Olivia Dean.
Sim, é uma artista revelação agora que surgiu.
Extraordinária. Quer dizer, é o oposto, digamos, em termos de espetacularidade da Taylor Swift. Porque a Taylor Swift tem um show de encher o olho. O dela, por acaso vai fazer o O2, que já são muitos milhares, mas antes era um espaço muito pequeno.
Ela está nomeada para os Grammys do próximo ano como artista revelação. E destaca-se muito pelas interpretações, porque está a cantar e não parece que o está a fazer porque faz de uma forma tão sorridente.
Exato.
É incrível.
Mas as minhas filhas ficaram fascinadas. E agora foi com o Tim Bernardes também.
Também é ótimo.
Eu sabia também que era o Tim Bernardes, mas não tinha ouvido o suficiente.
Ok.
Portanto, elas disseram: "Papá, vá aqui ao Spotify que há aqui uma série delas". Mas também eu fui ver agora os Il Volo
Sim.
E devo dizer, a minha mulher estava ao meu lado e viu-me a chorar na maior parte do tempo. Chorava, por quê? Porque eu sou um tenor adiado, adiado pra toda a vida, é evidente. E a maior parte das árias que eles cantavam eu sabia de cor. Sabia de cor, porque numa determinada fase da minha juventude, tive uma paixão assolapada por uma pessoa de grande nomeada no que respeita ao canto lírico em Portugal, e aprendi. Ia aos ensaios das óperas todas. Portanto, eu sabia muitas árias. Estavam a ouvir os Il Volo a cantar e realmente, que tenores magníficos. Eu sou um tenor maligno, realmente, a cantar à beira dos 80.
Não é nada, não diga isso. Júlio, parece que indicia que gostaria de ter abraçado uma carreira musical, mas arrepende-se de não ter feito algo durante os seus 65 anos de carreira?
Olha, eu penso que a questão do cantor lírico foi arrumada, até por falecimento, porque eu cheguei a ter um professor de canto, eu e mais três amigos. Eram os Il Volo dos anos 60. Eles são só três, mas enfim. Eu e três amigos juntamos pra cantarmos canto lírico também. E um professor ofereceu-se voluntário pra nos dar lições de canto. E um dia estávamos em minha casa à espera que ele chegasse. As formas de comunicação não eram tão rápidas como são agora. E ele vinha de Setúbal, tinha morrido num acidente de automóvel, portanto acabou o quarteto e acabou o tenor. Mas coisas que eu me tenha efetivamente arrependido.
De não ter feito.
Que eu não tenha feito e que não dão arrependimento, dão assim uma raivazinha.
Sim, diga.
São dezenas e dezenas de projetos que eu apresentei na RTP, que não tiveram resposta, nem sim, nem não. Simplesmente têm ficado nas gavetas. E alguns eram completamente exequíveis, ainda hoje em dia, em termos de televisão, porque quando eu apresento um projeto de televisão, não é uma ideia de uma linha, quer dizer: "Olha, tive uma ideia". Como é que isso se faz? Nós estamos agora aqui fazendo um programa. Isso tem um know-how, tem tempo, tem conhecimentos, tem procedimentos. E muitos ficaram no pau da roupa, mas eu não lhe vou dizer quais são, sabe por quê? Porque tenho sempre esperança de que um ou outro se consiga concretizar.
Muito bem.
Vocês não têm um canal de televisão, mas se tivessem, eu oferecia-lhes de bandeja.
Nós estamos no YouTube, Júlio. Que é o novo canal, consome conteúdos do YouTube.
Lá está. A grande vantagem de ser um pai serôdio é porque, pra já, sou eu que grito quando sou atrapalhado.
Vê a Olívia Dunn também no YouTube.
Eu vejo tudo. Quer dizer, não sou um expert. Sou um consumidor discreto, porque não domino aquilo. Até me enervam as minhas filhas, com uma rapidez, entendem aquilo tudo. Eu não, eu uso dois dedos para estar atualizado. Mas sou. Por que o papel? Eu não tenho nada contra o teleponto, porque o teleponto era o papel que o Henrique Mendes lia, ou o Gomes Ferreira, ou o Manuel Caetano. Tinha papel. Agora o papel está num ecrã. Simplesmente, como sou eu que escrevo os meus próprios programas, nunca escrevo o discurso direto. Nos meus guiões, que eu entrego ao realizador, ponho em discurso indireto, minimamente o que vou dizer.
Ah, ok.
"Júlio diz que não sei o quê". E depois digo. Às vezes pode sair melhor, outras pode sair pior, às vezes sai assim, assim.
É um homem muito ativo, está prestes a fazer 81 anos, mas prova da sua vitalidade é que está agenciado numa das maiores agências do país e a sua figura é muito consensual. Quando sai à rua, deve ser muitas vezes abordado por pessoas que o conhecem, que reconhecem em si também a sua simpatia. Sempre lidou bem com esse lado que a fama e o fato de estar presente há tantos anos também na televisão lhe trouxe?
O reconhecimento. O conhecimento e o reconhecimento. E é verdade, realmente, com esta idade é que passei a ser administrado pela Notable, que tem tido até um papel interventivo pra eu vir fazer estas coisas. E esperança também de que um dia desses faça também, digamos, sob o ponto de vista profissional mesmo, alguma coisa.
Portanto, já é um influencer digital, o Júlio Isidro.
Nunca me passou pela cabeça. Mas realmente, há uma vantagem.
Se já era um influencer analógico.
É verdade. É lógico que seja um digital.
Parece óbvio.
Sou um digital igual.
É uma pessoa muito consensual, como dizia aqui o João Costa e Silva há instantes. É difícil encontrar uma pessoa que diga mal do Júlio Isidro. Ou que tenha qualquer coisa a apontar ao Júlio Isidro. O Júlio Isidro é aquela pessoa, os franceses têm uma palavra que é o faible, é fiável. É aquela pessoa fiável, confiável. Nunca se meteu por caminhos enviesados, pois não, Júlio Isidro?
Não.
Alguma vez sentiu essa tentação, por exemplo, de assumir preferências políticas, assumir posições públicas em favor de algumas causas que podem ser um pouco mais polêmicas na sociedade portuguesa? Nunca cedeu aí, Júlio Isidro?
Houve uma altura Da minha vida, um momento da minha vida em que fui apoiante de uma causa. A causa chamava-se Mário Soares. Foram as eleições em que Mário Soares ganhou as presidenciais.
86.
Exatamente. Estive com ele e ele tinha uma cotação de 8%, que é extraordinário para começar.
Quando diz esteve com ele, desde esse momento dos 8% ou apareceu depois?
Não, desde os 8%. Eu tenho aquela máxima que costumo dizer: se eu fosse apostar numa corrida de cavalos, apostava no burro. Coitado do Mário Soares, pelo contrário, de burro não tinha nada. Pelo contrário, era uma personagem extraordinária.
São as metáforas do Júlio Isidro.
Exato. E o fato é que estive com ele desde o princípio e apercebi-me de um pormenor muito curioso. As sondagens também não seriam tão eficazes como são hoje, mesmo assim não são tão eficazes, mas o fator surpresa era grande. Normalmente, ele tinha uma grande simpatia por mim, até me dava o braço e íamos os dois à frente. Mas consoante foram subindo as sondagens, eu fui ficando um passo mais atrás, e dois passos mais atrás.
E por quê?
Porque a estrela era o doutor Mário Soares, era natural que ele estivesse à frente.
E depois daí nunca mais voltou a assumir nenhuma posição política?
Não.
E por quê, Júlio Isidro?
Olhe, eu vou dizer uma coisa, utilizou a palavra consensual. Como estamos a viver num tempo onde as pessoas, de uma forma absolutamente irracional, estão teoricamente a fazer escolhas políticas que não são aquilo a que eu posso chamar a futebolização da política. Não pode ser tu não és da minha cor porque os ares dos seus olhos são encarnados e eu sou do Sporting e já ouvi isto de um sportinguista, fiquei bazado. Noto como há uma enorme irracionalidade e uma total incapacidade de termos fair play no respeito pelos outros. Um dos meus melhores amigos, também não lhe vou dizer o nome, um ex-profissional, é do Partido Comunista e é maçom. Falamos todos os dias ao telefone, até porque ele tem estado doente. Temos um entendimento perfeito, mesmo no nosso desentendimento, ou seja, mesmo nas nossas enormes diferenças. Para mim, e depois chamem a isto o que quiserem, agora colocar a esquerda e a direita e o centro-esquerda, centro-direita e essas coisas todas, aqui como definições dos nossos comportamentos, não chega. Para mim, a doutrina social da igreja, se fosse cumprida, nós vivíamos todos em paz. Para mim, não é imaginável o que tem estado a acontecer com a guerra da Ucrânia e a Rússia, com o que tem acontecido com Israel e a Faixa de Gaza. Isso é que parece uma mancha de óleo a espalhar-se pelo mundo inteiro. É para mim absolutamente inimaginável, porque vem-me sempre à cabeça uma frase de uma mulher extraordinária chamada Eleanor Roosevelt, que disse, e com razão: "Nunca ninguém ganhou a última guerra, nem vão ganhar a próxima." Eu hoje fiquei a saber que morrem, por mês, 30 mil soldados russos. São 30 mil mães, 30 mil pais. Essas coisas fazem com que eu prefira, e na impossibilidade total de mexer um dedo para que o mundo mude, mexer a mão para que o meu pequeno mundo se articule minimamente.
Disse há instantes que se o mundo adotasse a doutrina social da Igreja, o mundo seria melhor. O Júlio Isidro é católico?
Sou cristão. Sou católico, também.
Praticante?
Não. Aprendi a ser praticante com o meu pai. O meu pai todos os dias tinha uma conversa com Deus, mas era em casa.
E o Júlio tem essa conversa?
Eu tenho. E vou-lhe dizer, a última vez que comunguei foi numa igreja britânica.
Por estudante?
Não, por estudante, não. Não é uma católica, é a Igreja de Inglaterra. Que, como sabe, foi promovida por uma zanga do Henrique VIII. Fui assistir à celebração, os senhores chamam bem a missa. Chamam de serviço, com a minha mulher. Foi há um mês ou dois e em determinada altura achei imensa graça à forma como o padre estava a falar, à forma como comunicava, porque era o dia de doação. E quando estava a terminar, há um momento de comunhão. Eu não comungava há anos.
E o que é que o levou a comungar?
Sabe por quê? Porque fiquei tão entusiasmado com a forma como ele conduziu a missa e como ele mobilizou crianças. Espero ter tempo para contar essa pequena história. Ele mobilizou as crianças da seguinte maneira: vamos falar entre o que é ter e o prejuízo que nós temos quando temos demais e deixamos de ver à nossa volta. E arranjou um grupo de miúdos com caixas de papelão e um deles era o que enriquecia, cada vez tinha mais caixas e os outros tinham que pôr caixas à frente, caixas de papelão. Ele estava a ficar cada vez mais rico. Isto era feito mesmo no altar. E em determinada altura, um menino estava com os olhos tapados com tanta fortuna à sua frente, já não via mais nada. E com esta forma eufemística, as crianças que estavam a assistir àquela missa devem ter ficado: "Bem, realmente, não deve ser preciso ter tanto dinheiro e tanto ter, que passe a redundância, para nós podermos olhar para os outros." E quando chega aquela altura, esse meu amigo era um bispo, foi comungar e olhou assim: "Júlio, go!" Eu olhei pra minha mulher assim: "Vamos." E fomos. Eu já disse isto a um padre católico, de quem sou muito amigo, e disse: "Penso que não devo ter feito nenhum desvio estranho." "Não, senhor. Pelo contrário." Fiquei bem visto.
Ficou bem visto junto à igreja. Muito bem. Estamos aqui a chegar ao final do nosso tempo. Júlio Isidro, há bocadinho falou aqui da questão dos conflitos, a guerra na Ucrânia, também a questão de Israel. É um extremo conhecedor do Festival da Canção, da Eurovisão. Neste momento, estamos aqui a enfrentar uma fase em que vários artistas se posicionaram e dizem que não vão representar Portugal na Eurovisão se vencerem o concurso, a propósito de Israel estar incluído nesta competição. Qual é a sua posição? Para alguém que é tão conhecedor deste festival, qual é que é a sua posição?
A minha posição é a seguinte: mais uma vez, o envolvimento da política, que é inevitável, qualquer gesto nosso é político, estivemos agora aqui a falar de política, mas antes também a contar as histórias da minha vida também é.
Ela está sempre presente, de alguma forma.
Está sempre presente. Eu penso que há uma mistura inevitável entre a situação política que nós estamos a viver, que é mais do que política, é de guerra aberta, e a música. Penso também que há uma grande legitimidade por parte dos músicos, que eu já li, penso que entre os 16 concorrentes há 11 que se ganharem não querem ir à Eurovisão.
Os Bandidos do Cante também já disseram que se vencerem, que vão representar Portugal.
Exatamente. É tão legítimo um dizer assim: "Pois é, eu não quero fazer confusões entre a música e a política." E outros dirão, de uma forma muito clara: "Aqui não é uma questão de confusão. Não nos sentimos confortáveis estando lado a lado a competir com um país que está em guerra e que tem feito alguns estragos que têm sido considerados internacionalmente que têm ultrapassado os limites da guerra, mas, por outro lado, também o capital terrível daquilo que lhes aconteceu a 7 de Outubro de há dois anos."
E qual é a opinião do Júlio Isidro?
A minha opinião tão simples é essa: eu se estivesse lá, o que faria era não estar. É tão simples como isso. Nem era como contestação. Eu acho que num festival de música, estar imediatamente o festival maculado por um mau ambiente que possa existir, eu fujo dos maus ambientes como o diabo da cruz. E, portanto, seria por essa razão. Agora, estar cá fora numa manif contra isto ou contra aquilo, ninguém vai à Eurovisão. Todos os gestos, para mim, demasiadamente teatrais, não conduzem a coisa nenhuma. E, portanto, acho que é na base do diálogo, que é sempre muito difícil, que nós nos poderíamos eventualmente entender. Como aqui há bem pouco tempo li um general, creio que americano, que diz que está tudo a conjugar-se para que no máximo três anos haja uma Terceira Guerra Mundial. Quando eu considero que já estamos no preâmbulo muito aberto de uma Terceira Guerra Mundial, qualquer gesto nosso devia ser exatamente a compensação disso. Vamos desdramatizar. E eu penso que é mesmo muito difícil. Nós estamos a falar dias depois de dois atentados, um que infelizmente já é considerado quase que normal o que vai acontecendo nos Estados Unidos. Mais uma escola que é alvo de um atentado, mas o outro atentado está já numa perspectiva ainda mais preocupante, que já começa a poder se chamar aquilo a que alguém chamou, que eu estive a ler, o terrorismo religioso. Isso seria péssimo. Portanto, nada melhor do que nós tentarmos sorrir. Olhe, assim que se deu o 25 de Abril, é a minha última frase, não quero ultrapassar os 40 minutos. Assim que aconteceu o 25 de Abril, eu meti-me no carro depois de 48 horas dentro do rádio. E a primeira prova que eu tive de que a liberdade vale a pena é que, ao contrário do que acontece hoje, os automobilistas cruzavam-se comigo, conheciam-me vagamente a cara ou não, e faziam-me um adeus. Acho que não vos acontece a conduzir o carro, pois não?
Não.
Aconteceu no dia 26 de abril.
É bonita essa história. Júlio Isidro, qual foi o seu maior falhanço de carreira?
O meu maior falhanço?
Eu sei, não é simpático para fim de conversa.
Não, é bom, podia ser que fosse uma porta aberta. Em termos de um programa, de um projeto de palco, de um programa de rádio, não posso dizer que tenha tido um falhanço. Ele foi por ali abaixo. Tive um programa, que no fundo tem a ver às vezes com o conceito do kitsch, que foi muito atacado por um lobby específico, que eu conheço, mas cujos nomes também não vou desenvolver, que foi o Arroz Doce. Hoje em dia, toda a gente diz que o Arroz Doce era um programa emblemático, porque até era um talk show completamente diferente de tudo aquilo que se tinha feito até agora.
E foi atacado por quê?
Olhe, sei lá. Porque a minha mãe tinha razão. É porque eu tinha dado uma entrevista ao Expresso uns anos antes, dizendo que tinha prazo de validade como os antibióticos, mas depois tinha dito uma outra coisa à Maria João Vilas, também com alguma graça: é que o sucesso é imperdoável.
É verdade.
Eu não quero ter sucesso, quero ter trabalho.
Júlio Isidro, mesmo para terminar, o que é que o inquieta?
O que me inquieta? Olhe, é não ter tempo, porque estou já dentro do target, que é a idade média dos portugueses, é não ter tempo para fazer o que está programado. E acho que não vou ter tempo, é evidente.
Ainda está aqui para as curvas. Foi um gosto. Tanta sabedoria, tantas memórias que percorremos aqui ao longo de mais de 40 minutos. Ultrapassamos o tempo, mas vale sempre a pena.
Se quiserem dar uma tesourada, façam favor.
Júlio, obrigado. Muito obrigado. Um grande abraço.