Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Eu fracasso e fico super emocionado com isso. Eu sentir que é maior do que alguma vez eu conseguia pensar que ia fazer diferença neste mundo. Eu sentir que consegui sair desse sítio e sei perfeitamente o sítio onde está essa criança e sentir que hoje em dia consigo ser uma luz, por exemplo, a essa criança, é mais do que alguma vez podia pedir. E enche-me o coração, sinto que é mesmo uma das coisas que me deixa mais feliz, nem é possível falar-me sobre isto.

É o mais compensador do teu trabalho enquanto figura pública?

É, porque aquilo que eu faço, se não começar a haver um motivo maior, se aquilo que eu procuro for só a fama, os likes e for só o mediatismo, isso torna-se muito pouco. Mas depois quando eu vou para esses sítios, quando eu consigo perceber a forma como eu consigo tocar as pessoas e dar esperança a jovens, para mim é trabalho concluído.

Sentes que parte da tua vida é uma missão?

Sinto. E sinto que vai ser sempre. E estou disposto a isso, porque se não for assim, se ninguém assumir essa missão, as coisas também não mudam. Portanto, eu não me importo de ser eu.

Diz que os seus melhores conteúdos são gravados diretamente da cama, despenteado, de pijama e com o teto do quarto como cenário. Promete, a quem o quiser ouvir, que aos 50 anos a sua estrutura facial será inteiramente mantida à base de liftings e fillers. Ao longo dos anos, inventou a proeza olímpica de combater o ódio na internet, elogiando com sarcasmo o corte de cabelo ou a fotografia de perfil dos próprios haters. Por trás deste carisma caótico, de uma crush num carteiro, de um humor magnético e da palavra icônico, que agora dá título ao seu livro, é um verdadeiro pioneiro do Portugal digital. Há 15 anos, quando o YouTube ainda era uma terra sem lei, ele ligou a câmera e arriscou. Pagou o preço desse pioneirismo em formato de insultos, mas resistiu às críticas. A sua grande qualidade foi e continua a ser a sobrevivência pela autenticidade. Hoje orgulha-se de ter conseguido criar uma plataforma de liberdade, provando que é possível transitar da auto depreciação mais disparatada para um debate sério sobre saúde mental ou masculinidade tóxica. Francisco António Soares, ou simplesmente Kikoizote. Bem-vindo ao "Em 40 Minutos", aqui na Rádio Observador.

Muito obrigado. Não é o António, meu Deus.

António, não? Por quê?

Não pode ser. Nunca ninguém me chamou Francisco António. Na verdade, imagina, é meio um trauma que eu tenho.

Sim.

Porque quando queriam gozar comigo, chamavam-me Chicoto. Então Francisco António ficou assim meio manchado, digamos assim. Mas está tudo bem, eu sei que foi com carinho.

Foi com carinho. Olha, vamos começar esta nossa conversa por um assassinato metafórico, digamos assim. Vamos matar o Kiko e vamos falar do Francisco António Soares ou simplesmente Francisco. Quem é o Francisco?

O Francisco, na verdade, não existe, porque já antes do Kikoizote nascer havia um Kiko. Ou seja, a minha família já me apelidava de Kiko, digamos assim. Eu gosto de diferenciar, se calhar, o Kikoizote e o Kiko. Nunca ninguém me chamou Francisco. Mas eu diria que o Kikoizote acaba por ser uma extensão de mim. Eu acho que não são duas pessoas diferentes. Há muitas pessoas que defendem isso, têm aquela ideia que quando as pessoas criam uma persona, são completamente diferentes e quando desligam são outra coisa completamente diferente. Eu acho que no meu caso não é isso.

O Francisco e o Kiko são a mesma pessoa e a mesma entidade?

O Kiko e o Kikoizote são.

Mataste mesmo o Francisco, não existe.

Nunca existiu o Francisco. Nunca ninguém me chamou Francisco, na verdade.

Mas desde muito pequeno?

Sim, a minha mãe já me chamava Kiko. O Kiko vem daí, na verdade. Ou seja, vem do nome que a minha mãe me deu. Francisco é só o que está no BI. Eu diria que o Kikoizote, se calhar, é o Kiko em esteroides, digamos assim, no sentido de claro que não vou estar sempre como estou nos vídeos que meto, mas na verdade, hoje em dia acabam por se abraçar cada vez mais essas duas partes.

Portanto, assumimos que o Kikoizote é uma persona do Kiko.

Não, eu acho que não é uma persona. Acho que é uma extensão minha. Como é que eu hei de explicar isto? Há partes do Kiko no Kikoizote. Eu não acho que o Kikoizote viva sendo uma coisa completamente à parte. Ou seja, eu batalho muito por nos meus conteúdos falar sempre sobre assuntos também sobre saúde mental. Eu nunca escondi, por exemplo, que tive uma depressão muito séria há uns anos e, portanto, ao contrário de muitos criadores de conteúdos, eu não tento nunca pintar a imagem perfeita, nem que sou uma coisa que não sou. Ou seja, o Kikoizote não é só uma fachada, digamos assim. E acho que é isso que tem resultado também e as pessoas sentem-se mais próximas também.

O Kiko é a persona, não quero te chamar assim, mas a pessoa que tu és com os teus amigos e o Kikoizote é as redes sociais. Se bem que as redes sociais já são por si só, e tu falaste isso agora, uma versão muito fiel e honesta de ti próprio.

Sim, eu acho que sim. Claro que as pessoas estão sempre a ver só uma parte. Quando eu meto vídeos, claro que as pessoas não têm acesso a como é que passei aquele dia. Se calhar, em 24 horas, as pessoas têm acesso a 15 minutos do meu dia, 10 minutos do meu dia.

Se calhar, nem tanto.

Se calhar, nem tanto, às vezes. Hoje em dia o conteúdo está cada vez mais rápido e curto.

Tens de ser relevante em sete segundos.

Sim, exatamente. Claro que as pessoas não têm acesso a muitas outras partes da minha vida, mas acho que têm acesso a uma grande parte daquilo que me está na mente.

Então, mas é isso que nós queremos agora no "Em 40 Minutos", é ter acesso a essas partes que não aparecem nas redes sociais. Portanto, não há Francisco, há o Kiko. Como é que é o dia a dia do Kiko Que incorpora a persona ou a personagem digital Kiko Isott.

Acho que é sempre diferente. Eu não tenho propriamente um dia semelhante ao outro, porque eu também sou DJ. Por exemplo, hoje vou tocar nos Santos, que ainda há Santos em julho, eu não sabia. Eu tento sempre acordar, acordar já é ótimo, acordo cedo e tento ir treinar. O meu dia é um bocado aborrecido, não é assim tão especial. E depois acabo por ter reuniões, ou vou ter com os meus amigos, ou vejo uma série. Normal.

E o que tu gostas, por exemplo, de ler? Quais são as tuas áreas de interesse?

O meu livro favorito é o "Retrato de Dorian Gray". Não sei se você já leu.

Oscar Wilde, sim.

Sim, gosto muito desse livro. Devia ler mais, confesso. Estou claramente num vício, neste momento atual, de redes sociais, que não me orgulho, mas é verdade.

Estás viciado nas redes.

Passo muito tempo nas redes sociais, demais, até acho que estou a ficar mais burro. Mas pronto, são ossos do ofício, acho eu.

Mas o que procuras? Tu és uma pessoa que gera, e vamos falar disso, quando chegaste aqui ao Observador, estava eu a ir ter contigo e já tinhas pessoas à tua volta, porque de facto acabaste por te tornar, eu não digo uma figura muito consensual, porque acho que tu não és consensual, mas que causa um grande magnetismo à tua volta. O que tu procuras nas redes sociais? Porque sabemos aquilo que tu ofereces ao teu público, mas o que tu gostas de ver e o que tu gostas de consumir? É parecido com o teu conteúdo? É algo completamente diferente?

Não, acho que é muito parecido com o meu conteúdo. O que eu amo mais nas redes sociais, e acho que esta nova geração que surgiu com o TikTok, esta geração de criadores, gosto muito de ver a realidade, a vulnerabilidade das pessoas. Ou seja, eu acho que há uns tempos atrás era impossível tu teres acesso aos pensamentos mais íntimos de alguém que está na sua cama a filmar um vídeo e a contar aquilo que está a sentir ou a pensar. Há uns anos atrás isso era impossível, porque os únicos meios que existiam era, por exemplo, televisão. Ou seja, já tinhas que estar com discurso muito mais preparado, muito mais cuidado até chegares ao público, digamos assim. Tinhas que acordar, tinhas que ir pro estúdio. Ou seja, eu gosto muito da ideia de poderes comunicar com toda a gente a partir do teu sítio. Acho que é isso que eu mais gosto.

E isso torna a comunicação verdadeira ou não?

Depende como é que uses. Isso já depende de pessoa pra pessoa. No meu caso, eu acho que torna. No meu caso, eu acho que é super real, no sentido de eu já fiz vídeos a chorar, ou seja, apanha muito o meu dia a dia, digamos assim.

E o conteúdo que tu consomes, achas que as pessoas que estão a produzir esse conteúdo estão a ser verdadeiras ou estão a encarnar uma personagem para ganhar relevância e atração, feedback nas redes?

Talvez, mas eu acho que as redes sociais não são um espelho da sociedade.

Um espelho bom e mau ou só um espelho mau?

É isso, um espelho bom e mau.

Se calhar quem acha que seja só o espelho mau da sociedade.

Sim. Eu não sinto que seja. Acho que mostra muito bem aquilo que a sociedade é hoje em dia e o sentido de as pessoas mesmo no dia a dia criam as suas personagens, criam as suas camadas, criam as suas facetas e há outras que não mostram ao público, se calhar. Portanto, isso nas redes sociais também acontece.

E é fácil viver sem filtros ou mostrar essa realidade sem filtros com o público? E tu tens acompanhado isso ao longo dos anos em que começaste no YouTube e tens acompanhado as várias transformações digitais, agora com o boom do TikTok. É fácil estar à mercê de comentários que podem surgir, podem ser bons ou maus. É a parte mais difícil ou tu já relativizas tudo isso?

Olha, eu agora relativizo só porque acho também já estou há muito tempo a fazer isto. E eu não sou daquelas pessoas que, ou seja, eu sinto que faz parte das regras do jogo. Também não espero só, acho que seria imprudente da minha parte esperar só comentários positivos e só pessoas a dizer que eu sou incrível e o máximo. Eu aceito muito bem a dualidade da internet e dos comentários, ou seja, se as pessoas não concordarem comigo, acho isso ótimo.

Herde este, ao princípio, não interessa se falem bem ou mal de mim, interessa é que falem de mim? Mais ou menos.

Mais ou menos. Ou seja, não acho que valha tudo.

Depende da forma, não é?

Mas estou muito ok com o facto de não concordarem comigo. Olha, ainda agora recentemente, há dois dias, eu manifestei o meu desagrado com uma nova política que existe dos TVDEs, que obriga os condutores a dominarem a língua portuguesa. Fiz um vídeo meio satírico.

Ia serem gravadas as viagens.

Ia serem gravadas as viagens. E era específico para motoristas de TVDE, o que me deixou assim um bocado desconfortável. Não era pessoas que trabalham em Portugal, por exemplo, era motoristas TVDE. Houve uma enchente de pessoas que não concordou com aquilo que eu disse, e eu acho isso ótimo. Eu quero viver num país e num mundo onde eu possa exprimir a minha opinião, as pessoas possam não concordar e podemos todos perceber onde é que nos posicionamos. Ou seja, eu não sou, e espero nunca ser, nunca chegar àquele ponto da minha carreira ou da minha visibilidade, que me torne completamente sedento só de pessoas, de yes man. Pessoas que me vão dizer aquilo que eu quero ouvir ou só vão concordar comigo, porque eu sou o Kiko.

Então deixa eu fazer-te uma pergunta muito provocadora. Por que uma pessoa deve consumir os conteúdos produzidos pelo Kiko Isott?

Não sei se deve. Deve se achar que se identifica com eles, se sentir que tem alguma coisa que acrescenta, se for positivo, se não for tóxico. Eu se calhar posso ser um perfil tóxico pra muita gente. Eu lembro quando eu estava nas minhas piores fases e consumia influencers, houve gente que eu fiquei: "hum, esta pessoa está sempre fel--" por exemplo, agora, lancei um livro, tenho o meu programa de rádio, parece que a minha vida é incrível. E pra alguma pessoa pode ser bastante triggering estar a seguir-me, por exemplo. Alguém que não esteja bem na sua vida, alguém que não queira sentir que está a ficar para trás ou que se está a comparar comigo, se calhar não faz sentido essa pessoa seguir-me. Não estou a correr atrás disso, a correr atrás da audiência, não é esse o meu objetivo.

Também já te iria isto uma posição confortável, não é?

Sim, e se não for confortável, eu estou há 15 anos na internet, portanto, se não for desta forma, não é sustentável.

O que é mais difícil nesta vida de permanente exposição pública, Kiko? Porque deve trazer alguns dissabores, ou não? E tu passaste por uma fase em que nós hoje sabemos que és mediático e as pessoas gostam imenso de ti, mas também houve uma fase em que gostar de Kiko is Hot ou dizer-se que se gostava de Kiko is Hot não era assim tão fixe.

Não. Acho que isso criou traumas em mim, claramente. Não acho que tenha saído ileso disso. Acho que hoje em dia é muito difícil para mim confiar, por exemplo, nas pessoas. É muito difícil sentir-me ofendido, sentir-me atacado.

Isso é ótimo. Ganhaste uma carapaça.

Ganhei, mas que tenho que ganhar, porque se não for assim, não consigo sobreviver neste meio. Mas não há assim tantas coisas negativas. Eu não faço esse choradinho. Eu não tenho paciência para esse choradinho. "É difícil a fama." Não, há muitas coisas boas, há muitos trabalhos muito mais difíceis daquilo que eu faço, portanto nunca quero estar a meter-me nessa posição de coitadinho da pessoa famosa. Acho isso um discurso superirritante. Não tenho paciência.

Mas a exposição, passe aqui o pleonasmo, expõe-nos.

Sim.

Ao olhar do outro, ao juízo do outro.

Sim, mas é uma escolha minha.

Era uma coisa que tu querias quando eras miúdo?

Era.

Há miúdos que gostam, não é? Ser o centro das atenções.

E dizem desde pequenos que querem ser famosos. Eu sabia que queria ser famoso.

O Gosha também.

Exato. Pois é, ele já falou sobre isso.

Queria ser conhecido.

Sim. Quando eu era pequeno, até era um bocado estranho, porque eu fazia mesmo programas sozinho no quarto.

Programas de televisão?

De televisão. Com estrutura e tudo.

Isso quer dizer o quê, com estrutura?

Com estrutura, havia uma audiência. Eu falava com a audiência. Eu montava mesmo para ninguém. Eu estou a dizer isso porque eu já me comportava da forma, já estava a construir aquilo que tenho hoje em dia. Só não tinha era audiência a ver-me. Já era aquilo que eu sentia que era.

Isso é curioso, porque hoje em dia, e eu acho que tens esta opinião, a televisão não é algo que te fascine, ou tu até és um bocado desligado desse meio, ou estou errado?

Sim, não me fascina muito. Acho que a televisão hoje em dia em Portugal está mega ultrapassada. Acho que os criadores dos conteúdos de TV têm que perceber que têm que renovar.

Mas parámos no tempo, é isso?

Super parámos no tempo. Temos reality shows, só. É só isso que hoje em dia temos num dos canais, é só reality show atrás reality show. Depois, de vez em quando, tens um programazinho de talentos aqui e ali, mas é assim, não há grande inovação. É por isso que eu acho que a internet acaba por ser um meio muito mais interessante. Acho que há uma variedade de conteúdos maior. Acho que até a rádio se inovou muito melhor do que a televisão. Acho que a televisão hoje em dia em Portugal ficou muito para trás.

Muito para trás. Se te convidassem para fazer um programa de televisão, tens aí já alguma ideia na manga, algum projeto adormecido, uma ideia a desenvolver no ecrã?

Agora não consigo desenvolver uma ideia.

Um talk show, possivelmente.

Um talk show, talvez.

Um late night show.

Talvez, mas acho que tinha que ser uma coisa um bocadinho diferente. Isso também já foi visto. Atenção, eu não tenho aqui na algibeira uma grande ideia que quero apresentar, não é isso. Mas acho que é preciso inovar.

Muito bem. Kiko is Hot, vamos ficar por aqui nesta nossa primeira parte. Já matámos, entre aspas, o Kiko is Hot, mas vamos ressuscitá-lo na segunda.

Obrigado.

Estamos de regresso para a segunda parte do Em 40 Minutos, depois da morte que o João Miguel Santos quis proporcionar ao Kiko.

Simpático.

Não, mas vamos falar agora de ti também, Kiko is Hot. Até porque fiquei com curiosidade sobre isto na nossa primeira parte. Tu és uma pessoa e pelos vídeos que publicas nas tuas redes sociais e quando falas mais de causas, até mesmo o próprio ativismo que fazes, nota-se que és uma pessoa muito interessada e que se nota que sabe daquilo que está a falar. Podemos concordar ou não, mas nota-se isso. Tu não fizeste faculdade, pelo que sei.

Não.

Como é que se estimula esse interesse, essa informação? Porque de facto uma das qualidades que te podemos atribuir é essa consciencialização, o fato de informares as pessoas, mais uma vez digo, podemos concordar ou não, mas é de facto algo que te distingue até de outros criadores de conteúdo.

Eu acho que não tive o luxo de não querer saber. Isso para mim não foi uma opção na minha vida, não querer saber de política ou não querer saber de causas. Desde muito cedo que eu percebi que eu tinha que me interessar sobre isso, porque sentia que não estava no mesmo patamar que todos os meus outros colegas e que não tinha as mesmas oportunidades e que sentia-me altamente discriminado pelos meus colegas desde a escola, desde que eu sou pequeno. Portanto, para mim causas políticas é igual a sobrevivência. Ou seja, é uma coisa que está na minha vida desde que eu sou muito pequeno. Eu não sei o que é isso de passar pela vida sem ter que ter uma voz ativa nas coisas que eu defendo.

Mas, por exemplo, quando tu eras pequeno, já olhavas para os partidos, se calhar não com a destreza de hoje, e já conseguias perceber se sentias representatividade em algum deles, nas políticas, naquilo que defendiam, ou só mais tarde?

Eu sentia que, por exemplo, não havia ninguém que me representasse, digamos assim. Pelo menos nos media, não sentia que havia ninguém que me representasse.

E eu já?

Eu acho que eu, se calhar, tornei-me meu próprio aquilo que eu gostava de ser.

És o teu próprio representante.

Digamos assim. Acho que há gente muito interessante, obviamente.

És o líder da tua própria causa política, é isso?

Acho que sou. Acho que sou e acho que a forma como o faço é uma coisa que eu vejo que estou muito sozinho. Acho que nenhum dos meus colegas de profissão, digamos assim, ousa muitas vezes meter-se por esses caminhos, porque são caminhos apertados, porque são caminhos onde às vezes metemos o pé na poça, onde por vezes somos chamados hipócritas se defendermos uma causa e não defendermos a outra. E crias espaço para quando tu és ativamente político, crias espaço para as pessoas quererem ver-te falhar, quererem ver-te meter o pé na poça.

Uma espécie de limpo, não é? Ou seja, tu ao colocares a tua voz perante uma causa, estás sempre a assumir uma posição e sabes que as pessoas te vão sempre julgar por isso ou quando não tomas posição de um assunto parecido ou idêntico.

Sim, ou do gênero, se eu defendo a Palestina e critico coisas do capitalismo, por que trabalho com marcas capitalistas e por que é que isto? Ou seja, às vezes, claro que era mais fácil eu não falar. É por isso que ninguém o faz. É mais fácil só não querer usar a nossa audiência ou exprimir aquilo que pensamos, porque quando tu exprimis aquilo que sentes, o que acontece é que quando alguém não concorda, acabas por perder essa audiência. Ou seja, essa audiência ou já não te vai seguir, ou já não vai achar tanta piada aos teus conteúdos, ou vai um bocado afastar-se de ti. Portanto, para teres um sucesso massivo e comercialmente mainstream, convém seres uma personagem altamente curada.

E tu já te confrontaste com a autocensura? Ou seja, já estiveste no teu computador a pensar: "É melhor não dizeres isto, porque isto vai trazer-te problemas."

Já, mas não foi no sentido de trazer problemas. Ou seja, foi no sentido de trazer problemas, não por alguém, mas foi no sentido de trazer problemas de: será que não estou a ser hipócrita ao criticar isso? Porque eu próprio também faço esse exercício muitas vezes.

E isso aconteceu quando? Podes dar-nos um exemplo?

Agora recentemente...

Algo que tenhas dito: "Não vou por aqui, porque ou vou chatear a minha audiência, ou vou ter problemas com terceiros, ou vão deixar de me seguir."

Olha, não é muito inteligente eu, por exemplo, ter criticado isto da TVDE. Eu trabalho com a Uber, por exemplo. Ou seja, não fica nada bem.

Sim, mas não te autocensuraste, porque publicaste o vídeo, não é?

É isso, mas pensei.

Mas pensaste nisso depois ou antes? Ah, no momento.

Não, foi no momento. Eu pensei: "Espera aí." Depois pensei: "Não, que se lixe." Eu venho de um sítio que se for preciso e se isto tudo acabar e se nenhuma marca me quiser pagar, etc, é só voltar aonde eu já estive. Eu sei que sobrevivo. Ou seja, eu não posso é meter os meus valores e as minhas morais em xeque. Isso não pode acontecer. Portanto, para mim, isso é o mais importante. Se às vezes eu devia calar-me? Talvez, porque às vezes acho que até entro por assuntos que tu estavas a dizer que eu sei muito sobre as coisas. Às vezes não sei muito. Às vezes publico um vídeo e alguém me explica de outra forma e eu penso: "Realmente não estava a ver desse aspecto."

Falo mais de coisas históricas. Por exemplo, falaste aqui da causa da Palestina e já vi vídeos teus em que fazes uma contextualização.

Sim, nesse caso específico, sim.

Das coisas e daí também o meu interesse em perceber isso mesmo. Sei que o interesse vem daí, mas como é que procuras essa informação? Ou seja, se é algo que foste estimulando também ao longo do tempo, se é por necessidade e pelas causas que apoias e defendes.

Não sei. Já me fizeram muitas vezes essa pergunta e eu não sei mesmo ser de maneira diferente. Não é uma coisa que eu sequer pare para pensar, é só quem eu sou. Eu acho que eu sou resistência. De onde eu venho, tive que ser resistência. E, portanto, tudo aquilo que eu sinto que ameaça o que eu acho que é correto e ético, eu vou ter que me posicionar contra, não há outra maneira. De que é que me serve ter milhões e milhões de pessoas a ver-me, se é só para vender cremes ou é só para postar fotos bonitas. Isso serve-me de alguma coisa? Estarei a deixar o mundo um lugar melhor? Isso pode não ser o objetivo de toda a gente, mas é o meu. Estamos aqui tão pouco tempo, se não for também para mudar alguma coisa, será que vale a pena?

Muito bem. Às vezes pode não parecer, mas a mensagem do Kiko is Hot tem momentos em que é muito séria. Kiko, tu costumas receber mensagens de crianças ou jovens que tiveram o mesmo percurso que tu, um percurso de diferença, e que se sintam injustiçados, desajustados, amaldiçoados pelo mundo?

Isso é uma das razões que eu faço também aquilo que faço. Tem havido uma resposta muito boa em relação ao meu livro, em relação a isso, em relação a jovens que estão a passar exatamente pela mesma coisa. E isso para mim foi uma fase que me marcou muito. É uma fase que eu nem sei se está completamente resolvida ainda.

A tua infância e a tua juventude.

A minha juventude. Eu, para o livro, tive que ir muito atrás, tive que ir pegar em coisas que são muito dolorosas.

Achas que não é possível fazeres as pazes com a tua infância, por exemplo?

Acho que é, estou no processo. Faço terapia há muito tempo, mas acho que são coisas que modificam e transformam a tua vida para sempre, são coisas que moldam para sempre a tua vida. E às vezes o que acontece é que depois estás o resto da tua vida a tentar ir contra isso, a tentar ir contra aquilo que te foi ensinado nesse momento.

E o que tu dizes ou o que tu fazes quando és confrontado com jovens e crianças que tiveram o mesmo percurso que tu, Kiko?

Eu sinto que estou a fazer algo certo aí. É um dos meus maiores orgulhos.

Mas aconselhas, dás resposta?

Se vierem falar comigo, sim.

Mas quando te abordam nas redes sociais, por exemplo?

Eu respondo a algumas mensagens, mas não respondo a todas. Muitas vezes até é assim, quando se cruzam na rua e eu vejo que me revejo muito nessas pessoas, nesses jovens, a mensagem que eu tento sempre passar é que naquele momento pode parecer que não vai acabar aquela nuvem que eles têm por cima deles. E eu digo-lhes sempre que sei exatamente que sítio é esse, sei exatamente que sítio é esse de sentir que nunca vai acabar esse sofrimento. E é por isso que eu também sinto tanta vontade de vencer e de conquistar coisas para mostrar a toda a gente que é possível darmos a volta, mesmo quando as cartas que nos dão, quando nós somos mais jovens, não sejam as melhores, ou se o nosso meio não for o melhor, ou se o amor dos nossos pais, que devia ser incondicional, não o for. São coisas altamente traumatizadoras na nossa vida.

Tu tiveste um episódio, deixa-me lembrar aqui, muito recente na Feira do Livro, com uma criança. Tu até partilhaste, penso eu, esse vídeo, que emocionou muita gente pelo fato daquela criança se rever em ti e ver-te como um exemplo. Para alguém que fez este caminho sozinho muitas vezes, como é chegar até aqui e olhar para os olhos daquela criança e ouvir aquelas palavras?

Eu fracasso e fico super emocionado com isso. Eu sentir que é maior do que alguma vez eu conseguia pensar que ia fazer diferença neste mundo. Eu sentir que consegui sair desse sítio e sei perfeitamente o sítio onde está essa criança e sentir que hoje em dia consigo ser uma luz, por exemplo, para essa criança, é mais do que eu alguma vez podia pedir. E enche-me o coração, sinto que é mesmo uma das coisas que me deixa mais feliz na vida, falar sobre isto.

É o mais compensador do teu trabalho enquanto figura pública?

É, porque aquilo que eu faço, se não começar a haver um motivo maior, se aquilo que eu procuro for só a fama e for só os likes e for só o mediatismo, isso torna-se muito pouco, torna-se muito poucochinho.

E básico.

E básico, e não te enche assim tanto o ego, enche-te até um ponto. Mas depois quando eu vou para esses sítios, quando eu consigo perceber a forma como eu consigo tocar as pessoas e dar esperança a jovens, para mim é trabalho concluído.

Sentes que parte da tua vida é uma missão?

Sinto. E sinto que vai ser sempre. E estou disposto a isso, porque se não for assim, se ninguém assumir essa missão, as coisas também não mudam. Portanto, eu não me importo de ser eu.

Eu vejo que trazes uma cruz pendurada num colar. És uma pessoa de fé?

Sou, tenho a minha fé.

É?

Tenho.

Mas é associada a alguma religião?

É a minha. É a minha religião.

Mas conta-nos lá. No que é que se baseia a religião Kiko Izsó. Como é a tua relação. Mas acreditas em Deus, por exemplo?

Não propriamente no Deus. Eu não sei, não tenho resposta fixa para te dar. Não sei, estou a descobrir, mas eu acredito em algo. A vida mostrou-me várias vezes que existe algo, existe um plano maior que nós muitas vezes não conseguimos ver. Ou seja, isso é a minha fé. Pode parecer um bocadinho egocêntrico, mas eu acredito em mim, no fundo. Acredito que eu tenho a capacidade de construir aquilo que eu quiser. E a vida tem-se mostrado que manifestar, por exemplo, tem resultado imenso para mim.

Indo aqui um bocadinho ainda atrás e dando este exemplo que falaste da Mariana, desse episódio na Feira do Livro. Nós temos muitas crianças que possivelmente estão a passar por essa fase que tu já passaste, da autodescoberta, de perceber aquilo que são ou não, porque tudo isto é um processo. As escolas portuguesas estão preparadas para este processo que as crianças também passam? Não sei se tens contacto com essa realidade. Eu sei que vais a escolas muitas vezes, mas o que é que tu sentes em relação à realidade portuguesa?

Eu fui a uma escola recentemente com o Bruno Gonçalves, com o BORA, no Seixal.

Bruno Gonçalves, o eurodeputado.

Eurodeputado, sim.

Que tem agora o movimento BORA.

É BORA. E é um movimento que eu acho muito interessante, porque é basicamente tu pensas assim, eu penso assim, bora falar. E hoje em dia, o que eu tenho notado nos miúdos mais novos, é aquilo que eu tenho notado também na sociedade em geral, que existe uma pressão enorme de tu decidires onde é que te posicionas em relação a tudo. E acho que isso tem trazido coisas muito negativas. Acho que as pessoas estão muito extremizadas e acho que os miúdos não fogem muito a isso. Acho que também têm vários problemas de intimidade, é aquilo que eu tenho notado também.

Mas por força desse contacto virtual?

Acho que sim, é normal. Esta geração que já nasce só nas redes sociais, para eles não é rede social, é a vida deles. Eles vivem as redes sociais como uma extensão deles, não é uma coisa separada como nós vemos, se calhar.

E tu não sentes que uma quota parte dessa culpa também é tua, Kiko? Tu que és uma figura das redes sociais.

Acho que existe uma responsabilidade, de certa forma, sim, mas eu, por exemplo, acho que sou muito honesto naquilo que digo também, na forma como eu próprio-

Isso é o que todos dizem.

Aham.

Isso todos dizem, não é?

Não. Como assim, é o que todos dizem?

Todos reclamam pra si essa honestidade, não é?

Sim. No meu caso, eu crio vídeos desde que eu sou muito pequeno, antes deste boom de redes sociais, ou seja, na verdade, é minha paixão.

Terias que idade quando abriste o teu canal no YouTube? 16?

16 anos.

O que te levou, na altura, a criar o canal?

Lá está, às vezes o que nos leva-

Tu desejas ser famoso?

Não.

Não.

Não, acho que não.

Podia ser, é legítimo, não é?

Talvez inconscientemente, mas não sinto que esse foi o meu desejo principal. Lá estava só mesmo a explorar um hobby, digamos assim, como há crianças que tocam piano. Eu peguei na câmera velha do meu pai, que tinha lá em casa e decidi gravar vídeo. Ou seja, isto pra te responder. Eu crio conteúdos pra internet, obviamente, mas nunca deixo de parte aquilo que eu falo sempre e digo sempre, que é: acho que tem coisas muito nocivas. Eu próprio acho que passo demasiado tempo no telefone. Ou seja, se sou parte do problema? Provavelmente, sim. Acho que somos todos, trabalhamos neste meio, não é?

A saúde mental tem se tornado muito um tema da moda. Tu falas disso sem filtros, sem grandes pedores. No teu livro, qual é a parte mais feia da saúde mental que fizeste questão de querer incluir e falar para quem te lê? Neste caso, não são seguidores, mas quem compra o livro icónico que está à venda.

A parte mais feia?

Uhum.

Eu falo muito, por exemplo, houve dois anos da minha vida onde eu praticamente não me levantei da cama, em que tive uma depressão profunda. Eu não a vejo como mais feia, não caracterizaria assim. Acho que estamos a propagar uma ideia que eu acho errada. Acho que não existe feio nem bonito na saúde mental. Acho que existe só problemas que nós temos e coisas por resolver, ultrapassar e traumas. Digamos assim. Acho que é feio, no sentido eu ter ficado na cama, acho que é feio pro sistema capitalista, porque não fui produtivo, portanto, isso é um problema. Se eu não me levanto da cama, não estou a produzir. Se eu não estou a produzir, sou um problema, sou preguiçoso, não faço nada e, portanto, tenho é que me fazer à vida e deixar-me de lamúrias. Portanto, aí, se calhar, foi o momento mais feio.

Com aspas.

Com aspas?

Sim. Como é que se sai de um processo desses, de viver dois anos mergulhado numa depressão, Kiko?

Acho que é única cada um. Posso falar da minha experiência.

Sim, claro. Queremos ouvir a tua.

O que eu sinto é que às vezes é mesmo preciso chegar ao fundo. E quando achamos que já estamos no fundo, se calhar, ainda chegamos mais ao fundo. E quando estamos nessas trevas, aí toca a fé e aí toca, se calhar, a nossa parte mais que acredita em algo, que não sabemos o que é, mas eu sabia que aquele não era o sítio onde eu pertencia, não era aquela escuridão daquele quarto.

Mas o que te fez sair de lá? A que que te agarraste para sair de lá, Francisco ou Kiko?

Eu sabia que eu ia chegar a algum sítio, mas não sabia o que era e sabia que ali não ia chegar a esse sítio, se eu continuasse assim. Portanto, fui fazendo pequenas coisas. Na altura, inscrevi-me, por exemplo, em aulas de cycling. Ou seja, eu todos os dias saía de casa só pra fazer as aulas de cycling e voltava pra casa. E depois houve um dia que eu fiz uma aula de cycling e já fui beber um café a seguir, e não voltei logo pra casa. E depois houve um dia em que fui beber um café e fui ter com um amigo a seguir. E foram passinhos a passinhos. Ou seja, eu acho que às vezes pode nos paralisar esta ideia de: "tô nesta depressão profunda e preciso fazer tantas coisas". A mim ajudou-me fazer pequenas coisas. Eu nessa altura também vivia muito de DJ sets, ou seja, eu tava a fazer vida de tocar de bares em bares.

Era uma vida muito noturna também.

Era uma vida muito noturna. Tive vários problemas nessa altura. Foi uma coisa que acho que também me tava a puxar ainda mais pra baixo, ou seja, eu não via o dia muitas vezes, etc. Portanto, a mim ajudou-me pequenos passinhos, pequenas coisinhas, que eu me sentia capaz.

Tu saís dessa fase, e há bocadinho já falamos sobre isto, e agora, daquilo que se entende, e há bocadinho estava aqui a falar com pessoas d'O Observador, pessoas que te elogiam pela tua irreverência, pelo fato de tu seres uma pessoa sem filtros. Quando é que achas que se dá o clique para as pessoas começarem a olhar pra ti com outros olhos? Porque há um Kiko que iniciou o YouTube com 16 anos e que recebia montes de comentários negativos e sofreste, penso eu, muito bullying na altura. Como é que se dá este clique? Se calhar, clique é um bocado redutor, não sei.

Não sei, esse clique é as pessoas que o tiveram, que tiveram em relação a mim. Eu não sinto que mudei nada. Ou seja, claro que eu amadureci, cresci e obviamente tornei-me, se calhar, mais eloquente nas minhas ideias, porque tô mais velho, mas eu acho que as pessoas é que acabaram por chegar mais tarde. Ou seja, não sei se tô assim tão diferente quando comecei.

Mas sentes que, por exemplo, com a idade, vais necessitar de ser diferente?

Não sou calculado a esse ponto, não sei. Mesmo genuinamente, não há um plano por trás.

Sim, mas nunca pensaste, por exemplo: "se calhar daqui a quatro anos terei 35, daqui a nove terei 40 e se calhar vou ter que fazer outras coisas ou ser outras coisas."

Acho que todos somos outras coisas, acho que isso é o processo natural da vida. Eu não perco muito tempo a pensar nisso, porque acho que a vida também troca-nos as voltas.

Isso é um facto.

Para que vamos estar a fazer esses planos todos e depois de hoje para amanhã conheço uma pessoa que muda completamente a minha vida. Não sei, faço planos a médio prazo, mas não faço a longo prazo grandes planos.

Daqui a cinco anos, onde é que te imaginas? Agora venho eu com esta pergunta. Podemos reduzir, daqui a dois.

Sim. Espero continuar. Tenho gostado muito do formato podcast, espero continuar a fazer um programa de rádio, como estou a fazer. Gosto muito desse formato, acho engraçado esse formato, também, de alguém que viveu muito a sua imagem. Acho engraçado passar para um sítio onde o que importa mais é aquilo que tu dizes, acho isso interessante. E, acima de tudo, espero se calhar conhecer pessoas incríveis, que eu sinto que estou a precisar, estou a precisar de relações próximas, proximidade.

Amorosas ou não amorosas?

Amorosas também.

Também. Há essa esperança também.

Estou a precisar.

Que daqui a dois anos haja o amor.

Estou a precisar porque acho que descuidei muito desse lado, sem querer. Foquei-me noutras coisas, foquei-me na minha carreira, tenho amigos incríveis, mas acho que esse lado deixei sempre de lado, porque acho que esse lado requer uma vulnerabilidade muito grande e que eu ainda tenho dificuldade em tê-la.

És uma pessoa solitária?

Super.

É?

Claro que sim. Estou a pensar naquilo que eu faço. Eu gravo vídeos sozinho no quarto.

Sim.

Isto para mim é o máximo que eu tenho de estar com pessoas. Eu estou com pessoas, mas não sou assim tão social.

E lidas bem com essa solidão?

Lido superbem. Isso é um sítio confortável. Eu tenho é que sair daí às vezes.

Porque tu és de extremos, passas muito bem o dia em casa, mas depois se for preciso à noite, como estavas a dizer há bocadinho, vais fazer um DJ set em que estás com centenas ou milhares de pessoas.

Sim, mas ao mesmo tempo estou longe.

Verdade, é uma posição de destaque. E ninguém.

Ao mesmo tempo, estou longe. Ya, é difícil para mim, confesso.

A solidão?

Não, a solidão não é difícil, é difícil para mim mostrar-me realmente, ser vulnerável com o outro. Sou muito desconfiado. E às vezes leio muito bem as pessoas, sou muito sensível e portanto quando eu sinto que as pessoas não têm as melhores das intenções para comigo, eu afasto-me um bocadinho, fico assim, meio congelado.

O que faz de ti uma pessoa icónica? Para fazer jus ao título do teu livro, que está nas bancas.

Nunca ter desistido. Apesar de tudo, apesar de tudo aquilo que me disseram, foram milhares e milhares e milhares de comentários enquanto eu tinha 16 anos, coisas que nenhuma pessoa com 16 anos devia ouvir. O facto de ter continuado, mesmo durante esses dois anos que não me levantei da cama, ter continuado a acordar, ter continuado aqui, no fundo. Eu venho de um historial familiar muito despedaçado, com muita dor, depois vir-me para a internet à busca de identificação e de me exprimir. E sou altamente gozado, altamente criticado e portanto, eu saber que consegui chegar até aqui e agora estar a colher esses frutos que tu próprio estavas a falar, das pessoas que vêm ter comigo e mostram-me tanto amor, enche-me de felicidade. Sinto que é realmente icónica a forma como eu sobrevivi a isso tudo e consegui tornar aquilo mais feio numa coisa mais bonita. E espero continuar a viver a minha vida assim.

Voltando aqui atrás na questão dos relacionamentos amorosos. A questão da homossexualidade é um tema que tu falas sem pudores, sem filtros, como nos tens habituado. Sentes que também tens contribuído para essa, não queria dizer não assunto, mas a forma como tu falas leva que as pessoas, se calhar, da próxima vez que questionarem um amigo ou outra pessoa, pensem duas vezes antes de fazer a mesma pergunta. Acreditas que estás a contribuir para isso?

Já me disseram várias vezes, e as pessoas não acham que estão a ser ofensivas, mas claro que são. Já me disseram várias vezes: "o único gay que eu gosto é o Kiko". Pessoas que me veem nas redes sociais. "Eu gosto dele, é até engraçado." De repente, abre-se uma brecha onde alguém como eu já não tem que ser associado obrigatoriamente a uma figura fútil, ou a uma figura que gosta de moda.

Porque no início, os grandes insultos que te faziam eram nesse sentido.

Claro.

Na questão da homossexualidade.

Era a coisa mais básica que podiam pegar. Na altura, em 2011, o meu maior insulto era gay, como se fosse um insulto. Eu na altura já sabia que não era um insulto, por isso é que eu te digo há bocado que as pessoas é que estão a chegar agora. Eu sempre soube muito bem aquilo que era, no fundo, não sei se isto faz sentido.

Nunca foi um assunto?

Não, para mim não. Acho que não deveria ser um assunto.

Já agora, deixa-me perguntar, a propósito disso, com que idade é que se dá essa descoberta? Com que idade é que tu tens consciência que és homossexual, Kiko?

Olha, ao contrário de muitas histórias, eu não tive o meu "come out", eu não tive assim um momento. Lembro-me de uma conversa com a minha mãe, que ela perguntou-me e eu confirmei, mas não foi uma coisa que eu vou precisar de dizer isto. Eu sempre soube.

Isso aconteceu com que idade?

Isto foi por aí com 11, digamos assim, esta conversa que eu tive com a minha mãe. Mas eu acho que sempre soube aquilo Que gostava também, mesmo a parte da homossexualidade. Lembro-me de estar na escola primária, por exemplo, e dar um beijinho a um menino atrás da escola. A sociedade é que me fez achar que isso era errado. Só quando eu sei que é errado é que tento começar a esconder. Ou seja, eu acho que desde pequeno que eu sabia. Eu, por exemplo, tive a sorte de crescer no meio de duas mulheres, que era a minha mãe e a minha irmã, e há fotos minhas com seis anos a vestir as roupas delas. Antes de eu conseguir sequer dizer uma frase completa, eu já estava a exprimir esse meu lado. Ou seja, é uma coisa que se tu fores atrás, estão lá os indícios de quem eu era e daquilo que eu gostava.

Nunca tiveste medo de expor esse lado mais feminino ou no início era difícil perante o olhar dos outros?

Exato. Acho que depois comecei a ter medo. No seio familiar mais próximo, onde era aceito, eu não tinha medo. Mas quando sai para a rua e começam a dizer o que é que um homem deve ou não ser, e eu percebo que não me encaixo nessa caixa, aí é que eu começo a criar essa personagem. Isso é uma coisa altamente dolorosa pra muita gente e é uma coisa que muita gente não fala. Às vezes, a vida de um homem, de uma mulher homossexual, muitas vezes, a maior parte da vida é despir aquilo que teve que criar pra se proteger.

A armadura?

A armadura. E depois às tantas até chegas a uma parte da tua vida onde tu pensas: "O que é meu e o que foi uma resposta a um trauma? O que é meu e o que foram coisas que eu criei para conseguir sobreviver neste mundo? O que é meu e o que são coisas que as pessoas acham que é aceito e, portanto, eu comporto-me assim?" Isso é muito difícil.

Tu és contactado ou abordado por homens mais velhos que vivem ainda sob o manto de uma homossexualidade disfarçada? Dentro do armário, é a expressão usada.

De homens mais velhos, tenho dois perfis.

Então.

Existe o homem mais velho que olha pra mim como uma aberração.

Sim.

Homossexuais, gays mais velhos e ficam: "Mas como é que ele é assim? Mas isto agora é os ativistas." Ou seja, quase um homem gay conservador que olha pra mim dessa forma.

Consideras legítimo ou não?

Considero legítimo. Sei de onde é que eles estão a vir, provavelmente. Sei que eles provavelmente estão a viver na jaula onde acham que têm que viver. E portanto, alguém como eu, a ter saído dessa jaula e poder exprimir o seu lado feminino e mesmo assim ser levado a sério e chegar aos mesmos sítios que toda a gente chega, pra eles, eu acho que isso é um ataque muito grande a quem eles são.

E o segundo tipo?

E o segundo tipo, eu acho que são homens que veem em mim uma luz de esperança, ou seja, veem em mim aquilo que a sociedade os obrigou a ser, eles agora veem que já não existe essa obrigação. Eles não precisam se encaixar numa caixa pra serem levados a sério no seu trabalho, nas suas vidas, etc. Estou num sítio de privilégio, atenção, sou artista. Não acho que seja o caso pra toda a gente em todas as profissões poder exprimir-se como é. Infelizmente, ainda não é, mas acaba por pelo menos criar esta ideia.

Já te disseram: "Ainda bem que apareceste"?

Já me disseram: "Ainda bem que apareci".

Foi?

Já me disseram várias vezes isso, até. Lá está, eu acho que às vezes crio um grande ponto de interrogação na cabeça das pessoas. E eu acho que essa discussão é interessante se ter. Acho que é interessante as pessoas olharem pra mim, e muitas vezes quando as pessoas olham pra mim, têm um conjunto de julgamentos, e que depois quando falam comigo, se calhar um pouco, percebem que não sou assim tão diferente delas e percebem então que estavam a ter um preconceito que toda a gente tem. Já agora, não há mal em termos preconceitos.

Tens preconceitos?

Super.

Então vá, partilha conosco um preconceito. Vamos à lista. Pode não ser grande.

Preconceito.

Kiko, o guerreiro do YouTube contra os preconceitos, tem preconceitos. Vamos lá.

Claro que sim, todos nós temos preconceitos.

Eu também partilho dessa ideia, que todos temos preconceitos, por mais pequenos que sejam. Às vezes pode ser só não compreender uma determinada ideia e às vezes uma simples conversa leva-nos a perceber. Mas partilha um conosco, Kiko, vá lá. Um preconceito. Kiko preconceituoso. Estou a brincar. Ele está-te a provocar, Kiko. Não, estou a preencher o vazio que o Kiko está a pensar, que está a medir as palavras.

Às vezes é importante.

Não é às vezes, é sempre. Com o microfone à frente, temos que ter sempre cuidado.

Olha, eu confesso que a maior parte dos políticos, eu tenho algum preconceito com políticos.

Tens uma imagem negativa deles, é isso?

Eu acho que existem algumas exceções.

Estão escritos numa lista?

Os políticos?

O nome desses políticos.

Sim, mas não vale a pena mandar isso pra aqui agora.

Não, era só curiosidade. Mas esse é fácil, malhar nos políticos é fácil, não é?

Então dá-me tu um.

Não, eu não sou o entrevistado aqui.

Ok, pois, é mais fácil. Não sei. Olha, não sei. Não te sei responder a isso.

Muito bem. Deixa pra outra altura. Kiko, vou pegar aqui também numa personalidade digital, antes de terminarmos. A Pipoca Mais Doce, que já anda há muitos anos nisto e que disse que soubesse o que sabe hoje em dia, não teria escolhido aquele nome. Tu vais fazer 32 anos daqui a pouco tempo. Imaginas-te com este nome daqui a 10?

Concordo muito com a Pipoca também, infelizmente.

Serias só Kiko.

Sim, talvez. Mas depois podia ser o chefe Kiko, podia também não resultar. Eu percebo o que ela está a dizer e relaciono-me totalmente. Lá está, as consequências de ter criado a persona tão cedo. Mas acho que agora é o que é. É um sentimento, Kiko, exoto, não tem que ser realmente hot, pode ser só um sentimento.

Qual é o sentimento pra ti, já agora?

Kiko Exótico acho que exude uma confiança que eu muitas vezes posso nem ter, mas pelo menos exudo essa confiança. Eu acho que crio esse nome em proteção, porque quando eu crio com 16 anos, claramente um miúdo que não tinha confiança, acho que já é parte da minha armadura, já está no nome.

Uma forma também de empoderamento.

É, sim, mais vale. Já que ninguém me o faz, vou eu empoderar a mim próprio.

Kiko Exótico, para terminar, o que te inquieta?

O que me inquieta? Só uma coisa. Inquieta-me muito a forma como andamos a tratar os imigrantes neste momento. Inquieta-me muito a forma como estamos a depositar as nossas raivas e os nossos sentimentos de injustiça e os nossos problemas, sinto que estão a afunilar todos, muitas vezes, para o discurso de ódio contra imigrantes, que eu acho que é uma pena. Acho que existem muitos partidos neste momento que também bebem disso e é por isso que isso acontece, e é fomentado, e as pessoas querem que exista. É quase um inimigo comum, mas deixa-me com muita tristeza, deixa-me com muita pena, porque eu vivo no centro de Lisboa, frequento muito o Martim Moniz e essas zonas todas que as pessoas falam que são mega problemáticas. Conheço muita gente e 90% das pessoas, dos imigrantes que eu conheço, a grande maioria, esmagadora, eu posso dizer que são pessoas à procura de uma melhor vida. E estarem a ser culpadas dos problemas do nosso país, acho que é muito injusto.

Kiko Exótico, muito obrigado por teres vindo ao "Em 40 Minutos". Obrigado. Até breve.

Obrigado.

Até breve.