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Estamos em "40 Minutos" hoje a conhecer melhor Lídia Jorge. É uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas e a nossa convidada para estas conversas de fim de semana. Conversas de vida em que vamos também à vida e à obra, e que não é pouca, a de Lídia Jorge. O último capítulo chama-se "Misericórdia", é o mais recente livro da Lídia Jorge. Lídia Jorge, muito obrigado por ter vindo à Rádio Observador.
Eu é que agradeço, com certeza. Muito obrigada.
Queria começar precisamente por este último, "Misericórdia". Li algures que parte de um pedido da sua mãe. Que pedido é que foi esse?
Eu tenho contado isso muitas vezes, mas tenho todo o gosto em voltar a dizer que foi um pedido um pouco difuso que a minha mãe foi fazendo ao longo dos últimos anos de vida dela, mas que se materializou concretamente no dia 8 de março de 2020, quando eu não sabia que era a última vez que estava a visitá-la. E ela pediu-me que eu escrevesse um livro que tivesse por título "Misericórdia". Como já me tinha pedido muitas vezes, eu disse: "Mas por quê? Explica por quê." E ela disse-me que achava que eu deveria escrever um livro para que as pessoas tivessem compaixão umas das outras. Ela explicou um pouco mais e talvez não fosse bem esta a palavra que ela tenha usado, mas a ideia era essa. Eu aí percebi que como ela estava no Lar da Misericórdia, da Santa Casa de Misericórdia, muitas vezes quando ela me dizia para eu escrever um livro que se chamasse assim, eu tinha a ideia de que ela queria queixar-se ou que queria que eu desse opiniões sobre aquilo que não corria bem. Era o que eu pensava, que no fundo era um pedido dessa natureza. E, portanto, fiquei muito surpreendida quando ela me disse o contrário. O que ela queria era que eu escrevesse um livro sobre o último tempo de vida das pessoas. E eu nunca mais a vi. Ela ficou infectada.
Com COVID-19.
Com COVID-19 e passados 40 dias, ela foi uma das pessoas a morrer lá embaixo, no Sul, quando ainda não se sabia como as pessoas deveriam tratar-se umas às outras, ainda não se tinha a ideia de como enfrentar. Ainda havia erros clamorosos e as pessoas se encontravam a monte, sem saber como proceder. Portanto, eu nunca mais a vi. E quando ela faleceu, eu tive a ideia de que, como se sabe, a pessoa quando numa situação destas, fica com uma sensação de que tem de cumprir. E, portanto, eu hesitei bastante. O que fazer com um título destes? Um título tão dramático, tão intenso, tão forte, de cariz religioso. O que fazer com um título destes? Mas depois eu acho que percebi, por um episódio que ocorreu a seguir, eu achei que iria encontrar o ponto de vista que resumiria aquilo que tinha sido a vida dela. E acabei por escrever esse livro com essa estrutura que se conhece.
Alguma vez tinha começado um livro pelo título?
Já comecei várias vezes livros pelo título, mas depois alteram-se, vão se modificando. Por exemplo, lembro-me que "A Costa dos Murmúrios" tinha um título que era "O Grifo", que era a ideia de uma operação militar que se chamava "O Grifo", em que estavam reunidos todos os animais, porque as operações militares, um chamava-se "Cobra Venenosa", e outro chamava-se "Leão Invencível", e outro "O Tigre das Arábias", e coisas do gênero. E eu pensei escrever um título que se chamasse, de facto, "O Grifo". E depois percebi que não podia, que era uma metáfora que empobrecia aquilo que eu queria escrever e, portanto, a certa altura encontrei outro título.
Mas voltando à história da mãe da Lídia Jorge, que morreu infectada com COVID-19. Na altura, também já contou isto várias vezes. A sua mãe escrevia um diário ou ia escrevendo umas notas. Não sentiu que estava a invadir-lhe a privacidade quando decidiu ler essas notas?
Não, de modo nenhum. Tudo o que a minha mãe quereria era ter leitor. Tudo o que ela quereria era que as palavras dela não ficassem mortas. Foi por isso que escreveu até o fim da vida. Ela sempre escreveu diário como o seu arquivo, o seu registo de vida. E os últimos papéis que eu tenho, porque ela já não podia nem sequer com um caderno, são notas que ela tinha da vida dela, mas que ela queria transmitir, queria deixar. Eu não sei bem qual era o destinatário, mas ela queria dizer: "Eu passei por aqui, eu passei pela vida e conheci isto", sobretudo porque era uma pessoa de conhecimento, era uma pessoa que apesar de ter uma instrução rudimentar, tinha apenas quatro anos de escolaridade, mas era uma pessoa com uma curiosidade imensa e que manteve até ao último momento de vida. E esses papelinhos que deixou, não, não foi invadir a privacidade dela. Gostaria que eu os usasse e os transformasse.
E escrevia bem?
A minha mãe? Sim, escrevia. Ainda escrevia mãe com I e pai com E e coisas assim. Mas escrevia bem. Tinha muita capacidade de expressão, bem como o meu pai. Aliás, ambos sempre escreveram diário. Várias vezes eu perguntei à minha mãe porque é que ela todos os dias, mas era todos os dias, à noite, ela sentava-se a escrever. Era um diário particular, porque era um diário, sobretudo, sobre o que ela fez, o que tinha feito, o que tinha conquistado, o que tinha conseguido, que plantas é que tinham florescido. Mas depois tinha pensamentos também. Lembro-me, sobretudo, de uma vez que eu lhe perguntei: "Mas por que é que tu todos os dias escreves sobre a tua vida?" E ela disse-me: "Para ordenar a minha vida". Isso é interessante, porque quem escreve, de certa forma, os escritores também é para ordenar não só a sua vida, mas com a pretensão de ordenar qualquer coisa mais do que a sua vida. A ideia de que se está perante uma espécie de mundo que oferece uma desordem e nós vamos tentar encontrar uma outra ordem, lateral ou fundamental, mas é essa a busca, no fundo, que se faz.
Também escreve um diário?
Tomo notas, mas sou suficientemente desordenada para não conseguir. Tenho vários cadernos e vários blocos escritos. Eu tenho sempre a ideia de que vou escrever o diário e depois não consigo. De certa forma, talvez os livros e os contos, sobretudo os contos, que estão muito mais ligados a um quotidiano, e as crónicas, que são muito mais ligadas ao quotidiano, possam constituir um diário. O romance, o texto mais longo, surge também de uma arquitetura que se vai amadurecendo, que se vai compondo e que, portanto, não está ligada propriamente ao correr dos dias concretos.
Falou também do seu pai, para além da sua mãe. Eles, de alguma forma, foram figuras que a impeliram a seguir este caminho da escrita?
Sim, foram. O meu pai era uma pessoa que escrevia muitíssimo bem, melhor que a minha mãe, tinha muita capacidade criativa. Também foi uma pessoa que ficou apenas com quatro anos de escolaridade, mas a vida dele foi uma vida muito rica, de muita viagem, de muito contacto, de grande intensidade. E penso que faltou ao meu pai a instrução que lhe permitisse, de facto, ele ser alguém na arte, porque ele tinha, de facto, muitos traços e porque a vida, com uma certa dissipação, que foi a sua, mostrava que era uma pessoa que tinha muito mais ansiedade por fazer experiência da vida do que por acumular bens ou por disciplinar a sua vida. Aliás, acabou por ir para a Argentina, ficar na Argentina, viver aqueles momentos trágicos da bancarrota, de ficar sem nada, de ter de recomeçar a partir do zero.
Foi para lá trabalhar?
Sim, o meu pai esteve primeiro em África e percorreu vários países, mas primeiro esteve em África e depois foi para a Argentina, para junto dos seus irmãos, e foi aí que de facto aconteceu essa tragédia da Argentina, que foi dramática e que continua a ser dramática. A Argentina continua a ser um país de paixão. É lá que ele está enterrado. Ele está enterrado diante dos Andes. Nunca vi o sítio onde ele está enterrado, mas quero ver, porque eu tenho uma meia-irmã e ela é que tratou do assunto. Mas isto para dizer que sim, o meu pai teve uma vida aventurosa, uma vida de experiência, de uma contemplação do mundo, muito mais do que um trabalho cauteloso para si próprio.
A Lídia também viajou e trabalhou em muitos países, inclusive em África. Há uma genética de viajante que se lhe passou?
Eu gostaria de ter mais experiência. Eu gostaria, como todos, como o Diogo e como todos nós gostaríamos de ser muitos e de viver em muitos sítios. Quer dizer, isso é um desejo de toda a gente. Mas eu não vivi em tantos países. Eu visitei muitos países, tenho visitado muitos países e ultimamente são mais deslocações do que viagens. Infelizmente, vai-se e vem-se no mínimo de tempo.
Não dá para aproveitar.
Não dá. Muitas vezes eu gosto de saber o nome das plantas, das árvores que estão na rua e assim, nem dá para perguntar. Não dá para nada. Mas sim, eu acho que a distância, a viagem, é uma personagem. A distância revela-nos. Sair da nossa casa, partirmos, chegarmos a outro sítio, encontrar outras pessoas, atravessar uma parte da Terra, revela-nos, dá uma outra perspectiva do mundo. Regressa-se a casa com uma ideia de que se tem um outro conhecimento. Somos diferentes. Nunca regressamos como partimos. Isso é a base, de facto, da escrita, é a ideia de que se faz um percurso, como numa viagem, começa-se uma primeira página. Quando se chega ao fim, fez-se uma viagem e não se é mais a pessoa que começou, porque se aprendeu. Sobretudo na ficção e no romance, em que se criam muitas personagens com um caráter diferente umas das outras. Acontece que elas Como agem umas com as outras, no final elas sabem mais do que nós sozinhos. Quer dizer, do que o próprio escritor sozinho.
A Lídia Jorge há pouco estava a falar do seu pai. Tem alguma memória dele? Porque ele morreu quando a Lídia Jorge era muito nova.
Não. O meu pai partiu pra África, eu tinha quatro anos e essa foi uma marca muito profunda. Porque eu vi o comboio, era outro tempo.
Mas lembra-se?
Lembro-me, sim. Lembro-me dele. E depois encontrei-o mais três vezes.
Mas lembra-se desse momento do comboio?
Lembro muito bem desse momento do comboio, que apareceu no escuro. Os comboios eram diferentes. Tinha um olho luminoso, aquela lanterna que levou o meu pai e o meu avô ao mesmo tempo. Levou os homens da família, os dois, quando eu tinha quatro anos. E a minha vida com certeza que foi marcada por isso. Faz-nos falta, de facto, o pai e a mãe fazem-nos ambos falta. Sei que há todas as teorias modernas das famílias desconstruídas, em que as pessoas são todas felizes. Eu nisso, de facto, sou muito arcaica, muito conservadora. Acho que a figura de um homem e de uma mulher, ou de mulheres, ou de homens, fazem falta à criança que se desenvolve. Depois, encontrei-o aqui em Lisboa, encontrei-o depois já na Argentina e foi muito bom encontrá-lo. Percebi que era mesmo filha dele.
Voltando ao "Misericórdia", é um livro que também pretende uma reflexão sobre como a sociedade hoje em dia trata os mais velhos ou como nós olhamos para os nossos mais velhos quando são os da nossa família?
Eu confesso que essa parte, que é a parte mais sociológica, mais de denúncia, não estava bem na minha intenção inicial. O que eu queria era escrever sobre as pessoas quando sentem pouca força, mas têm tudo dentro da cabeça, têm a memória, têm o desejo de amar, têm a necessidade de se projetar nos outros. Estão cheias de vida e a vida está intacta dentro. Mas o corpo não ajuda. E como é que isso funciona? Porque há alguma coisa de patético, de terrível, mas ao mesmo tempo, ao ver os comportamentos, nós conhecemo-nos, porque a velhice não é um estado da humanidade diferente do comum. Somos nós que envelhecemos, mas somos nós que estamos lá. Ora, o que aconteceu foi que era essa a minha intenção, era de escrever um livro, não sobre a tal compaixão de que a minha mãe falava, mas o ponto de vista era este, que era o da resistência, o da capacidade de resistência que se tem e do encanto por viver, por se vir a este mundo espreitar uma coisa. Uma coisa que, olhando bem, ela é deslumbrante por tudo. A criação, ver a criação. E depois desaparecemos. Ora bem, foi isso que eu quis mostrar e parece-me que continua a ser a parte mais forte do meu livro. Mas há outra parte, como o Nelson dizia, que é, de facto, ao falar disso, não pude deixar de falar das condições em que as pessoas vivem quando são amontoadas nos lares. E muitas vezes havendo sabedoria para a forma como se poderia fazer diferente, não há meios, não há estrutura, não há dinheiro, não há capacidade para alterar a situação.
Algures li que a sua mãe nem sempre gostava dos temas que escolhia para os seus livros. Queria que escrevesse sobre personalidades maiores da história. Como isso aconteceu e como é que sempre quis estar então mais debaixo da mesa com os temas e que relação era esta com a sua mãe? Como é que ela olhava para os seus trabalhos e para os temas que abordava?
É preciso ver que este livro tem uma parte ficção. Mas aí corresponde a uma posição. A minha mãe queria aquilo que as mães em geral querem, querem que os filhos triunfem. Ela achava que isso não me acontecia. Portanto, ela procurava encontrar, com os meios de que dispunha, as causas. E portanto, olhava para aquilo que ela considerava que eram os sucessos dos outros. E queria que eu me adaptasse àquilo que ela achava que eram os sucessos. E naturalmente, a minha mãe tinha dificuldade em compreender que o sucesso primeiro para um escritor ou qualquer artista, é uma relação individual e pessoal, é olhar para o trabalho e ter a ideia de que fez aquilo que queria. Portanto, o que ela estava sempre era a projetar para o exterior, como é natural. E portanto, muitas vezes não nos entendíamos.
Mas discutiam?
Havia discussões entre as duas por causa disso ou não?
Sabe, entre os pais, os progenitores e os filhos há sempre discussões. E mal de nós quando não há. Porque, de facto, está ali entre os pais e os filhos a síntese daquilo que é a contenda do mundo. O que eles querem para nós não coincide. Havia, de facto, alguns desentendimentos. A minha mãe era uma pessoa que olhava muito para o exterior da pessoa. Olhava muito para as pessoas, como elas se comportavam, o aspeto, se parecia bem. Eu era muito mais descuidada do que ela achava. Havia coisa assim, mas era mínimo. Aliás, no livro há uma passagem, não sei se repararam nela, em que há umas senhoras muito religiosas que vão dizer que os livros da filha não prestam para nada, porque só há um livro bom, que foi aquele que foi ditado por Deus, que é a Bíblia. E há ali uma reação que teve inspiração em alguma coisa real que aconteceu. E ela revoltou-se e disse: "Não, os livros da minha filha também são ditados por Deus. Deus dita e ela escreve". Quer dizer, ela assumiu para defender.
E fez essa defesa. Mas a Lídia Jorge sente-se de alguma forma, não sei se a voz dos mais fracos, ou se sente que a sua literatura, os livros que escreve, estão sempre mais virados para os mais fracos do que para essas tais figuras maiores da história, por exemplo?
Bem, não há dúvida.
A Lídia gosta de underdogs, como se diz em inglês. Aqueles que não são os favoritos.
Os underdogs. Pois. Os escritores, aqueles que eu prezo de dizer que são escritores, mesmo quando tocam nas figuras grandes. O caso da Yourcenar, por exemplo, com o imperador Adriano, e escreveu as memórias de Adriano. Se a gente vir, o que acontece é que toca em Adriano, mas por onde? Precisamente pela debilidade quando está a morrer. Quer dizer, em geral, os escritores claro que também analisam o triunfo, também falam do triunfo, mas estando sempre à escuta daquilo que é a natureza humana, daquilo que é o destino humano, naturalmente que vão procurar nas figuras aquilo que também é a sua debilidade. E, portanto, mesmo os grandes livros que são sobre personagens importantes, não são, em geral, para enaltecer as vitórias. São para misturar aquilo que é vitorioso com aquilo que é a tragédia humana de nós querermos ser eternos e sermos tão passageiros, de querermos ser perfeitos e sermos tão imperfeitos, de querermos amar infinitamente e ser amados infinitamente. E, pelo contrário, o amor é parcelar, é truncado, é finito, tem imperfeições e o completo parece não ser deste mundo. A literatura trata disso. A literatura e o teatro. Quer dizer, pensem, por exemplo, no que é o Shakespeare. A peça de que nós gostamos mais, em geral, é Ricardo III. Por quê? Porque é a súmula daquilo que é a ambição humana com aquilo que é a decripitude humana. Eu gosto dessas figuras. Sim, eu estou muito junto dessas figuras, talvez porque tenha tido uma vida que me permitiu observar muito o que são os perdedores. Mas eu gosto dos perdedores, que são ganhadores no seu ponto de vista. Aliás, essa era uma discussão que eu tinha com a Agustina Bessa-Luís. Porque ela não entendia bem as minhas personagens. Eu penso que eu entendia melhor as dela do que ela entendia as minhas. E o que acontece, por exemplo, a grande diferença entre as mulheres. Que ela procura as mulheres ganhadoras. Elas acabam por ser as negociantes, acabam por ser aquelas que dominam os homens. Os homens não prestam e as mulheres é que mandam e é que são capazes. Mesmo quando morrem, como é o caso da Fanny Owen, o que acontece é que ela é uma aristocrata. Essa era a visão da Agustina. E eu gosto de uma outra coisa. Gosto de me colocar junto de figuras, quer de homens, quer de mulheres, que não são vencedores. Isto é, não compram o palácio.
Não são vencedores nessa ideia de vencedor que a sociedade tem na sua maioria, não é?
Exatamente. Mas é vencedor porque percebe os mecanismos da vida. E, portanto, o caso, por exemplo, da Costa dos Murmúrios, a vencedora é sem dúvida a Eva, a Evita, porque ela viu tudo. Nos olhos dela, ela viu a derrocada do império português e ela percebeu como era a derrocada dos impérios. Ela percebeu como era a convivência entre aquilo que são as várias etnias e as várias civilizações e a distância falsa que nós criamos por aquilo que é Acidental e não essencial.
Queria também ir um bocadinho ao Algarve, até porque está a ficar bom tempo e é um sítio que é sempre aprazível no verão. Ainda regressa muito ao Algarve, nasceu no Algarve, que relação mantém com esta região do país e se acha que a geografia também nos marca. Também somos sempre alguma coisa de onde vimos?
Eu acho que sim, não tenho dúvida. Essa ideia de que uma vez, talvez seja do espaço. Mas mesmo assim, mesmo no espaço, quando o espaço estiver indicado por quadrículas, por números, mesmo assim as pessoas dizem: "Eu nasci em tal sítio do espaço". Porque a nossa vida é única. Agora, tomando a questão mais a sério. De facto, o Algarve marcou-me muito e eu aprendi aí aquilo que é a gramática das relações humanas quando era pequena. E depois a paisagem, a proximidade do mar, a orografia.
A sazonalidade da região.
A sazonalidade, tudo isso, de facto, ficou-me. Eu não me importo de dizer àquela ideia de que nós caminhamos sempre com os sapatos na nossa terra e que isso nos faz sermos, neste caso, que somos sempre aldeões. Eu não me importo de ser aldeã, mas eu acho que não sou aldeã por isto. E aliás, não era a aldeia, era o campo descoberto, que é uma coisa completamente diferente. A ideia daquela espécie de monte dos vendavais onde eu vivi, não me prende a lugar nenhum. Porque não é nos meus sapatos que eu trago, não é na sola dos meus sapatos. Eu pego naquilo que tenho na minha algibeira, que é completamente diferente. E, portanto, olho para o mundo com aquela terra, como uma espécie de espaço, mas não encontro outra, como uma espécie de espaço salvador, porque foi tão forte e eu fui tão feliz na descoberta daquela paisagem, naquele mundo, entre os animais. Foi alguma coisa tão maravilhosa, sobretudo o espetáculo das estrelas, que nessa altura era possível. Acho que as pessoas hoje são pobres quando, de facto, não têm o contato com as estrelas. Na noite escura, as estrelas. Isso eu levarei para sempre comigo.
O Miguel Torga tinha muito essa relação com a sua área geográfica e dizia uma coisa relativamente parecida com isso, que era que o homem que vive nas montanhas tinha essa possibilidade de subir ao monte e ter um horizonte muito mais alargado do que o homem da cidade.
Claro, aquilo está tudo misturado, porque a tecnologia permite, nós todos andamos de avião. Toda essa visão acaba hoje por ser.
Mais esbatida.
Sim, quer dizer, está alterada. Mas eu lembro-me, por exemplo, talvez a experiência telúrica mais forte que eu fiz foi no Grand Canyon, nos Estados Unidos. Foi o sítio onde senti a idade da Terra. E vi pessoas chorarem de emoção por isso. Eu não chorei, mas emocionei-me muito quando percebi que lá no fundo do Colorado estava a parte da Terra que antes estava por cima, estava lá no fundo. E que todo aquele canhão, aquela coisa imensa, enorme, não sei quantos quilômetros tem, são imensos. Eu não sei se é talvez do tamanho do Algarve. E tudo aquilo foi criado, de facto, por um rio, por Colorado. A experiência da Terra, o conhecimento da Terra, que nós depois transpomos para o conhecimento do cosmos, isto que todos os dias nos estão a propor conhecer novas coisas, mas o conhecimento básico é o da Terra. É alguma coisa de espanto, de maravilha tão grande. E de incógnita tão grande. Ora, eu tenho a ideia de que comecei a fazer essa experiência de espanto perante o mundo e perante esta grandeza, que eu às vezes penso que é quase chocante em relação a nós. Porque nós pensamos o mundo, não sabemos se mais alguma coisa pensa o mundo. E o mundo é tão grande que nós não conseguimos compreendê-lo, mas temos acesso a ele. Ora, isso eu acho que comecei a fazer quando comecei a pensar nestes assuntos, quando era, de facto, muito pequena. Não havia eletricidade. Caía com a noite. Coincidia com a noite. Portanto, ia para a rua.
Aguça a imaginação.
Sim, sobretudo dá um sentido. Suscita o nosso sentido. O que nós estamos aqui a fazer? O que somos, como somos? O que estamos aqui a fazer? O que se quer de nós? Por que nós estamos aqui? Ora, essas perguntas eu fiz a primeira vez quando era, de facto, muito pequena, diante desse céu magnífico. Portanto, em qualquer parte, eu penso sempre: "Está aqui muita luz, mas para além da luz, se não houvesse, eu veria isto". Às vezes eu encontro alguns escritores que pensam exatamente como eu. E quando falamos disso, eu tenho ideia de que existe, de facto, uma espécie, um grupo familiar de pessoas que sentem isso. E que ainda dispomos de tempo para falar sobre isso.
A Lídia Jorge faz parte do Conselho de Estado, é, no fundo, o órgão de aconselhamento político do Presidente da República, se assim lhe podemos chamar. Por que decidiu aceitar este convite de Marcelo Rebelo de Sousa?
É uma boa pergunta. Em primeiro lugar, porque quando o presidente me falou, me disse que gostaria que eu substituísse e ocupasse a cadeira do Eduardo Lourenço. Eu fui muito amiga do Eduardo Lourenço, muitíssimo amiga dele, e isso tocou-me. Eu sei que outras pessoas poderiam, possivelmente com mais sabedoria do que eu, ocupar essa cadeira. Mas também pensei que podia, de alguma forma, emprestar aquilo que é a perspectiva de alguém que não é especialista em nada. Eu não sou especialista em nada e, por isso, julgo eu, que posso ter uma voz muito próxima daquilo que são as pessoas comuns. E acho que num órgão desses também é preciso existir alguém assim. Não sei se sou muito útil, mas o meu contributo é com sinceridade, dizer o que me parece do ponto de vista de como as coisas vão correndo.
E tem se falado muito da reunião do Conselho de Estado, que está marcada para o final do próximo mês. O presidente da República quer fazer um ponto da situação política. Qual é o ponto da situação política neste momento, na opinião da Lídia Jorge?
Aquilo que eu iria lá dizer, tenho pensado muito nisso, mas todos os dias mudo também. Porque quando se diz que a realidade é dinâmica, parece já uma frase feita, mas é verdade. Repare, a diferença que existe entre as pessoas que reagem como eu, que é muito à flor da pele, se um vizinho me vem dizer que ganhou €10 mil e que tem de pagar por alguma coisa mais €6 mil, eu assumo isso e tenho imediatamente vontade de reagir. Agora, os políticos têm de ter uma outra perspectiva, têm de ver numa dimensão muito mais longa. E por isso, a leitura que eu faço modifica-se, porque há revelações que estão permanentemente a ser dadas, designadamente sobre esta última fase do governo. Há revelações umas depois das outras que, de facto, dão sinais bastante diferentes. E é muito difícil, no momento em que a opinião é cruzada e muitas vezes é uma opinião que está em estado histérico, nós vermos com clareza, porque há muitos biombos. O esforço que eu faço é tentar não ser tão emotiva perante os factos e, por outro lado, tentar dar-me um tempo suficiente para eu perceber quem é quem e o que é que se pretende no meio. Todos sabemos que estamos a viver um momento muito confuso em Portugal, não só em Portugal, eu estou mais relacionada com o que se passa em Espanha, em França e no Reino Unido, e vejo, são três sociedades mais próximas, não estão em menor confusão que nós. O que me leva a pensar que nós estamos a viver um momento que, por razões que todos sabemos, que são de alguma coisa que veio da herança de uma pandemia que tivemos e agora da guerra que assaltou toda a gente e que não sabemos onde vai. Existe no ar um estado de agressividade em nós, que nuns é de tristeza e outros é de apatia, mas nós não estamos a viver um momento normal. Nós estamos a viver sob uma decepção profunda. E essa decepção não é só criada na proximidade, é também criada no estado que vem de longe, é criada na perspectiva de uma insegurança total em que nós estamos, em que conflui tudo. Tudo é simultâneo, é tudo inseguro. Então eu quero ponderar bem. Possivelmente, a minha opinião não terá muito valor, mas eu estou construindo a opinião sobre aquilo que seria melhor, porque nós não estamos bem.
E ainda tem alguns dias para a expressar depois no Conselho de Estado. Estamos quase a ficar aqui sem tempo. Queria ainda perguntar-lhe uma questão aqui, de alguma forma relacionada com a atualidade, até porque falamos nos últimos dias bastante de escolas, de educação e de professores. A Lídia também foi professora e está uma discussão atual entre se estes rankings das escolas são uma boa ou uma má ideia. Tem opinião sobre esse assunto?
É muito curioso, porque há dois meses eu tive a ideia de escrever uma crônica sobre os rankings, para pedir que este ano não fizessem rankings, porque me parece que é, de facto, horrível o que está a acontecer. Por um lado, de facto, é uma radiografia, que é importante, mas por outro lado, é uma desesperança, é de uma injustiça brutal. Eu acho que não deveria haver este ano, perante esta situação. Eu vou utilizar uma palavra que não é deste meio, mas acho que deveríamos ter piedade uns dos outros. Isto é, de facto, um confronto.
É um esfregar na cara.
É um esfregar na cara. A quem aproveita isto? Não aproveita a ninguém. O que se quer, desmontar por completo a escola pública? Na verdade, se alguém da minha família hoje me dissesse: "Eu saio da escola pública para ir para a escola privada", desde que tivesse dinheiro, eu dizia sim. Porque, de facto, é uma situação inqualificável. Agora, o que eu sei também é que há professores que, apesar de tudo isto, não sei quantos, nem como, mas tenho falado com alguns professores que, apesar de toda esta instabilidade, têm tido respeito pelos alunos, têm tido respeito pelos pais, fazem greve e conseguem repor.
Compensar.
Compensar. Portanto, estamos para ler o que se está a passar. Cada um de nós terá a sua experiência, mas eu penso que, em relação aos rankings, sinceramente, eu acho que deveria haver um pouco de piedade no momento em que nós estamos a viver.
Hoje ficamos a conhecer um bocadinho melhor a Lídia Jorge, em 40 minutos, claramente pouco tempo para a vida e obra desta escritora. Foi um prazer fazê-lo consigo, Lídia, muito obrigado por ter vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns pelo "Misericórdia" e por todo o restante percurso. Até breve.
Eu é que agradeço a ambos. Muito obrigada.