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São 40 anos de carreira com clássicos como "Baía de Cascais", "Um Lugar ao Sol", "Aquele Inverno", "Repertório", uma das bandas pop rock da música portuguesa que mais sucesso fez nos anos 80 e 90, principalmente. Realizaram um concerto de fim do grupo a 31 de dezembro de 2009, mas 10 anos depois regressaram aos palcos. Hoje recebemos Delfins, em "40 Minutos" na Rádio Observador, que estão também prestes a voltar novamente com um concerto de celebração dos 40 anos. Temos hoje Miguel Ângelo e Fernando Cunha. Muito bem-vindos à Rádio Observador. Antes de irmos aos 40 anos, antes de irmos a esse concerto de celebração, vamos um bocadinho mais atrás. 1984, não sei se têm memórias bem nítidas desse ano.

Nadávamos de calções. Literalmente calções. A primeira vez que aparecemos ao vivo foi no Rossio, numa emissão ao vivo de um programa que havia na Rádio Comercial, na altura. Era playback, mas era ao vivo. Nós estávamos vivos, mas a música era em playback. E fomos com o nosso visual do início, que era umas camisas brancas com riscas azuis à la Beach Boys e uns calções brancos de tênis. E é verdade, literalmente calções.

E saquinhos brancas também.

Os Beach Boys eram uma referência pra vocês?

Diz?

Os Beach Boys eram uma referência?

Era dentro de várias das bandas que a gente ouvia dessa altura, não só os Beach Boys, mas os Beatles. Mas essa colagem às camisas tinha a ver com o nosso nome, o fato de sermos de Cascais e queríamos estar ligados também ao mar. E daí termos nos inspirado um pouco nesse look dos Beach Boys à altura.

Eu acho que era mais que isso, éramos queremos ser uma banda um bocadinho mais banda dos anos 60. Aliás, o nosso primeiro single na capa não diz Delfins, diz Os Delfins.

Ou seja, acrescentar ali o "de".

Acrescentar o "de". E tínhamos essa estética dos anos 60, que ainda hoje acho que gostamos. Beatles, Stones, Kinks, Small Faces. E era um bocadinho provocatório na altura, contra uma onda muito urbana e black em Lisboa, das bandas muito urbanas, obscuras. Aparecer ali os putos, já que somos de Cascais, vamos pintar a manta e vamos embora. Tal como os Beach Boys, nenhum de nós era surfista, nem fazíamos surf.

E tinham cabelo comprido também ou não?

Não, nessa altura não tínhamos cabelo comprido. E havia que respeitar aquele princípio dos Beatles. Os Beatles ao princípio também não tinham o cabelo comprido. Foi mais tarde. Mas eu acho que a história da música nos inspirava e inspira ainda hoje. E não é decalcar passos de outras bandas, mas é ter referências e fazer citações.

Claro. Olhando pra essa altura, quando tocavam ainda no anexo, quando ensaiavam, vocês já tinham essa ambição, já levavam aquilo a sério? Ou seja, já tinham percebido que aquilo podia ser realmente o que iam fazer dali pra frente da vossa vida?

Sim. Nós já ensaiávamos juntos há dois anos, desde 82. numa sala ali em Cascais, perto do centro, ao lado do famoso Santini. Estávamos todos, no fundo, a começar e éramos todos estudantes universitários. E desde logo decidimos que iríamos fazer uma carreira, portanto levamos muito a sério as coisas, ensaiávamos todos os dias, aprendemos a tocar uns com os outros. E essa persistência e esse foco era raríssimo dia em que nós não ensaiávamos. E ao fim de semana, normalmente ao sábado, até convidávamos os nossos amigos pra assistir. Fazíamos uma espécie de concerto dentro da sala de ensaio, que era mínima, mas alguns ficavam na rua. E eu acho que foi isso que fez com que a banda fosse evoluindo muito rapidamente e acabou por ter também uma evolução na sua própria formação.

Certo.

Já a formação que temos agora.

Já vamos a essa parte da formação, até porque muita gente passou pelos Delfins. Mas gostava de olhar aqui pra um pormenor que vocês colocaram até na biografia que tem no site, que diz assim: depois do Pedro Ayres Magalhães vos ter visto a tocar, ele foi visitar-vos, viu-vos um bocadinho e disse: "Volto aqui a seis meses, continue a trabalhar". Como é que foram esses seis meses? Foram de ânsia, vocês conseguiram dormir durante esses seis meses?

Eu acho que nós, antes disso, já trabalhávamos muito. Nós quando chegamos, havia este fato de tocar para o Pedro Ayres de Magalhães, de bandas que nós adorávamos, desde os Corpo Diplomático. Eu nunca vi os Faíscas, mas vi Corpo Diplomático ao vivo e depois Os Joões do Mar, obviamente. Obviamente que estávamos nervosos, mas havia aqui um fator, é que o Fernando já conhecia o Pedro, porque o Pedro era um grande amigo do irmão do António Cunha, que depois foi o nosso manager durante quase a carreira toda. E havia já ali um conhecimento, tinham sido colegas no Colégio Militar, o Fernando também mais novo andava no Colégio Militar. Havia um ambiente um bocadinho mais informal, não foi uma coisa assim muito que estávamos todos ali muito stiff. Não. De qualquer modo, eu acho que esses seis meses também se prendeu por uma coisa. É que quando nós tocamos pro Pedro Ayres, ainda não nos tínhamos batizado enquanto Delfins, nem com o nome, nem com a estética.

Ainda era a Fanfarra?

Éramos a Fanfarra. Então tocamos pro Pedro aqueles temas da Fanfarra, que eram temas um pouquinho mais pesados, mais rock. E depois tocamos no fim dois temas, um deles, um original nosso, que nunca gravamos, chamado "Devoção", e outro, uma versão d'O Vento Mudou, do Eduardo Nascimento. E o Pedro, quando ouve aquilo, nota que há ali alguma coisa diferente e que estava mesmo alinhado com o que ele estava a fazer na altura, que era uma editora chamada Fundação Atlântica, onde ele queria recriar um certo espírito português suave, se quiseres, esteticamente, para a nova música portuguesa. E claro, uma versão d'O Vento Mudou ia cair ali que nem ginjas. Ele próprio disse: "Essas canções têm mais a ver convosco, são canções mais pop, em que as guitarras têm aquele papel quase que as guitarras indie na altura tinham algumas bandas escocesas, lembro, sei lá, de Orange Juice". E ele disse: "Não há ninguém a fazer isto em Portugal, portanto trabalhem neste conceito mais seis meses, durante seis meses, que eu depois voltarei para aí, tenho umas ideias".

Mas não vos colocou assim uma pressão adicional? Aqueles seis meses, não?

Não, porque nós, como o Miguel disse, já éramos amigos há muitos anos, desde os 10 anos que eu conheço o Pedro. E de certa maneira eu era fã, por um lado. Por outro lado, ele também foi uma pessoa que além de nos ter dado essa mão, sempre nos apoiou de diversas outras formas ao longo da nossa carreira. Portanto, aquilo que nos deu foi um incentivo.

Certo.

Um incentivo e, de certa maneira, ajudou-nos a focar. Porque às vezes nós próprios não vemos bem aquilo que nós somos. É preciso vir alguém de fora e dizer: "Mas vocês são de Cascais, são muito jovens. Por que estão a fazer música tão pesada? Façam música mais a ver com Cascais, com vocês".

Claro.

Com a vossa idade e tudo. E essa frescura que o Miguel já falou, também nos inspirou para começarmos a fazer canções mais pop, embora as nossas letras nunca sejam canções tipicamente pop, à exceção talvez até do "Sol Como o Rio", que por acaso foi uma exceção. As nossas letras focam-se muitas vezes em coisas ideais também. Mas foi uma inspiração, não considero que tenha sido uma pressão, foi mais uma inspiração e pôr-nos a trabalhar ainda mais do que nós fazíamos.

Inspiração e transpiração, porque aquele anexo era para aí o quê? Três por três e meio.

Quatro por três.

Com uma bateria lá dentro.

Era mais ou menos do tamanho deste estúdio ou um bocadinho mais pequeno?

Um bocadinho, nada maior.

Um bocadinho mais largo.

Era mais quadrado.

É, mais quadrado, mas muito parecido. E além disso, tínhamos na altura as colunas de som eram todas muito grandes.

Pois.

E tínhamos lá um PA.

A SEC.

A SEC. Compramos quando o Clube Naval, que era uma discoteca que havia no próprio Clube Naval, fechou. Conhecíamos o tipo lá que geria aquilo e comprámos umas colunas.

O Luís Beethoven.

O Beethoven, feito em Portugal, SEC, eram gigantes, eram pesadas, gigantes e ocupavam metade da sala. Portanto, aquilo com uma bateria a tocar, eu tinha mesmo que berrar para me fazer ouvir e os amplificadores de guitarra, etc. Portanto, aquilo era mesmo transpirar, não era só inspirar, era transpirar.

Um ano depois, em 1985, acabaram por tocar num palco um bocadinho maior do que esse anexo. Estamos a falar do Festival da Canção. Ficaram em último na altura, receberam algumas críticas menos boas. Foi fácil digerir isso para quem está a começar, para malta jovem que tem esses sonhos todos e receber assim esse galo?

Isto tem uma história por trás. Nós não concorremos bem ao Festival da Canção. Nós fomos convidados pela nossa editora, Fundação Atlântica, num ano ímpar em que não havia uma seleção. Eram as próprias editoras que escolhiam um dos artistas do seu catálogo e levavam à RTP. E a Fundação Atlântica, onde nós tínhamos entrado recentemente, tínhamos acabado de lançar o primeiro single, nos convidou para participarmos no festival com o segundo single. Foi a Casa da Praia. E nós nessa altura não éramos muito favoráveis, porque o festival estava muito ligado à música ligeira, não ao pop rock, mas eram boas condições e havia uma grande divulgação.

Era uma montra também.

Nós precisávamos disso. Também tínhamos um cachê como nunca tínhamos tido na altura, que dava para comprar o backline que a gente precisava, e acabamos por aceitar. Claro que fomos com uma canção completamente fora da caixa para aquele festival. E a única coisa que eu me lembro é que nós, quase a chegar ao fim da votação, começamos a ficar preocupados, porque ou era em primeiro ou era em último. Agora, dois a contar do fim é que não era nada. E por pouco não ficamos em penúltimo. Mas de resto, o que aconteceu depois sim, foi problemático. Acho que nós digerimos bem, nós enquanto músicos, porque lá está, para nós o festival não era representativo da música que nós fazíamos.

Claro.

Mas depois fecharam-nos as portas todas. As editoras, a partir daí, nós queríamos lançar o single do festival mesmo, e tínhamos as portas fechadas, mesmo das rádios, de todo lado, e queríamos gravar um álbum a seguir, e a própria editora foi à falência, mas não foi por nossa causa. Essa editora era uma sucursal, no fundo, da MB Valentim Carvalho. Eu lembro que na altura eles, ao ouvirem as maquetes do nosso primeiro álbum, que era o Libertação, disseram-nos: "A gente até pode pensar em vos gravar outra vez, assinar convosco, mas têm que mudar de nome, porque o vosso nome está queimado".

Mas aí já eram Delfins?

Já, claro que éramos Delfins.

E o que é que vocês, já sabemos que não mudaram.

Quer dizer, mudámos, porque nós éramos Os Delfins, passámos a ser Delfins.

Não, isso foi impossível. A gente disse logo, batemos com o pé no chão e tal. Não, a gente ou fica aqui com o nome Delfins ou não ficamos. E depois andámos a bater às capelinhas todas. Acabámos por ir parar outra vez à Valentim Carvalho, mas foi já depois de, na altura, o David Ferreira e o Chico Vasconcelos terem visto um concerto nosso em Cascais, em que tocámos uma versão da canção do Engate, que eles adoraram. Nós fomos para estúdio gravar esse disco em autoprodução, sem editora, e depois graças também à ajuda do Jorge Espiga, que foi um radialista que tinha o TNT, o Todos no Top, o programa de maior audiência da rádio comercial na altura, que começou a passar a fita da Baía de Cascais E foram essas duas coisas que decidimos assinar com a Editora.

E porque saiu, passava-se quase todos os dias, não era?

Sim, e entrou no top.

Passava todos os dias a abrir o...

Uma banda sem editora, com uma bobine, uma fita, agora hoje em dia com um MP3, chegar a uma rádio: "Olha, está aqui uma canção a passar". É quase impossível. Portanto, ele desbloqueou um bocadinho esse processo. Aliás, nós fomos à televisão, ao programa do Carlos Cruz, num concurso que era um, dois, três, com a Bota Botílda, tocar a Baía de Cascais em fita, sem editora, sem disco, sem nada.

E nem era a versão final.

Não era, era uma versão com uma letra até ligeiramente diferente no verso A, mas é incrível pensar como é que isso aconteceu. Há bocado ficaste com aquela ideia que nós éramos completamente inconscientes. Quer dizer, o Pedro Aires vai lá e os gajos não ficam nervosos. Depois o pessoal fica em último lugar e não se chateiam nada.

Até mostra maturidade.

Havia alguma maturidade, talvez até arrogância e muita teimosia. Nós acreditávamos mesmo naquilo que estávamos a fazer e gostávamos muito. E começámos logo a perceber, nessa altura, que havia muita gente da indústria que gostava de dizer coisas. Eu lembro-me de uma vez estar numa reunião com o Francisco Vasconcelos e ele a ver as letras e aconselhar: "Aqui, esta letra, mudar aqui". Eu fiquei ali. Eu basicamente saí daquela reunião, rasguei as folhas, nunca lhe disse isto, rasguei as folhas e pus no lixo. Nós não concebíamos que viesse alguém da editora, mesmo sendo uma banda pop mainstream. Não concebíamos que viesse alguém para interferir no nosso trabalho. E posso dizer, por exemplo, nos anos 80, para qualquer banda, e estou a falar de Elfin, Xute, GN'R, pôr música num anúncio de televisão era uma coisa horrível. Estamos a conspurcar a nossa música. Em novelas nem pensar. Eram outros tempos, em que havia uma coisa muito de autor, de artista.

Mas isso era prática generalizada nessa altura? As editoras tinham muito essa interferência no trabalho dos autores?

Ainda têm. Eu acho que sim. Eu acho que as editoras, na altura, as principais, estamos a falar das grandes, a Polygram e a Valentim de Carvalho, tinham muita intervenção naquilo que os músicos queriam fazer. Tentavam, pelo menos, ter. Alguns não conseguiam, como era o nosso caso.

Batiam o pé, não é?

Com outros conseguiam. Eu lembro-me de ter o Chico Vasconcelos, uma coisa que eu nunca me vou esquecer. Estávamos nós a misturar o outro lado Existe com o Carlos Maria Trindade. E a música era o Lugar ao Sol. Toca o telefone, vem o assistente, acho que foi o Amândio Bastos, passa o telefone, era o Chico Vasconcelos. E ele assim: "Então, o que é que o senhor quer?" "Está a perguntar se dá para ouvir um pouquinho da mistura."

Pelo telefone, vocês estão a ver?

Que os telefones nem tinham a qualidade destes agora.

Então não é que ele depois vira-se para o Carlos Maria e diz assim: "Ó Carlos Maria, o baixo está muito alto." Portanto, era isto. Isto é uma brincadeira, mas era o que acontecia. Havia muita interferência, e também isso das letras, quando eles nos disseram que iam mudar as letras, nós também até reagimos mal com isso. Mas depois também havia os outros artistas que eram made by editoras. Como ainda hoje há.

Por outro lado, repara, é uma altura, por exemplo, o Francisco Vasconcelos é um apaixonado por música. É uma altura em que as editoras apostavam com alguma emotividade nas bandas, às vezes a longo prazo. Às vezes acompanhavam o crescimento de uma banda e apostavam até aquela banda vender. Isso acabou. E portanto, esta coisa de eles quererem mexer no trabalho, por outro lado, era alguma cumplicidade que eles queriam ter também na criação. Agora, nós éramos miúdos, obviamente, recusávamos qualquer tipo de ingerência.

Eles faziam isso, porque também era uma geração de editores muito apaixonados pela música que faziam, também eram jovens. Era mais velhos que nós, mas eram jovens na altura. Porque nós achávamos que eles eram uns gajos muito adultos, mas não eram assim tanto.

Entretanto, mesmo estando no início, montou-se aqui um autêntico carrossel, que eu vou tentar resumir. E se me falhar alguém, digam. Mas começamos, portanto, com Fernando Cunha, João Carlos e Silvestre. Depois Miguel Ângelo, Carlos Rocco, Pedro Molcov, Carlos Brito de Sá, Rui Fadigas, Jorge Quadros, Marité, Nico Leitner, Nuno Canavarro, Leonel Cardoso, Luís Sampaio, Dora e Sandra Fidalgo. Eu vou ter aqui que parar para respirar. Depois temos Emanuel Ramalho, o próprio Pedro Aires Magalhães também chegou a pertencer ao grupo. Castor e Mário Andrade. São 20 pessoas, 20 membros da banda que foram rodando, obviamente uns mais tempo do que outros, sendo que atualmente, corrijam-me se estiver errado, estão o Luís Sampaio, Rui Fadigas, Jorge Quadros, a Dora Fidalgo e vocês os dois.

Sim, a nossa formação, no fundo, clássica.

Mas atenção, desses nomes que disseste, muitos deles eram convidados.

Certo. E não ficavam propriamente dos quadros.

Foram pessoas que passaram pelo grupo durante algum tempo. O Pedro Aires foi nosso baixista substituto do Rui Fadigas durante um ano e por isso gravou o Ser Maior conosco e talvez por isso tenha nascido a Resistência. O Carlos Maria Trindade também esteve conosco um ano a substituir, lá está, o Nuno Canavarro, que foi o teclista que substituiu o António Silvestre.

Mas a pergunta que eu queria fazer era: tendo em conta tanta gente que passou pelo grupo, 20 pessoas, pelo menos uns mais tempo do que outros, com tão pouca estabilidade, obviamente, que isto foi evoluindo por vários anos, mas como é que a banda conseguiu atingir o sucesso apesar desta instabilidade de membros do grupo? Não foi ali um grupo muito fechado.

Sim, eu gosto de coletivos e eu estava a ver se seria tanta gente como aqui em Alvalade com o Camonga, por exemplo. Mas eu gosto desse espírito de ter músicos, tocar com músicos novos, nem que seja convidado para o concerto, o Leonel, saxofonista, que ficou conosco também, o Rui Júnior chegou a tocar percussão num disco conosco. Houve uma série de gente mesmo muito diferente.

Ainda faltam aí alguns nomes.

Ainda faltam.

Chegamos aos 30.

Agora, há aqui uma coisa, obviamente, não é por estarmos aqui os dois, mas há uma razão e a razão é estarmos aqui os dois. Nós éramos o núcleo que compunha, escrevia e compunha as canções a meias. O Fernando depois começou a produzir e basicamente nós levávamos o barco à frente em termos de direção. E se calhar essa era a estabilidade que tínhamos.

E também, vamos lá ver Os períodos são muito importantes. Na década de 90, portanto desde 86 até 91, quando fizemos o "Ser Maior", a base do grupo, quatro sempre foram os mesmos: eu, o Miguel, o Jorge Quadros e o Fadigas. Só foram rodando os teclistas. E o Fadigas só esteve um ano fora do grupo, de resto esteve desde 86 até o fim.

Até agora.

E o Jorge Quadros saiu, seguir aos Desalinhados e foi para os Siteados e foi substituído pelo Ramalho, que esteve a década toda praticamente no grupo. Portanto, as variações que houve foram pontuais durante pequenos períodos de tempo. As formações principais foram realmente esta, que é a que temos agora, com exceção de que na década de 90 o Jorge Quadros esteve uns anos fora e teve lá o Ramalho.

Muito bem. Meus caros, temos muito pra falar na segunda parte. Miguel Ângelo e Fernando Cunha, voltaremos daqui a alguns instantes. Vamos fazer uma breve pausa para informação e já voltamos para continuar esta conversa em 40 Minutos. Até já. Estamos de volta para o 40 Minutos, hoje com os Delfins, neste caso não o grupo completo, mas temos conosco o Fernando Cunha e também o Miguel Ângelo. Vamos estar a falar sobre este concerto dos 40 anos de celebração. A banda está de regresso para marcar essa efeméride, mas antes de ir a esse concerto, que vai ser certamente marcante, vamos falar de outros concertos marcantes. Já atuaram um bocadinho por todo o país, se não mesmo todo o país. Já atuaram lá fora também em grandes palcos, um pouco por todo lado, Brasil, Timor, França. De todos os concertos que já deram, qual é que foi aquele que vos marcou mais?

Por mim, em Portugal, houve dois concertos que foram muito importantes. Um foi quando abrimos pra Tina Turner, 60 mil pessoas em Alvalade, e o outro foi na Expo 98, quando tocamos com a primeira parte do Barão Vermelho, em que segundo os organizadores da festa, estavam cerca de 100 mil pessoas. E esse foi o maior enchente de Expo. Lá fora, há um que eu normalmente me esqueço de falar, mas que foi muito marcante pra mim e pra os Delfins. Foi quando tocamos no Dia da Independência em Timor-Leste. Foi um concerto muito especial.

Também na restauração. Estavam 70 mil pessoas também.

Por causa de tudo que envolvia. Aquilo era um aparato de segurança, uma coisa. Os chefes de Estado do mundo inteiro ali. Aquilo era parecido que estávamos num filme. Passamos ao lado do Bill Clinton, não o conhecemos.

Altíssimo, o gajo.

Mas conhecemos o Ramos Horta e outras figuras importantes. E foi uma coisa memorável, ligado ao Dia da Independência de uma nação, que é uma coisa extraordinária.

Claro. Concordas, Miguel?

Sim, por acaso fiquei um bocado desiludido contigo quando referiste o concerto da Expo, da Praça Sónico, pensei que ias referir o concerto que demos lá quando o Sporting foi campeão.

Eu não quis ser assim faccioso.

Então mas vamos a Alvalade. Esse concerto que o Fernando estava agora a dizer, da Tina Turner. Vocês atuaram no Estádio José Alvalade com 60 mil pessoas. Na altura, o Diário de Notícias dizia que nunca uma banda portuguesa tinha tocado para tanta gente.

Sim, é verdade.

É especial por ter sido no estádio do vosso clube?

É especial, acho que sim. Quer dizer, não só por ser no estádio do nosso clube. Por acaso os Delfins sempre foram todos do Sporting, que é uma coisa completamente incrível. Os cinco músicos base, mesmo os que mudaram, eram sempre do Sporting, mas era por acaso. E por acaso, não é só por ser do Sporting, mas repara, nós tínhamos crescido em Cascais e vivíamos ao lado daquilo que se chamava a Catedral do Rock. Todos os concertos eram no Pavilhão Dramático e nós víamos todos os concertos no Pavilhão Dramático. E quando se inaugura a época dos estádios com os Stones, logo ali em 90, e depois logo a seguir com o Bowie e a Tina Turner, o novo spot para os concertos são os estádios. E por acaso começou a ser em Alvalade. A maior parte dos concertos desses, Michael Jackson e Santana, foi tudo em Alvalade. E portanto, pra nós era muito importante estar no novo palco gigante no início dos anos 90, onde as coisas estavam a começar a acontecer a uma megaescala, que nunca tinha havido em Portugal. Portanto, não era só por ser do Sporting, era também por podermos estar ali. Agora, esse concerto, estávamos lá porque fomos convidados.

Como é que surgiu esse convite da Tina Turner?

Nós éramos, o Fernando conta normalmente isto até melhor que eu, que éramos a primeira parte do Chris de Burgh. Era assim.

Nós fomos convidados, se não tenho erro, pela RV.

RV, sim.

E nós éramos pra abrir para o, como é que se chamava?

Chris de Burgh, que ia abrir pra Tina.

Chris de Burgh é que era o artista principal que ia abrir pra Tina Turner, que fez a turnê toda dela na Europa. Só que ele adoeceu. E graças à doença dele, nós fomos promovidos.

É daqueles maus que é bem problema.

A banda de abertura, portanto ficamos com as mordomias todas de backstage.

Que mordomias eram essas? Diz-nos lá, Fernando.

Tínhamos um camarim bestial, tínhamos direito a bebidas alcoólicas no camarim, coisa que os músicos da Tina Turner não tinham. Aliás, iam lá bater à porta, depois a gente lhes dava umas cervejinhas. E fomos muito bem tratados pela stage manager, por tudo. Claro que tivemos que subornar os técnicos da Tina Turner pra nos deixarem ter som ao mesmo nível. Mesmo assim, não foi tão alto como a Tina Turner, mas deixarem os nossos técnicos trabalhar. O meu irmão, que na altura era o manager, aliás, usou o nosso cachê pra pagar aos técnicos. Mas também há uma coisa que eu gostava de referir, que me esqueci. Houve um concerto também muito importante, antes deste patamar dos estádios, que foi na Catedral do Rock. Nós éramos pequeninos. A partir dos 10 anos, íamos lá ver os concertos todos. Com bilhete, sem bilhete, noite de sábado, a gente entrava sempre. O primeiro sonho era tocar ali no Pavilhão do Dramático de Cascais. E um pouco antes deste, já não me lembro exatamente quando, mas para aí um ano antes, não sei se chegou a ser um ano antes, abrimos para os Simply Red. Foi a turnê do Ricardo Casimiro que nos convidou. Nós frequentávamos muito o bar dele, que era o KGB, e convidou-nos para abrir para os Simply Red, que também foi um grande sucesso, porque aquilo teve o barrote, para aí 6 mil pessoas, não sei.

Mais. Aquilo cheio tinha quase 10 mil.

Pingava do teto. E esse foi o primeiro sonho concretizado, tocar no Pavilhão de Cascais.

Por acaso já tínhamos lá tocado antes, em 87, à tarde, com o GNR, no Festival da Juventude.

Sim.

Isso é que é uma memória. Tinha aqui uma curiosidade que gostava de saciar, excluindo um bocadinho os concertos, já lá vamos. Há duas músicas vossas em que no título vocês puseram o algarismo em vez do artigo definido. Ou seja, estamos a dizer o um, em vez de um, o M, em vez de ser por extenso. É o "Um Lugar ao Sol", em que aparece um algarismo, e temos também o "Um Só Céu", em que aparece também um algarismo. Para quê?

São do mesmo álbum, e eu acho que a pop vive destas coisas. Acho que quem fazia isso era o Prince, e a gente gostava. Eu me lembro que fomos ver em um antigo cinema de Cascais, o Purple Rain, o filme, numa altura que ainda havia o Cinema Oxford, agora é um templo. Ficamos maravilhados quando ouvimos o 1999 e depois o Purple Rain, ninguém conhecia quase nada em Portugal do Prince, e ficamos maravilhados. Eu fiquei fã e comecei a seguir. Ele usou muito a cena de trocar palavras pelos números e o You ponto só o U. E havia os U2 também, que faziam isso. Eu acho que essa coisa da pop dos anos 80 foi que nos inspirou para fazer, no mesmo álbum, no outro lado existe, que também era com o U. Em vez do or era o U. Eu acho que foi uma inspiração direta do Prince.

Boa, é que eu fiquei muito intrigado com isto. Já estou com a curiosidade mais saciada. Vocês nasceram em 84, já aqui dissemos, fazem 40 anos agora em 2024. Cresceram também com momentos importantes do país. E já falaste, por exemplo, Fernando, no concerto da Expo 98, creio que foste tu. Estiveram também na digressão das cidades do Euro 2004, nos Eurodromos. Ou seja, foram também acompanhando essa evolução, este crescimento do país. Vocês, com este passar dos anos e com essa ligação também a estes momentos importantes, notam que o país, em termos de cultura, está melhor do que o que estava quando os Delfins nasceram? Teve essa evolução também?

Está muito diferente, variadíssimos níveis, porque no nosso tempo nós éramos pioneiros em uma data de áreas relativas à música, não só como músicos, como produtores, como engenheiros de som, como roadies, como managers, agentes, todos nós, toda essa geração e a anterior a nós um bocadinho, e a nossa, foram pioneiros. Hoje em dia, está tudo diferente. Há muito mais gente a fazer música, que é outra das diferenças.

Mas achas que está diferente para melhor?

No nosso tempo, a concorrência era entre meia dúzia, dois mão cheios de bandas que faziam concorrência. Havia muitos projetos que começavam e acabavam passado muito pouco tempo. E agora não, agora há uma oferta de música enorme nos seus vários estilos. Bem feita, bem produzida, há uma competição muito maior. Não há aquele apoio editorial que havia no nosso tempo. Quem assinava um contrato com uma editora tinha uma carreira quase garantida, pelo menos pelos primeiros anos.

Nisso que era a proximidade maior, não?

E havia um apoio, as editoras pagavam tudo. Também pagavam muito royalty miserável, mas pagavam tudo. E hoje em dia, tirando raras exceções, as editoras fazem contratos de distribuição e não contratos de edição. Mas também há a autoprodução, há o automanagement, há o artista que se autopromove nas redes sociais, que não existia no nosso tempo. Mudou tudo.

Os Delfins teriam tido mais sucesso com redes sociais em 1984?

A informação está toda na internet. Quem quer aprender, vai à internet e aprende, seja o que for.

Mas acham que teriam tido mais sucesso se tivessem redes sociais na altura?

Eu acho que mais sucesso do que nós tivemos ali em meados de 90 é impossível no país que foi o nosso. Os discos bateram recordes até hoje de vendas, quer o "Caminho da Velocidade", quer, e às vezes não se diz isso, o "Saber Amar", são os dois discos mais vendidos, sempre, em CD. E saiu agora em vinil pela primeira vez o "Caminho da Velocidade", porque na altura não foi lançado em vinil, porque vinil na altura já não fazia sentido comercialmente. Culturalmente, não só na música, mas mudou tudo. Politicamente, não sei. Nós quando começamos, estava ali havendo um bloco central e agora ...

Vamos parar, vamos parar mesmo.

Não se fala mais.

Vamos parar os mesinhos.

E que foi único. Eu acho que foi para melhor em todos os aspectos. Então na parte da cultura, há uma coisa que eu posso falar, e já temos falado disso nas entrevistas que damos, quando se fala agora do Altice Arena. É que na altura era difícil vender bilhetes. Mesmo bandas com algum sucesso para encher um Coliseu, era muito difícil. Havia artistas que só conseguiam fazer um Coliseu já com muitos anos de carreira.

E agora esgotam quase no próprio dia.

E as pessoas agora compram bilhetes. E era bom, porque antigamente compravam só bilhetes pra ir ver futebol. E agora já compram também muitos bilhetes pra ir ver música ao vivo, ouvir música ao vivo. Isso é um sinal muito positivo destes tempos. Ok, deixaram de comprar discos, basicamente, mas pelo menos usam esse dinheiro para ir ver artistas ao vivo.

Falavas aqui nos anos 90, tiveram esse boom, creio que 95, talvez até o vosso melhor ano, platinas atrás de platinas, sucesso que ultrapassou as fronteiras nacionais. Acham que os portugueses também reconheceram esse vosso sucesso ou acabaram por ser talvez um pouco injustos com os Delfins com o passar do tempo?

Quais portugueses?

Portugueses no geral.

Meia dúzia deles?

Sim, talvez. Até porque acho que é reconhecido unanimemente que-

Uma banda que no espaço de um ano, lança o "Caminho da Felicidade", são seis platinas. E nove, 10 meses depois, lança o "Saber Amar" e são mais seis platinas. Quer dizer, num país com nove milhões de habitantes, é só fazer as contas.

Melhor era impossível, não é?

Sim, era o que o Miguel estava a dizer. Aí a gente procurou a internacionalização do grupo, fomos para o Brasil. Aliás, o "Saber Amar" foi gravado numa turnê que fizemos por vários países, em que fomos gravando uma música em cada lado e acabamos no Brasil e misturado em Inglaterra. Depois voltamos a Portugal e acho que sofremos ao contrário, foi pensar: "E agora? Agora o que a gente vai fazer?"

Reinventarem-se.

Depois o nosso editor, o Tozé Brito, abandonou o barco da BMG na altura e houve uma altura em que a editora andou um pouquinho à deriva, quando a gente mais precisava dela pra nos internacionalizarmos no Brasil. Porque era preciso ir para lá mais vezes. Nós fizemos a promoção toda que havia para fazer.

Foi o fim da BMG, aqueles últimos anos da década de 90, foi o fim da indústria como era conhecida, e especialmente o fim da BMG, que era do grupo Bertelsmann, que hoje em dia está dentro da Sony.

Que é o círculo vencedor, aquela equipa vencedora.

Quando o Tozé sai, começam a vir diretores uns atrás dos outros, do Brasil, de Espanha, e aquilo não funciona e cada vez se afunda mais. E nós até abandonamos o barco antes dele se afundar completamente e tomamos a nossa carreira nas nossas mãos, saindo da editora. Já o tínhamos feito quando saímos também da Valentim de Carvalho, da EMI, na altura, quando não concordávamos com a gestão de carreira que eles faziam e já estávamos prontos pra fazer tudo outra vez, de maneira independente. E aí, felizmente, foi mais fácil, porque nos anos 2000 já conseguia-se fazer as coisas de outra maneira. O digital veio ajudar muito.

Olhando pro concerto que vem aí, o concerto de celebração dos 40 anos, vocês fizeram uma pausa. Uma pausa em 2009, foi dito que era o fim, mas em 2019 voltaram. Foram 10 anos de suspensão dos Delfins. As saudades eram muitas? Durante esses 10 anos, como é que esteve esse coração?

Os 10 anos passaram num instantinho, na verdade.

Foi depressa, não foi?

Tanto eu como o Miguel, e não só, os outros membros do grupo, estivemos sempre muito ocupados. Nós mais também na música. A partir de 2012, voltamos a tocar juntos com a Resistência e estivemos sempre ligados a outros projetos musicais. E passou num instante. Mas sim, já tínhamos tido vários convites antes desses 10 anos e fomos recusando, que achávamos que era muito cedo pro grupo voltar, até porque a gente nunca disse que o fim era definitivo. A gente parou por tempo indeterminado, mas isso nas bandas nunca se sabe. Basta olhar pros Rolling Stones.

Claro, ora aí está.

Mas acho que o que desbloqueou realmente isso, foi o convite da Câmara de Cascais.

Até porque era a vossa casa.

Tocarmos em 2019, como convidados da Orquestra Sinfônica de Cascais, num concerto de homenagem ao grupo, em que a primeira parte era a orquestra com cantores convidados, bem conhecidos aqui da nossa praça. E nós nunca tínhamos tocado com uma orquestra. Eu e o Miguel começamos a pensar: "Isto vale a pena fazer". E depois o resto. Ensaiamos pra orquestra, ensaiamos tudo, já estava tudo ensaiado. Correu muito bem o concerto, foi um sucesso incrível na Baía de Cascais. E depois começamos a ter convites. "Vamos fazer isto, vamos fazer aquilo". Depois era o Rock in Rio, depois era não sei o quê.

E não há fim. Hoje em dia, eu acho que já não há fins. A tecnologia já tomou conta do assunto.

Pensava que um dia íamos ter uns Delfins com inteligência artificial.

Vimos agora com o símbolo dos Beatles. Eu acho que deixou de haver o fim na cultura, nesta profissão. Não somos nós, são os avatares do Zaba. Eles podem morrer e estão lá os avatares e cantam, a inteligência artificial faz canções como eles faziam.

Isso assusta-te?

Quer dizer, a mim não me assusta, talvez assuste os meus filhos. Eu acho que não vou passar, mas sim. Eu por acaso vi hoje um daqueles reels no Instagram, e hoje não sabemos se são verdadeiros ou não, que eram robôs a treinar a disparar e com uma grande pinta, a acertarem nos alvos todos com metralhadoras. Exatamente como se fosse uma cena do Robocop, mas real. Isso, sim, assusta-me.

Olhando pro concerto dos 40 anos, um concerto que é antecipado por muita gente, vai acontecer no dia 6 de abril, Altice Arena, como aqui já disseram. Nós tivemos, ao longo da vossa carreira, tivemos concertos em que o público pôde escolher as músicas que vocês iam tocar, com uma votação on-line. Tiveram um concerto em que só tocaram as músicas que não costumavam tocar. Tiveram concertos em que tiveram uma espécie de musical, em que apostavam muito nos cenários, na parte cênica, na parte de espetáculo. Juntando tudo isto, todas estas inovações que os Delfins nos habituaram em termos de espetáculo, o que é que os fãs dos Delfins podem esperar deste concerto de 40 anos? Ainda mais sendo no Altice Arena.

Eu acho que a gente vamos dar ao público aquilo que o público realmente quer, que é ouvir os grandes êxitos do grupo, que são aquelas canções que o Miguel já referiu muitas vezes, continuaram a passar na rádio esses anos todos. E que passam mensalmente, cerca de, Miguel, tu é que tens essa informação.

Tens essa conta?

Tenho. Eu tenho uma aplicação que vê em real time onde é que passam as canções. É engraçado, porque por mês estávamos a passar pra aí 120, 130 vezes na rádio, nas rádios principais.

Isso é por mês?

Por mês, canções dos Delfins. E agora, desde que houve o anúncio em 15 de junho do Altice Arena, subiu surpreendentemente pra 200 e tal. Há 200 e tal vezes que as canções dos Delfins passam na rádio.

Em todas as rádios?

Em todas, nas principais, não estou a falar das locais. Estou a falar das principais e aquele estudo às vezes tem uma ou duas, uma do Norte, como a Festival, rádios mais populares e que têm muita audiência, mas são rádios de grande audiência. E obviamente não é em todas as rádios, mas há muitas rádios que continuam a passar Delfins e são aqueles 12 temas, 13 temas do Saber Amar, o Cor Azul, a Bandeira, Lugar ao Sol, Sou Como o Rio, A Baía de Cascais, a Canção do Engato, o Sonho Teu, o Aquele Inverno, o Um Só Céu. São esses temas que continuam a passar. E é incrível como é que as pessoas continuam a ouvir essas canções. Não faria sentido nós voltarmos agora com um espetáculo inovador em termos de setlist, até porque para isso o que faria sentido era um álbum novo. Isto é basicamente pegar naquelas canções e preparar muitas surpresas em termos cénicas. Os espetáculos mudaram muito e o conceito de espetáculo mudou muito desde dos tempos áureos dos Delfins. Agora, o setlist vai ser aquele, vai ser puro e duro, vai ser um desfile de singles sem respiração, bastante dinâmico, sem grandes nostalgias ou saudosismos.

E em termos de espetáculo, não nos podem revelar? Levantar o véu?

Posso dizer que não somos só nós que estaremos em palco.

Ok. Não vou perguntar quem, porque eu sei que vocês não vão responder.

Não vamos responder.

Muito bem, mas estamos quase a terminar a nossa entrevista. Isto passa muito depressa, infelizmente. Gostava muito de continuar aqui a conversar convosco. Mas antes de terminar, que gostava de terminar de uma maneira diferente até do que costumamos terminar aqui no "40 Minutos". Vocês trabalham juntos há 40 anos, mais de 40 anos, talvez.

Sim.

Mais de 40 anos, sendo que são a pedra basilar dos Delfins. Têm também projetos individuais, tiveram projetos até principalmente enquanto os Delfins estiveram parados. E aqui no caso do Miguel Ângelo, a tua voz fica também muito marcada ao cinema com a voz do Woody, do Toy Story.

Sim, claro.

Ora, eu não podia deixar de terminar.

Não trouxeste o boneco, não?

Trouxe.

Ah, lindo!

Eu trouxe aqui o Woody.

Uau!

E vamos confirmar. Ajudas-me a preparar uma unidade? Temos de apanhar aqueles bandidos.

"Temos de apanhar aqueles bandidos".

Ora, Miguel, eu gostava de perguntar se o Fernando Cunha é o teu Buzz Lightyear ou não, o que achas? Ou já agora, Fernando, se o Miguel é o teu Woody também.

Eu posso dizer uma coisa, eu nunca fiz isso.

Nunca deste a voz a nenhum boneco?

Não.

Mas fizemos uma coisa os dois, e não só, a Dori e a Sandra, que também foi fora da caixa. Nós fomos atores.

Sim.

E eu fui ator.

Agora vai haver o pormenor do André a escrito na bota.

Na peça "O Breve Sumário da História de Deus", com o grande José Viles, que nos deixou há pouco tempo. E que também foi uma coisa completamente fora. O Miguel é que entrou nessas aventuras e eu nunca fui por aí.

Mas achas que têm uma amizade parecida com essa do Woody e do Buzz Lightyear? O Fernando Cunha é o teu Buzz Lightyear?

Não sei, porque o primeiro filme de Toy Story tinha a tradução em português "Os Rivais", porque eram uns brinquedos que andavam rivais. Portanto, eu acho que nunca houve essa rivalidade.

Não posso opinar.

Nunca houve essa rivalidade entre nós.

Amizade. Espero que essa amizade continue e que continue também muito presente nesse dia 6 de abril de 2024. Ainda há bilhetes?

Há bilhetes, estão as bancadas, está tudo esgotado cá embaixo, estão as bancadas a esgotar agora, neste momento. O primeiro balcão já está.

Então ouvintes da Rádio Observador, já sabem, acelerar, até porque como dissemos aqui na conversa, isto agora esgota sempre muito depressa. O que por um lado também é bom sinal. Fernando Cunha, Miguel Ângelo.

André, pode acabar com o Woody?

Pode.

Então vamos acabar com o Woody, ver o que é que ele diz. Não faço ideia o que é que são.

São frases aleatórias. Eu acho que não há nenhuma frase má. Bem, puxa o meu cordão. Pronto, já puxei. Miguel Ângelo, Fernando Cunha, muito obrigado e boa sorte para esse dia 6 de abril. Um abraço. O "40 Minutos" regressa para a semana com mais uma entrevista.