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Aquilo que se passou no último ano não era expectável pra mim que acontecesse. Trata-se de uma coisa um bocadinho mais assustadora, quer dizer, estes movimentos neonazis são realmente preocupantes. O ódio que se cria, tudo isso me assusta muito, porque acho que coloca o povo português num sítio preocupante. Assusta-me a possibilidade da violência na rua, de nós não podermos ter aquele país que nós sempre tivemos, harmonioso, de certa forma, onde era agradável estar e passarmos a ter um país em que as pessoas vivem com medo, não é? Medo mesmo da sua segurança física. Isso parece-me que ainda é mais grave do que aquilo que se vivia antes do 25 de Abril.

Cresceu com o fado à mesa, cantado em família entre Alhandra e Vila Franca de Xira. Mais tarde, e ainda jovem, desenhava e declamava poesia no Chiado e ficou conhecida por isso. Ainda assim, foi na adolescência que revelou a sua rebeldia entre Madri e outras paragens. Chegou a ser, imagine só, vocalista de uma banda de hardcore e punk rock. Acabou por depois seguir a intuição e a alma, largou tudo pela representação, o teatro, a televisão e olhando para trás, o caminho e o respeito que recebe dos seus pares, fala muito por si. Um amor maior, os filhos, três homens por quem diz ter um grande orgulho e ter dado a vida. Uma atriz de muitas vidas, alma de todas as histórias, Maria João Luís, em 40 Minutos. Bem-vinda aqui à Rádio Observador. É um gosto recebê-la.

Obrigada. E obrigada a todos os que nos vão ouvir também.

São muitos, tenho a certeza. Nesta pequena introdução, creio que falámos aqui muito de amor e de muitas paixões da sua vida. Algumas mantêm-se, outras, se calhar, perderam-se. A banda, já vamos perceber em que parte é que entrou da sua vida, mas falando aqui de todas estas dimensões, considera-se uma mulher feliz?

Esse conceito é um conceito muito difícil. O conceito de felicidade é um conceito difícil de definir, o que é isso da felicidade. Nós não somos sempre felizes. Temos momentos em que somos felizes, temos outros em que somos menos felizes. Enfim, a vida, o que nos rodeia, tudo isso vai sendo influenciador dessa alegria ou dessa felicidade. Eu considero-me, sobretudo, uma mulher realizada, isso sim. Ou seja, penso que tudo aquilo que eu me propus fazer na vida, acabei por fazer, porque tive essa energia, tive essa vontade, essa alegria de propor projetos, de os executar, de os ver feitos. E isso é, sem dúvida, uma mais-valia na vida, que nos traz algum respeito por nós próprios.

E dos outros também, não é?

Sim, eventualmente, dos outros. Os outros são os outros, logo eles é que sabem o respeito que têm ou não. Mas sim, a esse nível posso me considerar, sobretudo, realizada.

Falava aqui de projetos, de criar, de propor. É uma mulher hoje mais racional ou continua a seguir muito a sua intuição e naquilo que acredita para formar uma ideia, formar um projeto?

Sigo muito a minha intuição. Sempre fui uma mulher bastante intuitiva e sempre segui muito a minha intuição. É evidente que para conseguir as coisas e para conseguir ter a vida que tive até agora, também tive de contar muito, há sempre um fator, que é o fator sorte nesta coisa da nossa vida. E eu fui, digamos, bafejada por isso. Conheci muito cedo pessoas que me influenciaram de uma forma muito importante. Conheci muito cedo autores que também me influenciaram na minha vida e no meu percurso de vida, sobretudo determinados movimentos, como o movimento surrealista, que eu sempre fui fã. E tudo isso me influenciou, tanto na vida como nos projetos que eu fui desenhando ao longo da vida. E depois, a televisão, que de certa forma estava a começar a fazer ficção, a ficção nacional, quando eu era muito nova, portanto, e quando eu entrei na profissão. E comecei a fazer televisão logo muito cedo. Portanto, também tive essa sorte, no fundo.

Estava no lugar certo no momento certo.

Exato. Também talvez por algum talento que eu teria e que achavam-me capaz de fazer. Mas, por exemplo, posso lhe dizer que fui a voz da Telecel, quando começaram as telecomunicações em Portugal Fui eu a voz da Telecel, que depois mais tarde se transformou na Vodafone, de uma forma muito particular, de uma forma muito simples. Fui abordada na rua por três pessoas, na altura eram três brasileiros, que reconheceram-me enquanto atriz e perguntaram se eu queria fazer um casting no Marquês de Pombal.

Essa memória continua muito presente na sua vida.

Sim, eu tenho memórias incríveis destas coisas. Era impossível não as ter. E perguntaram: "Olha, tu és atriz, não queres fazer um casting?" E eu disse: "É pá, sim, posso fazer". É um casting de voz para uma empresa de telecomunicações que vai abrir em Portugal. E eu fui fazer o casting e fiquei. Portanto, isso começou logo por me pagar a renda durante grande parte da minha vida.

Uma grande ajuda, acredito.

Uma grande ajuda. Quando se trabalha no teatro. Portanto, foi logo uma coisa extraordinária. Fiquei no casting, gravava em Londres, porque eles tinham estúdios em Londres.

E permite-lhe viajar também.

Era uma empresa de voz americana, portanto eu ia e vinha para Londres duas, três vezes por mês. E fui a voz da Vodafone, de Telecel e Vodafone, durante anos, anos e anos. Portanto, tive sempre essa espécie de proteção.

Sim, estou a perceber.

Que a vida me deu. Não ganhava uma fortuna, mas ganhava o suficiente para poder pagar uma renda de casa.

E para dedicar a outras coisas também.

E para me dedicar a outras coisas, o que não acontecia com grande parte dos meus colegas. Depois fui fazendo dobragens também. Portanto, tinha também esses dinheiros que vinham das dobragens. Fiz muitas dobragens durante muitos anos e trabalhei muito. Trabalhei muito, percebe? Muitas horas.

E prova disso também é a quantidade de coisas que já fez ao longo da sua vida.

Muitas horas. Fui uma trabalhadora incansável até hoje. Trabalhava 12 horas a fazer novela e ainda ia fazer teatro, porque nunca quis largar o teatro.

Na altura, já o Teatro da Terra?

Não. Trabalhava com encenadores. Comecei por trabalhar com a Barraca, isto foi o que me lançou na minha carreira.

A Menina do Sidacre. Que era a sequência.

A Menina do Sidacre, exatamente. E pronto, a partir daí, a partir desse contacto e dessa aprendizagem enorme que eu tenho com a Maria do Céu Guerra, com o Helder Costa e com muitas outras pessoas que me foram apresentadas na altura, pessoas absolutamente extraordinárias, de valor, intelectuais, brilhantes, escritores, muitos amigos escritores importantíssimos, como o Herberto Helder, o António José Forte. Portanto, tive o privilégio de conhecer muita gente das artes com muito valor e muita importância.

Não pude deixar de reparar no brilho, no olhar que ficou agora quando disse, aliás, a Menina do Sidacre. O que é que ainda há dessa menina em si?

Sabes que eu às vezes acho que passei pela vida de uma forma, não te sei bem explicar, mas é como se eu nunca tivesse largado essa menina.

Ela continua aí de alguma forma.

Continua, sempre. É incrível. E continua a energia dessa menina. Percebes?

É tão bom.

Essa vontade de descobrir, de aprender, de conhecer mais. Isso continua em mim, continua completamente em mim. E a consciência de que por muito que se viva, tu sabes sempre pouco. Há sempre muito mais para descobrir.

E é bom de sentir isso, porque também nos torna, se calhar, mais ávidos por mais, por ir procurar mais, por querer saber mais, por querer fazer diferente, porque daquilo que sentimos de si é que é uma mulher com muito sucesso, quer seja em teatro ou em televisão, mas que o teatro ocupa sempre um lugar muito especial e a Maria João Luís, mesmo fazendo televisão, nunca deixou o teatro de lado. Esteve sempre lá.

Estive sempre lá. Tenho consciência de que aprendi muito mais como atriz do que como encenadora. Tenho essa consciência absoluta. Daí a minha enorme vontade de encenar, porque é uma zona que eu sinto que tenho ainda muito para descobrir. E o trabalho do encenador é um trabalho completo, também o do ator, mas tem tanto de arquiteto.

É um olhar mais clínico.

É um olhar mais clínico. O trabalho com os atores, a direção dos atores, a concepção cênica, a concepção do objeto total. Isso para mim é absolutamente fascinante. E sei menos disso ainda. Sei muito mais da arte de representar do que propriamente deste outro lado da arte. Curiosamente, realizei um filme num convite da RTP e da UCBar, num projeto que se chama Contado por Mulheres, e realizei um filme e descobri também aí um bicho em mim. Ou seja, adorei realizar. Fiquei entusiasmadíssima, até porque como fiz muita televisão, tenho o olhar da câmera muito presente em mim. E então foi-me fácil isso. Foi-me bastante fácil essa coisa da realização. E tinha vontade de voltar a realizar. Tenho vontade ainda. Não tenho é tempo. Mas se tivesse tempo, com certeza que iria realizar.

Vai sempre a tempo. Acredite que sim.

Tenho pouco tempo, tenho muito o que fazer.

Há bocadinho falávamos aqui da questão da televisão. A última novela que fez foi em 2021, "Terra Brava". Sair da televisão foi algo que assumiu, precisava dessa pausa, precisava de mais disponibilidade para se dedicar ao teatro. Tem saudades, de alguma forma, e reconforta também o facto de saber que ao longo dos anos, esse afastamento que teve não provocou um afastamento também das pessoas em relação a si. As pessoas continuam a reconhecê-la, não digo na rua, mas como a atriz que é.

Sim, as pessoas continuam a reconhecer-me. Até porque, basicamente, e eu também já sabia disso quando deixei de fazer televisão, eu não deixo de estar no ar, porque há repetições das novelas. Eu fiz tantas. Eu estou muito no ar, sempre.

Há sempre coisas suas a aparecer.

Há sempre coisas a aparecer. Tenho saudades de fazer televisão. A televisão tem uma coisa que se coaduna muito comigo, que é um ritmo acelerado, e eu sou muito acelerada.

Para alguém que tem muita coisa também é preciso ser rápido, não é?

Eu adoro essa rapidez da televisão. E sempre que fiz televisão, fiz papéis grandes, eram cinco dias por semana, sempre de grande intensidade, 12 horas por dia. Aquilo era como andar, para mim. Não me era difícil, era fácil. Fazia parte da minha vida. Era como respirar, quase.

E personagens sempre, por aquilo que sei e que gosta de fazer, sempre com mais camadas e quanto mais difícil for, mais gosta.

Sim, com toda a certeza. Fiz muitas vilãs. Também fiz as boazinhas, mas não são tão engraçadas. As vilãs são fantásticas.

O que é que fascina em fazer uma vilã? Que são todas diferentes, aquelas que fez.

São todas diferentes. Fiz sempre diferente. Nunca fiz uma vilã igual à outra. Fiz uma gaga, fiz uma cômica. Enfim, eu penso que no trabalho da vilã há uma espécie de crítica que pode ser feita, muito acutilante, muito forte, àquilo que são os aspectos negativos da vida, àquilo que são os piores aspectos da vida. As piores fases do ser humano. E essa crítica a mim interessa-me. Poder mostrar, de certa forma, quais são as reações desses seres, interessava-me profundamente. As boazinhas choram muito, estão sempre a chorar.

Personagens mais sofridas.

São sofridas. São boazinhas. Não tinham para mim tanto interesse fazer. E acho que nem as fiz tão bem como fiz as vilãs.

Sente isso?

Não sei, não faço ideia. O público logo é que sabe. Mas não me davam tanto gozo. Não, isso não.

Maria João Luís, estamos aqui à conversa, o tempo voa. Temos de fazer aqui uma curta pausa para a nossa primeira parte, mas já voltamos a seguir com a segunda parte. Esta semana, Maria João Luís, em "40 Minutos". Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Maria João Luís. Já falámos muito de representação, de memórias também. Fomos à menina do CIDAC, mas eu sei que viveu uma fase de rebeldia. Já falámos aqui de uma banda punk rock, podemos dizer?

Sim, era punk rock, hardcore.

Bactéria Prima? Diz lá uma coisa.

Bactéria Prima, eu acho que era um nome extraordinário.

Se alguém entretanto quiser.

Não temos registos daquilo.

Era isso que eu queria saber.

Só temos umas cassetes manhosas daquilo. Fizemos concertos, fizemos ainda alguns concertos e tínhamos uma produtora que se chamava Produções Sumíticas.

É só nomes incríveis.

E organizávamos muitos concertos de punk rock e hardcore com o Estar Perdido, os Corrosões Caóticas.

Sentia-se confortável nesse ambiente? Para alguém que gostava tanto de poesia.

Sim, sentia-me confortável. Sim. Foi uma fase da minha vida. Eu não diria de rebeldia.

Mas deu trabalho aos seus pais.

Dei muito trabalho aos meus pais.

Fugiu de casa.

Sim.

Mais do que uma vez, não foi?

Sim. Dei algum trabalho aos meus pais.

E nessa altura em que cresceu, Maria João Luís apanhou aqui uma parte ainda de ditadura, não é? E depois o aparecimento da democracia. O mundo que sonhava na altura está muito diferente daquele que é agora?

O mundo que eu sonhava na altura, acho que era um mundo de uma enorme utopia, que nunca chegou a ser alcançada. Ou seja, a democracia surge, nós vivemos ali, eu diria que vivi ali uns 10, 20 anos, em que achava que era tudo possível, que a liberdade era uma coisa conquistada. Mas rapidamente comecei a perceber que não era bem assim. Rapidamente não, ao fim de 20 anos não é rapidamente.

Coincidiu com a fase da sua adolescência, um pouquinho depois disso.

Sim, eu tinha 10 anos quando foi o 25 de Abril, e aos meus 27, 28 anos, foi mais ou menos quando também tive a banda de hardcore e de punk rock, percebi que havia muito que fazer. E aquilo que era a minha utopia, aquilo que eu achava que o mundo poderia ser, não se enquadrava com nenhum dos movimentos políticos da altura. Eu sonhava um mundo diferente, completamente diferente.

Como é que era esse mundo?

Eu sempre tive esta coisa de uma visão muito mais poética da vida. Era um mundo sem fronteiras, era um mundo sem nacionalismos, como é evidente. Completamente sem nacionalismos, sem fronteiras, onde as pessoas pudessem ser livres e onde o poder não fosse uma força de opressão e de jogos políticos. Era esse o mundo que eu desejava.

Confrontar-se hoje com a realidade que vivemos deixa triste com aquilo que sonhou e que não se concretiza?

Não me deixa surpreendida. Está a perceber?

Sim.

Não me deixa surpreendida. Acho que mais tarde ou mais cedo adivinhava-se uma coisa deste gênero. Eu diria que aquilo que se passava há cinco anos, ou há quatro anos, ou há três anos, para mim era expectável que acontecesse. Aquilo que se passou no último ano não era expectável para mim que acontecesse. Porque trata-se de uma coisa um bocadinho mais assustadora, quer dizer, estes movimentos neonazis são realmente preocupantes. O ódio que se cria, os discursos de ódio Tudo isso me assusta muito, porque acho que coloca o povo português num sítio preocupante. Assusta-me a possibilidade da violência na rua, de nós não podermos ter aquele país que nós sempre tivemos harmonioso, de certa forma, onde era agradável estar e passarmos a ter um país em que as pessoas vivem com medo. Medo mesmo da sua segurança física. Isso parece-me que ainda é mais grave do que aquilo que se vivia antes do 25 de Abril.

Considera mais grave?

Considero. Acho que sim. Acho que pode vir a ser mais grave. Pode vir a ser pior. Porque as pessoas estão diferentes. A internet veio transformar muito a vida das pessoas.

As redes sociais?

As redes sociais. As pessoas não são aquilo que eram antes de 74. Isto transformou-se tudo tanto. Isto tremou-se tanto.

Mas por culpa da liberdade ou isto já transcende a liberdade?

Não.

Já é um outro conceito.

Isto é um outro conceito. Nós estamos a falar de partidos fascistas, neonazis, muitas vezes com coisas organizadas. É muito difícil, porque são grupos, às vezes, enormes, de muitas pessoas. Isso pode ser grave, porque uma vez que começa essa violência, uma vez que essa violência se desencadeia, como já aconteceu, não sei como é que se consegue travar. Não sei como é que se travará. Nós lutamos muito, por exemplo, durante muitos anos, pelos direitos da igualdade, da homossexualidade, éramos contra a xenofobia, a transfobia.

O racismo.

O racismo, enfim, todas essas coisas. A partir de uma determinada altura, eu percebi que nada disso estava assegurado.

Sempre teve esse alerta, essa consciência?

Sim. E, de certa forma, uma coisa que ainda é mais perversa, que é quando esses direitos foram adquiridos, de certa forma, entre aspas, as pessoas que procuravam essa igualdade e esses direitos, elas próprias se transformaram em conservadores. Está a perceber o que eu quero dizer?

Sim.

E puseram em causa as suas próprias lutas. Portanto, tudo isto, neste momento, é uma coisa para ser pensada. É preciso pensar, é preciso puxar pela cabeça. E a sensação que eu tenho é que não tenho esse tempo, porque é tudo tão rápido. Acontece tudo a uma rapidez tão grande, que eu sou sempre surpreendida diariamente com novas coisas, novos acontecimentos e não tenho tempo para pensar. Não tenho tempo. Eu, como artista, como criadora, sinto isso muito.

É tudo muito rápido.

É tudo muito rápido. O que fazer? Como falar dos tempos em que nós vivemos? Como colocar na arte uma coisa que é fundamental para os artistas hoje, neste momento, que é falar desta enorme coisa que está a acontecer pelo mundo inteiro, que é realmente preocupante, esta violência, estes discursos de ódio, todas estas coisas. Eu já não sei como pensar isto tudo, percebes? Preciso de tempo para pensar, porque sinto-me, de certa forma, privilegiada por existir neste momento histórico.

A história ajuda a compreender muita coisa também.

Por existir neste momento histórico, porque fico com uma coisa nas mãos que preciso de resolver, de falar sobre ela. Com aquilo que posso, que é a minha arte. E pensá-la e tudo isso. Portanto, sinto, de certa forma, esse privilégio. Eu sinto que nós temos o privilégio de viver este momento histórico e temos a obrigação de o contar Agora, lá está, preciso de tempo e esse tempo não existe. É difícil, percebes? Vamos possivelmente voltar a um teatro que se fez mais incisivo politicamente. Isso acho que é válido e deve acontecer. Mais crítico do ponto de vista político. É possível que isso vá acontecer. No cinema está a acontecer também. Eu tenho visto algumas séries, também está a acontecer na ficção.

Dá-lhe esperança, no fundo, essa criação e esse apostar para chamar a atenção ou para despertar consciência e as realidades?

Eu não sei falar de esperança agora. Não consigo falar de esperança agora. Neste momento, sei uma coisa: sei que tenho que estar presente. Percebes? E que tenho de ir buscar essa miúda do SIDAC. Estás a ver?

Sim. De alguma forma, é preciso.

Das causas e das lutas. De alguma forma, é preciso isso. Estou disponível para isso.

Falava aqui de ter tempo. Sei que agora grande parte do seu tempo, e falávamos aqui também na primeira parte dessa pausa da televisão, é dedicada àquilo que podemos chamar, se calhar, o seu projeto de vida, o Teatro da Terra.

Exatamente.

Ter tempo e esta liberdade são valores que para si, neste momento, são realmente inquestionáveis?

A minha liberdade é uma coisa inquestionável. O Teatro da Terra é um projeto que eu começo em Ponte de Sor, no Alto Alentejo, com uma relação muito forte com a comunidade.

Porque havia lá um teatro, mas que não tinha grande atividade.

Sim, nós tínhamos um monte lá, em ruínas, praticamente. Mas adorávamos a zona. É uma zona de uma natureza maravilhosa. Eu aconselho toda a gente que possa a ir visitar Ponte de Sor, porque realmente é um sítio maravilhoso. E vivi lá ainda durante 10 anos e fiz o projecto lá, que foi logo aceite pela autarquia. Fiz o meu projecto lá de teatro. Criei lá os meus filhos, até que eles começaram a querer vir para Lisboa. Começaram a querer sair dali.

E aí foi mais difícil, não é? O coração de mãe.

E aí era muito difícil, porque um deles dizia: "Eu vou para a casa da minha avó no Lumiar, vocês ficam aqui". Ele tinha 15 anos e eu disse: "Epá, não, isso não é possível. Não te deixamos ir". E depois de muito conversar, achámos que o melhor era realmente colocar o projeto numa autarquia mais perto de Lisboa.

Está no Seixal agora.

Para podermos voltar à nossa casa, mais perto de Lisboa, e trabalharmos mais perto. E estamos no Seixal, exatamente. Estamos com o projeto no Seixal.

Falando aqui deste projeto, falou também dos seus filhos. Eles são hoje os maiores cúmplices ou críticos daquilo que faz, não só neste projeto do Teatro da Terra, mas naquilo que também representa para nós enquanto atriz?

Tenho o meu filho do meio que é psicólogo, o mais velho é técnico de som.

Está no meio também.

Está no meio. E o mais novo é técnico de luz. Seguiu as pisadas do pai, que é engenheiro de luz, portanto eles seguiram esta arte, no fundo, cresceram nela. E também adoram o que fazem e são super realizados. E são críticos, são adultos com cabeças boas e conscientes, e são críticos também daquilo que eu faço, mas normalmente gostam do que eu faço.

Este é o seu maior papel de vida, ser mãe?

Ser mãe é, sem dúvida. E trabalhei muito por causa dos meus filhos. Trabalhei muito. Chegava a trabalhar 12 horas em televisão e depois ainda ia fazer teatro para garantir que os meus filhos tivessem segurança. Porque a nossa profissão é muito precária e então tive que trabalhar muitas horas. Inimaginável. Os meus colegas sabem o que eu trabalhava.

Falamos aqui de muito orgulho, sente-se ao falar desses três homens que neste momento fazem parte da sua vida.

Os quatro, porque o pai também faz.

Sim, é verdade. É uma família aqui. Tirando um, muito ligado à arte do espetáculo, mas tenho a certeza que o filho do meio também se interessa muito por aquilo que a mãe faz.

Sim, também.

Queria falar aqui também sobre um tema: o passar da idade e a maturidade que vai tendo ao longo da sua vida. Sentiu já algum tipo de seletividade para algum papel que lhe foi atribuído?

Em termos da minha idade?

Uhum. E como é que lida com esse passar do tempo, o envelhecimento?

Olha, eu lido bem. Eu lido muito bem com o passar do tempo. Lá está, eu acho que não me sinto a envelhecer. Não te sei explicar, é verdade. Não me sinto a envelhecer.

Mas isso é bom.

Sinto-me com imensa energia. Eu tenho 62 anos, quer dizer, também não sou propriamente uma ancienne.

De todo.

Mas sinto-me com imensa energia. Sinto que, para já, imprimo mais nova, sempre. Estás a perceber? Não faço nenhum tipo de cirurgia, nem de intervenção estética, nem nada dessas coisas. E sinto-me bem, tenho rugas, tenho que ter, é normal.

Mas isso é história, para contar.

E eu adoro ver-me envelhecer, adoro ver a mudança. Não tenho medo nenhum de envelhecer, nem da morte, nem de me aproximar da morte. Tenho isso tudo muito bem resolvido.

Apaziguado na sua vida.

Muito apaziguado na minha vida. Está-se bem, é assim.

Aqui em off falámos de um projeto, o Doce Fugitiva, porque falei que cresci com esse projeto, e falámos de duas atrizes, a Rita Pereira, a Mariana Monteiro, mas por aquilo que dá a conhecer até nós, a Maria João Luís, parece uma pessoa mais reservada, que gosta mais de ficar na sua bolha, que não gosta muito de festas ou até eventos sociais. Incomoda o facto de ter uma profissão que está tão associada à esfera mediática?

Esse sempre foi o lado que para mim mais me-

Difícil de gerir

...mais difícil de gerir, sim. Tinha de ir às festas muitas vezes, e eu sempre me senti um pouquinho deslocada nesses meios. Mas depois acabava por gostar de estar, porque efetivamente tinha muitos amigos, por exemplo, os Globos de Ouro, via muita gente, estava sempre com muita gente, apresentei muitas vezes os Globos de Ouro. Depois era prazeroso.

Sim.

Depois era muito prazeroso.

Só que ele pensar-

Ter que ir arranjar um fato, ter que pensar na roupa, imensa maquiagem, o cabelo, todo esse processo era um processo que me chateava um bocado. Mas fazia parte.

Muito bem.

Mas sempre fui assim, sempre poupei a minha família e as revistas de me assediarem. Isso sempre poupei.

Sim, e é uma imagem que permanece aqui. É muito, não vou dizer limpa, mas é uma pessoa que zela por esse bem-estar de quem está consigo e protege sempre quem está à sua volta. Isso fica patente. Em termos de projetos, já falámos aqui do Teatro da Terra, mas sei que em dezembro há novidades para partilhar conosco, não é?

Sim, nós vamos ter uma produção, estamos em parceria com a Câmara Municipal do Seixal, com este projeto, e com a DG Artes, portanto somos apoiados pela DG Artes. Nunca é muito dinheiro, é sempre uma coisa que andamos sempre ali numa-

No limite

...para se poder produzir um espetáculo, é preciso muita coisa. O espetáculo precisa de muita coisa, precisa dos atores, precisa de contratos, precisa dos iluminadores, precisa do diretor de som, precisa do diretor de luz, precisa dos figurinos, precisa da cenografia.

A quantidade de coisas que me está a dizer aqui já é perceptível.

Portanto, imagina. Toda esta gente tem de ganhar dinheiro. Toda esta gente é paga, e muitas vezes nunca são as bilheteiras que nos conseguem fazer pagar este tipo de coisas. Porque fazemos um teatro que não é um teatro de grande público, não é o teatro comercial. Embora eu faça também algumas comédias que se as pusesse no circuito comercial, com certeza que iriam pagar essas coisas todas. Mas esta peça, por exemplo, que nós vamos fazer agora, é de um autor norueguês, é o Ibsen. Fazemos muitos textos de autores importantes na história do teatro, como o Tchekhov, como o Shakespeare, que são textos de um teatro que não é um teatro comercial. Esta peça é uma peça que vai estrear no Fórum Municipal do Seixal, no dia 4 de dezembro.

Está quase, isto passa rápido.

Está quase. É uma encenação do António Simão, que é um dos fundadores dos Artistas Unidos, e é uma peça do Henrik Ibsen. A última peça do Ibsen, que se chama "Quando Nós, os Mortos, Despertarmos". Estreia a 4 de dezembro Pelas 21h30 e fica até 13 de dezembro. Depois vai fazer uma turnê. Mas para já, são estas as datas e convido-vos a virem ver o espetáculo.

Fica aqui o convite para os nossos ouvintes.

Tem atores maravilhosos, e gostaria muito que viessem ver. Eu entro como atriz também, o Marcello Dyer, entre outros.

Fica aqui o convite feito para os nossos ouvintes, para quem nos ouve em rádio, mas também em podcast. Tenho só mais uma última pergunta, para terminarmos este "Em 40 Minutos". Maria João Luís, o que é que a inquieta?

Lá está, é como eu te digo, eu sou muito inquieta, inquieta-me tudo.

Ficou perceptível. Mas se tivesse que escolher uma coisa, que quisesse agora falar aqui.

Meu Deus. Acho que já falamos dela. Inquieta-me o futuro dos meus filhos. Tenho três filhos. Não conseguem sair de casa, não têm dinheiro para pagar uma renda, ter um ordenado, pagar uma renda, ter filhos. Vivem em casa dos pais, porque não têm outra alternativa. Uma renda de € 1000 neste momento, que é o que se consegue para um T0 em Lisboa. E ordenados de 1500, o que já não é mau, mas não se consegue, como é que se sobrevive assim? Esta é a verdade, esta é a realidade dos nossos jovens hoje em dia. Estas são as coisas que têm que ser faladas e que têm que ser discutidas. O Serviço Nacional de Saúde, enfim, todas estas coisas são os temas que têm de ser falados e discutidos, porque afetam realmente as pessoas. Portanto, inquieta-me muito o futuro dos nossos jovens neste momento. Inquieta-me mesmo muito.

Maria João Luís, muito obrigado por ter estado aqui. Em 40 minutos, uma grande conversa, uma grande viagem pelas suas memórias, pela sua vida. Um grande beijinho e até breve.

Muito obrigada.

Obrigado.

Muito obrigada.