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Nasceu e cresceu no centro de Lisboa, com uma mistura entre tradição e multiculturalidade. Licenciou-se em Artes Plásticas, mas com a música bem presente desde pequeno. Em 2017 editou o seu primeiro EP e em 2021 o seu primeiro disco. Ele mistura o tradicional com o inovador e hoje está conosco aqui na Rádio Observador e sem querer fiz uma rima. Pedro Mafama em 40 Minutos. Bem-vindo.

Laré-lalá.

Podia ter começado assim.

Gostei.

Bem-vindo, Pedro. Como estás?

Obrigado, está tudo bem.

Obrigada por estares aqui conosco. Também, obrigada. Pedro, como eu disse aqui na introdução, tu nasceste e cresceste no coração de Lisboa, na Graça, se não me engano. Alguma vez participaste nas marchas populares?

Por acaso, não. Eu via os ensaios. Eu estudei na Voz do Operário. Estudei, quer dizer, andei na Voz do Operário, não estudei lá muito na altura, mas andei na Voz do Operário e sempre a partir desta altura de abril começam os ensaios das marchas, que era a Marcha de São Vicente fora. Estava muito presente e depois ia pra casa a pé e ouves os ensaios das marchas da Mouraria, da Graça, etc. Então primavera pra mim é sinônimo de som de marchas ao fundo.

Sim, isso é ótimo.

É ótimo.

Nunca participaste, mas ainda vais a tempo, de certa forma.

Eu participei no ano passado de uma forma indireta, que escrevi a letra pra Marcha de Alfama.

Ah, então!

Exatamente. E felizmente ganhamos o prêmio de melhor letra.

Que bom!

A Marcha de Alfama, infelizmente, não ganhou, mas a música ganhou o prêmio.

Acho que é de uma pessoa ficar orgulhosa, não é?

Sim, claro. Era um sonho de infância.

Que bom!

E agora estares lá. Isso, por exemplo, fazia parte dos teus planos, um convitezinho para seres o padrinho de alguma das marchas, não sei.

A Marcha de Alfama tem dois padrinhos muito bons e que fazem o seu trabalho muito bem.

Mas só Alfama, portanto as outras não...

As outras. Pois, eu tecnicamente sou da Graça.

Exato.

Mas sim. Eu este ano, por acaso, não trabalhei na Marcha de Alfama. É um ano um bocadinho mais intenso, em que tenho um grande concerto pra preparar, etc. E eu tô numa fase um bocadinho de perceber o que eu não consigo fazer mesmo bem, não vou fazer. Vou me focar naquilo que eu sei que eu vou fazer bem, que eu vou dar o meu tudo e não vou fazer só porque sim.

Então quando entras num projeto, no que seja, gostas de estar 100%. Sabes que vais dar o melhor de ti. Se não tiveres tempo pra isso ou por disposição, já sabes que não te vais meter aí.

Exatamente. E principalmente, também tô a tentar fazer isso. Não é que eu tenha sempre feito isso.

Sim.

É que tô a ter consciência que o devo fazer.

Ok.

Se tens sim a uma coisa, que seja mesmo essa a coisa que tu queres fazer.

Claro.

Como é que tu vês as tradições portuguesas, porque é uma grande inspiração pra ti, e já agora, se tens alguma favorita.

No geral, eu sinto que a tradição portuguesa, tal como o nosso país, vem de um grande caldeirão de culturas, que às vezes nós não temos essa consciência. E uma das coisas que eu admiro na nossa tradição é a forma como ela se relaciona com outras partes do mundo.

Certo.

Por exemplo, as marchas. Eu até voltei musicalmente a interessar-me por marchas, porque comecei a ouvir os discos iniciais do Caetano Veloso. Não me lembro se o disco se chama "Tropicália" ou "Tropicalismo", acho que é "Tropicália". Ou não, o disco chama-se Caetano Veloso, é o título do disco, mas a primeira música chama-se Tropicália. E o Chico Buarque também com a banda, etc. Eu comecei a ouvir muita música brasileira dos anos 50, 60 e 70, que tem muitas marchinhas.

Claro.

As marchas também são uma tradição no Brasil, são as marchinhas, e isso conectou-me um bocadinho, fez-me olhar de volta pras nossas marchas, que sempre foi uma coisa que me tocou bastante. Tradições preferidas em Portugal.

Isto é muito vago.

Pois é.

Eu gosto muito das marchas. Gosto muito da música de baile, que quase que é difícil chamar uma tradição, porque é uma coisa que está muito viva.

Sim.

Mas que é muito nossa, não é?

Exatamente, mas muito futurista também e sempre a pegar coisas de outras culturas. Tenho um grande interesse pela tradição das cantadeiras da Dufes.

Ai, que giro!

É uma coisa que tem muita evidência muçulmana, ou seja, as melodias são muito árabes e o próprio instrumento é do Norte da África e bastantes outras coisas.

Portanto, um bocadinho de tudo. Mas Pedro, sentes que cada vez mais estamos, de alguma forma, a perder a vergonha, vá por assim dizer, das nossas raízes ou tradições, porque às vezes ouvia-se dizer que baile não ou marchas não.

Podemos dar o exemplo da Cláudia Pascoal, que esteve cá conosco há pouco tempo e que nos dizia que a certa altura parecia que o rancho, havia ali uma distância, entre os jovens, principalmente, os jovens e o rancho não querem participar nisso.

Quase que era visto de uma maneira negativa. Ou sentes que nunca existiu isso?

Não, eu sinto que existiu, eu sinto que a minha cabeça e a minha pesquisa e o meu sonho sempre foi, não é sempre foi, mas desde há muitos anos, que era haver alguma coisa própria, alguma nova música, nova cultura urbana portuguesa. Esse era o meu sonho, porque não era a realidade. Nós todos crescemos a ouvir música americana.

Sim.

Mesmo os meus pais já eram de uma geração, porque são hipsters. Então eles próprios já rejeitavam, a minha mãe, muito a cultura portuguesa, porque os lembrava do salazarismo e do Estado Novo. E por isso sinto que durante muito tempo tivemos uma desconexão com a nossa própria cultura. Já disse isso algumas vezes publicamente, que antes de nós não ouvias os bombos e estes padrões rítmicos na rádio. De quem quer que seja a culpa, e a culpa obviamente não é de uma só pessoa, nem de duas, nem três, há muitas pessoas que começaram a perceber que isto era um problema, até pessoas como o Branco, que já trabalhavam com isto. Não vou começar a fazer a lista. Estava-me a lembrar só porque ele já vinha dos Buraka Som Sistema que reinventaram a música portuguesa de uma outra forma. Mas sim, obviamente, quem diz que ouvia música portuguesa em rádios jovens urbanas, música portuguesa com melodias e ritmos portugueses há oito anos atrás, acho que está a mentir.

E tu notas, por exemplo, do lado dos ouvintes, parece que muitas vezes há um estigma com música popular, até mesmo com a música que nós habitualmente chamamos de música pimba. Que há ali quase uma distância do isto é bom, isto é mau. Tu notas que neste momento o ouvinte português já consegue perceber: não, isto é nosso, não é uma questão de ser bom, mau, mais erudito, menos erudito. Consegues notar essa diferença também?

Acho que sim. Acho que com a música de baile isso está se calhar mais vivo do que com estas outras coisas. Com o fado já não é uma questão, já não é uma novidade revisitar o fado e torná-lo eletrónico, etc. Os bombos, os ritmos minhotos também não. E a música de baile escapou um bocadinho a isso. E é uma música, talvez como está viva, como está muito viva, não que os ritmos minhotos não estejam vivos, mas a música de baile está na tua cara a toda hora e está a transformar-se, e está a mudar, e tu quer queiras, quer não, vais apanhar com a nova cantora que diz isto e diz aquilo. Ou seja, é uma música que está muito viva e está muito na tua cara. E como qualquer coisa que está viva, por vezes incomoda. E sinto que sim, que esse estigma está bastante vivo com a música de baile. Eu acho que a música de baile tem coisas muito interessantes. Tem um futurismo que eu admiro bastante, mesmo o conceito todo do turbinar, etc. A música de baile, se pensares, não tem bem uma forma específica. Pode ser uma coisa que soa meio folclórica, pode ser uma coisa que soa a techno ou eurodance. É muito difícil de definir e eu gosto disso. Acho isso interessante.

Portanto, podemos dizer quase que a música de baile está a fazer um comeback.

Sim, eu acho que a música de baile nunca foi embora.

Exato.

Estás a ver?

Mas isso é fixe, isso é muito bom.

Sem dúvida.

Pedro, vamos falar um bocadinho da tua infância, principalmente no centro de Lisboa, como estávamos a dizer. Como é que foram esses anos, o teu crescimento, que influências é que tiveste também?

Eu sou da Graça, mas não propriamente de uma família bairrista. Tenho uma família que está muito ligada às artes plásticas, às artes no general. E eu cresci na Graça, mais ou menos como uma pessoa que é da Graça e que não é bem da Graça.

Viveste sempre lá?

Sim, exato. Não nasci lá, mas fui para aí com dois anos. Posso dizer que sou de lá, mas realmente tenho uma visão um bocadinho de fora ao mesmo tempo, que me permitiu se calhar olhar para as coisas de uma forma diferente. E eu vivi ali, era entre a Graça e os Anjos. Se calhar houve alturas em que eu disse que era dos Anjos e outras que eu disse que era da Graça.

Depende da entrevista, depende do dia.

É um bocadinho, porque eu literalmente vivia na fronteira, nas escadinhas da Manchinha Monteiro, na fronteira entre essas duas freguesias.

O melhor dos dois mundos.

E os Anjos, que eram os Anjos de certa forma diferentes do que são agora, eram diferentes da Graça também, porque a Graça era a tradição, os bairros típicos. Casa de fado, marchas, etc. Os Anjos, eu lembro-me de ouvir colegas meus que diziam: "Os Anjos não é bem um bairro".

Os Anjos são os Anjos, existem, estão ali.

Exato, porque os Anjos era muito multicultural, era um sítio meio de passagem, como a ideia, de certa forma, apesar dessa multiculturalidade agora é um bocadinho mais de estudantes de Erasmus, etc.

Sim, agora está um bocadinho diferente.

Exato, mas ainda tem obviamente aquela multiculturalidade. E por isso eram duas zonas um bocadinho diferentes e que me deram perspetivas diferentes também.

E como tu disseste, os teus pais eram artistas plásticos. Tu eventualmente acabaste também por licenciar-te em Artes Plásticas. Tu quiseste seguir as pegadas dos teus pais ou simplesmente aconteceu?

A minha mãe sempre me incutiu muito o desenho, as artes plásticas. Mesmo não sendo ela artista plástica.

Porque estava presente.

Exato, estava muito presente. Eu sempre me destaquei quando era pequeno era pelo desenho. Era assim o meu dom.

Continua presente?

Continua um bocadinho. Agora que tenho uma filha já vou outra vez pegando no lápis para desenhar uma coisinha ou outra. E o meu dom evidente sempre foi esse e a minha mãe sempre incentivou muito isso em mim. A coisa bonita é que não era bem uma coisa só de desenho, era mais uma coisa de observar, era uma coisa mesmo de artista que foi ali um bocadinho estimulada. Não é sobre desenhar bem, sobre fazer as sombras superperfeitas, é sobre o teu olhar.

Claro.

E eu sinto que isso é uma coisa que depois desenvolvi ainda mais na faculdade, depois de muitas voltas pela vida. E sinto que é uma coisa que eu uso na minha música, ou seja, eu estou muito interessado na técnica e em aperfeiçoar o meu trabalho, mas eu tenho perfeita consciência que o meu ponto forte é o olhar. Ou seja, é uma visão minha que não consegues ter de outras pessoas.

Claro.

Não é a minha voz linda, não são os meus caracóis dourados, é o meu olhar. E eu sei que se eu fizer uma coisa que mais ninguém faz, eu estou bem.

Claro. Claro que sim.

E acho que vivemos também num mundo em que essa coisa do saber fazer uma coisa muito bem, a técnica está um bocadinho em via de extinção, talvez, com toda a tecnologia.

Não é só o cantar perfeito. Toda uma envolvência em encontrar-se.

E é isso que faz a diferença, não é?

Claro.

Tu tiraste um curso técnico-profissional de multimédia, depois mais tarde, como dissemos, a licenciatura em Artes Plásticas nas Caldas da Rainha. Onde é que no meio disto entra a música?

A música já tinha entrado quando eu era bastante novo, a escrever para mim mesmo, no quarto.

Ainda tens essas letras guardadas?

Em um caderninho perdido lá por casa.

Não tenho. Penso mesmo que não, mas vou perguntar à minha mãe. Mas eu acho que não. Eu acho que aquilo eram coisas mesmo para mim.

Sempre escreveste em português?

Sim.

Ou seja, tu vivendo numa casa em que disseste que os teus pais consumiam mais música estrangeira.

Sim.

Se estás a escrever em português, já é diferente.

Não sei. A primeira vez, se calhar, que tentei dizer alguma coisa era tipo um ""rock and roll"". Ou seja, sabes quando imitas americano e nem sabes falar inglês?

Quem nunca?

Mas lembras-te do que era essas primeiras letras que escrevias? Qual era o tema? O sofrimento da adolescência, algo semelhante?

Não me lembro. Eu acho que eu era fã do Eminem e do 50 Cent.

Na linha deles, sim.

Mas lembro depois, na Graça, com os meus amigos, nos miradouros, etc. Nós encontrávamos muito nos miradouros à noite e aí, sim, começámos mesmo a tentar fazer mais letras e raps do que música. E sim, encontrávamos à noite, cada um cantava o seu verso e tentávamos sempre impressionar-nos uns aos outros.

Sim, claro que sim. Bom, e nós não temos bem a certeza, Pedro, em que altura é que isto foi, se foi antes das tuas músicas saírem, antes ou depois das tuas músicas originais. Mas tu trabalhaste num hostel, não foi? Na Graça. E dizes que foi aí que sentiste na pele os problemas da gentrificação. O que sentiste na altura?

Isto foi quando eu saí da faculdade e voltei para Lisboa, porque a faculdade era nas Caldas da Rainha. E voltei para Lisboa e encontrei um trabalho num hostel.

Estamos a falar de que ano, mais ou menos?

Estamos a falar de 2016, por aí. 2016, 2017. Eu tenho muita dificuldade com o tempo.

As linhas temporais.

Mas os meus EPs começaram a sair em 2017, mas isto deve ter sido em 2016.

Ok.

E sim, volto para Lisboa, comecei a trabalhar num hostel. No início, estava muito deslumbrado e fascinado com o fato de conhecer imensa gente. O hostel teve um equilíbrio entre saídas à noite e trabalho.

Acho que é um bom primeiro trabalho para um jovem.

Sim, não foi o primeiro trabalho.

Não foi?

O que tinhas feito antes?

O meu primeiro trabalho acho que foi na Worten. Já tinha trabalhado em quiosques.

Isto é uma coisa muito estranha agora, não é? Pensar.

Sabes uma coisa que eu me lembrei? No outro dia, que eu já não me lembrava, eu fazia o design de panfletos para a Embaixada de Marrocos.

What?

Ya. E Marrocos é uma parte importante do meu trabalho e da minha identidade como português.

Portanto, quem tiver panfletos da Embaixada de Marrocos, que os guarde.

Façam-nos chegar.

Claro que aquilo era propaganda do rei de Marrocos, mas a tentar mostrar que Marrocos estava se a modernizar e que as mulheres tinham direitos e tudo, que é um esforço verdade até certo ponto só.

Certo.

Mas sim, isso não me cabe a mim julgar.

Claro.

O que estávamos a falar era sobre o hostel. Sim, no início foi uma mistura. Eu até me lembro de me esquecer um bocadinho. Lembro-me de ter receio de me acomodar demasiado com o trabalho, porque era tão só saídas e conhecer este e aquele, e aquela e a coloutra, que tive medo de me desconcentrar um bocadinho, mas depois comecei logo a fazer música, não artes plásticas, que era aquilo que eu tinha feito. Instantaneamente, quando dei por mim sozinho, sem uma escola e sem nada, aquilo que eu comecei a fazer por mim mesmo foi música outra vez.

Veio aí de cima.

Exatamente. E senti que era a minha última oportunidade de tentar alguma coisa na música a sério. Tinha ali uma visão daquilo que era preciso naquela altura e avancei.

Ai, que bom! Então vamos falar disso precisamente na segunda parte. Vamos aqui fazer uma pausa para atualizar as notícias. Já voltamos à conversa com Pedro Mafama. Até já.

Até já.

E vamos à segunda parte de Em 40 Minutos. Esta semana estamos à conversa com Pedro Mafama. Bem-vindo mais uma vez, Pedro. Obrigada por estares conosco. Vamos continuar a falar do teu percurso. Tu disseste, no final da primeira parte, que quase tiveste um momento do é agora ou nunca com a música. Tu fizeste um estágio na editora Enxofada, não foi? Como é que foi essa experiência?

Foi incrível e mudou muito a minha vida. Isto foi antes de ir para a faculdade.

Foi antes ainda.

Foi antes. Eu demorei muito tempo a acabar o liceu, entre cursos profissionais e fazer porcaria.

Ser jovem, não é?

Exatamente. Acho que entrei na faculdade três anos atrasado, uma coisa assim. E quando acabei o curso técnico profissional, o meu estágio foi na Enxofada. E é uma grande lição para mim de persistência, porque eu chateei-os semana após semana para ver se tinham recebido o meu currículo, aparecia lá fisicamente.

Apareceste lá mesmo bater à porta.

Todo bem vestido. Vou me vestir o melhor que posso para bater à porta. E tive um contato muito próximo com os Buraka Som Sistema, que eram e ainda são o melhor projeto musical ou o que eu mais admiro.

Tu trabalhaste com eles, mas não sequer na área que os nossos ouvintes estão a pensar. Trabalhaste com eles na parte do merchandising, não foi?

Exato. Eu fui trabalhar para a Enxofada, como designer, que tinha sido o meu curso de multimédia, e acabei por sim, trabalhava a loja e ia entregar as encomendas, as T-shirts para Tóquio e para a Suécia. Os Buraka tinham um público mesmo internacional.

E estares perto deles, mesmo não estando logo a fazer música com eles, mas estares perto deles também ajudou-te a querer mais rapidamente ser músico?

Sim, aquilo que me ensinou foi que eu percebi que pensava como eles. Aliás, eu vivia obcecado a dizer aos meus amigos que os rappers portugueses deviam usar T-shirts de futebol, não era T-shirts de basquete.

Hoje estou bem, estou a fazer sucesso. Para os ouvintes que nos estão a ouvir em podcast.

Exato, e é uma T-shirt muito fixe.

Portanto, tu já tinhas mentalidade de artista.

Exatamente. E percebi que essas pessoas que estão neste sítio e que eu admiro, pensam exatamente como eu, têm as mesmas obsessões e as mesmas visões e questões com a música portuguesa no final do dia. E sim, isso foi muito importante.

Sim. Então em 2017 estreaste, lançaste o teu primeiro EP, Mafama. Tu ainda ouves as tuas músicas dessa altura?

Por acaso agora há pouco tempo, voltei a ouvir uma. Primeiro, estava num restaurante e puseram uma música desse primeiro EP.

A sério?

Era o "Elefantes". Eu acho que eles devem ter se enganado, puseram no Spotify, porque aquilo é um tarraxe super sexual.

Mas ao certo é que tu estavas lá.

Sim, porque eu acho que eles puseram por engano e depois logo a seguir essa.

Eu hoje estive a ouvir precisamente este EP e eu assim: pá, que diferença de uma coisa para a outra. E agora estou a imaginar isso a passar num restaurante.

Toda a engasgar-se.

Estava muito bom.

E só para responder melhor a tua pergunta, agora sim, olho para trás e vejo coisas tipo: "Esta produção era..." No outro dia estive a ouvir o "Como Assim?", que foi a primeira música que eu lancei, acho eu, ou a segunda. E é uma música que eu acho mesmo fixe agora, por acaso.

Tipo, estou orgulhoso.

São longuíssimas, isso é uma estupidez, são tipo cinco minutos.

Sim, claro.

Viagens musicais.

Depois em 2021, lanças outro EP, editas o teu primeiro disco, o "Por Este Rio Abaixo". Quando é que começou a ser construído este disco? A pergunta é porque já sabemos que a pandemia dificultou muito o trabalho dos artistas. Isso também se revelou um desafio para ti na altura ou já tinhas as coisas escritas antes, por exemplo?

O "Por Este Rio Abaixo" estava a ser escrito há algum tempo. É aquela coisa clássica do primeiro disco. O primeiro disco é aquele que tu estiveste a escrever a tua vida toda. No meu caso não era bem esse o caso, já tinha lançado EPs e tudo, mas há músicas do "Por Este Rio Abaixo" que estavam comigo há bastante tempo. O "Cidade Branca", por exemplo, eu lembro-me que já tinha guardado há muito tempo. E uma coisa que aconteceu foi, eu já tinha o disco pronto para sair.

Mas fizeste aí umas alterações, não é?

Exatamente. Ou seja, eu tinha o disco pronto para sair, fiquei com ele um bocadinho parado durante a pandemia e tive um momento de realização, até quando estava a trabalhar no disco da Ana, depois. Comecei a perceber um bocadinho todo o trabalho que estávamos a fazer no disco dela e tudo. E acho que cresci um pouco também e olhei para o disco que eu tinha ali parado e que estava supostamente concluído e percebi: isto não está ao nível que eu quero que esteja.

Não gostavas.

Eu gostava. Sim, por acaso ainda não fui fazer esse exercício, ainda não tenho distância suficiente para ir ouvir aquelas músicas que descartei. Ainda não, mas há de acontecer a certa altura e de certeza que vou amar algumas, mas fiz assim mesmo um exercício, e também com o Pedro da Linha depois, que assumiu nesse momento a produção do disco. Fizemos o exercício de perceber o que é que daqui está ao nível que nós queremos. Por acaso é engraçado, não havia uma palavra para isso, mas o que é que está ao nível que queremos. E metade das músicas não estavam ao nível que eu queria.

Metade das músicas.

Exato. Claro, se eu fizer a mesma coisa agora com o meu trabalho, com qualquer trabalho que eu faça, mais de metade das coisas não estão ao nível daquilo que eu quero fazer, porque estamos sempre a evoluir.

Olha, e este álbum contou com muitas colaborações, Profjam, Trevor Daniel também, Ana Moura Mas também houve o outro lado, como tu disseste, acabaste por colaborar no disco da Ana, o caso da Guilhermina, e isso fez com que a vida te levasse por outros caminhos, não foi?

É verdade. Aprendi muito profissionalmente.

Era disso que estávamos a falar.

Sim, claro.

Sim, foi uma altura-

Bela surpresa.

Foi uma ótima surpresa. E foi uma altura muito estimulante também profissionalmente. Basicamente trabalhamos em dois discos ao mesmo tempo. Foram experiências mesmo enriquecedoras, até porque estávamos parados durante a pandemia, não havia grandes expectativas, não havia uma vida toda a acontecer. Nós estávamos focados só em fazer música. Foi uma altura da minha vida, da nossa vida, mesmo.

Claro, muito intensa.

Olha, fruto desses outros caminhos que estávamos agora a dizer, nasceu a tua filha Emília. Ela gosta de te ouvir cantar, a ti e também à Ana? Gosta de vos ouvir? Vai-vos acompanhando?

Gosta.

Canta as músicas, por exemplo?

Sim, e dança, principalmente.

Ah, que bom!

Cantar, ainda não canta, ainda não consegue cantar as músicas, mas sim, quando estávamos a fazer agora o meu disco, lá em casa a Emília estava sempre, aparecia, dançava.

Que giro!

E agora o "Sem Ti", a minha nova música, quando eu estava na dúvida se ela estava terminada ou não. Há uma altura em que tu não percebes se aquilo afinal é a maior porcaria do planeta ou se é o melhor que já fizeste.

É um hit gigante, vai bater imenso.

Exato. Eu estava a ir buscar a Emília, pus no carro, olhei pra trás e ela estava toda a dançar.

Isso aí foi um selo de aprovação.

Então é isto, tu estás a fazer um bom caminho.

E por acaso lembro-me de sentir-me mesmo bem com isso. Tipo, ok, está certo.

Afinal está bom. Olha, e com pais músicos, achas que daqui a uns anos vais estar tu a ver a tua pequena Emília a cantar aí num palco?

Não sei, o que ela quiser.

O que ela quiser.

O que ela quiser da vida.

Mas isso seria muito engraçado.

Sim, por acaso era uma dinastia e se tiver o talento dos pais, então temos a música portuguesa safa por muito tempo. Olha, no ano passado lançaste o teu segundo álbum, que tem um título pra mim, que é dos melhores títulos da história dos álbuns da música portuguesa, "Estava no abismo, mas dei um passo em frente", do qual faz parte, obviamente, o preço certo. Acho que é justo dizer o maior sucesso de 2023, senão o maior, um dos maiores sucessos.

Completamente.

Primeiro que tudo, antes de irmos mais tecnicamente ao osso deste disco, como é que foi a relação com o Fernando Mendes em relação a esta música? Tenho muita curiosidade pra saber.

No início foi uma relação espiritual. Ou seja, no sentido em que o Fernando Mendes não sabia que eu existia, mas eu sabia.

Tinha os meus irmãos que vão estar aqui.

Vocês conheceram-se ali, portanto?

Não, no início eu digo espiritual, porque eu estava a fazer a música e inseri o sample do Fernando Mendes e para encontrar o sample tive que pesquisar bastante e tinha estado um bocadinho a mergulhar e estava um bocadinho fascinado com toda a persona do Fernando Mendes, daí dizer espiritual no início, espiritual pra mim, pra ele nada. Não sabia da minha existência. E depois quando pensamos esta estratégia toda de ir lá ao programa e ele aceitou. Primeiro, dei-me logo a perceber que era uma pessoa aberta e fixe, tal como parecia.

E ele gostou da música?

Ele gostou da música, exato. Ou seja, ele adorou a música logo.

Que bom. Incrível.

E depois, entretanto, ficamos em contacto durante o verão também. Ele é aquela pessoa que de vez em quando me liga a mandar um abraço, a perguntar como é que estás.

Que amor!

Exato. Tive um verão tão intenso que acabei por não ir almoçar com ele. Temos uma almoçarada planeada há algum tempo que ainda não aconteceu.

Se o Fernando Mendes estiver aqui a ouvir. Pedro Mafama não te esqueceu.

Não me esqueci, mando aqui um grande abraço ao Fernando.

E depois registem esse momento, por favor.

Sim, claro. Olha, mas olhando pra este disco, há uma grande diferença entre o primeiro e o segundo. E tu numa entrevista disseste: "A minha vida virou e a minha música virou com ela". Pra ti a música tem que ser também esse reflexo da vida, ou seja, a tua vida mudou e a música também tem que mudar ou foi uma mera coincidência?

Eu acho que as duas coisas têm que mudar. Não às vezes, é pra mim, eu acho que as duas coisas têm que estar sempre a mudar. E acho que uma coisa alimenta a outra também. Acho que uma coisa bonita de fazer música é que nós às vezes fazemos música que nos muda a nós, ou seja, desbravamos um bocadinho caminhos onde queremos ir, quase com coisas que dizemos, conseguimos desbravar coisas na nossa vida e o contrário, obviamente. Eu comecei a perceber que se eu ficasse a fazer a música melancólica que estava a fazer, a escrever sempre com um copo de vinho ao lado, à 01:00 da manhã, etc, que a minha vida ia continuar aí e a minha música ia atrair a minha vida pra aí sempre. Até um bocadinho aquela ideia de teres de viver sempre, estar sempre à altura da tua música. Eu falo sobre isto e sou este gajo das noites e da vida pesada, então eu tenho que viver isso. Ou seja, eu acho que a pessoa deve estar, tanto na sua vida como na sua arte, deve estar sempre em mudança. Sim, o disco é diferente, mas há uma continuidade, eu acho. Há uma rutura e uma continuidade.

E já neste 2024 saiu a versão 2.0 deste teu último disco, com temas extra. Tens ali umas musiquinhas, mas estavam lá na primeira leva de músicas. Por que decidiste lançar uma segunda versão deste álbum?

São duas músicas novas. Uma delas, o Abismo, já tinha sido feita quando estava a fazer o disco. O Senti estava presente de uma forma muito diferente quando estava a trabalhar no disco e trabalhei-a durante o verão e até agora para sair. Havia muitas outras músicas no início, quando estava a pensar em lançar mais músicas coladas ao disco ainda. Havia muitas músicas que eu tinha pensado pôr, mas que ficou um bocadinho em altura e relacionado com aquilo que eu estava a dizer no início de só quero fazer coisas que são exatamente aquilo que eu quero fazer agora. Havia muitas músicas que eram parecidas com músicas do disco. Se calhar tinha sido um bocadinho mais fixe lançar um 2.0 com seis músicas novas. Se calhar ia ser fixe para algumas pessoas, mas iam ser músicas que não adiantavam grande coisa. Então eu decidi cortar completamente e lançar estas duas músicas que para mim são uma continuidade do disco e também um caminho em aberto. O Senti tem um bocadinho uma continuidade no disco da celebração desta fase da vida, etc. Uma continuidade também da pesquisa do Estrada, da pesquisa musical que comecei no Estrada, mas já tem ali uma sonoridade com mais sintetizadores, um bocadinho mais futurística.

Isso dá a entender se abre uma porta para alguma coisa que vai aparecer?

Exatamente.

Eu super cusca aqui, queria saber das coisas.

Exatamente. E o Abismo, acho que é interessante por ser uma peça completamente diferente daquilo que apareceu no álbum. E acho que estas duas músicas, este 2.0, deixa uma porta em aberto para aquilo que vem a seguir.

Aqui citando os Diabo na Cruz, vida de estrada é muito cansativa ou faz-se bem esses quilómetros todos que tens feito? Norte, Sul.

É cansativa, é estimulante, é desafiante. No verão passado foi quase como a Superliga.

Tu fizeste mais concertos do que os dias que teve o verão? Eu lembro que o Toy, por exemplo, há uns anos deu 32 concertos em 30 dias, que é uma coisa absurda.

Exato. Não.

Mas foi quase isso, acredito.

Foi para aí 60 concertos, acho eu. Nós estávamos com quatro concertos por dia, cinco a certa altura. Desculpa.

Imagina, cinco concertos por dia. As pessoas de momento estavam o Pedro assim a soro na cama.

Mas sim, é uma coisa desafiante. Não fazia isso durante dois anos, se calhar, porque assim não conseguia. Acho que a pessoa também precisa de parar para pensar os próximos passos e a criatividade também precisa de tempo.

Porque na estrada nem há tempo para ser criativo.

Exato. O Senti, por acaso, eu trabalhei bastante na estrada.

Acha que sim?

Sim.

Mesmo assim ainda lá arranja tempo.

Exato, tem de ser. E foi bom também para me pôr um bocado em forma. Estava com uns quilinhos a mais. Tu se não tiveres disciplina, e isto é a coisa fixe que eu tirei dali, se tu não tiveres disciplina e se não souberes dizer que não a todas as cervejas e batatas fritas que te aparecem à frente.

Ainda por cima era na estrada.

Estás lixado, basicamente.

Estás uma criança numa loja de doces. Tudo à disposição.

Então decidi ser futebolista, mais futebolista do que criança numa loja de doces.

Adoro. E já que estamos aqui a falar de estrada e concertos, vamos falar de um concerto que tu tens no dia 10 de maio. Vais subir ao palco do Sagres Campo Pequeno aqui em Lisboa. Como é que te sentes? Estás nervoso, tranquilo? Podemos esperar alguma surpresa ou outra?

Que queiras revelar aqui.

Não, eu sei que estamos aqui a pôr o Pedro numa posição super chata. Mas conta-nos, como é que te sentes?

Sinto-me entusiasmado pela escala que é, obviamente, a sala. Estamos a dar um upgrade no concerto, um 2.0 também no concerto, por isso vai haver coisas que eu queria fazer há algum tempo, em termos de luz e de estética de concerto.

Está tudo com o seu olhar de artista, que já falámos no início.

Sem dúvida. Eu tenho posto nas redes sociais que isto vai ser uma experiência baile core.

Baile core é muito bom.

Exatamente. E então é mesmo isso. Eu quero principalmente que o concerto faça jus a isso. Uma experiência baile core. O que é uma experiência baile core? São luzes de cores fluorescentes, são barulhos de carros. Carros elétricos, na verdade. Tomei uma decisão de pôr sons de carros elétricos no concerto.

Que é quase silencioso.

Pois é.

Na verdade, não é silencioso. Nós estivemos a desenhar os sons do zero.

Que giro.

E os carros elétricos, não sei se têm assim, morei num parque de estacionamento, quando passa um carro, aquilo é um som tipo nave. Eu acho interessantíssimos os sons. E eu conduzo um carro elétrico, que anda um bocadinho rápido, por acaso.

Também é bom que fique tudo saberes.

Exato. E gosto, por acaso, quando estou na autoestrada e começo a ouvir aquele som de nave.

Que fixe!

E então sinto que ando um bocadinho rodeado deste ambiente um bocadinho futurístico, que aliás aparece muito no Senti, e por isso estou a querer que este concerto seja uma experiência baile core, ou seja, toda a manifestação de todo o lado futurístico que tem a música de baile, com os sintetizadores, com os lasers, com tudo isto, e quero que seja uma experiência veloz e furiosa, basicamente.

É pá! Estou tão curiosa por isto.

Estás a ver aquela coisa que eu estava a dizer da música de baile, que eu acho que a coisa bonita que tem, este lado futurístico de estar sempre a transformar-se, eu quero ser a vanguarda ou propor uma certa vanguarda disso. E sim, o concerto também vai ter alguns momentos mais calmos e mais emocionais, no sentido de vou voltar com mais tempo também a músicas que não tenho tocado. Vou voltar um bocadinho atrás.

Vais tocar do outro disco, por exemplo?

Também, sim.

Pronto, mas não vamos dar spoiler.

E há uma música neste álbum que eu nunca toquei ao vivo, que eu vou tocar agora.

Essa parte não podes dizer.

No pressure.

Ora, já sabem, dia 10 de maio, no Campo Pequeno, em Lisboa, Pedro Mafama. E Pedro, mesmo para fechar, que já infelizmente não temos muito tempo.

Passa a correr, é uma desgraça.

Já sabemos, artista plástico, desenho, canto, escrita para as músicas. Há alguma coisa que ainda não tenhas feito e que queiras fazer brevemente?

De certa forma...

Na música ou fora dela.

Sim, de certa forma, se calhar moda, porque é uma coisa que está muito presente em mim, ou seja, eu estou sempre a pensar nas minhas roupas e a construir a minha imagem e nunca fiz uma peça de roupa.

Não podemos ver uma nova vertente de Pedro Mafama.

Ando cada a pensar nisso.

Estamos a ver Moda Lisboa.

Exato. Mas para mim, o meu conceito, a minha visão, não é só uma coisa da música, é uma coisa geral, por isso conto viajar por muitas áreas ao longo da vida.

Que bom! Acho que terminamos numa ótima nota. Pedro, muito obrigada por ter estado connosco aqui na Rádio Observador. Boa sorte para o concerto. Estou com muita curiosidade para saber como é que vai correr. Vai correr bem, certamente. Nós voltamos para a semana, não é, André Maia? Estamos sempre também disponíveis em podcast.

E por telefone também.

No Spotify. Foi o "40 Minutos" desta semana com Pedro Mafama. Obrigada, Pedro.

Obrigado, Pedro. Até para a semana.

Muito obrigado.