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Nascido de uma loucura de fim de ano, como gosta de dizer, descobriu nas maloqueiras adolescentes a forma de dar cabo da timidez. Fez música, segundo saiu, para afuntar o tédio. Até podia ter sido pintor, mas seguiu a música. É o responsável também pela banda sonora do novo podcast narrativo d'O Observador, "O Encantador de Ricos". A história de como Pedro Caldeira teve na mão o dinheiro dos mais poderosos e de como o perdeu. Hoje temos Paulo Furtado, mais conhecido como The Legendary Tigerman, em 40 Minutos aqui na Rádio Observador. Bem-vindo.
Muito obrigado.
Agora vamos tratar por Paulo, certo?
Certo.
Legendary Tigerman é mais o nome artístico.
É mais em palco.
Exatamente. Vamos começar um pouquinho por falar do podcast. Eu sei que não é a tua primeira vez a criar, obviamente, bandas sonoras, mas para um podcast narrativo foi. Como é que foi a experiência? Como é que encaraste o convite? Partilha um pouquinho essa parte.
Eu gostei muito do convite. Em primeiro lugar, porque fui ouvir os podcasts e gostei muito, achei que estavam muito bem feitos. E nunca tinha feito uma banda sonora de um podcast também, o que me pôs um pouquinho a pensar e acabei por, de facto, seguir um caminho que é próximo do caminho que eu seguiria para fazer uma banda sonora de uma série, por exemplo. Optei por fazer um tema principal e depois fazer temas secundários e subdividi-los um pouco em pequenos temas que pudessem ser usados aqui e ali. O que eu acho interessante também nos podcasts é que, de facto, o som é tudo. Não temos imagem como numa série de televisão ou no cinema. E de facto isso é muito interessante e obriga também a deixar muitas coisas em aberto, porque a música também tem que dar, de alguma forma, palco a que a narração, a que a ação possa acontecer por cima. Portanto, foi desafiante, mas acho que ficou um bom trabalho e gostei muito de fazer.
Nesse desafio, quais são as principais diferenças que notaste entre compor para um álbum ou compor para uma banda sonora em que lá estás a dizer que há esse desafio da música ter um impacto muito grande, teres também que construir uma narrativa. Quais são as diferenças principais que encontraste?
Compor um álbum, para mim, pelo menos, é uma coisa muito visceral. É uma coisa que às vezes nem é agradável.
É sério?
É sério. Eu tento sempre que as canções sejam reais, que sejam verdadeiras e tento sempre fazer as coisas no mínimo um pouco diferentes e avançar um pouco perante a minha arte, o que às vezes me obriga a estar em posições desconfortáveis perante ela. E é tudo sobre mim. As letras normalmente são sobre mim, as canções, anda tudo à minha volta. Eu sou o centro da atenção quando faço um disco.
E é visceral por teres de mostrar um pouco de ti, por ser mais íntimo, é por isso que achas que custa mais?
Sim, eu acho que todos os bons artistas têm que, agora não estou a dizer que sou um bom artista, mas pelo menos todos os artistas verdadeiros acho que sofrem sempre um pouco a fazer discos. Acho que isso é um pouco incontornável. Se não sofreres um pouco a fazer discos é porque se calhar não estás a fazer alguma coisa.
Mas porque se estão a expor?
Porque estás a expor, porque estás no fundo a mexer em coisas, estás-te a exprimir. E essa expressão, às vezes tens que ir buscar coisas ao fundo de ti que às vezes podem não ser agradáveis.
E não sofreste aqui na banda sonora?
Não, não sofri nada. As bandas sonoras é um passeio no parque.
É sério? Essa leveza.
É uma leveza enorme, não tenho nada disto, não sinto nada disto, não sinto peso nenhum. Sinto que sou mais uma peça de uma engrenagem ao serviço de algo maior. Aqui ao serviço da história do podcast, da narração e da realização do podcast. Quando é um filme, ainda mais departamentos existem. Há o guarda-roupa, a fotografia, a cenografia, há todas essas coisas com as quais eu tenho que comunicar. No fundo, é quase como se fosse mesmo um departamento numa fábrica em que está a fazer uma coisa qualquer, uma fábrica de cultura, de alguma coisa. E eu sou só um departamento.
Claro. E sabias quem é que ia dar voz ao podcast?
Sabia, sim.
E também interferiu na música ou nem sequer foste consultado?
Neste caso, estamos a falar da São José.
Da São José Correia, exatamente.
Não interferiu no sentido em que é uma coisa posterior. Mas é curioso que já uma vez tínhamos estado para trabalhar juntos e depois não foi possível.
Isto dá coisas que têm mesmo de acontecer.
E finalmente aconteceu. E ficámos ambos muito felizes com isso. Acho que me deu descanso, porque soube que a voz ia estar bem entregue e que a coisa ia estar bem entregue e pareceu-me superadequada.
Sem desvendar spoilers sobre o podcast, mas quem ainda não ouviu esta estreia de "O Encantador de Ricos", o que é que pode esperar da tua banda sonora? Sentimentos que ela passa.
Eu acho que passa, ou pelo menos o que eu pensei, foi que tentasse passar mistério e suspense E ao mesmo tempo tem partes meias épicas, porque acho que a história é muito épica. É uma coisa de ascensão e de talvez o segundo grande escândalo dos anos 80, imagino eu, depois da Dona Branca, creio eu, do qual eu tenho algumas recordações ainda. Aliás, o início do trabalho foi mesmo depois ler e às vezes reler e perceber tudo sobre o Pedro Caldeira e ver os recortes da altura que o João me enviou. Uma coisa super bem documentada e que me pôs muito dentro do espírito, quer da história, quer do próprio Pedro Caldeira. Não sei se estou enganado ou não, nunca o conheci, mas parece um sonhador, parece quase um vilão meio inocente e sonhador. Então a banda sonora também acho que tem um bocadinho desse lado épico, mas ao mesmo tempo acho que também tem um lado meio sonhador e inocente.
Já que estamos aqui a falar, estavas a falar em vilão, não tens nada de vilão, mas há sempre uma coisa que se calhar quem olha pra ti pensa, e é um traço que tem a ver com a rebeldia, que eu falava ainda há pouco no início e que enquanto nós estávamos aqui a preparar a entrevista, fomos percebendo, e quem acompanha o teu percurso, obviamente que consegue, e às vezes, inevitavelmente, criamos imagens na nossa cabeça. Aparece primeiro a música ou a rebeldia?
Acho que aparece primeiro, curiosamente, a rebeldia. Acho eu. E de facto, há pouco, no início, estavas a falar nisso, que poderia ter sido pintor e de facto acho que era a coisa pra qual eu tinha mais talento, mas a música acabou por me roubar a pintura de alguma maneira. E se calhar por ser uma coisa mais coletiva, por ser uma coisa também de celebração. Lá está, por exemplo, eu fico nervoso antes de entrar em palco, mas não fico nervoso antes de começar a fazer uma banda sonora, fico feliz. Ou seja, eu acho que há muito esta coisa que não é exatamente sofrimento, mas é uma-
Mas não é
...posição e é uma entrega que é muito diferente entre o palco e entre a composição de uma banda sonora.
Mas ainda ficas nervoso, passado todos estes anos?
Sempre.
Sempre. E no dia em que deixares de estar é emocional.
É emocional. Eu também acho.
Olhando pra essa rebeldia que estávamos a falar, foste um adolescente muito complicado? Como é que foi essa altura em que normalmente começa a surgir a rebeldia dentro de nós?
Têm de ver a expressão do Paulo no vídeo, por favor, vejam.
Sim, relativamente complicado.
Não vamos por aí. Mas faz parte.
Acho que faz parte.
Sim, claro.
Acho que faz parte e acho que no meu caso era necessário. Eu cresci nos anos 80 numa Coimbra que era uma cidade muito entediante, muito conservadora. Ainda é de muitas maneiras, ainda é uma cidade meio esmagada entre a universidade e o hospital, que são dois grandes polos que às vezes esmagam, outras vezes, quando há abertura à cidade, e neste caso falo mais da universidade e dos polos ligados à universidade, quando estão mais abertos à cidade, eu acho que a cidade respira melhor e desenvolve-se melhor. Mas nos anos 80, de facto, era uma cidade um bocado opressiva e acho que qualquer jovem que tivesse necessidade de se exprimir e de criar coisas um bocadinho mais emocionantes e um bocadinho menos entediantes do que havia na cidade, tinha que de alguma maneira ser rebelde, acho eu.
E como é que era a tua rebeldia? Eu há pouco falei aqui das noites na maluquice, ou seja, por favor, não leves a mal. Mas estamos a falar de coisas normais, de miúdos.
Não, sei lá, a rebeldia não tem tanta a ver.
Manifesta-se de várias maneiras, claro.
As pessoas às vezes têm essa ideia. Eu sempre fui uma pessoa muito focada e muito focada no meu trabalho. Ou seja, qualquer que fosse a rebeldia, qualquer que fosse a maloqueira, sempre fui uma pessoa que acordava cedo e que trabalha cedo e que faz mil coisas e o meu foco principal nos últimos 20 ou 30 anos tem sido o trabalho e a arte. Portanto, a maloqueira é sempre uma parte muito pequena no meio disto tudo. Acho que a rebeldia muitas vezes tinha a ver com, no início do Teddyboys, por exemplo, quando era superdifícil tocar em Coimbra, quase não havia espaços. Era um bocadinho o facto de: "Ai, não há espaço, então vamos tocar na rua". E vais tocar na rua e as pessoas prendem-te. E depois voltas a tocar na rua e a polícia volta a vir. Portanto, era este tipo de reação, era este tipo de coisa que está muito relacionado também com o do it yourself, com o faça você mesmo, em português. Que é aquilo, ok, não há espaços, nós vamos tocar na rua, ou não há editoras, eu edito disco. Isso foi uma escola que na altura me foi muito útil e que eu acho que é uma escola que ainda me faz muito sentido hoje em dia. A seguir muito esta coisa de: "Ok, se não há ninguém que vai apoiar o meu trabalho, eu vou fazer as coisas à mesma e as coisas vão acontecer".
O fazer acontecer.
É. Acho que a rebeldia tinha mais a ver com isso do que com qualquer outra coisa. Era só o facto de querer que as coisas acontecessem. Às vezes, para que as coisas aconteçam, tu tens que pisar os calos de algumas pessoas. E é o normal, acho eu.
Claro, ou seja, não estamos a falar propriamente rebeldia, daquilo que pensamos dos anos 80, namoradas e excessos, mas mais o ir contra o status quo. Ir contra essas limitações que tu encontraste, principalmente no teu-
Sim, o resto também tem um espaço.
Estamos a chegar lá.
É isso.
Tivemos de virar aqui. Não, mas claro. Na devida proporção, todas elas fazem parte. Olha, e passando se calhar a fase da rebeldia, não te assustou entrares nos 50?
Não me assustou nada. Não, eu sinto-me, honestamente, não sei o que se passa, não sei se sou uma espécie de Benjamin Button ou qualquer coisa, mas não me sinto com menos energia com 50 do que com 20. De todo, ainda não sinto isso. Antes pelo contrário, sinto que nunca tive tanta capacidade de trabalho, nem tanta capacidade de produzir e de fazer coisas. E estranhamente, acho que estou mais ou menos a seguir um trajeto que é um bocadinho contraditório em relação ao que a maior parte dos artistas fazem, que eu acho que a maior parte dos artistas tem os trabalhos mais interessantes no início da carreira e depois a coisa começa a se banalizar um bocado. E eu, de facto, acho que estou a fazer um percurso inverso. Acho que as melhores coisas ainda estão à minha frente e que cada vez que faço mais uma coisa é melhor do que a anterior. E isso deixa-me superfeliz.
Isso também é fruto um bocadinho do tempo que vivemos, e ainda bem, que hoje em dia as pessoas cada vez mais, não é que a idade seja um posto, nem nada disso, mas, por outro lado, a idade é encarada de outra forma ao dia de hoje. Faço-me entender?
Não acho que seja. Aliás, acho que há muitos artistas, acho que Portugal, por exemplo, não é um país que-
Que seja bom para com...
Que seja muito bom com a memória. Nós temos vários problemas de memória. Estamos quase a chegar aos 50 anos do 25 de Abril e fala-se sempre muito pouco. Há muito pouco. As gerações mais jovens têm uma neblina do que foi o 25 de Abril, não sabem muito bem, acho eu, a maior parte.
Por aí acho que a maioria está aleste de tudo o que se passa no nosso país.
Sim, mas depois mesmo a nossa geração também não tem muito, salvo honrosas exceções, o Palma e o Godinho. Mas ainda assim, acho que devia haver muito mais entusiasmo com um homem como a Jorge Palma ou como a Sérgio Godinho do que o que existe.
Mas tu achas que é o nosso país que não trata bem as pessoas a partir de uma certa idade?
Não sei explicar muito bem. Não sei. Acho que de alguma maneira tem, porque eu acho que o público português, eu estou a dizer isto, mas eu acho que o público português tem muito amor pela música portuguesa. Mas não sei exatamente com o que tem a ver. Acho que nós temos um problema com a memória, em geral.
Achas que colocamos prazos de validade, por exemplo?
Talvez, não te sei dizer. Acho que em Portugal, por exemplo, eu não sinto que a idade seja um posto. Isso até é uma coisa boa, a mim não me chateia nada.
Sempre, move também as renovações.
Para mim, fazer um disco novo ou fazer um trabalho novo, estou sempre a pôr-me em causa. Para mim, estou sempre a começar do zero. Se não for bom, mesmo que eu faça 20 coisas boas, se a 21ª não for boa e for displicente, eu sou representado pela última coisa que faço. Depois um dia, se calhar, alguém poderá aí fazer o balanço, mas neste momento, a última coisa que eu faço é o que conta. E portanto, isso para mim, de facto, não é um problema, mas não sei. Parece-me que há algum esquecimento. Não sei. Eu acho, por exemplo, que devia haver mais entusiasmo para com esse legado. Não sei. Posso estar enganado também, pode ser só impressão minha, não sei.
É um legado que podemos explorar mais daqui a pouco. Vamos fazer uma pequena pausa, porque vamos ter notícias, não é, Catarina? Mas ainda temos muito para falar.
Temos, fica prometido para a segunda parte, mas eu gosto sempre da parte bem assim subtil com que tu dizes: "Está na hora, Catarina".
É uma entrada à pé gente.
Mais ou menos. É isso. Cartão de fumador direto.
Ainda bem que temos aqui o Pedro Henriques para nos dar.
Vai ao balneário. Pronto, obrigada, é isso mesmo. Hoje com Paulo Furtado, convidado em "40 Minutos", aqui na Rádio Observador. Vamos então fazer uma curta pausa, vamos às notícias e já voltamos à conversa. Estamos de regresso e à conversa com o Paulo Furtado, convidado deste "Em 40 Minutos", na Rádio Observador, a propósito do novo podcast narrativo. Já explorámos aqui a tua experiência no podcast, já explorámos também aqui a tua rebeldia. Estávamos aqui a falar da música, mas voltamos àquela que seria a tua vocação. Por que tu optaste a música em vez da pintura? Tem a ver precisamente com o facto da música estares mais exposto para combater a timidez. A pintura é algo mais isolado?
Talvez não tenha sido uma decisão totalmente consciente. Desde miúdo que me lembro de desenhar. É das primeiras coisas que me lembro, desenhar e pintar.
Ainda desenhas?
Desenho e pinto nas férias agora. Curiosamente.
Mostras a alguém?
Mostro, às vezes. O que eu faço agora são coisas muito relaxantes.
Mais abstratas.
Desenho flores ou animais.
E o feedback é bom?
Tipo quase desenho técnico de anatomia ou de flora.
E o feedback é bom?
É, o feedback é bom. É engraçado que eu sou daltónico. Então, às vezes, as coisas não ficam com as cores que têm.
Tu imaginas uma cor e depois tem outra.
É.
Mas que tipo de daltónico?
Os castanhos e os verdes são quase todos iguais, laranjas, vermelhos e alguns amarelos também, roxos, azuis e violetas é tudo a mesma coisa. Para mim, às vezes, quando começo a mexer nas coisas, as coisas não são exatamente realistas, o que a mim me agrada, de alguma maneira.
Eu ia dizer isso. Acho que para ti tens aqui sempre duas visões. Duas interpretações. A tua e depois a do resto do mundo.
Que não é daltónico.
Pronto, exatamente.
Já agora, uma curiosidade: os óculos que usas é mesmo por uma questão de estilo, é porque eu sei que há óculos que corrigem esse.
Não, esses não corrigem.
É mesmo porque é a tua persona.
É, acho que sim. Mas respondendo melhor à tua pergunta, acho que a música me foi roubando de uma maneira espontânea. Acho que não foi uma decisão totalmente consciente. De facto, quando era miúdo ficava horas a pintar, podia ficar sei lá, 15 horas a pintar e nem sequer comia, era uma coisa que me absorvia mesmo. E acho que me ia deixando mais isolado também, naquela altura, quando tinha 15, 16, 17, 18, 19 anos, por aí. E acho que a música se tornou uma coisa mais de comunidade, e acho que foi isso, na realidade, que me roubou um bocadinho a pintura, foi esta possibilidade de comunicar. Eu digo isto muitas vezes, que se não fosse a música, provavelmente estava preso, porque não havia mais nada que eu pudesse fazer que fosse legal e que me desse gozo. Porque não me vejo num emprego das 9 às 5. Digo isto, se calhar, é um bocado exagero.
Sim, se tivesse que ser, se calhar não terias. Mas serias era infeliz, nesse sentido.
Sim, provavelmente seria infeliz.
E em que momento é que tu sentiste que a música iria dar a volta à pintura? Ou seja, o que é que espoletou essa mudança? Foi uma atuação tua que fizeste? Foi uma música que ouviste? Foi uma música que compuseste?
Não, acho que foi um processo que foi acontecendo, não houve assim um momento. Mas acho que foi fundamentalmente os espetáculos ao vivo. Os espetáculos ao vivo são uma coisa muito, ainda hoje em dia, é estranho, é curioso que os dois espetáculos que eu mais gostei nos últimos tempos foram estes dois últimos. E não sei exatamente até hoje, aqui, este foi há uma semana e meia e há 10 dias.
Foram onde?
Foi em Aveiro o último espetáculo, no Teatro Aveirense. E não sei exatamente o que é que aconteceu. Não sei se é o disco novo, não sei se é a reformulação do modo como eu toco as canções ao vivo, o público, não sei se é tudo junto, não sei o que é que aconteceu, mas de facto foram concertos mágicos em que foram momentos mesmo muito incríveis, acho eu, para nós em palco e para o público. E são coisas mais ou menos inexplicáveis. Ainda hoje em dia tu não consegues explicar como é que vais com a mesma expectativa para todos os concertos, dar um bom concerto e de haver uma comunhão e de haver um momento especial, mas isso às vezes não acontece. Por uma razão ou por outra. E depois, de repente, acontece e é uma cena muito incrível.
Em miúdo, tu sonhavas, antes até mesmo da pintura, ser o quê? Mesmo em criança.
Pergunta bem difícil, essa.
Não era o tradicional jogador de futebol ou astronauta?
Não.
Eu acho que antigamente era sempre o bombeiro.
Não, acho que desde sempre. Era? Não, eu acho que queria ser pintor desde sempre.
Qual é o teu pintor de eleição?
Tenho muitos, não sei. Ultimamente fiquei com muita admiração, talvez por ter feito uma banda sonora que tinha a ver com ele, fiquei com muita admiração pelo Andy Warhol, que sempre tive, mas por tudo o que ele significou, não só na arte, mas no mundo em geral.
Sim, até na música.
Sim, o que ele mudou desde os anos 80. De facto, é provavelmente o artista que mais representa os nossos tempos. Foi uma espécie de visionário que adivinhou que todos íamos ter 15 minutos de fama, que estava tudo relacionado, que não distinguia muito a arte do cotidiano. Há muitas coisas questionáveis e levanta muitas questões, que eu acho que é o que a arte deve fazer. A arte não é propriamente uma coisa que vem solucionar ou arranjar soluções para o mundo, mas acho que deve questionar. E o Andy Warhol, de facto, deixou ainda hoje em dia, tantos anos depois, ainda deixa muitas questões no ar e isso é uma coisa que me interessa.
E que te inspira.
E que me inspira, claro.
E lá está, também tem ali uma rebeldia. Não tem?
Também, claro. Eu acho que o Andy Warhol era um gato muito interessante.
Sem dúvidas.
Porque acho que era alguém a quem o tédio entediava, se calhar, muito mais do que a maior parte dos mortais. Eu acho que toda a vida dele é uma grande fuga ao tédio, mesmo a arte dele e tudo nisso. Isso também é muito inspirador, porque eu acho que muitas vezes é fácil deixarmos cair nas mesmas coisas.
Na rotina.
Na rotina, e deixarmos amolecer um pouquinho por isso. Eu acho que o Warhol, de fato, nunca deixou que isso acontecesse e acho que essa energia é uma coisa muito inspiradora também.
Por falar em inspiração, ao longo da tua carreira, certamente tiveste momentos de decisões importantes. Normalmente foste mais pelo teu instinto, uma pessoa mais instintiva, mais impulsiva, ou mais pelo pensamento racional? Como é que foste moldando-se?
Eu, honestamente, acho que o nosso instinto é o melhor pensamento racional que nós podemos ter, porque o nosso instinto é baseado em anos e anos de aprendizagem e de experiência. Portanto, se tu sentes uma determinada coisa, eu acho que normalmente ela está certa. Mas se calhar sou um instintivo racional, depois penso sobre isso. Mas normalmente sigo o meu instinto em momentos importantes.
E alguma vez pensaste em desistir da música?
Sim, algumas vezes. Acho que houve alguns momentos em que sim. Há um momento muito importante, acho eu, na evolução da minha carreira, que foi o momento em que o que me pagava a renda não era exatamente o trabalho que eu fazia como músico. Desde muito novo, talvez aos 19 anos, eu comecei a ser promotor de espetáculos também. Lá está esta coisa de fazer acontecer as coisas, primeiro pra minha banda, como não tínhamos sítios onde tocar, eu organizava os concertos e depois, tendo essa noção de como é que se organizavam concertos, fui começando a organizar também concertos para outras bandas e programei alguns espaços em Coimbra. E de fato, houve um momento em que isso era o que me pagava a renda. E na altura o meu sócio, que se chama Artur Peixoto, que é um grande booker em Portugal, já foi booker de todos os festivais grandes que neste momento possam estar a pensar. Agora trabalha na Música no Coração. E eu nesse momento optei por ser músico, porque achei que o tempo que me estava a roubar, o fato de estar a organizar concertos e todas as coisas inerentes a essa atividade, me roubava muito tempo à composição e à minha ambição de ser músico profissional. E nesse momento, optei por ser músico profissional, eu optando a seguir esse sonho, e deixei cair um pouquinho, no fundo, a coisa que me pagava a renda.
Teu instinto, lá está.
O meu instinto, lá está. E sei lá, houve momentos complicados. Eu lembro-me de um momento muito específico, que é mesmo antes do "Feminine" sair, que provavelmente é o meu disco de maior sucesso, em que eu tinha acabado de mudar pra Lisboa, tinha uma casa absolutamente vazia, só tinha uma cama, ia sair em turnê daí a dois dias, o disco ia sair provavelmente daí a duas semanas ou qualquer coisa, e eu estava completamente falido, porque tinha saído da editora e tinha optado por manter a visão que eu tinha do disco, tinha optado por financiá-lo, juntamente com o meu management. Naquele momento, era um momento em que se esse disco tivesse corrido mal, eu provavelmente teria tido que fazer outra coisa qualquer. Portanto, às vezes há estes momentos assim meio críticos.
Dos quais não te arrependes?
Não, não me arrependo. Acho que tomei a opção certa, mas há coisas que não tiveram propriamente a ver comigo, que por acaso correram bem. E isso é ótimo, porque provavelmente, se calhar, se tivessem corrido mal, hoje se calhar não estava aqui a falar com vocês dois.
O que seria triste, porque esta seria uma conversa muito triste.
Ou estarias como pintor, quem sabe?
Ou isso.
O grande pintor Paulo Furtado.
Ou então aquele trabalho das 9 às 17, lá está, nós nunca sabemos. Nós dizemos: "Nunca digas nunca".
Sim.
Verdade que às vezes quando somos obrigados.
E hoje em dia, na realidade, pra ser honesto, eu acho que é muito fácil as coisas correrem mal e é muito fácil as coisas falharem. Sei lá, eu penso muito, há um poema do Bukowski que fala muito sobre o olhar que se dá ou não se dá às pessoas na rua, às pessoas que estão na rua. E eu acho que não é tão difícil assim pra qualquer um de nós, de repente, as coisas correrem mal e as pessoas estarem na rua ou estarem em posições que são difíceis financeiramente pra elas, porque acho que hoje em dia é muito fácil isso acontecer. Acho que, por exemplo, o trabalho não é uma coisa muito recompensada em Portugal. O trabalho é muito mal pago em Portugal Acho que é fácil as pessoas caírem em desgraça. Voltando ao nosso Pedro Caldeira, acho que provavelmente a história dele também foi tão impactante, porque foi, se calhar, a primeira vez que as pessoas viram isso acontecer quase em direto nas notícias. A ascensão e queda de alguém que está no topo do mundo e de repente cai. Isso nunca tinha sido visto exatamente desta maneira em Portugal. Portanto, eu tenho um grande respeito e uma grande empatia com as pessoas que perdem, com os "perdedores da vida". E tento ter um olhar, no mínimo, terno em relação a isso.
Paulo, voltaste aqui ao nosso podcast Plus, da Rádio Observador, mas também lançaste um projeto há bem pouco tempo, um novo álbum, o "Zeitgeist". Como é que foi a recepção desse novo álbum de setembro?
Está a ser muito boa, felizmente. E está a correr muito bem, um bocadinho por todo lado. A coisa engraçada dos álbuns é que nunca sabes muito bem.
Como é que vai ser? Como é que vão reagir?
Sim, como é que as pessoas vão reagir. Às vezes as pessoas gostam nuns países, não gostam noutros. Álbuns em que vou muito em tour para a América do Sul, outros que não acontece nada. É muito engraçado isso.
Nunca tinha pensado nesse ponto de vista. Notas mesmo que há essa divisão quase geográfica? Há zonas que gostam mais, outras gostam menos?
Sim, isso acontece mesmo. E hoje em dia é engraçado, porque tu consegues ver, obviamente, nas estatísticas de Spotify, essas coisas todas.
Onde é que estão a ouvir.
Onde as pessoas ouvem mais. E estranhamente, agora estão a ouvir este álbum mais nos Estados Unidos. Portugal e depois Estados Unidos, França, México, Colômbia. É muito engraçado isso.
E consegues, de forma lógica, fazer alguma associação do gênero?
Não.
Isto é um estilo mais.
Não há lógica.
Não, às vezes há uma lógica que não tem a ver com arte. Às vezes, se calhar, são pessoas que estão a trabalhar melhor nesses territórios. Aqui hoje em dia acho que não, acho que é mesmo, de repente, há coincidências.
O efeito borboleta, alguém ouve lá, passa a alguém.
Empatizam com isso. Sim, provavelmente.
Estavas a falar precisamente no Spotify. Isto leva-nos um bocadinho a falar, inevitavelmente, nas plataformas. Em termos de música, sentes que hoje em dia está tudo muito mais facilitado ou, pelo contrário, as plataformas não facilitaram, dificultaram?
Sinto várias coisas ao mesmo tempo, algumas que são até, se calhar, contraditórias, não sei. Mas eu sinto que sempre foi difícil. Acho que sempre vai ser difícil para quem leva música e arte a sério. Acho que o Spotify e a maior parte dos streamers pagam muito mal aos artistas. Isso é um problema. Acho que se calhar, se nós fôssemos tão sólidos quanto são os argumentistas americanos, se calhar estávamos a ser mais bem pagos. Acho que é muito difícil também, acho que o grande desafio hoje em dia não é fazer. Se calhar, há 20 anos, o grande desafio era conseguires ir para um estúdio e gravar e conseguires editar um disco, era apareceres. Eu acho que hoje em dia a grande dificuldade é que as pessoas parem cinco minutos para reparar que tu existes e mais cinco minutos para ouvirem a tua música e depois gostarem ou não, empatizarem com ela ou não.
Mas isso é porque há muita oferta.
Há muita oferta. E há cada vez mais.
Mais do que nunca.
Há músicas que nunca são ouvidas no Spotify. Não sei se vocês sabem isso. Há uma percentagem enorme de músicas que são lançadas e que nunca são ouvidas. É superestranho, mas se calhar nem as próprias pessoas que as fazem as ouvem.
Pois.
E depois há uma grande percentagem que são muito pouco ouvidas. É residual. São ouvidas 50 vezes. Há canções que foram editadas há cinco anos e foram ouvidas 50 vezes. Portanto, é quase como se houvesse este enorme mar de música, mas depois tu encontrares as tais pérolas que tu vais gostar e que vais adorar, acho que se calhar é mais difícil encontrar hoje em dia do que era há 20 ou 30 anos. E depois acho que deve ser muito assustador ser um puto hoje em dia a começar a fazer música e olhar para isto tudo, os milhões de pessoas que há a fazer música e tu encontrares a tua voz e conseguires que seja ouvida e que reparem em ti. Eu acho que isso deve ser uma coisa muito difícil. Acho que ainda assim há 30 anos era mais fácil repararem em ti, de alguma maneira.
O que vai ser certamente motivo de muitas escutas vai ser o nosso podcast, "O Encantador de Ricos" já está disponível no Spotify, também no nosso site. Conta a história de Paulo Caldeira, alguém que teve na mão esse-
Pedro.
Pedro Caldeira, exato. Paulo Furtado e Pedro Caldeira. Para estar aqui.
Fez aí um mix.
Fiz aqui um remix. "O Encantador de Ricos" já pode ser ouvido e aqui com a banda sonora do Paulo Furtado.
Eu sinto que estás a encerrar.
Estou.
Estás a encerrar a conversa, lá está, pronto.
Mas agora de forma mais suave, um bocadinho.
Sim, mas eu acho que o Paulo já percebeu.
Já percebi, eu falo muito.
É para não abrir a porta já.
Não, mas é esse o objetivo também, e também aqui uma conversa mais descontraída. É esse o objetivo do "Em 40 Minutos". Paulo, foi um prazer ter-te aqui. Muito obrigada. Parabéns pela banda sonora.
Foi um prazer também. Muito obrigado.
Portanto, fica aqui o convite para quem ainda não ouviu este novo podcast narrativo, de ouvir. Banda sonora é da responsabilidade do Paulo Furtado, o nosso convidado de hoje do "Em 40 Minutos" aqui na Rádio Observador. Paulo, obrigada.
Obrigado.
E nós estamos de regresso para a semana.
Para a semana.
"Em 40 Minutos" na Rádio Observador.
Cá estaremos.