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Já se propõe agora em setembro levar à discussão a privatização da RTP, que eu acho um disparate monumental. É um disparate porque este mercado não aguenta mais um privado.

Um player.

Mais um player. Isso vai empobrecer cada um dos que existem, os chamados incumbentes, e isso vai criar mais fragilidades no mercado. Não me parece que essa seja uma solução. A solução era haver uma definição estratégica do Estado do que quer do serviço público e claramente pedir ao serviço público aquilo que é essencial para a defesa da democracia. Agora, o que me parece evidente é que é preciso reorganizar o serviço, sobretudo neste nosso tempo hoje, neste nosso tempo de mídia que vivemos, era preciso reorganizar o serviço. Eu não sei se a RTP precisa de ter quatro canais de televisão, ou cinco, não sei, mais Açores e mais a Madeira.

A questão das rádios também.

As rádios, não sei se precisa ter a RDP Internacional e também a três, não sei.

É uma espécie de arquiteto invisível. Passou as últimas quatro décadas a desenhar a banda sonora, a informação e a identidade daquilo que os portugueses ouvem quando ligam o rádio, mas quase sempre preferiu os bastidores ao fulgor dos holofotes. Nasceu sob o sol de Luanda, trocou a promessa de uma carreira estável na economia por um acidente feliz, chamado microfone, e acabou por se tornar um dos mais influentes diretores da radiofonia nacional. Na vida privada, habita um ecossistema rodeado por gigantes da comunicação e de exposição pública, mantendo-se ainda assim como um porto abrigo discreto. Hoje senta-se conosco para lá dos bastidores, um homem de afetos guardados, de pensamento estruturado e de uma elegância rara na comunicação portuguesa. Um homem também com grandes paixões para lá do jornalismo e que vamos conhecer ao longo deste Em 40 Minutos esta semana com Rui Peco. Muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Muito obrigado, bondade vossa.

Bem-vindo, Rui Peco. Que nos estava a dizer, João Miguel, em off: eu não tenho nada de interessante para dizer.

Pois não, acho que não, acho que já não tenho. Já tive, se calhar, noutro tempo.

Mas as pessoas não têm prazo de validade, ou têm?

Não, não têm. Isso é verdade, não têm. Mas eu acho é que a velocidade deste nosso tempo é de tal maneira que quem sai, quem fica mais na retaguarda, ainda mais na retaguarda, acaba por ser vencido por esta velocidade. Há hoje lógicas de reflexão sobre aquilo que é a nossa atividade dos mídia, que provavelmente eu já não tenho muita coisa pra acrescentar, digo eu. Eu acho que tenho.

Mas também-

Eu gosto de dizer que tenho lá em casa, ou melhor, gosto de pensar que tenho.

O espaço público também está cheio de gente que não tem nada para dizer, não é?

Pois, está bem, mas quem reflete sobre as coisas e quem pensa um bocado sobre as coisas, acho que tem quase a responsabilidade de ter que acrescentar algum valor àquilo que se reflete, à reflexão que é feita.

E foi por isso que o convidamos também.

Pois, vocês são bondosos.

Rui, e como é que um possível e quase CEO, que podia ter sido, se apaixona por rádio?

É quase um acidente, porque eu apaixonei-me em casa. Porque o meu irmão Jorge fazia rádio e eu ouvia, digamos que devotamente, e muitas vezes clandestinamente, porque havia lá umas bobines em casa e eu ouvia as bobines. E isso criou-me um entusiasmo em relação a esta atividade. E depois havia um programa em Luanda, produzido pelo José Maria de Almeida, que era o mágico da rádio, e que mobilizava o país, designadamente Luanda, que era a capital, porque era um programa que tinha uma audiência tremendíssima e fazia muitas ações no exterior e tinha a cobertura de grandes acontecimentos. E, portanto, digamos que eu às vezes participava a ver nessas iniciativas, e isso entusiasmou-me muito. Aquilo que o Zé Maria fazia à época, estamos a falar dos anos 70, do início dos anos 70, era verdadeiramente extraordinário. Era verdadeiramente extraordinário. Só para vos dar um exemplo, de pôr uma cidade inteira à procura da rolha, nos jardins da cidade e por aí fora. E era um programa que era às 20h30 da noite. Não havia televisão, atenção. Não havia televisão em África.

Mas ele pôs uma cidade à procura de uma rolha?

Exatamente. Ele tinha uma iniciativa que era a procura da rolha. E uma cidade inteira à procura da rolha, que tinha depois um prêmio, como é evidente. Mas era um bocado isso. Era um homem extraordinário, um mágico da rádio e que tinha essa capacidade de mobilização.

E chegou a conhecê-lo?

Sim, conheci. Trabalhei com ele até, diversas vezes. Ele era muito generoso com os miúdos. E fiz a edição matinal, porque ninguém queria fazer às 7:00 da manhã.

Pois.

Bem entendido, ninguém queria fazer. Eu fiz a edição matinal desse programa dele.

Muito bem. David Borges, o Fernando Alves, o Emídio Rangel, o próprio Rui, vieram todos de Angola com uma grande paixão pela rádio. Havia e há uma

Talvez havia uma cena radiofônica em Angola.

Ainda há uma cena radiofônica. Há uma cena radiofônica tremendíssima.

O que se passa naquele país que é propenso a ondas de FM?

São grandes comunicadores. Naquela época, penso que tinha muito a ver com o Brasil. Havia ali uma ligação muito próxima com o Brasil.

Estou me a esquecer de outro, o Jorge Perestrelo.

Sim, exatamente. Mas havia ali uma relação muito próxima com o Brasil. A rádio do Brasil era muito importante e é muito dinâmica.

E serviu de modelo também cá em Portugal, não é?

Sim, também serviu de modelo em Portugal. Mas eu acho que esta proximidade das pessoas com a rádio em África tinha muito a ver com essa influência brasileira, que era de uma linguagem mais descomplicada, mais coloquial, uma coisa mais próxima. Angola tem hoje grandes comunicadores. Não tenho sobre isso a mais pequena dúvida.

Acompanha?

Acompanho quando vou lá. Ouço, tento ouvir.

Costuma ir a Angola?

Já não vou há algum tempo, mas sempre que posso, vou.

E sintoniza o rádio.

Sim, sintonizo o rádio, claro.

O que é que tem mais saudades de Angola?

Dos meus amigos.

São muitos aqueles que estão por lá.

São, são muitos. Já não são tantos quanto, mas são muitos, que eu também já não sou novo.

Portanto, tem boas amizades em Angola.

Mas que se mantêm e que se desenvolveram ao longo dos anos e que se mantiveram ao longo dos anos. Eu tenho uma característica que é ter amigos muito antigos. Se bem que tenho amigos mais novos, mas tenho amigos muito antigos, amigos que cresceram comigo, que vêm comigo desde a minha adolescência, a minha infância. Isso é uma riqueza, acho eu.

Como é que o Rui aterra em Portugal, naquela altura pós-revolucionária, num país que era totalmente diferente da Angola onde tinha crescido e onde havia esse gosto por uma comunicação mais informal, mais descontraída, que se materializava na rádio angolana?

Eu aterro em Lisboa vindo do Brasil, eu vivi no Brasil algum tempo. Pouco tempo. E o país era uma coisa. Eu só tinha vindo a Lisboa duas vezes. Uma vez em 71 para jogar, eu jogava hóquei patins.

Pois é.

Para jogar um campeonato nacional, como se chamava à época, que era um torneio quadrangular, era uma final four, que envolvia uma equipa de Moçambique, uma equipa de Angola e duas equipas de Portugal, quando era disputado em Portugal. E vim cá duas vezes, em 71 e 73, como campeão de Angola, disputar esse chamado nacional.

Angola ganhou?

Não, no primeiro ano, em 71, em que eu era suplente, eu era juvenil e vim com os juniores, e portanto joguei cinco minutos ao longo do campeonato todo. Mas nós tínhamos uma grande equipa, o Benfica de Luanda tinha uma grande equipa, e o regulamento foi torcido para que houvesse uma finalíssima, porque nós chegamos à final empatados com o Benfica de Lisboa, mas tínhamos melhor resultado nos golos.

Golo average.

Mas eles inventaram a finalíssima, eles, a organização, a Federação Portuguesa de Patinagem, essa entidade superior.

Para que a taça não saísse de Portugal.

Para que a taça não saísse aqui da metrópole. E eles ganharam, os tugas ganharam.

Os tugas ganharam. O Rui vem em 71 e tinha vindo também em 73.

Não, eu cheguei a Portugal em 76.

Sim, mas já tinha vindo duas vezes.

Não, tinha vindo cá jogar. É dessa altura, duas coisas que me marcaram muito e que me impressionaram particularmente, porque no fundo, não tendo nós, quando estou a falar de nós, é as pessoas do meu grupo de amigos e da minha vida. Nós não tínhamos a ideia do império. Atenção, é preciso que se diga isso. Nós vivíamos num país autónomo. É preciso que se pense nisso. A história da metrópole era mais para os funcionários que tinham uma coisa paga, uma viagem paga de tanto tempo em tanto tempo. Mas isto para dizer o quê? Para dizer que, e agora perdi-me um bocado.

Quando chegou a Portugal, duas coisas que lhe impressionaram.

Duas coisas. Uma foi ser tudo cinzento. Eu não me esqueço quando cheguei a Portugal em 76 e fui a um jogo de futebol com meu amigo António Macedo. O meu guarda-chuva era o único guarda-chuva que não era preto. Era o único, era castanho. Atenção, também não era cor-de-rosa. Mas era castanho, mas não era preto. E uma pessoa que foi com nós jogar futebol nesse dia, tuga, perguntou-me: "Por que o teu guarda-chuva é diferente dos outros?" O que me chocou profundamente. Bom, mas voltando a 71, uma das coisas que me marcou muito foi ver os bairros de lata naquela zona da Buraca. Eram bairros de lata. E para um miúdo, que eu tinha na altura 14 anos, uma coisa assim no gênero, para um miúdo que vem à Europa e sobretudo, quer dizer, não era parvo e, portanto, sobretudo, vem à capital do império, perceber que não eram cegos Eram bairros horríveis. E isso impressionou-me.

Um esgoto a céu aberto.

Isso impressionou-me tremendamente.

Barracas de madeira forradas com latas.

Sim, com zinco, com pilhares de zinco, uma coisa inacreditável. Portanto, desse ponto de vista, acho que isso me despertou muito para aquilo que era o regime da época.

Ou seja, percebeu que não era o que lhe andavam a contar.

Não, de todo. Se bem que, atenção, naquela época, Angola estava com níveis de desenvolvimento económico tremendíssimos. É preciso não esquecer que aquele país chegou a 74 a crescer dois dígitos, que era uma marca absolutamente extraordinária. E tinha cor, tinha uma realidade diferente.

Diz isso com um grande sorriso. "Tinha cor".

Sim, tinha cor.

Traz boas memórias.

Sem dúvida. Até a própria vigilância política da polícia da época. Eu acho que era mais suave lá. Aquilo era mais tropical. Era uma coisa mais tropical.

O Rui falava da cor dos guarda-chuvas nesse ano de 76. As pessoas também ainda eram, elas próprias, muito cinzentas em relação àquilo que tinha acontecido e à revolução que tinha acontecido em Portugal.

Eram completamente. Eram completamente sectárias, profundamente sectárias. Eu não me esqueço que, nessa época, não se podia ir ao Futebol e à Gulbenkian. Ou as pessoas eram do Futebol ou eram da Gulbenkian. Não podiam gostar de ir ver a Rory à Gulbenkian e ir ver o Sporting ao Alvalade.

Isso fazia sentido?

Não fazia nenhum sentido, um absurdo total. A vida é diversa. A vida tem cor, tem várias cores, de resto, e portanto não fazia nenhum sentido. É um absurdo total.

Quando é que começa a notar essa mudança de mentalidade nesse Portugal que se foi construindo também ao longo do tempo?

Essa mudança é no final dos anos 70, com o advento da nova música moderna portuguesa. Acho que é aí que começam a surgir outras cabeças, outras ideias, outros conceitos, outra capacidade de olhar para as coisas. E tem a ver também com o percurso que o próprio país fez, que se foi desenvolvendo e se foi normalizando, chamemos assim. E portanto, até à adesão à União Europeia, há aí um processo de evolução do próprio país que tem impacto, obviamente, nas relações entre as pessoas e naquilo que eram as ideias das pessoas, naquilo que era a afirmação pública de cada pessoa. E acho que a música teve aí um papel muito importante.

Não necessariamente a música de intervenção.

Não, a música que, de alguma maneira, explica que é possível também fazer outra música, não só a música de intervenção.

Exato.

Porque eu acho que a música de intervenção é toda ela. Mas os cantores, o Fausto, o Sérgio, o José Afonso, por aí fora, que têm esse património tremendíssimo, que formou sucessivas gerações de pessoas. Agora, o que eu acho é que esse final dos anos 70, com o aparecimento da música moderna portuguesa, do chamado novo rock português, isso veio abanar alguma coisa, aquilo que era ainda uma divisão, também absurda, entre uma espécie de nacional cançonetismo, que ainda persistia, a música das Avenidas Novas, do Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, dos Sheiks, no fundo, e essa outra música dita de intervenção, que eu acho que era, como o Sérgio Godinho dizia uma vez: "Eu faço canções de amor. Não é música de intervenção, são canções de amor." E de facto, ele intervém com o humor. Obviamente. Essa música moderna portuguesa, eu prefiro chamar música moderna rock, porque a Gabriela Shafe, a Concha, era música moderna, não era rock. A própria Manuela Margues, que gravou um disco do Miguel Seabra Cardoso. Isso era música moderna, era uma modernidade em relação àquilo que existia, que punha as pessoas a viver, eu não digo entre o Estado e a Igreja, mas entre a música chamada de intervenção, o nacional cançonetismo, e depois vá lá, havia ali uma terceira via, que era a música das Avenidas Novas.

Rui Pego, para quem dizia que não tinha nada para dizer, ainda só vamos no início e vamos ter de fechar já a primeira parte.

Vamos embora?

Já voltamos. Eles tiram um pequeno intervalo. Até já.

Posso vir todas as semanas se quiser.

Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Rui Pego. E Rui, já falámos aqui da questão da economia. O que é que a apaixonava para querer ter seguido esta área, que depois ficou aqui em standby, em banho-maria?

Todo o caminho que já conhecemos e que vamos também procurar explorar mais um bocadinho, desde a fundação de rádios e a sua criação.

Eu acho que o que me estimulou foi não saber o que ia fazer da minha vida. Porque à época, as pessoas tinham que optar no quinto ano do liceu. Não sei o que representa hoje, aqui 4 e 9, hoje é o nono ano. Portanto, no quinto ano do liceu. E tinham que optar por Direito, por Economia. E eu optei por uma área, que era Economia, que havia na Universidade de Luanda. Vocês não se esqueçam que a Universidade de Luanda foi uma guerra tremendíssima travada por boa parte da classe dirigente da Liga Nacional Africana, com a ajuda de um governador geral à época, que tentou estabelecer uma universidade em Luanda, que se chamou primeiro Estudos Gerais, justamente pra não se chamar universidade, e que não tinha todas as áreas, não tinha Direito, por exemplo. Direito era perigoso.

Era reservado aos doutores de Coimbra.

Exatamente. Direito era perigoso. Não tinha Direito e, portanto, Economia pareceu-me sempre aquilo que fazia mais sentido, porque eu gosto de gerir. Gosto de gestão e, portanto, Economia fazia sentido. E à altura era Economia, não era Gestão. Hoje é que há Economia e Gestão.

Então vai estudar Economia, é isso?

E vou estudar pra Universidade de Luanda, Economia, e ainda faço algumas cadeiras lá em Luanda.

E interrompeu por quê? Por causa da rádio?

Não. Eu depois fazia simultaneamente, estava na faculdade e já trabalhava na rádio. Mas interrompi porque entretanto casei-me.

Coisas da vida. A vida mudou.

A vida mudou e depois tive que ir a correr ao Brasil e depois já não regressei. Mas são coisas-

Já não regressou à Angola, porque veio para Portugal.

Sim, são coisas que não interessam. Depois, em São Paulo, onde vivi, ainda contactei uma universidade de Economia lá, uma universidade privada, e depois vim estudar Economia pro Porto, quando regressei a Portugal. Mas entretanto, digamos que a rádio tinha um apelo mais importante, porque no Porto, digamos que eu não estudei bem Economia, joguei mais snooker do que estudar Economia.

Outra paixão também.

Exatamente. Joguei mais snooker do que estudar Economia, mas enfim.

Muito bem. Depois veio para Lisboa, iniciou-se na rádio portuguesa. Foi difícil passar do registro de comunicação de Angola para o registro de comunicação em Portugal continental?

Não foi difícil, porque à época havia muita gente também com origem em África e, portanto, não foi difícil. A Rádio Renascença foi uma escola tremendíssima pra mim. Eu candidatei-me pra redação, porque eu vinha da área da informação, e candidatei-me pra redação, mas eles não precisavam de ninguém pra redação, precisavam de alguém pra programação. E eu, como tinha muita vontade, e se calhar também muita necessidade, de trabalhar, aceitei. E ainda bem que aceitei, porque eu costumo dizer que nunca fui outra coisa senão jornalista, mas tenho a felicidade de ter feito sempre muitas coisas que não era jornalismo.

Até produção de programas também.

Justamente.

António Sala.

Sim, exato. E produzi um programa da Júlia durante o COVID pra Rádio Renascença. Era eu o produtor do programa.

Da Júlia Pinhão, muito bem.

Exatamente.

Muito bem. Isso dá outra visão sobre o mundo dos mídia. O Rui Pek tem uma longa carreira relacionada com a rádio, com a televisão. É um homem curioso, porque teve a delicadeza de nos enviar o seu currículo e tem imensas formações, inclusive formações recentes, por exemplo, em marketing digital, em contabilidade financeira de gestão. Fez um mestrado em jornalismo, política e história contemporânea já em idade adulta, o que é raro hoje em dia. É o quê, Rui? É curiosidade, é humildade perante o saber, o que o move para estar sempre ativo a procurar aprender mais?

Muita curiosidade, sobretudo. Muita curiosidade sobre este mundo onde nós vivemos, muita curiosidade sobre esta atividade que nós temos, e ajuda muito a refletir sobre esta nossa vida, se tiverem instrumentos pra isso. E, portanto, esse mestrado de que falou foi desenhado pelo Mário Mesquita.

O mestrado em jornalismo, política e história contemporânea.

Acho que foi um golpe de gênio dele, porque de facto, misturar jornalismo, política e história contemporânea é o que faz todo sentido. Só faltava ali um bocadinho de Economia, mas também isso vem por arrasto. Eu acho que eu tenho uma necessidade, que não se perdeu, felizmente, e que ainda existe, e é cada vez maior até, de refletir sobre aquilo que é a nossa vida, e sobre o nosso mundo, e sobre a nossa atividade, e sobre os mídia. E o fato de procurar conhecimento tem muito a ver com isso.

E os mídia, Rui, estão a interpretar bem os tempos que estamos a viver?

Eu acho que estão a interpretar na medida do que é possível interpretar. Acho que os mídia vivem, no fundo, numa camisa de 11 varas, que é ter que se viabilizar economicamente e ter que traçar linhas vermelhas claras em relação àquilo que é a loucura, o desvario, a desinformação permanente das redes sociais. E, portanto, acho que há uma tentação, muitas vezes, de correr atrás das redes sociais.

Como se as redes fossem o barômetro da opinião pública.

Exato.

E a quantidade de pessoas que hoje em dia só se informa através das redes sociais.

Mas também por isso, acho que é um papel fundamental dos meios tradicionais, que é desmontarem isso. Isto é, eu tenho a minha informação nas redes sociais ao longo do dia que me diz determinada coisa. Se eu tiver na rádio durante hora a hora, a toda hora, na televisão à noite, no jornal do dia seguinte, a desmontagem dessa mentira, chamemos lhe assim, eu acho que isso é um serviço inestimável que os mídia prestam à sociedade.

Não correm o risco, os mídia, de se tornarem fact-checkers 24 sobre 24 horas?

Correm esse risco. Esse é um risco. Agora, o que me parece é que não pode ser de outra maneira. O que me parece é que há aqui um desígnio de defesa de um conjunto de valores que passa pela avaliação sistemática e o cruzamento sistemático daquilo que é a informação que está a surgir. Porque hoje, atenção, o que nós vivemos é entre informação e contra informação. Não há dúvida nenhuma sobre isso. Não é novo, está em mais velocidade hoje em dia.

Mais alcance cada vez mais.

Hoje em dia, se há uma palavra que define o nosso tempo, é velocidade.

Sim.

Como é que se fazem noticiários hoje em dia na rádio, de meia em meia hora, é uma loucura, porque está sempre a acontecer qualquer coisa. E sem o check, eu corro o risco de ir para o microfone, num meio com credibilidade, dizer coisas que não são verdade.

A rádio de hoje é muito diferente do que aquela que o Rui experienciou, vivenciou e teve a oportunidade até de administrar. Qual é a mudança, sem ser esta questão das notícias, que mais o surpreende? Até mesmo no modelo de negócio da própria rádio.

Acho que a rádio tem uma capacidade tremendíssima de penetração. E está provado com a rádio portuguesa. Há sete milhões de pessoas, se tivermos em conta o reach semanal do baremo da Marktest, há sete milhões de pessoas que ouvem rádio. E isso é um valor inestimável e revela uma vitalidade absolutamente extraordinária naquilo que são os meios tradicionais de comunicação. Rádio, jornais e televisão. A rádio tem tido uma resiliência absolutamente extraordinária. E fez uma coisa, muito antes da televisão, atenção, que foi o seu casamento com a internet. Isto é, a ligação que a rádio produziu logo de imediato. Começou por ser um casamento vivendo em casas separadas. Mas depois rapidamente juntaram os trapinhos. E isso deu à rádio uma longevidade, do meu ponto de vista, extraordinária e uma capacidade de resiliência.

Com o livestream, com a produção de podcast.

Justamente.

Desdobramento em conteúdos para redes.

Exatamente, com esse desdobramento todo que o digital permite. Digital quer dizer multiplicação.

Sim.

Com esse desdobramento todo que o digital permitiu à rádio, até para o desenvolvimento das marcas e por aí fora, veio dar uma consistência e uma capacidade de afirmação à rádio que foi muito inteligente, foi estrategicamente importante e que está à vista de todos. De todos os meios, acho que a rádio é o meio mais democrático de todos.

Tinha aqui uma frase que dizia perfeitamente isso: "A rádio é o meio de comunicação social mais democrático porque permite o sonho".

Justamente. É justamente isso. Enquanto a televisão mostra, a rádio sugere. A rádio dá imagens, a rádio permite que eu, como ouvinte, faça a leitura que entender.

E que sonhos é que já vivenciou o Rui Pego com a rádio? Há aqui uma história, que também já falei com a Júlia Pinheiro. Aliás, foi na altura em que o conheceu, que o Rui uma vez adormeceu para uma entrevista muito importante que tinha com um artista.

Sim.

Não sei se esse sonho ficou interrompido, se depois foi concretizado.

Não, eu tive uma época complicada para acordar de manhã e tinha uma entrevista que simpaticamente tinha sido marcada com Mark Knopfler, dos Dire Straits, que estava sentado no estúdio da BBC. E eu cheguei tarde e, portanto, quando disse: "Lisbon calling", não estava lá ninguém.

Isso foi no ano em que os Dire Straits vieram a Portugal, ao Estádio Alvalade?

Não sei, não me lembro, mas foi há muitos anos.

E foi um sonho que ficou por cumprir.

O quê? Entrevistar o Mark Knopfler? Não, coitado do Mark Knopfler. Tinha mais que fazer. Ele estava a ser simpático, só. Mas a rádio tem essa capacidade. Eu vi Eu vi o concerto de Wembley, na libertação do Nelson Mandela, eu vi no CMR, em Belém. Ia de carro, ao pé dos pastéis de Belém, e estava a ouvir o concerto a que Mário Fernando foi enviado especial.

CMR? Correio da Manhã Rádio, pra quem não está familiarizado.

CMR. Sim, exato.

Muito popular nos anos 80 essa rádio.

O Mário Fernando foi o repórter e o comentador do concerto e estava a fazer transmissão direta pro CMR. Transmissão essa, de resto, pirateada pela rádio pública, que roubou.

Diz isso com uma-

Nós tínhamos pago direitos da transmissão do Mandela e a rádio pública roubou. Até hoje não perdoo.

Fica essa mágoa, não é?

Fica essa mágoa.

Rui, quem é que hoje existe na rádio portuguesa por causa de decisões suas?

Não sei se isso se pode por dessa maneira, porque acho que as pessoas encontram sempre o seu caminho. Mas há muita gente que eu gosto de pensar, ou que tenho muito prazer em que tenham começado no CMR, por exemplo. O Pedro Coelho da SIC começou no CMR. O Ribeiro, o nosso Ribeiro.

Pedro Ribeiro?

O nosso Ribeiro começou no CMR. O Nuno Markl começou no CMR. A Catarina Fertado começou no CMR. A Margarida Pinto Correia veio da Rádio Gest à época pra o CMR. A Fernanda de Oliveira Ribeiro começou no CMR. Sei lá, é uma infinidade de nomes de pessoas que são excelentíssimas profissionais e que estão hoje com destaque nos órgãos onde trabalham.

Rui, o que é que transforma uma pessoa num bom-

O João Linfária também.

João Linfária, sim. Rui, o que é que transforma uma pessoa num bom comunicador de rádio? Ou o que é que faz de alguém um bom comunicador de rádio?

Que pergunta tão difícil essa.

Até porque hoje em dia é cada vez mais difícil responder essa pergunta, não é?

Sim, é muito difícil responder.

Agarrar alguém a uma emissão de rádio.

Há uma verdade na comunicação que tem que existir. Se essa verdade existir, é meio caminho andado.

Houve um tempo que se dizia que era a voz, não é?

Não, já não é só a voz.

Tinha que ter boa voz.

Não. Ter boa voz ajuda, eu acho. Mas não é só a voz. Hoje já não vale só a voz. Hoje é preciso que as pessoas tenham alguma coisa pra dizer. E quando eu digo alguma coisa pra dizer, não são reflexões filosóficas profundas sobre o futuro da humanidade. Tenham alguma coisa pra dizer, tenham comunicação pra fazer. Sobre aquilo que estão a fazer, sobre os elementos que estão a usar, sejam notícias, seja música, seja o que for. E acho que a primeira questão é a verdade. Ninguém resiste a uma comunicação plastificada. Ok? Depois, acho que há uma outra coisa que se ganha com o tempo, que se aprende, que são técnicas de ritmo, técnicas do tempo, flutuações de voz, sei lá. Há uma série de coisas que permitem enriquecer ou colorir o discurso. E isso é muito empático, porque cria uma relação próxima com quem está a ouvir. O McLuhan dizia uma coisa que é decisiva pra rádio: há uma relação imaginária entre emissor e receptor. E a rádio, mesmo quando tem imagem, não quebrou esse mistério, essa relação imaginária. E é essa relação imaginária que permite que cada um de vocês, quando faz rádio, esteja a criar uma persona que comunica com alguém, que está a comunicar com alguém. E isso é inestimável, do meu ponto de vista.

Rui, pé que falou há pouco da rádio pública. Portugal precisa duma rádio estatal?

Essa é uma outra pergunta pra um milhão de dólares ou de euros, que até parecia melhor. Porque eu já tive várias opiniões sobre isso, e tento que o fato ter passado pela rádio pública não me tolhe o raciocínio e a reflexão sobre isso. Eu acho que nós vivemos um momento perigoso e, portanto, não é pior haver uma rádio pública e uma televisão pública que consigam resistir a esta loucura da contrainformação e das fake news. E, portanto, do meu ponto de vista, faz sentido que haja um serviço público de mídia.

Com rádio?

Sim, com rádio. Serviço público de rádio e televisão, um serviço público de mídia. Acho que faz sentido, se bem que eu acho que vai ser um tema que vai entrar pra agenda política.

Sim, mais tarde ou mais cedo.

Mais tarde ou mais cedo. De resto, o Chega já se propõe agora em setembro levar à discussão a privatização da RTP, que eu acho um disparate monumental.

Por quê? Já, agora?

É um disparate porque este mercado não aguenta mais um privado.

Um player.

Mais um player. Isso vai empobrecer cada um dos que existem, os chamados incumbentes, e isso vai criar mais fragilidades no mercado. Não parece que essa seja uma solução. A solução era haver uma definição estratégica do Estado do que quer do serviço público. E claramente pedir ao serviço público aquilo que é essencial pra defesa da democracia e para a defesa de uma sociedade com os valores que nós conhecemos.

Mas isso não existe já? Não há já um contrato de serviço público com conselho de opinião?

Há vários livros, e há vários livros branco, livro preto, livro encarnado, livro verde. Há vários livros.

E há todas as cores.

Há todas as cores, há vários livros, mas devia haver uma definição estratégica majoritária no país que definisse o que o Estado quer ter como serviço público.

E quem é que responderia a essa pergunta? O governo ou a Assembleia da República?

Não, quem responderia esta pergunta, numa primeira instância, eram profissionais desta área, gestores desta área, de preferência que já não tivessem interesses diretos nas coisas. De preferência, que não é fácil. E depois, obviamente, a dimensão política tinha que legislar em cima dessa solução. Agora, o que me parece evidente é que é preciso reorganizar o serviço. Sobretudo neste nosso tempo, hoje, neste nosso tempo de mídia que vivemos, era preciso reorganizar o serviço. Eu não sei se a RTP precisa de ter quatro canais de televisão, ou cinco. Não sei. Mais Açores e mais a Madeira.

A questão das rádios também.

As rádios, não sei se precisa ter a RDP Internacional e também a três. Não sei.

Portanto, sugere uma profunda reflexão sobre a necessidade do país ter tantos canais.

Uma profundíssima reflexão sobre isso. O Estado dizer: "Eu pra fazer o serviço público, preciso dois canais de rádio", imaginemos, "preciso de um canal e meio de televisão, e preciso que o governo regional da Madeira e o governo regional dos Açores assumam as televisões locais. Se as querem ter, que as assumam, e não ser a RTP a pagá-las."

Rui Pêgo, o que o preocupa em relação ao futuro?

Preocupa-me muita coisa, porque tenho quatro netas, ou melhor, três netas e uma quarta a caminho. Preocupa muita coisa. Preocupa-me esta insanidade permanente onde nós vivemos da mentira, da pós-verdade. Preocupa-me a agressividade cada vez maior das pessoas em todo sítio, na rua, nos transportes, no trânsito, em todos os sítios.

Estamos todos mais brutos, não estamos?

Estamos todos muito mais brutos, completamente. Mais abrutalhados, até é melhor. Mais abrutalhados.

Que é um paradoxo, porque em termos globais, estamos todos mais instruídos.

Essa é a falência da minha geração. Eu tinha uma visão. Entretanto, fui obviamente ao oftalmologista. Eu tinha a ideia de que as sucessivas gerações seriam melhores. Porque os pais educariam os filhos, os filhos já teriam uma educação melhor, educariam os seus filhos melhor, e assim sucessivamente, íamos sempre em processo ascendente. Não é verdade. A realidade desmente esta ideia da evolução da educação na sociedade. E sobretudo, o que me preocupa muito é isso, é a falta de literacia social. As pessoas falam ao telefone aos gritos num sítio público, estão à espera no médico e estão a ouvir coisas no telemóvel.

São coisas que, por exemplo, falamos aqui também de redes sociais. Este tipo de literacia devia ser ensinado nas escolas?

Completamente, desde mesmo da creche, logo na creche. Começar a ensinar logo na creche, pra não se morderem uns aos outros, por exemplo, que é o que eles fazem na creche. Os bebês mordem-se uns aos outros.

Mas aí estão a aprender.

Mas aí estão a aprender, que não é bom morder o outro. Mesmo no braço.

A idade tem tornado o Rui mais livre ou mais prudente em relação àquilo que diz?

Acho que mais imprudente, porque mais livre. O que eu quero dizer com isto: quando se deixa ter alguns filtros, corre-se o risco de ser imprudente com aquilo que se diz. E uma das coisas que eu tento vigiar é não ser tão imprudente quanto muitas vezes a vontade da liberdade aconselha, ou pelo menos sugere. Que é ter opiniões contundentes, pra dizer o mínimo, sobre algumas coisas que têm que ser ponderadas, e que têm que ser refletidas, e que são complexas, e que não são assim tão imediatas e tão fáceis.

É engraçado, porque em muitas pessoas, a passagem do tempo tira-lhes paciência. Ao Rui dá-lhe muita paciência, é isso?

Dá-me alguma paciência, mas eu sou muito impaciente. Estou aqui a fazer um número.

No trânsito, por exemplo.

No trânsito sou impaciente, mas tento me conter muito, falo pra mim próprio e falo muito sozinho, que é também uma característica da idade. Porque é melhor falar sozinho do que abrir o vidro e dizer disparates. Porque aí também se nota a falta de literacia social no trânsito. As pessoas são de uma agressividade e de uma falta de cortesia, uma coisa inacreditável.

Para terminar, Rui Pêgo, o que a rádio ainda lhe dá?

A rádio, neste momento, dá-me a capacidade de todas as semanas fazer um exercício com as novas crónicas da idade média, que faço com o Luís Marques, Luís Marinho e o Eduardo Oliveira e Silva na Rádio Renascença, que é um podcast que depois eles transmitem também na FM ao domingo. Dá-me esse imenso prazer de todas as semanas ter este exercício e todas as semanas dizer: "Mas por que eu me meti nisto? Tenho que trabalhar em cima daquilo e tenho que ler jornais e tenho que ouvir coisas."

Porque falam sobre tudo.

Nós falamos sobre os média, sobretudo, mas a forma como os média tratam a atualidade. E isso implica que se tenha que estar atento e se tenha que estar a perceber o que vocês andam a fazer.

Só disparates.

Alguns disparates, alguns muito disparates. Por exemplo, uma coisa que eu não consigo perceber é por que não há ninguém nas televisões, designadamente nas televisões, mais nas televisões do que nas rádios, muito mais nas televisões do que nas rádios. Não há ninguém a ensinar as pessoas a ler. E as pessoas prolongam as frases no final. Dizem: "O José Maria Pincel", não dizem José Maria Pincel, dizem: "O José Maria Pincel". E sobem o final da frase, arrastam o final da frase. Não há ninguém, não há um cursinho de formação, uma coisa qualquer. Porque ninguém nasce ensinado, as pessoas têm que aprender. Em contraponto a isto, há excelentíssimas miúdas, sobretudo miúdas, repórteres excelentíssimas, com uma capacidade de descrição do que estão a ver extraordinária e com uma desenvoltura que no meu tempo não havia. Portanto, acho que há aqui dois pratos da balança, mas isto encanita-me um bocadinho. A forma como aflautar o final da frase é uma coisa que não lembra a ninguém.

Mesmo para terminar e a título de curiosidade, até porque já falamos aqui sobre música, qual é que é a música da sua vida?

Eu não tenho propriamente uma música da minha vida, teria muitas músicas da minha vida, mas posso dar dois exemplos. Dou um exemplo que me marcou dos Crosby, Stills, Nash & Young, que se chama "Teach Your Children".

Nem de propósito.

Exato, nem de propósito. E uma outra que tem a ver com uma coisa muito nossa, minha e da Júlia, que é uma música dos Heróis do Mar, que se chama "Eu Só Gosto de Ti".

Muito bem, terminamos assim. Rui Pego, muito obrigado.

Com amor aí em cima.

Rui Pego, muito obrigado por ter vindo ao "Em 40 Minutos", para quem não tinha nada de interessante para dizer.

Eu é que agradeço, nem sei porque me convidaram para vir aqui.

Muito obrigado e até uma próxima. Obrigado.

Deus, um abraço.