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Quem tiver minimamente uma ideia do meu registo sabe exatamente isso. Eu aliás, fui muito elogioso quando o André Villas-Boas chegou para o Futebol Clube do Porto e preparou-se para ser presidente do Futebol Clube do Porto. Eu dei-lhe um apoio em cima daquilo que eu achava que era. Ele tinha uma narrativa de transformação. Eu achava há muitos anos que o futebol precisava de ser mudado e quem pode mudar o futebol são os protagonistas.

E era essa a promessa quando tivemos esta vaga destes três presidentes dos três grandes, não é?

Eu achei: "bem, o 25 de Abril chegou", porque eu acho que o futebol em Portugal precisava de um 25 de Abril. Eu às vezes dizia que precisava de um 50 de Abril, que era o 25 de Abril a dobrar. Infelizmente, acho que ainda estamos no 24 e meio.

O que é esse meio que falta?

Faltam as pessoas assumirem aquilo que dizem e prometem.

O futebol em Portugal nunca foi apenas um jogo de 90 minutos. É um ecossistema de paixões cegas, em que a independência é um luxo e o silêncio costuma ser a opção mais segura. O nosso convidado nunca quis ficar calado, escolheu não ter clube público, não ter filtros e, acima de tudo, não ter medo de fazer inimigos. Corria o ano de 1976, quando pegou na caneta para assinar a sua primeira crônica na imprensa escrita. Mal sabia ele que estava a inaugurar uma maratona que dura até hoje. Já vamos saber como é que está de resistência. Mais tarde, a televisão deu-lhe o palco e ele transformou o comentário num gênero artístico e quase teatral. Nunca recuou um milímetro. Mantém-se fiel à sua trincheira, sempre pronto para analisar o xadrez dos três grandes e as grandes competições que aí vêm. Está a celebrar 66 anos de vida e hoje vamos tentar perceber quem é o homem que sobreviveu a meio século de guerras no futebol português, e não só, sem nunca perder a voz. Rui Santos, em "40 Minutos". Muito bem-vindo aqui à Rádio Observador. É um gosto receber-te.

Muito boa tarde, João. É um prazer estar aqui na Rádio Observador. E a tua introdução diz quase tudo.

Diz?

Acho que sim. Acho que é um bom resumo daquilo que tem sido a minha carreira.

Daquilo que andas aqui a fazer.

Sempre com muita vontade de aprender e, portanto, não estou nada fechado a novas dinâmicas, mas como comecei muito cedo, já passei por muita coisa.

Já viste muita coisa.

Já vi muita coisa e há uma coisa que eu me orgulho bastante, que é debaixo das pressões que nós sabemos que existem no futebol, continuar a dizer aquilo que penso, acima de tudo. Hoje as dinâmicas de comunicação são completamente diferentes, também a partir dos próprios clubes, das suas lógicas de comunicação. E mesmo assim, eu morando numa vila, ainda vou conseguindo saber algumas coisas, ainda consigo dar algumas notícias.

Que vila é essa?

Eu sou uma pessoa muito reservada e muito pacata e não gosto muito de abrir o jogo em relação à minha vida privada. Em todo o caso, eu tenho um privilégio, que considero grande, que é o fato de há mais de 20 anos não ter que ir para as redações e, portanto, não ter que me levantar muito cedo.

Isso é um privilégio.

É um privilégio extraordinário. Eu, no fundo, inaugurei um bocadinho aquilo que hoje já é uma coisa mais corrente e que tem a ver com o teletrabalho. Portanto, eu faço isso há 24 anos.

Sentes-te bem com isso? Há pessoas que, por exemplo, na pandemia, e falo por mim, houve um tempo que até era bom estar em casa, mas depois ao fim de tanto tempo já era um bocadinho desconfortável. Parecia que estava a contagiar o meu local de lazer com o trabalho. Tu não sentes isso?

Eu não senti, porque como eu estava já muito habituado a fazer a minha vida a partir de casa, que é o meu escritório, e só tenho que me dirigir aos estúdios para trabalhar, para fazer os programas, essas coisas todas. Estava muito adaptado já a uma lógica de vida, que é uma lógica conservadora. Como eu já fiz muita coisa e já viajei por muito lado e comecei a fazê-lo muito cedo, eu tenho uma vida muito controlada e faço tudo na minha zona residencial, que é a minha zona de trabalho também.

E zona de conforto.

E a zona de conforto. Gosto muito de sol e portanto, na altura em que o sol aparece, sou uma pessoa que gosta de estar no meu jardim a trabalhar. Gosto de estar perto do mar, gosto muito de comer, estou numa zona ótima para isso. Não sei, eu acho que o meu principal calcanhar de Aquiles tem a ver exatamente com o facto de gostar muito de gastronomia e, portanto, de tentar perceber tudo.

Se precisarmos de recomendações de restaurantes, podemos ter contigo.

Isso também. Como sou eu a pagar as contas, não tenho problema nenhum. Só quero que as pessoas saibam que eu não faço publicidade por me pagarem os almoços e os jantares. E lá está, isso também tem a ver um bocadinho com, não sei se é algo excessivo, mas eu levo muito a sério a questão da independência e também desse ponto de vista, tenho muito cuidado com as relações e não quero deixar contaminar, condicionar. Nos dias de hoje, acho que a coisa mais difícil é ser livre.

Tu conseguiste sempre. Consideras-te sempre livre desde que começaste?

Eu costumo dizer que eu tive muita sorteNão é livre quem quer. Para ser livre é preciso ter sorte. Eu tive a sorte de nunca me deixar capturar pelas forças dominantes do futebol, seja através dos clubes, seja através da federação ou da liga. As minhas relações são relações que eu espero sempre que tenham um cunho de diplomacia e de abertura. Eu sou uma pessoa de diálogo e sou uma pessoa muito sociável, mas também sou muito intransigente relativamente àquilo que é a minha opinião, a minha independência, e isto é um exercício muito difícil.

E diário, ou não?

E diário. E quando eu digo que tive sorte, foi que para estas coisas, e sabendo como é que o futebol funciona, eu nunca me deixei levar por caminhos ínvios. Nunca aceitei viagens, nunca aceitei bilhetes para ir ao futebol, nunca aceitei férias.

É fácil perder-se com esses convites todos.

Eu acho que é fácil pelo que vejo. Pelo que vejo e sem crítica para ninguém em especial.

Ou seja, é muito fácil capturar esse interesse?

Eu acho que é muito fácil capturar esse interesse e hoje em dia vejo muitas coisas. Percebo as lógicas e percebo as correntes da opinião que são dominadas. Não me quero colocar acima de ninguém, mas não sou domesticável. Não sou domesticável, sendo uma pessoa de diálogo. Eu tenho perdido algumas fontes de informação, porque enquanto se mantém uma relação de respeito e de compreensão do trabalho de parte a parte, as coisas mantêm-se. Mas eu prefiro perder uma fonte do que me hipotecar. E levar isto assim durante mais de 50 anos não é fácil, como deves calcular. Mas isso é que me enche de orgulho. E eu às vezes penso: "Mas fizeste este caminho, tu achas que este caminho só te deu chatices, só te deu problemas? Por que não mudas? Por que não mudaste?", etc. E eu disse: "Não vou mudar". E fui resistindo sempre a uma coisa que as pessoas às vezes me perguntam: "Mas tu és tão opinativo em relação às coisas. Nunca tiveste aquele bichinho de procurar qualquer coisa nos clubes, na federação, na liga?" Eu nunca ambicionei nada. Mesmo na comunicação social, eu tive a oportunidade, chefiei o jornal "A Bola", tive o cargo de subchefe e chefe de redação, mas eu nunca ambicionei nada, ser diretor.

Ou seja, é um cargo de poder.

De poder. Eu acho que percebo as lógicas de poder. Tentei sempre ser contrapoder, porque eu acho que eu tendo a carteira profissional e sendo jornalista ainda hoje, eu acho que a carteira de jornalista acaba por me impor um peso, que é dispensável, e eu não tinha que continuar a ser jornalista, que me impõe códigos deontológicos e tudo isso. Mas acho que essas barreiras também são importantes para nós no exercício daquilo que é o nosso cotidiano, a nossa forma de estar. Eu acho que nós devemos impor barreiras a nós próprios, não é preciso ter um código deontológico.

Sim.

Mas eu nunca abdiquei disso, porque eu nasci jornalista e acho que vou morrer jornalista. E aquela inversão ou aquela inflexão, mudar caminho, mudar de chip, mudar de posicionamento intelectual, como se quer chamar, é uma coisa que já não faz parte dos meus planos. Eu nasci assim, mantive-me assim e acho que vou morrer assim. E espero morrer com orgulho, sobretudo com orgulho, e com a noção de que fui fazendo alguma coisa para, não vou dizer marcar a agenda, mas que as pessoas de alguma maneira tivessem alguma atenção àquilo que eu digo, sem nenhum tipo de presunção, mas tentando levar muito a sério aquilo que é a minha profissão.

Algo que te distingue, e acho que é fiel e as pessoas de qualquer idade que se interessam por desporto têm a tua opinião em muito boa conta. Tu falavas aqui há pouco da questão das fontes e que foste perdendo algumas. Tu tens muitos inimigos, ou não digo inimigos, mas pessoas que sabes que não gostam de ti, que se calhar te têm por perto porque sabem que és uma pessoa com a devida influência?

Isso é uma pergunta muito interessante, porque isto é assim: eu tenho a noção de que sou uma pessoa incômoda. Tenho a noção que a maior parte dos protagonistas do futebol me ouvem, mesmo dizendo que não. Eu tenho noção de algum peso que fui construindo e tenho noção de que há pessoas que não gostam de mim.

Mas não gostam de ti pelo que tu és ou por aquilo que tu dizes?

Por aquilo que eu digo, porque enquanto eu disser bem, enquanto eu digo bem, eu tenho muitos elogios e tenho até manifestações de desagrado, etc. O problema é quando se passa para o outro lado.

E sabemos que o futebol gera todo tipo de reações.

Naturalmente. Mas há uma coisa muito interessante. Eu achei que mesmo tendo já alguma idade, digamos assim, achei que devia ter redes sociais ativasE acontece uma coisa muito gira, que é: eu não tenho muitos seguidores. No total, entre Facebook e Instagram, terei à volta dos 70 e tal mil seguidores.

Mas há muitos que vão lá ver e não te seguem.

Era isso que eu te ia dizer. Às vezes tenho percentagens. Eu no verão passado atingi qualquer coisa como quatro milhões de visualizações e isso significa que as pessoas querem espreitar pela fechadura para perceber o que eu digo, o que eu faço. Portanto, há esse interesse. Mas depois há a assunção, como eu sou contrapoder e não estou associado diretamente a nenhum clube, porque há muitas pessoas que gostavam que eu assumisse que eu fosse do Benfica, do Sporting, do Porto ou de outro clube qualquer.

Aliás, a tua família, sabes disso, já falaste várias vezes, é ligada ao Sporting.

É ligada ao Sporting. O meu pai era um grande sportinguista e eu conto uma história, que posso voltar a contar, que eu acho que é interessante. Como eu comecei muito cedo, o meu pai era muito sportinguista e tivemos a certa altura uma conversa.

Um despique.

Um despique em que ele defendia uma coisa associada ao interesse do Sporting e eu achava que ele não tinha razão. E disse: "Pai, olha, eu não concordo nada com isso". Era um assunto relacionado com o Benfica. E eu dava razão ao Benfica, à questão naquela situação. E ele vira-se para mim e disse: "Eu já andava a desconfiar. E é a pior coisa que me podias dizer, ou eu sentir, que é: afinal, eu tenho um filho do Benfica". E eu disse: "Ó pai, pense", eu tratava-o por você, "pense o que quiser, mas olhe, eu não concordo nada com isso". E a verdade é que nunca mais voltámos a falar de futebol e eu tenho a convicção de que ele morreu a pensar que eu era afinal adepto do Benfica. Eu não sou adepto do Benfica, eu não sou adepto do Sporting, não sou adepto do Porto naquele sentido do adepto de bancada, que não dorme por causa de um resultado e que coloca o futebol, o clubismo acima de tudo. Não sou nada disso. Eu preparei-me no sentido contrário e no sentido de não ter clube.

Mas é muito estranho para as pessoas.

É estranho, as pessoas não compreendem nem acreditam.

"Mas como é que ele não pode ter clube?"

Mas isso tem a ver com a outra parte, ainda dentro da tua questão, que é os inimigos e os amigos. Eu faço uma vida em que almoço e janto fora muitas vezes e tenho contactos com as pessoas normais. E é engraçado, porque eu posso dizer 99,9% das vezes, as pessoas veem-me, gostam imenso. Eu também sou uma pessoa aberta, tirando talvez uma situação em que a pessoa queria mesmo que eu me sentasse e que falasse. Foi até recente. "Posso lhe pedir?" E eu tinha um compromisso, tinha telefonemas para fazer. "Não me leva a mal, mas realmente não é a oportunidade." Isto para dizer o quê? Que as pessoas são muito simpáticas comigo, a maior parte. Criaram a uma certa altura a imagem do anti-Porto.

Arrogante também, não é?

Sim, de arrogante. Isso acho que tem um bocado a ver com a imagem projetada, porque talvez uma certa postura não tão desportiva quanto muita gente imaginaria. E mantive sempre isso durante anos. Mas eu sou uma pessoa completamente diferente daquilo que as pessoas veem no ecrã. Eu sou uma pessoa superaberta a conversar, gosto muito de socializar e gosto muito de olhar, por exemplo, à mesa, conversar sobre vários temas. As pessoas não conhecem esse lado, conhecem o lado mais fechado, conhecem o lado mais hermético.

A persona televisiva, entre aspas.

Eu criei um boneco televisivo, que sou eu, é claro que sou eu, mas sou no sentido de que é muito diferente uma pessoa estar num programa de televisão em que depende acima de tudo da sua opinião e que está a tentar passar aquilo que é a sua opinião. Outra coisa é um registo de debate. E eu tive também o privilégio de iniciar esse registo de debate ainda na SIC, mas estive muitos anos a fazer um programa de autor, que continuo a ter na CNN, e criei ali uma dinâmica que não é muito diferente ao longo dos anos, mas eu tentei sempre, de alguma maneira, inovar, mas mantendo aquele registo em que me preocupa que as pessoas acreditem em mim, porque eu tento sempre falar a verdade e dar nota daquilo que são as minhas informações. Naturalmente, as pessoas podem dizer: "Mas há jornalistas mais novos que também têm informações e que dão essas informações", e eu acho perfeito. E acho, aliás, que é muito importante que haja uma complementaridade entre aquilo que é a experiência.

Sim, uma nova geração também a surgir.

Mas não a desvalorizar. Eu vejo pessoas a desvalorizar, isso dói-me às vezes um bocadinhoMas como eu também já tive 20, 30 e 40 anos, relativizo e valorizo a parte de quem é irreverente, a parte de quem ousa dizer certas coisas, porque eu também já fui assim. Eu também já fui assim, portanto tento compreender. Eu estou numa posição em que quero continuar a inovar. Podes me perguntar: "Mas o que é inovar estando tu sentado numa cadeira?" Em termos de conteúdos, eu fui talvez das primeiras pessoas, ainda estava na SIC, a estar de pé, a dar opinião junto de um LED, que naquela altura era uma coisa absolutamente nova. Nós estamos a falar ali de 2003, mais ou menos. Eu saio da bola em 2002.

A questão de olhares pra câmera, esse momento.

Isso foi uma coisa recente e que inicialmente até não foi uma coisa muito bem recebida, porque achavam que era uma coisa de jornal, de imprensa.

Deixa-me só fazer aqui uma pequena pausa, porque eu quero abordar essa questão contigo na segunda parte, pra termos assim mais tempo. Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias e já voltamos, está bem? Mas vamos falar sobre isso, que é um tema bastante interessante. Até já.

Até já.

Segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana estamos com Rui Santos. Rui, estávamos a falar aqui desta questão, na primeira parte, de seres irreverente, no sentido de falaste desta questão de estar em pé perante um LED. Foi tudo isso na SIC.

Sim, na altura era uma coisa nova, foi uma inovação que se fez.

E isso hoje em dia é o mais normal que há.

É o mais normal que há.

Até em painéis de análise.

Exato. Porque o LED, naturalmente, em termos de sustentação das ideias, é importante para nós conseguirmos, por exemplo, ler grafismos, interpretar grafismos. É importante.

Essa questão da câmera, que eu deixei pendente pra segunda parte, eu não sei se tu estás a par, mas há um podcast que se chama "Falsos Falentos", e eles têm o momento Rui Santos.

Ai, é? Não sabia.

Um momento mesmo ali no final do episódio, em que temos o Diogo Batáguas, o Carlos Coutinho Vilhena e o Manuel Cardoso, e eles fazem esse momento: olhar para a câmera. Tens de ver.

Eu ia te dizer.

Ou seja, até isso já levou aqui a que se faça uma sátira desse momento.

O que significa que é, bem ou mal, marca.

Exato.

A minha ideia foi sempre: "Por que eu não hei de fazer uma coisa, uma rubrica, que é a mensagem?"

Uma espécie de recado.

Sim, há quem diga uma carta, há quem diga um recado. Mas, de facto, a designação da rubrica é a mensagem. E eu assumi que a mensagem é um texto escrito, um texto escrito por mim, que fui sempre também uma pessoa muito ligada, tive 26 anos na imprensa escrita e escrevo há mais de 50 anos ininterruptamente. E portanto eu disse: "Mas por que não? Quais são os contras?" Os contras são, primeiro, as pessoas vão achar um produto não televisivo. Falar pra câmera, o que é que pode suscitar? Alguma arrogância, alguma tentativa de ser proeminente, porque olhar pra câmera é olhar pras pessoas.

E as pessoas parece que se sentem intimidadas, não é?

E as pessoas pensam um bocadinho isso. Mas por que não? A verdade é que hoje, a maior parte das vezes, os picos de audiência no meu programa têm a ver com a mensagem. É muito interessante. E portanto, eu também convenci, acho que internamente, e aliás, depois até houve vários ensaios depois disso, em que alguns opinadores acabaram por usar essa dinâmica de olhar pra câmera em menos tempo. E eu acho que venci essa batalha, porque havia muita desconfiança relativamente a essa abordagem. Muita desconfiança. Mas neste momento, lá está, absolutamente assumida.

E tens de ir ver o "Importante" que há este momento também.

Tem que ver.

Eu depois partilho contigo no final. Por acaso achava que tu estavas a par.

Não estava, não sabia.

É um momento que acontece e acho que também te confere, lá está, isto que estavas a falar da questão de se tornar um momento, ao ponto de, se calhar, daqui a uns cinco, 10 anos, se calhar temos alguém a fazer o mesmo.

Sim, eu sei. Vamos lá ver, porque isto agora tem um tempo: o início e a atualidade. E entre o início e a atualidade, as coisas foram evoluindo.

Claro.

Eu não fiz nenhum treino, não fiz ensaios, não fiz nada. Foi uma coisa que me passou pela cabeça e como autor do programa, achei que devia colocar nos alinhamentos. E lembro que no início houve gente, até do ponto de vista do humor, que brincou com isso. Mas eu nessas coisas extremamente desagradáveis.

Tu lidas bem com essa parte.

Eu lido bem. Eu acho que o humor também deve ter os seus limites. Como eu imponho limites a mim próprio, eu acho que o humor deve ter os seus limites. Mas acho que a liberdade é essencial. Quer dizer, eu acho que a liberdade tem limitesPorque o conceito de liberdade, as pessoas acham que a liberdade é dizer tudo e mais alguma coisa, inclusive é ofender as pessoas, insultar as pessoas. E eu acho que esse é o limite. O limite é: não insulto. Tudo o resto cabe no humor, tem que caber no humor. A democracia tem que ser um jardim aberto, bem tratado, em que naturalmente as pessoas com irreverência podem dizer e devem dizer coisas, porque senão este mundo também não tinha piada nenhuma. A preto e branco não tinha piada nenhuma. Portanto, eu brinco com essas coisas e até no meu programa, uma vez, quando eu percebi que tinha aí uma situação extremamente desagradável, eu acabei por brincar com a situação e dizer: "Qualquer dia eu vou fazer uma mensagem sobre isto".

Sobre isso.

E ficamos assim.

Tu andas cá há muitos anos. Falaste na primeira parte dessa questão do teu pai de ter achado que tu eventualmente eras do Benfica. Sabemos que não tens clube. Tu achas que se ele estivesse aqui e a acompanhar este processo todo, esta tua carreira, o que achas que ele teria para te dizer neste caminho que tens feito?

Muito zangado.

Estaria mais zangado ou mais contente?

Eu acho que o meu pai teria orgulho em mim, sobretudo por aquilo que tem a ver com uma herança que eu tenho e que foi ele que me passou, que tem a ver com o exercício de uma certa seriedade intelectual. Ele nisso também era absolutamente intransigente e passou-me muito. Eu estive num colégio militar por causa dele, ele era médico e militar. Passou-me valores que são muito importantes pra minha vida hoje. E, portanto, eu diria, por um lado, sentir-se-ia orgulhoso, por outro lado, sempre muito zangado comigo quando eu dissesse mal do Sporting.

Achas que ia estar sempre a ligar?

Acho que me estaria sempre a dizer: "Bem me parecia, pá. Já te dizia há tanto tempo que eu achava que tu eras do Benfica". Eu não tenho nada essas coisas. Eu tenho a noção exata de que mesmo com o tempo que eu tenho de profissão, eu não posso ter a veleidade de achar que as pessoas estão sempre a acompanhar aquilo que eu digo. Mas quem tiver minimamente uma ideia do meu registo, sabe exatamente isso. Eu aliás, fui muito elogioso quando o André Villas-Boas chegou para o Futebol Clube do Porto e preparou-se pra ser presidente do Futebol Clube do Porto. Eu dei-lhe um apoio em cima daquilo que eu achava que era. Ele tinha uma narrativa de transformação. Eu achava há muitos anos que o futebol precisava de ser mudado e quem pode mudar o futebol são os protagonistas.

E era essa a promessa quando tivemos esta vaga destes três presidentes dos três grandes, não é?

Exatamente. E eu achei: "Bem, o 25 de Abril chegou". Porque eu acho que o futebol em Portugal precisava de um 25 de Abril. Eu às vezes dizia: "Precisava de um 50 de Abril", que era um 25 de Abril a dobrar. Infelizmente, acho que estamos no 24 e meio.

O que é esse meio que falta?

Falta as pessoas assumirem aquilo que dizem e prometem. É um bocadinho como na política. Eu adoro o meu país, que tem coisas maravilhosas, mas estou sempre muito zangado com o meu país. Estou zangado com os políticos, estou zangado com aquilo que às vezes vejo na televisão. Estou zangado com o facto de ver determinados setores, segmentos de atividade, coisas muito importantes pro dia a dia dos portugueses, nomeadamente saúde e educação.

Vimos agora de uma greve geral.

Exatamente. Eu sou muito sensível a isso e estou muito zangado com o bloco central. Eu fui sempre uma pessoa moderada, do centro. Nunca assumi também as minhas convicções políticas, não tenho partido, mas fui sempre uma pessoa do centro. E eu estou muito zangado com o centro, estou muito zangado com as lideranças políticas e partidárias.

Temos políticos fracos neste momento.

Acho que sim. Acho que vivemos uma crise, talvez a maior crise de sempre em termos de lideranças partidárias. E não gosto de ver isso, não gosto de ver pessoas a morrer porque não chegou o INEM. Não gosto de ver pessoas abandonadas nos hospitais, não gosto de ver a função pública aproveitar-se das situações, dos feriados. Eu tenho um espírito muito, como é que eu vou dizer, tenho que pôr umas aspas nisto, muito revolucionário no sentido dos direitos dos trabalhadores, essas coisas todas pra mim dizem-me muito, mas também não gosto da exploração que se faz em relação a essas situações, que muitas vezes traduzem greves em momentos específicos. Em que há pontes, há coisas dessa natureza que eu acho que do ponto de vista ético não é bom. E fico muito triste mesmo quando vejo coisas acontecer. Ainda agora vi uns números que tinham a ver com as receitas relativas ao mundial, Portugal o que é que vai encaixar, milhões e milhões. E na minha cabeça coloca-se sempre esta questão: estes milhões vão pra onde? Vão pra que buraco? Vão pra que elites? Vão pra que situações em que as pessoas depois acabam por se aproveitarEnfim, do fato de ocuparem posições de relevo. Eu também estou muito zangado com as elites do nosso país, estou muito zangado com o fato dessas elites não darem o exemplo, não se preocuparem com o exemplo. E isso depois tem extensões várias, uma das quais está no futebol. E se as pessoas se preocuparem muito com isso. Vamos lá ver. Eu ia citar o memorial do convento. A vida não é um convento. Com todo o respeito por quem lá habita e por muito respeito pela postura das pessoas, a vida é uma coisa complicada, muito dicotômica. Às vezes há situações que nós também temos que compreender do ponto de vista de uma certa elasticidade dos políticos, etc. Mas eu acho que há regras essenciais que se quebram muito facilmente e que têm a ver com regras de respeito pelo bem comum. Eu, por exemplo, não gosto nada de ver uma classe média a suportar a base essencial dos impostos. Vejo muitas atividades em que as pessoas não pagam impostos, vejo pessoas a receber do Estado que não deviam receber do Estado. Portanto, é uma questão de defender aquilo que é defensável e não defender o indefensável. Eu acho que neste país nós estamos a defender muito o indefensável, estamos a proteger muita gente que não merece proteção e por isso é que eu adoro o meu país.

E há essa esperança ainda?

Eu vou perdendo um bocadinho a esperança, porque noto a tal degradação do ponto de vista das lideranças político-partidárias. E acabo por também perceber a eclosão e o crescimento do Chega, exatamente porque eu acho que o Chega só cresce porque o centro, vamos dizer assim, e vamos pôr os nomes, o PSD e o PS, não cumpriram nos últimos anos de acordo com as expectativas dos portugueses. Pode-se dizer que isso está ou não está, consoante as interpretações, traduzido nos resultados das eleições.

Sim.

Mas eu acho que quer o PSD, quer o PS, perderam muito em função das suas omissões e das suas demissões. E eu, como democrata convicto, eu não perdoo isso. Eu não perdoo isso ao centro da nossa democracia. Não perdoo.

Vamos olhar aqui pra tua área de atuação, desporto, nomeadamente o futebol. É um espaço, e há muito espaço em televisão pra analisar, nomeadamente o futebol, não necessariamente outros desportos, porque Portugal, sabemos, é um país de muito futebol e liga-se muito ao futebol.

Já foi mais.

Há muito circo em televisão à volta do futebol.

Há demasiado. Eu compreendo tudo, compreendo e até elogio algumas dinâmicas. Uma coisa é o jogo em si. E o jogo em si, a maior parte dos portugueses gosta de ver o jogo. Depois há o futebol comentado. Eu percebo as lógicas de algumas empresas de comunicação e naturalmente dinâmicas televisivas que colocam nas suas grelhas programas de duas horas, duas horas e meia, diários. Programas diários de duas horas, duas horas e meia. E percebo que esses programas tenham êxito.

Porque há pessoas que também os querem ver.

É porque há consumo. E portanto, significa que os programadores e quem teve a inteligência e a capacidade de antecipar situações que nós pensávamos num determinado momento que iam abandonar um bocadinho o registro das televisões e, nomeadamente, tem que se dizer, o aparecimento da CMTV acabou por mudar um bocadinho o paradigma e manteve aquela lógica do despique entre pessoas de clubes diferentes que têm perspectivas naturalmente diferentes e estão ali pra defender o seu próprio clube. Eu pensava que nós podíamos ultrapassar isso e eu acho que ultrapassando isso, o país teria se calhar até outra dimensão, porque eu falo contra mim, contra o meu interesse, que é: eu acho que o futebol é importante, mas é a coisa menos importante das coisas mais importantes. Quando eu vi as televisões generalistas optarem por um registro em que as coisas que têm a ver, naturalmente, com a atualidade da política, da economia, da saúde, todas essas coisas, a política internacional, eu acho que isto é uma evolução, acho que isto é o crescimento do país e, portanto, o futebol tem que se encaixar não numa primeira linha e, sobretudo, não numa primeira linha tóxica, que era o que estava a acontecer. E achei isso uma coisa boa. Mas a CMTV veio trazer ou veio recuperar registros que eu pensava que iam ser abandonados. E eu tiro o chapéu. Tiro o chapéu em termos dos resultados e tiro o chapéu aos programadores, porque eles viram coisas que provavelmente, porque evidentemente que as audiências trazem benefícios do ponto de vista comercial.

Mas depois há aqui outra questão, Rui, e não sei se concordas ou não.

Sim.

Nós falamos muitas vezes dessa degradação do futebol. Há bocadinho falavas desta questão daDo novo mundo que podia vir com esta vaga de três novos presidentes que entraram quase ao mesmo tempo, o Rui Costa, o Frederico Varandas e também o André Villas-Boas. A comunicação social também não pode ser a responsável por essa degradação ao tentar alimentar essas tricas?

Faz parte. Eu não fuja à questão. Eu acho que é muito responsável por esse clima. Eu gostava que os comentadores, quer dizer, quando se designa uma pessoa de comentador, eu acho que se deve fazer-

Não há uma escola

Não há uma escola. O comentador pode ser qualquer pessoa. De facto, há uma diferença entre o antes da internet e o depois da internet. Antes da internet, só os jornalistas publicavam. Depois da internet, toda a gente passou a publicar.

Toda a gente hoje em dia pode ser um comentador.

Qualquer pessoa pode ser comentador, mas há uma coisa interessante, é que toda a gente fala de futebol, toda a gente comenta futebol. Mas eu, por exemplo, tenho opiniões sobre questões de outros segmentos e tenho opiniões sobre política. Outra coisa é querer dar ou não querer dar, mas tenho a opinião. Mas é engraçado que a televisão é jornalista e, portanto, a televisão de cabo, se para preencher um buraco for necessário ir buscar um comentador de política, vai facilmente, mas se for ao contrário, já não é assim. Há um certo preconceito. É um preconceito que nasceu antes do 25 de abril, que é aquele preconceito que se chama jornalista desportivo. Chama-se com uma intenção não de valorização, mas é uma subcondição do jornalismo, quando afinal de contas, e nós vemos, que a maior parte dos jornalistas com cargos diretivos nas televisões, e não apenas nas televisões, passaram pelo desporto. Ora, o que significa que o desporto é de facto-

O Nuno Santos esteve na criação do Canal 11, na fundação

No Canal 11 e não apenas o Nuno Santos, mas outras figuras que passaram pelo desporto e o desporto deu-lhes uma bagagem fundamental para perceber dinâmicas, para perceber outras coisas. Eu, como jornalista, quando me chamam jornalista desportivo, é como chamar jornalista da meteorologia. Ninguém chama. Jornalista é jornalista para mim e ponto. O que eu fiz, e que nunca abdiquei disso, foi nunca abdicar. As pessoas às vezes dizem assim: "Mas por que nunca foste para um clube?" Porque eu acho que isso muda tudo. Há pessoas hoje que fazem comentário que já estiveram ou no Canal 11, na federação.

Ou até em campanhas.

Em campanhas ou em assessorias. Eu não me estou a ver nesse papel. Eu quando estou a comentar, eu não estou a comentar pensando assim: "Eu tenho que dizer estas coisas porque eu quero ser ou assessor de comunicação ou diretor de comunicação, ou ter um cargo numa direção de um clube qualquer."

Essa é a qualidade que tu mais te orgulhas, a tua independência.

É, não tenhas dúvida. Imagina o seguinte cenário: havia uma coisa absolutamente fora do normal. Havia um movimento qualquer para me colocar num determinado sítio, quer dizer, saltar de fora do futebol, porque eu não me considero dentro do futebol. Eu sou um elemento fora do futebol. As pessoas dizem que eu estou dentro do futebol, mas eu não estou dentro do futebol, porque, como eu costumo dizer, isso também me orgulha, eu nunca ganhei diretamente um cêntimo que fosse do futebol. Eu ganho, não desvalorizo o fato da minha atividade estar ligada ao futebol, mas eu, por sorte, certamente, não por mérito meu, eu nunca ganhei e não tem mal nenhum. Há pessoas que já estiveram nos clubes, saíram, etc. Isso deu-lhes, por um lado, algum conhecimento de uma realidade do futebol por dentro, mas retira-lhes outra coisa, que eu acho que é muito importante para se dar a opinião, ter algum distanciamento com os protagonistas. É esse distanciamento que eu imponho. Mas isso eu acho que é uma situação já singular. Eu acho que devo ser dos últimos moicanos. É uma crítica? Não, não é uma crítica, é factualidade. E há uma coisa que, falando de orgulho, é para mim importante, que é: eu acho que estou a conseguir provar que mesmo perante a câmera, e valorizo muito o trabalho dos moderadores com quem trabalhei mais, na SIC com o João Abreu e agora na CNN com o Joaquim Sousa Martins, dou muita importância ao trabalho da moderação.

E é muito importante também essa cumplicidade, não é?

Sem dúvida nenhuma. E aqui presto homenagem a quem, neste momento, faz a moderação do meu, nosso programa, que é o Joaquim. Mas isto era a propósito, tem a ver com-- perdi-me

Já demos aqui uma grande volta, estamos a falar da questão de muitas vezes criar uma espécie de circo nos programas de televisão à volta do desporto.

Pronto. Eu ia dizer exatamente isso, que é: eu tenho esse orgulho de provar que é possível estar tantos anos na televisão sem entrar no circoE eu não tive que me transformar em foca ou em trapezista, ou seja lá o que for.

Haveria mais exemplos.

Haveria mais exemplos que eu quero evitar. Estou a provar que as dinâmicas televisivas que geram impacto são normalmente debates, e são debates muito acutilantes. É engraçado quando eu, às vezes, nas televisões, não apenas atualmente, ponho o dedo no ar e digo assim: "Qualquer coisa que eu gostava de melhorar, podíamos fazer". Não só atualmente, mas principalmente no passado, diziam assim: "Mas o que tu queres mais? Tu tens um programa, tens um programa de autor, estás há não sei quantos anos. Mas o que tu queres mais?" E eu disse: "Nem na China, nem no Paquistão, nem em lado nenhum, há alguém que esteja tanto tempo com programas de autor a falar com esta longevidade. O que queres mais?" E eu nessas alturas fico um bocadinho inquieto, porque acho que não tem nada a ver uma coisa com outra. E naturalmente, eu acho que as coisas não acontecem por acaso, porque eu na minha transição da imprensa escrita para a televisão, quando saio da imprensa escrita e saio da "A Bola", a minha convicção era ir gerindo a minha carreira, não tinha expectativa nenhuma. Achava que não tinha jeito nenhum para a televisão, e se calhar não tenho. E de facto entrei na SIC sem nenhuma cunha, sem nenhum pedido, as coisas aconteceram, eu saí da "A Bola", começaram a chamar, eu já como chefe de redação, às vezes era chamado e eu delegava sempre.

Pontualmente.

Eu sou o tipo que na oficina estou debaixo do automóvel. Estou a reparar.

Uma excelente metáfora.

Eu sou mesmo de sujar as mãos com óleo e não sei o quê. E detestava aqueles jantares e aquelas coisas de representação. Eu sempre fui assim. E isso é uma característica minha. As pessoas às vezes quando analisam e veem as pessoas a falar na televisão, pensam assim: "Aqueles tipos ganham um dinheirão". Alguns. "Aquilo é só sentar e falar, e ganha tacho".

Mas há muito essa ideia, porque toda a gente acha que sabe falar sobre futebol, não é?

É um bocado isso. Eu depois vejo coisas que nos meus silêncios, vejo coisas absolutamente inacreditáveis. E nesse aspeto acho que, de facto, se cede muito a outros fatores que não sejam exatamente aquilo que é-- eu acho que o mais importante no trabalho é a enxada. A enxada é o mais importante. E continuando a falar de orgulho, eu comecei de muito baixo. Eu comecei com 15 anos, é verdade, continuei a estudar, mas eu comecei nos jogos no pelado. Eu fiz jogos de infantis, de juvenis, de juniores. Eu primeiro que fiz é segunda divisão, terceira divisão, jogos de finais distrital. Comecei nas seleções. Portanto, o que eu digo, e eu acho que me posso orgulhar disto e as pessoas não me levarão a mal, é que eu comecei mesmo de baixo e comecei em contacto com os protagonistas. E estágios. Comecei a viajar realmente muito cedo, a comunicar com outros protagonistas do futebol internacional, a perceber que nós estávamos muito atrasados naquele tempo, na década de 70, 80, estávamos muito atrasados em relação à realidade do futebol europeu e mundial. Eu peguei na enxada, eu tive a enxada. Hoje em dia não é preciso pegar na enxada para ser comentador.

É tudo mais facilitado nesse sentido.

É tudo muito mais fácil. Eu nunca me esqueço de campeonatos da Europa que fiz, um deles fiz na antiga União Soviética, que para fazer uma chamada para Lisboa, Jesus.

Como é que era?

Era dificílimo. Eu fui para Leningrado, atualmente São Petersburgo, porque Portugal jogava lá, e queria fazer uma primeira chamada para Portugal. A chamada teve que passar por Moscovo. Quer dizer, eu primeiro que conseguisse uma ligação para Lisboa, Jesus, parecia que vivia noutro planeta.

Isso hoje em dia não havia paciência para esperar tanto.

Não havia. E eu sou do tempo de ter que não dormir a noite toda para produzir os textos, escritos à máquina, para enviar na Rodoviária Nacional, naquele tempo, para chegar a Lisboa a tempo depois de ir para a tipografia, os tipógrafos tratarem o texto no chumbo.

Tu serias um homem diferente se tivesses nascido neste tempo. Ou seja, o comentador, o jornalista que és hoje, acreditas que por força de todas as transformações, das tecnologias, da inteligência artificial, serias um homem diferente ou achas que ias continuar o mesmo e com este caminho que me tens falado aqui?

Bom, para isso tinha que ter nascido mais tarde.

Sim.

E ter nascido num contexto completamente diferente.

É só porque hoje em dia-

Eu sou muito adaptável

...é muito fácil ter tudo à nossa disposição.

É muito fácil. E naturalmente, quando eu digo que é muito fácil, comparando com aquilo que eu já vivi. Mas não desvalorizo. Aliás, eu acho queÉ muito importante que as pessoas mais velhas e que tenham mais experiência, se adaptem não apenas à evolução das mentalidades, mas também a novas realidades tecnológicas. E eu faço sempre isso. Eu estou sempre a pensar, todos os dias, o que eu posso fazer de novo para me ajustar ou para evoluir. E eu também gostava de deixar essa nota que eu estava a dizer há pouco, que é aquela coisa do tipo que vai com uma gravata, que é aquela minha imagem. Ali por trás daquele boneco, entre aspas, está muito trabalho. Eu trabalho todos os dias, muitas horas. Portanto, não me satisfaz ir à internet e ver o que é que está na internet.

Tu passas muito tempo.

Passo muito. Para já, nunca fiz de semana a séria durante toda a minha carreira. Por quê? Porque os jogos são basicamente ao fim de semana e eu já tive programas ao domingo, à segunda, à terça. Portanto, eu sou, de facto, um homem de muito trabalho, mesmo que não pareça, porque eu depois apareço assim bronzeado apareço com uma gravata e com os fatos, que na altura quando eu apareci na televisão, também marcaram bastante. E as pessoas pensam: "Este tipo deve ter boa vida". Mas não. Por trás estão muitas horas de trabalho, estão tentativas sempre de cruzar informação.

E as fontes também precisam de ser cuidadas.

Têm que ser cuidadas. E hoje em dia, com o aparecimento dos departamentos de comunicação, isso fica muito mais difícil, porque houve uma coisa que eu tive sempre muito cuidado foi com a relação com as assessorias de imprensa. Eu basicamente não tenho contactos com assessores.

Por escolha própria?

Por escolha própria, porque acho que os assessores, e cumprindo aquilo que é a sua responsabilidade, fazem a distribuição da informação conforme querem. E portanto, podem beneficiar mais este ou aquele. E eu também não quero ser farinha do mesmo saco. Eu tenho que fazer o meu trabalho no sentido de, primeiro, conquistar a confiança das pessoas, é muito importante. As fontes devem ser preservadas em nome da confiança e não em termos daquilo que é o favor ou a troca de favores. E por isso, como eu te dizia há bocado, se eu tiver que deixar cair uma fonte, eu deixo cair uma fonte por força daquilo que é o meu propósito, que é ser independente e levar às pessoas um trabalho sério, honesto e isento. E portanto, daí também as dificuldades nos tempos de hoje, com tanta quantidade, a massificação do comentariado. Eu acho que é um bocadinho de terceiro mundo. Eu peço desculpa, mas acho que é um bocadinho terceiro mundo. Nós não temos país para ter tanta gente a comentar futebol, não temos país para tantos conteúdos ligados ao futebol. Eu acho que com menos comentadores, nós conseguiríamos aumentar a qualidade e contribuir para aquilo que é o exemplo do crescimento do futebol em Portugal. Podem dizer assim: "Mas os jornalistas ou os comentadores têm alguma obrigação em ajudar a crescer o futebol?" Se calhar, não. Portanto, nas empresas de comunicação, naturalmente, o que é mais importante são os resultados.

Claro.

E portanto, se os resultados passarem por uma pessoa despir-se à frente da câmera, há quem o faça. E quando eu digo despir, não digo-

De forma literal.

De forma literal, mas há muitas formas de uma pessoa se despir à frente das televisões e dos ecrãs. E, portanto, eu não sou muito apologista disso.

Ruí Santos, nós já vamos falar aqui do Mundial, até porque estamos a dias de começar essa aventura. Mas antes, não sei se tens esta noção ou esta opinião, não sei se podes classificar de uma época atípica a nível do futebol português, porque temos o Benfica a vencer a Supertaça, o Futebol Clube do Porto o Campeonato, o Vitória Sport Clube a Taça da Liga, a Taça de Portugal ganha de uma forma espetacular pelo Torriense, que ainda assim fica pelo caminho e não consegue subir à Segunda Liga. Muitos discursos também radicalizados. Uma época muito dura nesse sentido, até para vocês que estão do lado de quem está a avaliar tudo isto e às vezes é difícil fazer a avaliação daquilo que é dito, porque de facto são discursos, e nomeadamente entre André Villas-Boas, por exemplo, e Frederico Varandas. Essa animosidade elevou-se a níveis, se calhar, que não esperávamos.

Claro. E aliás, eu defendi muito a elevação do discurso. Eu acho que há uma coisa que toda a gente perceberá. Se os dirigentes em Portugal, nomeadamente os presidentes, tiverem uma postura de coexistência pacífica, de relação institucional respeitosa, isso ajuda muito os adeptos. Nós estamos a falar de uma atividade muito emocional, e portanto, em que os adeptos querem ganhar e querem ganhar de qualquer maneira, etc. E temos uma história que não é uma história bonita a esse nível. Ganhar foi sempre o mais importante. Eu quando defendi a introdução das novas tecnologias e da figura do vídeo-árbitro aqui há uns anos e fui à Assembleia da República, etc.

Muito impulsionado também pelo teu livro, na altura.

Na altura, e com uma petição muito concreta, foi porque eu no Mundial 2002, disputado na Coreia e no Japão, entendi, por força daquilo que estava a ver na televisão e com uma proteção enorme à Coreia do Sul, isso não é sustentávelTem que ser feita alguma coisa no futebol para que algumas equipes não sejam levadas ao colo pelas arbitragens. Isso pra mim foi fundamental, porque percebi que o peso da arbitragem no futebol, e nomeadamente em Portugal, era enormíssimo. Por isso é que eu tive problemas, enfim, tenho que dizer, com o Futebol Clube do Porto de Pinto da Costa. Não porque eu não goste do Futebol Clube do Porto, gosto imenso da cidade do Porto, tenho relações até afetivas com a cidade do Porto, mas pelo fato de denunciar certas coisas que tinham a ver com o posicionamento das claques, com a forma como as claques se posicionavam pra conseguir pressionar para haver resultados em função dessas pressões, com ameaças, etc. Colaram-me essa que eu acho a coisa mais injusta que podem fazer é quando determinados portistas dizem que eu sou anti-Porto. Não sou nada anti-Porto. Eu sou contra todas as práticas, seja no Porto, no Benfica ou no Sporting, todas. E fui crítico em relação às claques, como foi o Frederico Varandas.

Sim.

Em relação às claques, e apoiei-o muito e apelidei de doutor Coragem. Eu sou absolutamente igual nessas circunstâncias. Agora, não posso deixar de dizer que, na verdade, houve um tempo no futebol em Portugal que foi dominado por aquilo que eram práticas com as quais eu não me revia e que achava que tinha consequências práticas em termos da verdade desportiva. E também por isso, não apenas por aquilo que eu vi no mundial na Coreia, mas também por aquilo que vi em Portugal, que eu disse: "Tem que haver mais escrutínio, tem que haver mais fórmulas de não deixar que determinados protagonistas tomem conta disto e que acabem por adulterar a verdade desportiva". Foi só por isso. E lá está, o exemplo foi quando apareceu o André Villas-Boas e eu disse: "Ok". Vi-o preparar-se pra ser presidente, vi-o com um discurso novo, vi com um discurso de ruptura em relação a determinadas práticas, de crítica em relação a muitas coisas que estavam a acontecer no Futebol Clube do Porto. Eu disse: "Ora, aqui está, é isto. É isto que nós precisamos". Se nós tivermos, paralelamente, presidentes no Benfica e no Sporting que façam a mesma coisa, isto se for tudo articulado e compatibilizado dentro daquilo que é uma lógica institucional de respeito-

Isto pode dar uma volta.

O futebol em Portugal vai crescer, por quê? Porque nós não temos falta de talento.

E sabemos bem disso, não é?

E sabemos bem disso. Nós exportamos talento. Eu tenho pena é que nós não consigamos exportar a mentalidade vigente do dirigismo desportivo e de certos políticos em Portugal fazerem dinheiro com isso, que era pra abater alguns passivos, porque se nós conseguíssemos expurgar essas situações, estávamos ricos, éramos um país rico.

Olha, vamos falar do mundial. Temos um mundial, eu acho que pode-se dizer bastante emocional. O Ronaldo, ao que tudo indica, não sabemos, porque com este homem é sempre difícil de afirmar coisas. Chega aqui ao último mundial, com 41 anos. Temos a questão, que é uma competição em que Portugal está a participar também após a morte de Diogo Jota.

Sim.

Portugal, e com alguém que tem tanta experiência neste mundo do futebol, Rui Santos, nós portugueses temos condições para sonhar e acreditar que é possível sonhar mais alto e quem sabe, trazer esse caneco?

Nós estamos fartos de sonhar. Quer dizer, nós entretanto já conquistamos algumas coisas, já fomos campeões da Europa, já ganhamos a Liga das Nações, falta-nos um Campeonato do Mundo a este nível.

Sim.

Já fomos campeões do mundo sub-20 e eu estive muito ligado a isso em termos de experiência profissional. Eu dir-te-ia, em poucas palavras, o seguinte: eu acho que nós temos, a nível de composição de jogadores, embora não concorde a 100%, também seria difícil, todos nós temos um bocadinho deste lado de selecionadores, eu não concordo em absoluto com 20% da convocatória do Roberto Martínez, mas nós temos genericamente um dos melhores grupos de jogadores que vão estar no Campeonato do Mundo.

Quatro campeões europeus, só pra começar.

E isso eu acho-

Este ano.

Este ano. E acho que isso traduz uma coisa muito boa que alavanca as nossas possibilidades. É claro que nós estamos a falar num contexto de uma competição longa, que começa depois de várias competições longas para vários jogadores. Portanto, entram em palco já com bastante acumulação de fadiga, de cansaço. Mas eu acho sempre, e a minha experiência diz-me isso, que na alta competição, o fator psicológico é muito importante. Quer dizer, entrar quando um jogador ou um conjunto de jogadores sai de uma Champions com a taça na mão, isso ao pé daquilo que possa ser a fadiga, é qualquer coisa positiva. E, portanto, nós vamos entrar no Campeonato do Mundo com uma imagem extraordinária, uma imagem que tem Cristiano Ronaldo, e eu peço desculpa pra alguns portugueses que não gostam dele e que gostavam que ele não estivesse na seleção, eu não tenho nada essa opinião e já posso explicar por quê. E vamos entrar também com os tais quatro campeões europeus, que aos olhos da comunicação social internacional e aos olhos do público que gosta de futebol, é qualquer coisa muito relevante.

E tem peso, não é?

E tem peso. Isto dá para nós dizermos que vamos ganhar o Campeonato do Mundo? Não seiIsso quer dizer que nós somos a melhor seleção que vai estar no mundial? Tenho dúvidas, por uma razão: eu gosto muito da nossa seleção, gosto muito dos jogadores que lá estão, mas eu acho que nós temos um problema, mesmo com o Roberto Martínez, que também está longe de ser o melhor treinador que vais ter no mundial.

Rui, desculpa interromper. O facto de termos quase um questionamento a cada convocatória das escolhas de Roberto Martínez já pode ser um sinal disso mesmo, não é?

Eu acho que o Roberto Martínez é um gentleman que foi contratado para ser um gentleman e para gerir a continuidade do Cristiano Ronaldo na seleção, porque tínhamos tido antecedentes de alguma fricção com o ex-selecionador Fernando Santos, como nós sabemos, e portanto a federação percebeu que tinha que contratar um selecionador que fosse acima de tudo um homem que soubesse lidar com o Cristiano Ronaldo, interpretasse o poder de Cristiano Ronaldo e que o encaixasse até o fim na lógica das suas opções. Não acho nada que o Roberto Martínez esteja entre os melhores treinadores da Europa e do mundo, mas estava te a dizer que eu acho que o que falta a Portugal é assumir a qualidade que tem, transformando em competitividade. Eu tenho muitas dúvidas que nós iremos ser a seleção mais competitiva do mundo. Isso aflige-me, porque o que é que falta a Portugal? É a competitividade, é chegar lá e, como dizia o José Mourinho, morder.

Amassar.

Amassar constantemente, porque eu acho que nem Portugal com bola faz aquilo que, no limite, as qualidades e as capacidades dos jogadores permitem ou poderiam permitir. E sobretudo, sem bola, também não faz aquilo que era necessário. Isto é, a seleção tem tudo para ser a melhor do mundo, mas não tem porque falham coisas essenciais e que tem a ver com a tal noção de competitividade, de morder. O mais importante é ter a bola, o mais importante é levar a bola para se chegar ao desígnio de fazer o gol. O mais importante é quando não se tem a bola, recuperá-la e todos estarem irmanados nesse princípio de que só se pode ganhar um campeonato do mundo entre tantas seleções e depois isso ia nos levar ao formato, sou completamente contra este formato. É uma perda de tempo, há um conjunto de jogos que não interessam para nada.

São questões mais profundas também.

Já para não falar das questões políticas, não íamos sair daqui tão cedo. Mas para dizer isto: se nós formos, como temos condições para ser, absolutamente competitivos e não andarmos a fazer gestão, aquelas contas à portuguesa. Temos que jogar mais devagar neste jogo para nos pouparmos para o segundo ou para o terceiro. Eu acho que numa lógica de uma competição, que acaba por ser não é tão rápida, porque este ano temos um formato que é uma loucura. Mas que acaba por ser uma competição relativamente, em relação àquilo que é a competição em si, não é, não contando com os intervalos da recuperação, o número de jogos é sempre um número relativamente restrito, o que significa que dá, mesmo no final da época, para a maior parte dos jogadores, gerir a presença no campeonato do mundo com o gás aberto. Porque se nós jogarmos com o gás aberto, nós temos talento suficiente para ganhar a alguma seleção, qualquer seleção. Agora, estão lá, para mim, favoritos: Espanha, França, Inglaterra, Brasil, Argentina, posso dizer Portugal, Países Baixos, Alemanha, acho.

Não disseste.

Pronto. Estas são as seleções que partem com o favoritismo.

Depois jogar é outra história.

Por que a Espanha para mim é sempre um grande candidato? Porque tem as duas coisas. Tem o talento, o tal talento que nós temos, mas depois tem aquela fúria espanhola, aquela competitividade que nós temos que adquirir.

Quem sabe se não é neste mundial. Esperemos que sim, não é?

É, esperemos que sim. E não sei se estamos a acabar, mas queria dizer uma coisa muito importante. Eu queria, e permitam-me esta veleidade, convocar os portugueses para uma coisa que nós devemos a Cristiano Ronaldo. Eu acho que nós devemos fazer tudo, tudo, em termos de apoio, para que o Cristiano Ronaldo se sinta confortável e que possa cumprir na seleção nacional uma coisa que ele merece. É, de facto, reunir as condições à volta dele para ele se sentir amado, definitivamente amado, porque aquilo que ele fez em nome de Portugal, em nome da imagem de Portugal, em que qualquer português que vá para o sítio mais longínquo do globo terráqueo.

Possivelmente vamos ver lá uma camisola.

Vamos ver uma camisola. Vamos ver alguém a perguntar quando se fala de Portugal: "Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo". Às vezes sem fazer ideia nenhuma onde é que é Portugal.

A imitar os festejos.

E eu acho que há muitos portugueses que têm sido muito injustos, muito ingratos em relação ao Cristiano Ronaldo. Isso depois tem a ver com a questão da gestão da utilização dele? Não deve terIsso tem a ver com a própria autogestão e o próprio exemplo que o Cristiano Ronaldo deve dar em termos de permitir ao selecionador nacional gerir taticamente o tempo de utilização, como o selecionador também merece em termos daquilo que são as suas funções. Eu acho que isso também faz parte. O Cristiano Ronaldo também tem que perceber que há situações que se a sua utilização não tiver que ser 90 minutos, não tem que ter os 90 minutos. Mas é essa convocação que eu gostava de fazer. Todos os portugueses perceberem que nós vamos ter muitas saudades do Cristiano Ronaldo. Vamos ter muitas saudades. Eu acredito que as pessoas não tenham memória tão curta, porque obviamente o Cristiano Ronaldo teve fases, está na fase final da sua carreira, mas aquilo que ele fez como jogador de futebol, eu tenho memórias extraordinárias daquilo que ele fez no Manchester United, no Real Madrid, o poder físico de aceleração, de drible, capacidade atlética, o profissionalismo dele. Nós temos que consagrar isso definitivamente. E por isso eu peço aos portugueses: façamos tudo, prestemos essa homenagem a Cristiano Ronaldo, no sentido dele fazer um grande campeonato do mundo e dizer muito simplesmente: "Obrigado, Cristiano". Esperemos que Portugal ganhe, que ganhe com ele, que ganhe com o seu exemplo, mas que ele sinta esse conforto. Porque ele se calhar teria esse conforto se tivesse jogado não apenas no Sporting, mas também no Benfica e no Futebol Clube do Porto. Mas é esse clubismo que nós temos que relativizar. Nós temos figuras na história de Portugal extraordinárias a vários níveis. O Cristiano Ronaldo é uma das figuras mais relevantes da história de Portugal e ele merece ser consagrado em função disso.

Rui Santos, vamos ficar atentos para saber aquilo que vai acontecer. Vamos acompanhar todos este Mundial 2026. Para terminar, o que te deixa altamente inquieto?

O que me deixa altamente inquieto é a injustiça. Basicamente, é a injustiça. Eu não gosto de ver injustiças em lado nenhum. Eu não gosto de ver as pessoas sofrer, inquieta-me. Mas há uma coisa que eu também te devo dizer, que eu sou capaz de chorar com o talento. Eu sou uma pessoa de lágrima fácil. Eu se vir uma pessoa cantar bem, emociono-me. Se eu vir uma pessoa dançar bem, eu emociono-me. Se eu vir uma pessoa, em qualquer arte, destacar-se, eu emociono-me. E portanto, eu nesse aspecto, ando sempre num balanço.

É um limbo.

É sempre um limbo entre a emocionalidade e a racionalidade. Eu nisso sou muito intransigente.

E és mais emocional ou racional?

Eu não me importo de chorar à frente de seja de quem for. Eu não me importo de chorar, porque eu sinto-me vivo nessas alturas e sinto que não preciso de fazer de conta para esconder as emoções, que são emoções que fazem parte do ser humano, mas tenho um lado extremamente racional. Não sei se é por ser gêmeos.

Também não sei. Não te posso dar essa resposta.

O Tico e o Teco. E eu estou sempre a dizer, quando o Tico está emergente, eu digo: "É melhor consultar o Teco". E o Teco depois diz-me uma coisa diferente.

Tens uma espécie de anjo e diabo, um em cada lado.

Eu acho que tenho e consulto-os, quer dizer, nos meus raciocínios, nos meus pensamentos, eu consulto-os muitas vezes para chegar a uma conclusão, que confere com aquilo que tem sido a minha carreira. Eu depois oiço o Tico, ouço o Teco, mas depois eu é que decido.

E chegas sempre a uma decisão.

E chego sempre a uma decisão.

Mais emocional ou mais racional.

Exatamente.

E só tu sabes. Rui Santos, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador.

Foi um gosto grande.

Em 40 minutos.

Obrigado, João. Foi um prazer estar aqui na Rádio Observador e espero que tenham muito sucesso.

Obrigado. Até breve.

Obrigado.