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É atriz há mais de 20 anos, irreverente, tanto está a gravar novelas como a fazer teatro. Rebelde, sem filtros, diz tudo que pensa. É também a voz do novo podcast narrativo do Observador, "O Encantador de Ricos", que de resto já pode ouvir. Hoje vamos estar à conversa com São José Correia em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Bem-vinda.
Bem-vinda. Obrigada.
Obrigada por teres aceitado o nosso convite. Deixa-me dizer-te que quando soube que ia estar contigo, eu fiquei extremamente nervosa.
Por quê?
Porque para mim és uma referência e há aquelas pessoas que às vezes impõem, ficas um pouquinho mais nervosa. É respeito. Desde já, parabéns também pelo trabalho aqui com o podcast. O que um projeto, e aqui mais falando até deste podcast em concreto, tem de ter para tu aceitares? Ou o que te levou já a aceitar este convite?
O que me levou a aceitar? Antes de qualquer outra coisa, é o gostar de trabalhar e gostar de aceitar projetos diferentes, porque de facto foi um convite totalmente inesperado. Não estava de toda à espera que me convidassem para fazer um podcast.
Nunca tinhas feito?
Não, nunca tinha feito e sempre tive curiosidade com a rádio, porque eu gosto muito da palavra, eu gosto muito de falar, e gosto muito de ler em voz alta, porque quando era miúda tinha alguma dificuldade em fixar aquilo que lia. E um professor meu na altura disse-me: "Olha, lê em voz alta, porque se leres em voz alta, fixas melhor a história". E foi isso que eu comecei a fazer, muito antes de saber que queria ser atriz. Portanto, eu leio em voz alta muito antes de ter dado início à minha profissão. E quando me convidaram para fazer o podcast, pensei: "Isto é canja, porque ainda por cima eu adoro, que é uma coisa que é ler e usar a voz." Eu tenho muito prazer na voz e no som das palavras, e na dicção, e tudo mais. E portanto, quando me convidaram, primeiro fiquei supersurpreendida, mas claro que sim, vou dizer que não por quê? E depois ouvi um pouquinho do primeiro episódio da primeira série.
Com o José Raposo.
Com o José Raposo, exato. E ouvi, adorei a ideia, sobretudo esta ideia de se juntar o trabalho de investigação a um trabalho de narração, que já é uma voz que te leva um pouquinho mais para o universo da ficção, que acho que é uma combinação estupenda. E ter a música também original, achei um projeto superinteressante e de facto tenho um pouquinho este fascínio. Eu acho que todos nós temos um pouquinho o fascínio pela rádio. Eu já há uns anos, houve uma altura que tinha a vontade de ter um programa de rádio, daqueles noturnos, daqueles da 1:00 da manhã às 2:00 da manhã.
Por que nunca avançaste?
Nunca avancei. Não sei por que nunca avancei, mas nunca avancei.
Eu tenho a certeza que tu chegas a qualquer rádio e dizes: "Eu quero!" E eles: "Toma!"
Nunca avancei.
Pode ser que agora tenhas aberto a porta para o Observador.
Pronto, olha aqui o nosso convite.
Pois, não sei. Na verdade, temos tantos projetos que às tantas nem sabemos bem por que uns se desenvolvem e outros não. Mas sim, a rádio é muito fascinante.
E que desafios é que encontraste? Estavas habituada, obviamente, mais do que habituada, à ficção. Agora, que desafios é que encontraste para fazer este papel de narração, mas que também tem um lado, um pouco de interpretação, não é?
Sim, mas repara, também tem muito de mim própria. Porque quando me convidaram para fazer isto, convidaram-me a mim. Queriam a minha voz. Não vais fazer de Amélia ou não vais fazer de Joana.
Esta é a São José Correia.
Não, sou eu que estou a narrar a história. Portanto, nesse sentido, não tive trabalho nenhum. Até parece um bocado estranho.
Não tiveste, tiveste. É um trabalho longo. Às vezes as pessoas imaginam o produto já está feito. Às vezes parece que é tudo muito fácil.
Sim, mas foi aqui. Ou seja, não tive trabalho no sentido de preparação de casa, de construir, porque sou eu, é a minha voz. Claro que o trabalho é dormir bem na noite anterior, beber bastante água.
E podemos dizer que te vimos aqui muitos dias para as gravações.
Sim, foram cinco dias. Repara, são seis episódios em cinco dias. Quer dizer que há um dos episódios que tens de distribuir por um desses cinco dias. E só para te dizer que o último episódio, nós tínhamos combinado de manhã numa determinada semana, só que houve um atraso com os textos, e eles pediram para fazer na semana seguinte. Eu na semana seguinte já estava com ensaios de manhã. Então, como era a primeira semana de ensaios, eu não gosto de faltar. Não gosto de faltar nunca, mas sobretudo na primeira semana de um trabalho novo. E então combinamos a gravação do último episódio numa tarde, a seguir ao ensaio, e que foi terrível. Foi de facto o que mais me custou, porque foram três horas e meia naquele estúdio ali que vocês conhecem, pequenino, e tinha de fechar, porque era o último dia.
E cansada também do ensaio, talvez, da voz, até.
Sim, da voz e de dormir. Nem é tanto da voz, mas quando tu começas a fazer uma coisa, disponibilizas uma determinada concentração. E depois, mesmo que não tenhas um grande trabalho físico, ou mesmo que não tenhas um grande trabalho de voz, de falar, tu estiveste concentrada num determinado tema. E quando sais daí-
Mindset.
Mindset, exatamente. E quando sais daí, há um certo cansaço que se instala. Ok, acabei isto. Agora, o que eu costumo fazer? Costumo ir para casa, costumo fazer as minhas coisas e agora não posso ir para casa. Vou ter que me concentrar arduamente naquele outro projeto. E que foram três horas e meia. Portanto, é muito violento. Isto é muito bonito de ouvir, parece que é muito simples. Aliás, a ideia é fazer com que pareça que é uma coisa simples, mas não é simples, porque para estar tão perfeito como nós desejamos, é preciso repetir muito, como vocês sabem. E portanto, é um Halls num lado e a água do outro, e estar constantemente a beber. E depois também controlar bastante bem a respiração, porque a respiração é muito importante na nossa fala. E se tu não controlas a tua respiração, não consegues atacar bem as frases, não consegues fechar bem as frases, não consegues dizer as frases muito longas. Portanto, há todo um trabalho que se não estás 100% concentrada, é muito difícil. Mas eu quando me convidaram, eu achei: "Porreiro, isto vai ser fácil pra mim, porque eu leio em voz alta, isto é ótimo". Mas depois, lá está, não é nada fácil. Não, querida, porque eu em casa leio uns 15 minutos, 20 minutos, descanso, vou fazer não sei o quê, volto. Ou leio mais meia hora sem voz, porque já estou a sentir um cadinho de cansaço, paro. Aqui não, aqui há um horário. Às 10h que começas a filmar. Lá está, pra estar cá às 10h, acordo às 08h. Portanto, não é fácil. E o que dá mais prazer, porque quando depois vês o trabalho, ou ouves, neste caso, quando ouves o trabalho feito.
Já ouves?
Já.
Essa era uma das curiosidades. Tu gostas de ouvir depois como fica tudo no final?
Eu gosto de ver, mas o primeiro embate é difícil. A primeira vez que ouves é muito difícil, porque a voz que tu ouves na rádio não é a voz que tu ouves cá dentro quando falas. Então o primeiro embate é sempre um choque, porque não corresponde à tua expectativa.
Achas sempre que podias fazer melhor, é isso? Ou diferente.
Não. Primeiro achei que estava um cadinho teatral. Achei que a minha voz não estava tão bonita como eu achava que ia estar. Depois achei que estava um cadinho teatral demais, mas depois achei que não, porque, de facto, a voz do narrador, e acho que é por isso que convidam um ator e não um jornalista, porque a voz do narrador também tem que entregar ao projeto o lado da ficção.
Completamente.
A fantasia.
Permitir ali a imaginação.
Exatamente. E a tua voz serve para isso, serve para guiar o espectador, neste caso, não, o ouvinte, num fio invisível que o vai levar através do seu imaginário. E portanto, não poderia fazer aquilo como o jornalista faria, que é meramente informativo. Por isso é que convidam um ator e não um jornalista. E depois a segunda, a terceira e a quarta vez que eu vi o teaser, o episódio eu só ouvi ainda uma vez. Também não sou assim tão tarada. Mas o teaser eu vi já várias vezes e fui aprendendo a gostar e pensar, e cheguei à conclusão: "Não, está certo. Está certo, porque está um pouco teatral." Na verdade, não é um pouco teatral, é interpretado.
Claro.
Está interpretado.
Portanto, já sabemos que ouviste.
Desculpa interromper-te. Claro que podemos fazer sempre melhor. Sim, é verdade, podemos sempre fazer melhor. Agora perguntas-me: "Querias repetir tudo? Achas que o que fizeste não está..." Não, não queria.
Isso é sinônimo que está bem, não é?
Sim, porque repara, a minha ideia também não é a perfeição, porque quando uma pessoa procura a perfeição, encontra a frustração, ok? Porque não há perfeição. Portanto, o que poderia fazer é, se me convidassem pra um outro podcast, eu já teria uma ou outra coisa para corrigir.
Porque já tiveste esta experiência.
Porque já tive esta experiência. Agora, não voltaria a mexer no que está.
E com as novelas também és assim? Ou seja, quando fazes uma novela, uma peça é mais difícil de voltares a ver, não é? Mas quando fazes um filme, uma novela, também gostas de ver aquilo que fazes?
Gosto.
Vês sempre.
Gosto, sim. Não tudo. Por exemplo, na novela não vejo tudo. Na novela, normalmente faço como faço com a leitura dos episódios, que é ler os primeiros 10 episódios para ter uma ideia do geral, do contexto, da história, e depois deixo de ler. Depois passo a ler só as minhas cenas. E quando a novela vai pro ar, dantes eu via a novela também nos primeiros episódios, porque depois é quase impossível acompanhar, porque como vocês sabem, são muitos episódios.
Sim.
E é impossível.
E às vezes não sempre nos mesmos horários, se bem que agora já está mais feito.
Exato, nem sempre nos mesmos horários e portanto é impossível. Depois tu afastas-te do trabalho. Mas assisto aos primeiros numa tentativa de ir a corrigir alguma coisa que esteja mal ou exagerada, ou menos apontada, ou relações com algumas personagens que depois percebes que não estão certas, ou que não estás a dar aquilo que tu estavas a pensar que estavas a dar, não corresponde à realidade. Mas hoje em dia, deixei de o fazer porque as duas últimas novelas, creio eu, que eu fiz, uma delas ainda está no ar.
"Escritos pra Paz".
"Escritos pra Paz". Nós começamos a gravar e a novela só foi pro ar pra aí depois de três meses de estarmos a gravar. Ou seja, se a novela só vai pro ar depois de três meses de estar a gravar, já não há nada pra corrigir, porque já está feito.
Costuma ser assim tanto tempo?
Não, não costuma. Dantes não era, só de há dois, três anos pra cá É que tem sido assim. Dantes não era, dantes gravavas, fechavas pelo menos os 10 primeiros episódios, depois 15 e depois era muito à pele. Havia muito aquela coisa de estresse também, porque acontecia qualquer coisa que a estação decidia, em vez de pôr um episódio, pôr dois. Aquilo já ficava tudo muito à pele. Agora não. Agora acho que é um bocadinho exagerado do contrário, que é três meses de estares a gravar. Olha, por exemplo, o "Para Sempre", a novela protagonizada pelo Diogo Morgado, só foi para o ar praticamente um ano depois de eles gravarem, que é uma loucura. Isso quer dizer que a novela esteve no ar dois anos depois de eles estarem a gravar, que é uma loucura. E os "Queridos Papás" também foi para o ar para aí três meses depois de estarmos a gravar. Portanto, claro que vi os primeiros episódios, mas já não é com a intenção de corrigir nada, porque já não há nada para corrigir, já está feito. Claro que depois a correção é dia a dia. Há sempre coisas a corrigir no dia a dia, mas está feito.
Estavas a falar de personagens, por que tu és sempre a má da fita? Diz-me, por quê?
Porque eu acho que as pessoas acham que sou má. Não é nada! Sou o mais doce que há. Sim, sou bastante doce, mas isso é curioso, porque as pessoas não têm essa ideia de mim. Eu não sei de onde é que tu me conheces, mas eu sou muito doce. Sou sim, sou muito mais doce do que aquilo que as pessoas pensam. Claro que sou doce também no meu círculo. Mas eu sou muito mais doce do que aquilo que as pessoas pensam. Eu acho que tem a ver com a minha fisionomia, tem a ver com o meu ar, acho eu, não sei. Porque não são as primeiras pessoas que me perguntam isso, e eu, de facto, faço muito mais vilãs do que boazinhas.
Fez tipo a Joana Joaquim d'Almeida, é sempre o vilão. É verdade.
É verdade. Eu confesso que não me chateia, porque eu também acho que os bonzinhos são sempre as personagens menos interessantes para fazermos.
É mais atrativo e mais exigente, não é?
É, sim. Qualquer ator te dirá isto: é muito mais interessante fazeres personagens opostas a ti do que personagens iguais a ti. É muito mais interessante.
Cruza ali uma linha muito tênue, não é? Entre a personagem e quem tu és.
Sim, fica muito desinteressante, porque também o sermos bonzinhos, isso também é uma ideia, acho eu, um bocadinho falsa. Porque nós nunca somos bonzinhos, ou seja, eu sou meiga para uma pessoa, mas também sei ser vilã para outra. Ou seja, acho que as pessoas não são boas nem más, somos boas e más. Sei lá, eu posso ser muito simpática para ti e ser antipática para a pessoa que está na rua que me responde mal ou que me diz qualquer coisa, eu também respondo na mesma moeda. Mas eu funciono muito assim, que é responder mais ou menos na mesma moeda. Se me tratas bem, eu trato-te bem. Se me tratas mal.
E tu canalizas essa parte depois para quando fazes esses papéis mais má da fita, esse lado que todos temos dentro de nós?
Sim, eu trabalho muito por intuição. Claro que gosto muito do trabalho de estudo, de pesquisa, obviamente, que faz parte e é muito importante, mas a pesquisa e o trabalho de casa não é nada sem a tua intuição. Portanto, eu acho que a intuição está sempre em primeiro lugar para tudo o que tu fazes na tua vida, seja vida pessoal ou seja no trabalho. Para mim, no trabalho é mais fácil aplicar isto. É mais fácil do que na vida, tenho mais questões.
Uma pessoa fica sempre a pensar.
Tenho mais questões e mais dificuldade, mas no trabalho, não. Porque a intuição, na verdade, é o que vai dar originalidade. Ainda noutra entrevista estava a dizer isso, é o que vai dar originalidade ao teu trabalho. Porque repara, quando eu comecei por ser atriz, achava que: "Eu sou a maior, eu vou representar e o mundo vai parar." Não era bem assim, mas para vos dar um quadro. E depois estreia-se e percebes: OK, há umas pessoas que te dão os parabéns, há outras pessoas que não te dizem nada e há outras pessoas ainda que dizem: "Olha, querida, e se fosses fazer outra coisa qualquer?" Tu ouves de tudo.
Disseram-te isso alguma vez?
Não me disseram isso, mas disseram-me uma coisa que nunca mais me esqueci, que achei muito feio, de uma atriz mais velha, que me disse: "Muito bem, és muito bonita. És muito bonita, estás a ter muito sucesso. Vamos lá ver é quando essa beleza se for." E já me disseram coisas deste género, sim. E já tive uma discussão.
Ou seja, que o teu sucesso é pela tua beleza?
Sim, que o meu sucesso era pela minha beleza. Sim. E ter colegas que vão assistir a um espetáculo, e um espetáculo dificílimo, que era o "Amor de Dom Perlimplim, como diz em seu jardim", e uma colega ir ver o espetáculo e dizer: "Estavas tão bonita. Estavas mesmo bonita. Olha, adorei, estavas mesmo bonita."
Quando uma colega tua, no final da peça, faz esse comentário.
Exato, quando uma colega tua, no fim da peça, te elogia a beleza, tu já sabes o que isso quer dizer.
Está bem.
Pronto, e são coisas sempre muito difíceis de ouvir, sobretudo quando és nova. E que esta outra colega mais velha que me disse assim: "Estás muito bem, estás a fazer muito sucesso, vamos lá ver até quando." Eu fiquei Aí fiquei triste por ela. A inveja é tão clara.
É isso que eu ia dizer: diz mais acerca das pessoas.
Diz mais acerca dela do que a propósito de mim, porque primeiro, eu era muito jovem e o ser bonita pra mim nunca foi importante. Claro que todos nós sabemos que se formos bonitos, temos mais probabilidade da vida nos correr bem. E isto não sou eu que digo.
E não é só no teu meio.
Não é só no meu meio. Em todo e qualquer meio. Tu tens mais vantagem se fores bonita do que se fores feia. Não sou eu que decido, é a vida é assim. Mas, portanto, é melhor seres bonita do que feia. Mas isto não é tudo, nem é tudo, nem é a grande parte, porque de facto a beleza desvanece e tu não podes meter a tua carreira, a tua vida toda em cima da beleza. Eu não sei como é que as manequins fazem.
Exatamente.
São José, é um pontinho importante, principalmente no teu início de carreira, e é também um início que vamos explorar na segunda parte, porque o árbitro vai apitar.
Vai apitar, vamos para as notícias.
Já foi levantada a placa, portanto, temos que ir.
Muito bem, hoje com São José Correia em 40 minutos na Rádio Observador, vamos então às notícias e já voltamos à conversa. Estamos de regresso e eu já converso com São José Correia em 40 minutos aqui na Rádio Observador. É a voz do novo podcast narrativo "O Encantador de Ricos". Nós na primeira parte já falamos, obviamente, desta experiência e começamos também aqui a falar de atriz. Achas que é um meio muito sexista, o da televisão?
O da televisão? Não sinto mais do que noutro ambiente.
Tu, por exemplo, agora que também tens, eu falei como atriz, mas tu também és realizadora. Aí já é mais?
Sim, aí antes do sexismo, há outras dificuldades, que é a nossa sociedade artística, pelo menos, e de resto, no total, também creio que seja assim, está muito espartilhada. Ou seja, não é tanto o seres homem ou seres mulher, que isso também está em cima da mesa, mas acho que cada vez menos. O que está em cima da mesa, neste sentido, é: tu fazes novelas, não podes realizar. Tu fazes teatro, não fazes novelas. Tu fazes novelas, não fazes cinema.
Fomos uma pessoa de televisão.
Exatamente, só pode ser uma coisa.
Exatamente. É muito raro chamarem pra casting, por exemplo, pra cinema. É muito raro.
Por quê? Porque fazes essencialmente novelas e teatro?
Não sei, não te consigo responder a essa pergunta, exatamente, mas eu creio que sim. Eu acho que há módulos, acho que metem as pessoas em módulos e depois as pessoas não podem sair de lá.
Ok, os rótulos.
Os rótulos, exato, obrigada. Era essa a palavra que eu estava à procura. Tu fazes novelas e só fazes novelas. Pra te dar um exemplo concreto, eu, na minha primeira curta-metragem, que foi uma adaptação de um conto feita por mim, que se chama "A Noite na Praia", com a Lucinda Loureiro e com o Vítor Norte, que foram os meus dois primeiros atores. Ainda hoje lhes agradeço profundamente por terem aceitado o desafio. Tentei concorrer a vários festivais e tentei concorrer à Vila do Conde, que é o grande festival de curtas-metragens em Portugal. E eu sei, através de uma pessoa que lá estava, que não vou dizer nomes, que era meu amigo, aliás, que me levou o filme, inclusive, e há alguém na mesa que diz: "São José Correia? Então, mas esta não faz novelas?" E não entrei no festival.
Mas dignaram-se pelo menos a ver o filme?
Não sei. Não faço ideia. Não faço ideia se viram o filme, não faço ideia. Não entrei, sei que não entrei em competição, nem entrei pra amostra, nem entrei rigorosamente em lado nenhum. E sei que há uma pessoa que faz este comentário: "Então, mas esta não faz novelas?" E eu pergunto: "Então, mas esta que faz novelas não pode também realizar?" Esta que faz novelas é atriz. E depois essa é outra coisa, que é: és da televisão. Eu não sou da televisão. Eu sou atriz.
Exatamente.
Eu não sou da televisão. Eu não nasci nas paredes na televisão. É como alguém me diz: "Ah, porque eu sou do teatro". És do teatro como, querida? Caíste de uma bambolina? Não és do teatro. E eu não sou da televisão e tu não és do cinema. Somos atores. Eu faço teatro, faço cinema e faço televisão. Até faço rádio quando me convidam.
Nem mais!
Até faço rádio quando me convidam. E o meu imaginário é muito poderoso, no sentido que eu gosto de fazer muitas coisas dentro do meu universo, porque eu já comecei a realizar. Eu ano passado fiz uma coisa que se chama Aula Aberta, com sete alunos, em que experimentei também uma espécie de encenação. Eu estou a concurso com a minha próxima curta-metragem no ICA pro próximo ano, que é uma adaptação do conto do Miguel Torga, o "Alma Grande". E fui eu que fiz a adaptação. A minha curta-metragem de 2018, que estive a concurso no Motel X, fui eu que fiz a adaptação do conto do Edgar Allan Poe, "O Coração Revelador". Fui eu que fiz os figurinos, fui eu que escolhi o cenário. Portanto, eu gosto de tudo que diz respeito à minha profissão, percebes?
E gostavas de seguir esse caminho, por exemplo, na realização?
Sim, quero muito continuar. Agora, não vou deixar de ser atriz, não é: "Agora vou deixar de ser atriz pra ser realizadora". Não, eu sou atriz.
Entendo que fechar um ciclo. Não há que fechar ciclos, porque tem tudo a ver.
Exatamente, tem tudo a ver. Se tu tiveres um espetáculo pra fazer e se não tiveres um assistente de encenação, se me convidares, eu também aceito ser teu assistente de encenação, se o projeto for interessante.
Vou pensar nisso.
Percebes? Portanto, pra mim, tudo é fascinante no meu meio. Eu, quando estava em Almada, eu trabalhei 10 anos na Companhia de Teatro de Almada, sob a direção do Joaquim Benite.
Foi aí que tu começaste.
Foi aí que eu comecei.
Aliás, tu foste pro teatro porque querias seguir advocacia.
Exato.
E eras muito tímida.
Sim, exatamente. Eu era muito tímida. Eu gostava muito de conversar com os meus amigos. Como vocês já repararam, eu sou um bocado tagarela.
Nós adoramos.
Nós também somos.
Sou um bocadinho tagarela. Com os meus amigos eu falava imenso, mas se aparecia alguém estranho, eu calava-me e ficava completamente tolhida de vergonha. E depois fui assistindo às aulas da minha irmã mais velha, da minha irmã Felicidade, que tinha aulas de teatro com a Luísa Cruz, e fui assistir. Houve uma aula que eu fiquei fascinada, porque fizemos um exercício de concentração E que a professora me disse: "Sim, podes fazer também. Não tens de fazer nada, basta encostar-te aí, descalça, põe-te à vontade, o mais confortável possível". E o exercício era ela, com aquela voz maravilhosa que a Luísa também tem, ia descrevendo uma viagem. Entras no bosque, não sei o quê. E agora sentes os matinhos na planta do teu pé que se estão a partir. E eu comecei a sentir os pauzinhos, sensações, tive sensações nas plantas dos pés. Eu fiquei: "Uau, o que é isto? Como é que eu posso estar a sentir uma coisa que ela me está a dizer para eu sentir assim do nada, eu que nem acredito. Acho que isto é tudo uma macaquice pegada". E a partir daí, fui ficando cada vez mais fascinada. E foi com as aulas de teatro com Luísa Cruz que me soltei totalmente. Por quê? Porque deixei de pensar nos outros. Esse é o segredo. Deixei de pensar nos outros e absorvi-me de mim própria e comecei a sentir prazer pelas coisas que estava a fazer e que eu própria estava a descobrir. E como bloqueei a atenção aos outros, perdi o medo dos outros, basicamente, e nunca mais voltei a ter medo dos outros.
Esqueça a advocacia e vamos é seguir.
Sim, porque a advocacia eu acho que na verdade tinha a ver com aquelas séries que nós víamos dos tribunais americanos, em que tens o júri e tens o advogado que fala para a plateia e discursa. E eu acho que era mais isso que me fascinava, sabes? O poder falar pra uma plateia. Eu não tinha era consciência que era uma plateia que eu queria.
Claro.
Mas eu acho que era isso. Acho que foi isso.
E não foste advogada, portanto.
Hoje em dia seria impossível pra mim. Impossível.
Eu acho que pra ti não há impossível.
Sim, também diria.
Não, é impossível, porque tanto o advogado como o juiz decidem sobre a vida das pessoas.
Não gostavas de ter esse poder?
Não, de todo.
Mas tiveste vários papéis ao longo da vida, sempre como atriz, claro, mas foste várias São José Correia. Qual é que foi o papel que mais te marcou ao longo de toda esta carreira?
Tenho muitos. Felizmente, tenho muitos. Consigo escolher um, talvez. Tenho um que foi maravilhoso pra mim, foi dos melhores, grandes trabalhos que fiz, foi a Electra, a versão do Eugene O'Neill, com o Rogério de Carvalho, em Almada.
Fizeste vilã também?
Fiz a Electra, sim. A Electra é filha da Clitmnestra com o capitão grande comandante Agamêmnon, grego, e irmã do Orestes. E a Electra é fascinada pelo pai. O pai foi pra guerra, como sabem, de Tróia, que foram 10 anos, e quando regressa da guerra, é morto pela mulher, pela Clitmnestra. E a filha, a Electra, desenvolve uma vingança pra matar a mãe, mas ela não mata a mãe, vai através de conflitos que cria com o irmão, o Orestes. Então acaba por fazer com que o Orestes mate a mãe. Isto é a versão do Eugene O'Neill.
Sim.
E quando o Orestes mata a mãe, por quem era muito apaixonado, não aguenta e acaba por se matar, também. Portanto, é uma tragédia.
É uma tragédia grega.
É uma tragédia mesmo, completa.
Mas Eugene O'Neill escreve esta peça porque normalmente esta tragédia nunca tem a Electra como protagonista. Tens sempre o Orestes como protagonista, ou o Agamêmnon, ou a Clitmnestra. Não há uma versão, mesmo na tragédia grega, de colocar a Electra no centro da história. E Eugene O'Neill faz isso, coloca a Electra no centro da história. E é uma trilogia, ou seja, são três peças, são quatro horas de espetáculo. Não é brincadeira nenhuma. Mas foi um trabalho extraordinário, porque o Rogério de Carvalho tinha me convidado um ano antes de fazermos a peça. Portanto, eu tive a vantagem que eu quando fui para os ensaios, eu já tinha fixado a primeira peça. Portanto, quando os meus colegas começaram a fixar a primeira, eu já estava a fixar a segunda e assim sucessivamente. Quando eles ainda estavam a fixar a terceira, eu já estava a bater tudo. Ou seja, tive um controle absoluto sobre aquilo que estava a fazer, tive um controle absoluto sobre o espetáculo. Foi uma grande encenação do Rogério de Carvalho. O Rogério de Carvalho, pra mim, é o mestre vivo, ainda. No ano passado tive a sorte ainda de trabalhar com ele num espetáculo, num texto do Heiner Müller, "O Medo Devora a Alma", que fizemos em Almada no ano passado. Mas este pra mim foi o grande espetáculo que eu fiz com o Rogério de Carvalho.
E ainda por cima também em Almada, que é sempre especial.
Sim, é minha casa.
Mas tu nasceste na Madeira.
Não, por acaso não.
Não nasceste na Madeira? Então por que que todas-
Sou a única filha que não nasceu na Madeira, mas fui feita lá.
Pronto. Mas olha, tudo o que eu fui fazer de pesquisa vinha a dizer que tu nasceste na Madeira e que ainda tinhas vivido na Madeira.
Não, eu vivi na Madeira, sim. Vivi na Madeira várias alturas. Não nasci foi lá. Nasci já cá depois do 25 de abril, em setembro de 74. Sim, porque o meu pai era trabalhador da Lusnave Nessa altura estava cá a trabalhar e nós viemos para cá supostamente era definitivamente, mas houve ali durante muitos anos, os meus pais não conseguiram fazer isso definitivamente, porque os meus pais também eram apaixonados pela Madeira.
Como não ser?
Como não ser? Exato. Tivemos ali uns anos que íamos e voltávamos. Mas eu sou a única filha que não nasceu lá. Eu nasci cá.
Por favor, corrijam essa informação.
Mas fui feita lá.
E tens saudades da Madeira?
Tenho de algumas coisas. Tenho muita consciência de alguns cheiros, tenho lembranças fortes, muito fortes, se eu me concentrar muito.
Realmente são as lembranças mais fortes, é do cheiro.
Se eu me concentrar muito, sinto os cheiros e visualizo bastante bem a minha casa e o terreno.
Consegues transportar-te para lá.
Sim. Mas eu fui lá há dois anos, quando o meu pai faleceu. Fui lá com a minha irmã Felicidade, o meu irmão Guilherme e a minha mãe. Repara, é um choque com a realidade, porque as tuas memórias, como nós sabemos, são imaginação. As nossas memórias não existem realmente, são inventadas por nós. E é um choque com a realidade. Quando lá voltei, nada daquilo que eu lembrava corresponde à verdade. Mas ok, é muito bonito na mesma. Mas não tenho uma grande relação, ou seja, não é um sítio onde eu vá lá todos os anos. Até podem achar estranho, mas acho que tenho uma relação muito mais apaixonada com os Açores do que com a Madeira.
E por quê?
Tem mais a ver contigo?
Não sei explicar. Sim, acho que tem mais a ver comigo. Não sei explicar. Não me peçam para explicar, porque eu não sei explicar.
Há coisas que nós não podemos simplesmente explicar. É só sentir.
Sim. Eu quando fui à Ilha do Pico, apaixonei-me verdadeiramente. Apaixonei-me ao ponto de não apanhar o voo para Lisboa. Fiquei lá mais uma semana.
É sério?
Sim.
E tu és muito assim? "Vou decidir, bora."
Sou. Agora que viajo muito mais com o meu namorado, já não é tanto, porque o meu namorado é um bocadinho o oposto de mim. Ele gosta de ir com tudo organizado. Eu não. Eu quando viajo sozinha, viajo mais ou menos um mês, porque como vou sempre para sítios muito longe, faço sempre um mês, porque menos que isso não vale a pena. E só marco a primeira semana.
E depois é go with the flow.
Claro, go with the flow. Claro que faço pesquisas antes de ir. Tenho mais ou menos uma ideia que posso ficar aqui ou por ali, como vou ficar aqui, porque depois quero ir para ali. Mas vou decidindo. A primeira semana está fixa, a contar com o jet lag, porque sabes que a primeira semana não sabes o que é que fazes, só te apetece dormir. Mas depois vou andando.
E algum desses improvisos já correu mal?
Não, felizmente correu-me sempre muito bem.
Qual é que foi aquele que gostaste mais?
O Bornéu.
Bornéu.
Foi a minha grande viagem, o Bornéu e a Costa Rica. São os meus dois sítios de eleição. O Bornéu levas três dias para lá chegar.
Três dias?
Apanhas um avião para Dubai, de Dubai apanhas um avião para a Malásia, continente. Do continente apanhas um avião para a Ilha Bornéu. Portanto, é bastante longe.
Só esses três dias já merecem depois três dias de descanso.
Exato. Por isso é que a primeira semana fico sempre no mesmo hotel, fico sempre no mesmo sítio, porque já sei que a primeira semana é para os pardais, como se costuma dizer, porque precisas descansar, precisas dormir, precisas te ambientar e não é bom fazer decisões assim. E depois a partir daí, logo vemos. Porque depois também, quando nós viajamos sozinhos, conhecemos muito mais pessoas do que quando viajamos acompanhados.
Isso é inevitável.
É inevitável. E portanto, por exemplo, no Bornéu aconteceu-me isso. No Bornéu fiz amizade com um taxista, que era o Tommy. Era e espero que ainda seja. Às vezes ainda falamos pelo WhatsApp. Repare, eu já fiz esta viagem há cinco anos. Sim, eu já fiz esta viagem para aí há cinco anos, foi logo a minha primeira para a Ásia. Ainda hoje falamos pelo WhatsApp, que é o Tommy. Conheci-o numa discussão, imagina. Conheci-o numa discussão, no hotel, porque eu queria fazer voluntariado com orangotangos. Há uma associação que eu sabia que existia lá ao pé do hotel onde estava, em Kuching. E estava na recepção a pedir informações ao senhor da recepção e o Tommy, que era taxista, que normalmente ficava ali naquele hotel para usufruir dos clientes do hotel, estava na recepção e ouviu-me dizer que se podia fazer voluntariado na associação e disse-me: "Olha, acho que estás enganada. Não se pode fazer voluntariado." E eu disse: "Não posso fazer voluntariado?"
Mas quem é que tu és?
Mas como? Mas está aqui no guia, porque eu levo sempre guias. Está aqui no guia que se pode fazer. "Não, não podes fazer. Olha, isso está errado, essa informação não está correta, isso não podes fazer." E eu: "Não posso fazer? Então mas assim, és taxista, estás livre? Então vamos lá, leva-me tu." "Sim, levo-te." E ele levou-me. Ficamos amigos para sempre.
É daquelas relações que começam
Isto chegaste a fazer ou não, querida?
Não, não dava mesmo.
O Rafael tinha razão.
Não, aqui em Kuching não dava. Ele tinha toda a razão. Em Sabah podias fazer voluntariado, que eu não fiz porque tinhas que pagar imenso. Uma semana pagavas $700. E eu disse-lhes: "$700 é mais ou menos o que eu tenho pra viagem, não posso." E não fiz, porque é muito caro, eles cobram.
Olha, São José, temos um minutinho, mais ou menos.
Escolhe bem, André. Escolhe bem, vê lá o que é que tu vais fazer.
Eu diria que já que estamos a falar de lá fora, saber no minuto, carreira internacional, se fazia parte ou faz parte dos teus planos e já agora, com quem é que gostavas imenso de contracenar?
Gostava imenso de contracenar com imensa gente. Não tenho planos para lá para fora. O meu inglês tenho de trabalhar muito para ter um inglês possível. Lá de fora, noutros dias estive a ver a versão do Globe Theatre do "Twelfth Night", da Noite de Reis, e encontrei um dos atores, ligeiramente mais novo que eu, que é o Johnny Flynn, que é absolutamente extraordinário. Quem não o conhece, há de pesquisar. Eu conheci-o, não pessoalmente, mas conhecia o trabalho dele, porque ele fez aquela primeira série da National Geographic, que era a "Genius". Ele fez de Einstein.
Essa eu vi.
Lembra-se?
Sim.
Então pronto.
Foi com o Pablo Picasso também?
Também. O Pablo Picasso foi a segunda série. A primeira foi o Einstein, a segunda foi o Picasso, exatamente. E foi o Johnny Flynn que interpretou o Einstein, que é uma interpretação absolutamente brilhante. Além de ele ser brilhante, é lindíssimo. Além de ele ser lindíssimo, também é músico.
Tem todas as
Arte, sensibilidade. Seria uma pessoa que eu gostaria muito de trabalhar, nem que seja só conversar, beber um café e perguntar-lhe como é que foi fazer a Violeta. Sim, ele é extraordinário. Claro que há muitos extraordinários.
Esta é a pergunta final. Está feito.
Temos compensação.
Muito rápido. O que tu dirias àquelas pessoas que quando tu decidiste que querias seguir representação, disseram: "Não vás por aí". O que tu dirias ao dia de hoje?
Adeus.
É uma ótima palavra para fechar.
São José Correia, muito obrigada. Não se esqueça que está disponível já o podcast, o primeiro episódio. Exatamente, "O Encantador de Ricos", ao qual a São José Correia dá a voz do novo podcast narrativo do Observador. São José Correia, mais uma vez, obrigada.
Obrigada. Gosto muito.
E agora nós estamos de saída e voltamos para a semana.
Até para a semana.
Até para a semana.