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Conhecida no meio como o furacão do fado, respira música, traz verdade e liberdade na voz, na forma como canta e fala sobre o fado e tudo o que o rodeia. "Liberdade" é também o título do novo álbum, recentemente editado. Hoje temos, eu até estou nervosa, Sara Correia, em 40 minutos aqui na Rádio Observador.
Bem-vinda.
Olá, bom dia.
Eu estou nervosa. Não sei.
Agora também já estou.
Eu não queria, porque eu tenho uma admiração profunda por ti e nós há pouco estivemos em off aqui a falar um pouco. E eu acho que tem sido feito todo um trabalho para tornar o fado algo mais acessível, e corrija-me se eu estiver a dizer alguma coisa errada, mas esta é minha percepção. Eu sinto que o caminho tem sido feito, mas sinto que há um novo twist contigo. O fado está a ter outro, não sei.
É que ela não diz isto de todos os convidados que temos aqui, atenção.
Eu estou sem palavras, agora já não sei o que vou dizer. Obrigada pelas tuas palavras e fico muito feliz por achares isso de mim, do meu trabalho e do meu trajeto até então. E não te vou corrigir, eu acho que entendo o que dizes. Como nós falávamos há pouco, o fado vai ser sempre algo com muita carga, com muita intensidade, com muita tristeza também, muita amargura. Aliás, o fado é exatamente isto tudo, são todas estas emoções. E este disco, "Liberdade", eu sinto que é um disco pesado, mas ao mesmo tempo nós com a sonoridade que trazemos para o disco e a forma como eu estou a cantar e a forma como foi construído com o Diogo Clemente, que é o meu produtor, traz aqui uma leveza diferente. A Sara também está diferente, também é mais madura. Estas viagens todas, o cantar muito, às vezes a ausência de estar com a família, que traz também outras aprendizagens, faz com que nasça este "Liberdade".
E o que é a liberdade para ti?
Olha, é muita coisa, mas acima de tudo, esta liberdade de hoje em dia é uma Sara acima de tudo, e eu vou falar em nome próprio, porque eu quando escolhi o nome "Liberdade" para o disco, foi mesmo porque soltei-me de algumas amarras da minha vida, que às vezes, ao longo dos anos em que vais cantando, principalmente no fado, traz uma carga muito grande.
Emocional?
Sim, emocional. E depois, como tu fazes isso todos os dias. Eu cantava sete dias por semana. Não tens forma de não ser assim durante o teu dia. Porque o fado é uma coisa que é nossa, intrínseca, faz parte, é a minha primeira pele. Não dá para fugir disso.
Achas que isso contagiava depois também o teu dia a dia?
Sim, contagiava a minha forma de estar na vida, a forma como eu olhava para as coisas. Não é que fosse mal, atenção, mas o fado é uma música muito densa, muito intensa, muitas vezes traz muita amargura também. Depende da forma como nós olhamos para o fado, depende da forma como vivemos o fado. Eu acho que cada fadista tem a sua forma de estar. E os palcos ajudaram-me a ver outros horizontes, a ver que há outras realidades e ouvir outras músicas, ouvir outros artistas, trouxe-me a Sara Correia, que é mesmo esta Sara Correia. Portanto, foi ir ao fundo das minhas raízes, ir à descoberta de quem eu sou realmente.
E nesse processo, eu estava aqui a ouvir-te: tu tinhas medo de não seres aceite no meio?
É assim, eu nunca tive medo de ser aceita ou não, porque eu, na verdade, e não me levem a mal, eu nunca pensei isso. Porque eu canto desde os nove anos. E fiz isto de forma muito natural para algum dia achar: "As pessoas não me vão aceitar". Vai haver sempre quem não me vá aceitar, mas isso é como todos na vida. Faz parte da vida.
Não dá para agradar a todos, nem é suposto.
Mas o segredo para isso, e desculpa, Catarina, só para te dizer, o segredo para isso, que eu tenho aprendido ao longo dos anos é: as pessoas que realmente querem ouvir-me, que querem ser minhas amigas, que me apoiam, que são o meu ciclo. Isso é o mais importante, é nessas pessoas, mais nada.
Nunca tiveste medo de, por exemplo, este "Liberdade" ter algumas influências pop também. Nunca tiveste medo de ser mais arrojada ou de tentar mexer com o fado?
É esse o twist que eu acho que a Sara está a fazer e traz.
Não vou ser hipócrita. Eu tenho um grande respeito pelo fado, um grande respeito mesmo. E para se fazer um disco destes, é preciso ter noção de que este disco não é só fados tradicionais.
Claro.
A minha forma de cantar é fado, eu sou fadista, eu posso cantar tudo e mais alguma coisa, vai sempre saber a fado. A minha forma é portuguesa, é Portugal a cantar. Posso cantar tudo que vai sempre saber a fado. Mas eu tenho fados tradicionais, tenho canção, tenho um "Era um Adeus", tenho um "Madrugou", que traz sempre esta carga do fado. E por isso é que este disco é tão especial. É preciso ter muita noção do que estamos a fazer e a forma como falamos do disco. Eu sou fadista. Este disco, para mim, é o disco mais fadista, mas não é só fados tradicionais.
E começa precisamente pela forma como tu apresentaste este álbum, que fugiste precisamente ao que é tradicional. Tu fizeste questão de apresentar no teu bairro, em Chelas. Aliás, é o single, o primeiro avanço para este "Liberdade" chama-se "Chelas". E que música incrível, que letra maravilhosa da Carolina Deslandes, certo? É a segunda música que te entrega.
É.
Mas fala-me um bocadinho deste "Chelas", o porquê a apresentação, para quem nem sequer conhece a tua história. Tu és de Chelas e de resto acho difícil, muita gente, enfim, ultimamente têm surgido tantas reportagens à tua volta e precisamente sobre este álbum e é inevitável falar de Chelas, mas para ti foi claro como a água, tinha que ser ali.
Sim, é assim, antes de tudo, o Chelas, que é escrito pela Carolina Deslandes, e eu tenho mesmo essa sorte de ter a Carolina na minha vida, porque eu não preciso pedir nada. E esta é a parte mais incrível. Nós falamos e acabamos por ter conversas e depois daí surgem essas coisas. E isso para mim é que é música e é assim que deve ser feito. E a Carolina escreveu, se eu não me engano, e desculpa Carolina se estiver errada, ela escreveu o Chelas e no dia em que escreveu também o "Não me importo". "Eu não me importo". Escreveu no mesmo dia. E depois mandou-me logo a música e era isto que eu queria. Antes de achar que isto ia para o disco, atenção. Eu queria fazer uma homenagem a Chelas, não só a Chelas, eu acho que é aos bairros. E a parte em que eu digo: "Dizem: Sara, tem cuidado", não é sobre mim, é sobre as pessoas do bairro. Quando olham para as pessoas do bairro e querem transformá-las noutra coisa.
Marginalizá-las.
Exatamente. E eu quis passar esta mensagem e quis passar também a mensagem de que Chelas não é só o que as pessoas acham. Tiros. Não, não é nada disso. Tenho 30 anos, nunca vi isso acontecer. Chelas tem muito boas pessoas, tem pessoas que trabalham muito, que me viram crescer, que ajudaram muito também no meu crescimento, que se ajudam umas às outras e no fim de contas, era isso que eu queria, era dar-lhes um presente e agradecer-lhes por aquilo que fazem ao bairro e que tanto têm ajudado tantas crianças e eu também quero entrar nesse papel de poder apoiar e ajudar as pessoas.
O Chelas, de certa forma, também pode ser uma resposta tua para quem ao longo deste caminho te disse que devias ser diferente, que devias negar as tuas origens. É também uma resposta a isso?
É sim. Nunca me disseram isso diretamente.
Mas sentiste.
Lindo, adorei. Sim. Senti várias vezes e tenho a certeza que não fui a única pessoa a sentir isto, até porque para mim, como já tínhamos falado há pouco, Catarina, o fado é do povo e é de quem gosta dele e de quem o quer entender e perceber. E senti, só que ninguém me dá a volta. Não vale a pena. Podem vir todos. Eu vou ser sempre esta pessoa e eu estou sempre a dizer: "Se eu um dia mudar, vocês deem-me dois despachos estalos". Porque eu não quero isso e gosto muito de ter os pés assentes na terra e viver um dia de cada vez e agradecer muito à vida e a Deus por me dar força para trabalhar todos os dias e ter força para isso.
Isto do fado, nós aprendemos ou crescemos a ver o fado um bocado como aquela postura, os vestidos, o xale. E hoje em dia, no palco, já não é assim que a maioria das fadistas se apresenta, porque os tempos também mudam. Achas que ainda há muito: "Isso não é fado. Isso para mim não é fado". E eu sei que tens uma história com o xale muito gira.
Sim. Olha, este é um assunto para mim, é sempre uma pergunta para mim muito complicada.
Mas esta pergunta faz sentido?
Faz todo o sentido. E eu vou já te explicar porque é que para mim é sempre difícil. Eu respeito cada um como ele é. Eu acho que o fado não está em vestimentas nenhumas, não está naquilo que a gente calça, naquilo que a gente veste. Mas o que eu te quero dizer com isto, é que as tradições têm que se manter. Está certíssimo. E a minha forma de manter a tradição é respeitar o fado quando o canto. Essa é a minha forma de respeitar o fado. O que eu acho é que nós vivemos tempos diferentes e que há uns anos largos atrás, a forma de estar na vida era outra, a forma de se vestir era outra, a forma de ver a vida era outra. Hoje a vida é outra também. São tempos completamente diferentes e eu não me vejo a cantar com vestidos compridos. Nunca cantei, aliás, quem me conhece dentro do meio do fado, eu fui fadista de cantar de mini-saia Portanto, não sou menos fadista por causa disso. A minha forma de ver o fado não é essa. Respeito toda a gente e espero que respeitem também a minha.
Claro que sim. Tens toda a razão. E em relação ao xale, conta lá. Uma vez cantaste com o xale ao contrário, do avesso.
Isso é muito Sara Correia. Agora a sério, porque eu faço muitas asneiradas. E uma dessas é vestir coisas do avesso, porque eu sou muita despära. Despacharada, mas não é por mal, é meu, é assim, cada um tem os seus defeitos, um desses é ele. Fui cantar com o xale do avesso e ganhei.
Deu sorte!
Não, deu sorte.
A partir de agora era sempre com o xale.
Exatamente. E disseram-me assim: "Estás a ver? Isto é verdade. Nós usarmos uma peça ao contrário é realmente uma prenda no final". E foi essa a história. Mas já me aconteceram outras coisas durante a minha vida toda. Já me aconteceu tudo.
Já te perdeste, até. Olha, na vitória dos Prémios Play que tiveste, no discurso de vitória, quando venceste o prémio "Melhor Disco de Fado", agradeceste por nasceres fadista. Não se é fadista, nasce-se fadista?
Sem dúvida.
Tu já nasceste, já estava destinado.
Sim, eu não vou dizer nada pra agradar as pessoas. A realidade é: todos nós temos um talento, seja ele qual for. Depois, ou temos a sorte de o descobrir, ou então nunca o descobrimos. Agora, o fado é além de talento, é uma matriz. E eu não me lembro de nunca ser do fado. Não sei se me faço entender. Eu desde sempre que sou do fado, mesmo que não o cantasse.
Claro.
Entendes? Também há fadistas que não cantam. São pessoas que amam o fado e que sentem da mesma maneira sem o cantar. Atenção.
Sara, mas agora que falas nisso, nós tivemos aqui no "40 Minutos" também o Jorge Fernando, que nos dizia, e tu conheces bem, que ele não é que nasceu do fado, mas que nasceu já com aquela tristeza e nostalgia que é inerente quase ao fado. Tu sentes também isso? Sentes que ao longo da tua vida, isto é um bocado mau de se dizer, se calhar, mas já nasceste com essa tristeza, com essa nostalgia no sangue?
Antes de mais, falar do Jorge Fernando pra mim é falar de um dos melhores e dos maiores compositores, produtores, e deu imenso ao fado. Não só ao fado. É mesmo uma pessoa muito especial e aprendi muito com ele durante o tempo que trabalhamos juntos, numa casa de fados. E concordo plenamente com o que ele diz. É uma coisa que tu não escolhes e nasces mesmo com este pesar, porque pra mim chegou a ser um peso. Que depois com a vida, com a maturidade, com os anos, ou tu consegues desprender-te um bocado disso e aprendes a viver com isso, ou então podes-te tornar uma pessoa muito amargurada, muito sofrida. É uma coisa muito complicada de se explicar, na verdade. Mas eu tenho trabalhado isso e, aliás, falo aqui sem problema nenhum. Eu faço terapia, preciso da terapia exatamente por isso, porque há coisas que nós não conseguimos sozinhos e precisamos de apoio. E uma dessas coisas foi isso, foi o tentar levar a minha vida pra uma coisa muito mais leve. Hoje em dia, quero me divertir muito mais, levo a vida de outra forma e tem sido incrível por isso mesmo. E não é por isso que deixas de ser fadista.
Exatamente. É do fado ou também tem a ver com as tuas vivências?
Mas o fado é isso mesmo.
São as vivências.
São as vivências. Pra mim, são. Atenção, eu estou a falar pra mim. São as vivências, as coisas que nós passamos na vida. Depois, cada fadista tem a sua personalidade e antigamente havia muito isto, exatamente por isso. Porque descobriram a sua personalidade muito cedo e sabiam bem o que queriam cantar e passar pras pessoas. E eu acho que acima de tudo, o fado são as vivências e as emoções que nós temos. E o meu fado é esse, é cantar às pessoas aquilo que eu sinto e às vezes cantar aquilo que as pessoas também em casa sentem. É isso mesmo.
Olha, Sara, vamos ter que fazer uma pequena pausa agora.
Desculpa.
Desculpa, nada, então. Por favor. Ainda bem, é isso.
Eu noto sempre que dizemos que temos que fazer pausas quando estamos a ir bem.
Mas já sabes por quê? Eu, o André, o André tem notícias pra partilhar. Fazemos agora aqui uma pequena pausa. Hoje, Sara Correia em 40 Minutos, na Rádio Observador. Vamos à síntese e já voltamos à conversa. Estamos de regresso e hoje à conversa com Sara Correia em 40 Minutos, álbum "Liberdade". Temos falado aqui de fado, de celas, da tua vivência, mas também é importante falar, e tu tens tido essa oportunidade de atuar, de viajar. E o mais engraçado é quando tu vais lá fora, e deves ter esta noção, eu vi algumas reportagens, as pessoas muitas vezes, a maior parte das pessoas, nem percebe basicamente o que é que estás a cantar. Sentem. Mas depois quando saem, é do gênero: "A forma como a Sara estava a cantar", aquilo que transmites. Que mensagem tu trazes cada vez que voltas?
É exatamente isso. É chegar lá fora e o fado tem este poder. Tem uma magia. Para mim é uma magia, porque as pessoas não percebem o que nós estamos a dizer, mas a nossa entrega e a forma como cantamos, não é só a voz. A guitarra portuguesa, a equipa, a banda, é uma coisa que só estando é que se sente mesmo. E acho que quando as pessoas vão ver os concertos e às vezes nem sabem, nunca foram ver um concerto fado.
Se calhar nem sabem o que é o fado.
Se calhar nem sabem. Já me aconteceu várias vezes dizerem: "Eu não sabia o que era o fado e estou rendido." Porque é muito intenso e é uma coisa muito nossa. É muito nosso, é uma coisa que não há em mais lado nenhum.
Tu achas que, por exemplo, e daquilo que conseguimos ver, tu chegaste a atuar até nas Ilhas Reunião.
Sim.
Que é algo que não sei se houve muitos portugueses que atuaram lá. Nós portugueses percebemos o que é o fado, sejamos mais novos, mais velhos, porque é nosso, não é? É de Portugal.
Sim.
Achas que os estrangeiros, por exemplo, conseguem compreender isso? Porque por mais que a música seja universal, há aqui alguma coisa de sentimental. Dizemos que a palavra saudade, por exemplo, só existe em português. Achas que os estrangeiros conseguem perceber mesmo aquilo que estão a ouvir?
Eu acho que sim. Não tenho dúvidas disso. Eu acho que depois são descobertas novas e há muitos amantes do fado, há pessoas que vêm passar férias a Portugal só para ouvir fado.
Sim, uau!
Isto é incrível, mas é a realidade. Portanto, claro, eu acho que o fado é para toda a gente e é uma coisa que não tem que ser só nossa. E essa é a parte bonita disto, o fado é do mundo inteiro, é nosso de raiz, é português, é uma emoção nossa, é um sentimento nosso, é a saudade, por assim dizer, mas também é deles.
E no meio deste percurso todo, tu já vens de uma família muito ligada ao fado. Algum conselho que a tua mãe tenha dado?
Tantos. O primeiro foi: "Olha, ouve mais e fala menos. Deus deu-nos uma boca, deu dois ouvidos, portanto pensa nisso, filha." E eu: "Tá bem." Mas já me deu vários conselhos. Aliás, a minha mãe é a pessoa mais importante na minha vida, é a guerreira. É uma guerreira mesmo, não é por ser minha mãe, é a realidade. Portanto, dá-me muitos conselhos e tenho muito da minha mãe. Aliás, dizem que nós somos muito parecidas, cada vez mais. E ainda bem.
Se tivesses que ligar a uma pessoa, falas com a tua mãe todos os dias?
Sim. E quando ela não me liga, eu fico chateada. Eu digo: "Mãe, por que não me ligaste?" E ela: "Ó filha, não te chateia, porque eu sabia que ias ter uma entrevista, porque não sei o quê."
Mas isso é tão típico das mães.
É mãe.
É sim. "Mãe, mandas-me uma mensagem." E eu digo-te assim: "Ok, mãe, posso falar contigo, podes me ligar." E ela: "Pronto, tá bem, filha. Às vezes é para não te chatear." "Tá bem, mas liga-me todos os dias, porque eu quero falar contigo, quero saber se estás bem." E ela: "Tá bem, pronto, desculpa." E ficamos por aqui. Mas sim, com a minha mãe, com o meu irmão.
E desabafas muito com ela, por exemplo, quando estás nas viagens?
Não. Nas viagens, não. Não tenho tempo para desabafar com ninguém. Tenho tempo para desabafar com o público e falar com o público e com a minha equipa, porque lá está, nós não temos muito tempo. É ir, deixar as coisas no hotel, fazer ensaio de som e concerto. E daqui a pouco já estamos a vir ou então já estamos a ir para outro lado qualquer.
Mas já agora, deixa-me fazer-te uma pergunta que é: estavas a dizer o peso que tem o fado, a bagagem emocional que tem, e tu cantas fado, ouves fado todos os dias, passas muito tempo em viagens, disseste há pouco, e que não escondias, que fazes terapia até regularmente.
E aconselho a toda a gente.
Tem-se falado muito de saúde mental ultimamente. Nós que estamos de fora só vemos a parte bonita, não é? Dos concertos e tu em palco. Quão duro é, para além de estares num meio que é pesado como é o fado, teres de fazer todas estas viagens, é um ritmo alucinante, como é que se ultrapassa isso?
É espetacular. É muito cansativo e é mesmo muito, mas no fim, aquilo que tu trazes para casa é exatamente o que nós estávamos ali a falar antes disto, que é a recompensa de tu entregares-te às pessoas, de conseguires chegar ao coração das pessoas e no final de um concerto, tu teres essas pessoas a agradecerem-te o facto de estares ali. Portanto, eu sou muito abençoada e agradeço a Deus por isso. Não minto. Há momentos da minha vida que eu acho que já não vou conseguir e acho que até hoje ainda não sei qual é o meu limite. Mas acho que como faço isto por amor, torna-se tudo muito mais fácil. E com a equipa que tenho, também é mais fácil.
Ajuda. Olha, estavas a falar em entrega e eu adoro, porque entretanto, para quem não sabe, tu foste campeã interescolar do futebol e basquetebol.
É uma coisa que eu realmente gosto de falar.
Perdeu-se uma grande basquetebolista.
Não, mas eu era muito ligada ao desporto. Não sei o que é que aconteceu entretanto, mas comecei a cantar fado. Não é desculpa. Atenção, não é desculpa, mas pronto, deitava-me muito tarde e era difícil. Mas sim, é verdade. E adorava jogar futebol. Era muito maria rapaz. Ainda sou um bocadinho. E basquetebol era a minha grande perdição também.
Mas em Chelas?
Sim, em Chelas. Era na escola, portanto fazíamos depois aqueles interescolas. E eu tinha a mania que era rebelde.
E nós já percebemos que hoje em dia a música, obviamente, ocupa muito tempo, mas ainda continuas a gostar de ver jogos, vais acompanhando?
Hoje sim digo só obrigada, porque eu tenho um namorado fanático.
Por basquete ou futebol?
Futebol? Não, por tudo. O problema é esse, por desporto. Em casa é sempre aquilo. E depois a minha equipa também, além de serem muito do fado e da música, também são todos fanáticos por desporto, portanto é um problema muito grande.
Muitas vezes nas viagens, telemóvelzinho com o jogo, todos a ver.
Não, é uma loucura. Eu vou te dizer, eu fiz um concerto no CCB, no meu dia de anos, no dia 27 de maio, e jogava o Benfica, e ganhamos. Ai, desculpa, ganharam. Não posso dizer essas coisas. E o que acontece? Estavam todos a ver a bola antes do concerto. O quê? Os homens são... Eu não fico nada, fico a olhar pra eles assim: "Não têm mais nada pra fazer?"
E ainda por cima faziam anos a rapariga.
Muito engraçado, mas pronto, aceito. Eu gosto desse problema, mas é engraçado. Eu como sou muito espoletada e antes dos concertos eu vivo uma adrenalina que não há igual. Eu estou sempre bum, bum, bum, sempre de um lado para o outro.
Tens algum ritual antes de entrar em palco?
Não. O meu ritual é sentir que a minha voz está boa pra cantar e que consigo fazer bem a minha missão. Que eu costumo dizer que é uma missão, mas não tenho ritual. Não sei, se calhar até tenho, desculpa, mas é uma coisa muito antes de entrar em palco.
Benzer.
Bora.
Olha, mas já agora, já disseste por aí umas duas ou três vezes durante a entrevista, "graças a Deus". Tu és crente? Não sei se às vezes é um tema difícil de abordar.
Tenho a minha crença. Não tem mal nenhum. Não temos que ter problemas em isso. Eu fiz oito anos de catequese, podia ser catequista. Mas pronto, o fado veio me buscar e já não.
Já agora que eu estava me esquecendo, para os nossos ouvintes que não viram, o teu gesto, o teu ritual foi benzeres-te. Para quem não viu.
Mas sim, acredito que há uma força e só posso acreditar porque tenho provas de que quando temos fé e somos boas pessoas, nós temos alguém que olha por nós.
E tem algum papel no teu fado quando estás a cantar?
Claro que tem. Deus também. Portanto, eu não posso dizer que não acredito. Seria hipócrita e mentirosa. Eu comecei logo por dizer que tu és um furacão e eu sinto isso mesmo. E és tão despachada que nasceste à porta da maternidade. Isso é que era pressa. Sempre fui assim. Porque olha, eu não gosto de fazer esperar, nem que esperem por mim. Olha, eu vinha quando estávamos, eu disse logo ao André: "A Sara é super pontual, atenção".
E chegou muito tempo antes da entrevista, o que prova isso.
Não, eu sou mesmo assim, mas às vezes também não é preciso tanto.
Mas olha, também da nossa experiência, mais vale antes do que depois, porque também já estivemos à espera.
Mas sabes de uma coisa? O que me faz confusão, pra mim o horário é um horário. E eu trabalho com homens. E então tem que haver mulheres. Tem que haver mulheres. E no meu caso sou eu e a minha road manager, que é a Bruna Duarte, que nós somos muito: "bora, sí". Nós é que vamos a banda conosco. E então é mais por isso. Não sei se me fiz entender.
Acho que fizeste.
Eles não ficam chateados. Mas não tem mal nenhum. Amo-os do coração e ainda bem que eles são assim. Mas gosto muito de horários, gosto mesmo. Mas eu sinto que vocês trabalham todos, é uma grande equipa. É a equipa vencedora. Somos, é a equipa que ganha.
A equipa que ganha não se mexe. Ora aí está.
Somos mesmo. E digo, quando me perguntam: "O que queres pro teu futuro?" Epá, quero continuar com a minha banda. Quero continuar com eles a pisar o palco.
Já agora, Sara, agora que me lembrei, o que queres pro teu futuro?
É isso mesmo. Quero continuar com a minha banda, tenho os pés muito assentes na Terra. Quero continuar a cantar em grandes palcos, quero continuar a cantar lá fora, quero continuar a cantar fado, não quero perder a minha voz nunca. Só quando Deus decidir que já não é o meu tempo. Tens medo que isso aconteça?
Tenho muito medo. Eu acho que todos que cantam ou que tocam, por exemplo, um instrumento.
Ou que fazem rádio.
Ou que fazem rádio. É verdade. Tenho muito medo. Mas também acredito numa coisa. Não penso nisso. E também tratas-te bem, de certeza. Não?
Mais ou menos. Eu gosto do "mais ou menos".
Infelizmente, tenho aprendido a tratar-me melhor. Pronto, enfim. É complicado.
É, eu sou muito rebelde, é um problema muito grave. Mas eu acredito que com o tempo e com a maturidade eu vou aprender cada vez mais.
Mas isso faz parte de ti.
É, faz parte de mim. Eu às vezes digo: "Eu não posso mudar tudo", porque daqui a bocado eu não tenho personalidade. E quando eu digo mudar tudo é: infelizmente eu fumo, infelizmente eu gosto de beber um copo, infelizmente eu tenho 30 anos.
Mas isso também faz parte da vida do fado, não faz?
Então não faz?
Não, é sério. Eu cresci e os meus pais iam muitas vezes na altura a ferreira ao Senhor Vinho. Portanto, por isso é que eu digo que a mesa, o beber, o fado, antigamente também o fumar.
Antigamente fumava-se em casas de fado.
Exatamente.
Sim, hoje em dia não. Antigamente fumava-se em casas de fado. Por isso que ainda bem que isso acabou. Porque imagina, às vezes estavas a cantar e só estavas a respirar aquilo . Já nem sabias o que é que... Habituavas-te àquilo, é uma verdade, mas saías de lá a cheirar a tabaco.
A tabaco. E por estar a falar aqui nas mesas, eu faço ideia, a mesa das onde tu vens. Tens avós paternos alentejanos, família materna desde o Minho ao Algarve.
Não percebo também.
Não percebes? Pronto, está bem.
Não, é que às vezes eu já lhes perguntei como é que é possível. Minha avó é de Vieira do Minho É da pontinha lá do Minho e o meu avô é de Sagres.
Tão bom a ponta!
É espetacular, é incrível. Eu tenho um bocadinho de Portugal em mim, de cada ponta.
Se calhar é por isso que cantas Portugal também, não é?
Quem sabe? Não sei. É uma boa pergunta. Talvez um dia possa te responder.
Exato. Daqui a uns anos fazemos outra entrevista por aqui.
Queremos muitas.
Espero que tenha mais coisas para dizer.
Há bocado disseste, quanto ao futuro, que gostavas de continuar a atuar lá fora. Há um sítio onde ainda não tenhas atuado que gostavas? Diz-nos, queremos nomes.
Há tantos. Olympia.
Claro.
Claro, obviamente.
Um ponto alto para cada um.
Há palcos que nós temos sempre o sonho de fazer. E acredito que um dia talvez.
Já estive mais longe, não é?
Sim, já. Por exemplo, imagina, eu não pensei fazer o Coliseu tão cedo e consegui. Eu por acaso fiz uma promessa, não foi para ninguém, foi para mim própria. Disse: "Aos 30 anos eu tenho que fazer os Coliseus". E aconteceu. Portanto, obrigado Deus, obrigado por me dar força.
E já que começaste a falar agora, dá lá as datas, conta tudo. Como é que estás? Antes ainda vais de férias, que nós já sabemos.
Vou, estou tão feliz.
Mas não digas para onde.
Não, não vou dizer.
Para os fãs não.
Não, não tem mal nenhum.
É o teu espaço.
É o meu espaço. Mas vou estar dia 9 de março no Coliseu de Lisboa. Convido-vos a irem. Apressem-se, por favor. Dia 22 de março no Coliseu do Porto. E é isso. Mais cedo vou estar em Braga, mas já está esgotado.
Estás muito ansiosa pelos Coliseus?
Estou, porque é aquela casa que todo artista tem muito respeitinho. É a casa onde tu dizes assim: "Ok, cheguei e agora posso fazer". E é espetacular, é a recompensa do trabalho. É incrível.
E quem é que tu esperas encontrar nesses concertos?
Boa pergunta, não sei.
Desarmaste agora.
Pessoas que gostem de mim, acima de tudo.
Vais lá ter família, obviamente.
De certeza que vou ter Xelas inteira. Não tenho qualquer dúvida.
O Sam the Kid, será que vai?
Sim, acho que sim. As pessoas que gostam de mim, que gostam do meu trabalho, mas acima de tudo que gostam de mim, vão estar presentes. Isso eu não tenho dúvidas. Os compositores deste álbum.
Claro.
Tu sentes que este é o teu início?
Eu sinto que o meu início não, porque eu tenho 30, mas parece que tenho 70.
Onde? Por tudo aquilo que já viveste e que já passaste? Ok.
E porque eu sinto sempre que sou uma alma antiga com uma nova. Não sei explicar, mas é isto. Mas sinto que é o início de uma Sara sem qualquer medo de nada. Neste momento, não tenho medo de nada, só tenho medo de perder a voz. Mas é o início de uma nova Sara nesse sentido, sem qualquer amarra, livre de ser quem ela é.
Sara, para fecharmos, porque o tempo infelizmente não para. Estava aqui a Catarina a perguntar o que é que gostavas de ter no Coliseu. Há uma pessoa que não terás lá, certamente, mas esperemos, quem sabe, quem acredita, pode estar a ouvir, que é uma senhora a quem tu te referes sempre como Dona Amália.
Sim.
Amália Rodrigues. Eras muito pequenina, não sei se chegaste a conhecê-la. A Amália morreu em 1999. A Amália é uma inspiração para ti também? Pensas muito nela no dia a dia, quando escreves, quando cantas?
Sim. Eu acho que todos os fadistas.
Uma inspiração mesmo para esta nova geração?
É. E se não for, tem que ser. Isso é um assunto, por acaso vou ser muito rápida a falar disso. Acho que era muito importante falarem disso nas escolas.
Tens medo que a Amália se perca?
Nunca vai se perder. Mas era importante passar isto para as crianças, para as crianças saberem quem é que foi a grande Amália Rodrigues, porque a Amália não foi só fadista. A Amália era muita coisa, era mais do que isso. E eu gostava muito que as pessoas percebessem isso. E vou buscar muitas coisas a ela na forma como olho para a vida, não só no canto, não só no património que ela nos deixou, mas da mulher que ela era, que ajudava os mais desfavorecidos também. E viveu numa época muito difícil. Viveu na época do Salazar e parece que para uma cantora como a Amália era fácil, mas não foi. E acho isto muito interessante e acho que devia ser falado. E sim, conto sempre com ela nos meus concertos. Com ela e com o meu querido Hermano Tavares, que já não está presente entre nós, mas que é uma pessoa que eu penso todos os dias também.
Achas que ela gostaria de te ouvir?
Olha...
Como não?
Uau! Eu gostava de saber isso.
Como não?
Não sei. Não sei, mas adorava. Nunca vou saber. Mas adorava.
Olha, esta é mesmo daquelas perguntas: os teus amigos pedem-te muitas vezes para cantar para eles?
Não.
Porque já sabem que é daquelas coisas que...
Já sabem que eu não vou cantar. Eu digo assim: "Amigos, eu agora não estou a cantar. Eu agora quero é me divertir, vamos jantar, vamos ao cinema". Não me pedem. Falamos muito da minha vida e perguntam muito sobre as viagens que eu faço e até posso cantar por brincadeira. Atenção, não é por aí.
Há uns tempos eu apanhei no TikTok um vídeo em que tu estavas, penso que em Espanha, e começaste a cantar os Xelas.
Sim, estava com a minha banda. Tínhamos acabado de fazer o concerto.
Tu não apanhaste?
Não.
Estava tipo...
Eu não tenho TikTok, portanto.
Mas eu também tenho no Instagram, não há desculpa.
Ok.
Incrível. A Sara no meio, aquilo era assim um sítio muito giro, uma esplanada.
Podia ter querido.
Podia?
Podia. As pessoas estão a jantar e eu estou ali a chateá-las a cantar.
Eu adorei.
Eu também. Eu disse: "Olha, eu vou fazer".
Eu gostava um dia que isso acontecesse.
Mas imagina, foi uma coisa natural, entendes?
Nota-se, espontânea.
Porque a minha equipa começou.
Exatamente.
Fazer o ritmo.
E eu armei-me logo em artista, levantei-me logo e comecei a cantar os Xelas. E depois gravámos isso e acho lindo.
Mas isso és tu.
Sou eu.
É isso que eu acho. Eu olho e tu és assim.
Sou mesmo.
Tu és o furacão, tu és espontânea e tens muita garra. E olha, eu estou em pulgas para te ver no Coliseu. Quero muito, vou lá estar, portanto eu vou ser uma dessas pessoas, vou gritar muito.
Obrigada mesmo, do fundo do coração.
E obrigada pela tua disponibilidade. Por isso recorda só as datas do Coliseu.
Então, Coliseu dos Recreios, dia 9 de março, Coliseu do Porto, 22 de março.
Não se esqueçam, álbum "Liberdade", nem mais. Álbum "Liberdade", Sara Correia, hoje em "40 Minutos" na Rádio Observador. Mais uma vez, Sara, foi um prazer. Muitas felicidades.
Deixa-me agradecer também a vossa entrevista, as perguntas. Muito obrigada pelo vosso carinho.
Tu és um amor.
E até à próxima, espero.
Obrigado.
Obrigada eu.
E nós estamos de regresso para a semana, não é, André? Mais um convidado no "40 Minutos".