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Chama-se Nuno Duarte, mas toda a gente o conhece como Gel. Já foi agitador social televisivo, cantor do Festival da Canção com os Homens da Luta. Adoro a expressão que está a fazer. Já foi pessoa de opinar muito, de provocar. Já foi muita coisa. Inspirado na frase: "Vamos sempre a tempo de fazer algo novo", vai estrear-se a solo, aliás, já estreou, com o espetáculo "Excesso de Bagagem" e o resto é para descobrires em 40 minutos. Gel é o convidado desta semana aqui na Rádio Observador.
Olá, tudo bem?
Bem-vindo.
Prazer estar aqui na Rádio Observador, aqui no bairro de Alvalade.
De Alvalade. Falamos aqui, já agora só para contextualizar, nós normalmente falamos sempre aqui um bocadinho em off.
Fazemos um 40 minutos antes.
E tu também tens uma relação aqui com a Rádio Observador.
Sim, eu morei muitos anos no bairro de Alvalade, os meus pais moraram aqui, o berço do punk rock. Tinha uma vizinha que era tipo o saudoso João Ribas, era uma vizinha do Estar Perdida, Censurados, Samuel, Palitos, João Pedro Almendra, Sampaio. A gênese do punk rock. Pessoal ali do Jardim dos Curruxelos. Quem é daqui da zona sabe o que isso quer dizer. E então também é que aqui andei, Alvalade.
Portanto, hoje foi bom voltar aqui a esta zona.
Foi.
Tens saudades?
Eu gosto de Alvalade, é um bom bairro. Já não moro em Lisboa há muitos anos, mas se eu voltasse a morar em Lisboa, ou seja, se eu fosse milionário e pudesse morar em-
Mas tu agora és tio.
Sim, mas sou tio, mas pobre. Sou tio remediado. Se eu fosse milionário e pudesse morar em Lisboa, se tivesse, imagina, um milhão e meio para dar por um T1, era para Alvalade que eu vinha, sem dúvida.
Olha, hoje temos mais Nuno Duarte e menos Gel?
Não, isto já está tudo misturado. A partir do momento em que a minha própria mãe me chama Gel, já estás a ver o nível em que isto está aqui do meu lado.
Estranhas também?
A tua mãe trata-te por Gel?
Olha o meu Gelinho.
Podias estar a falar das unhas.
Não, por acaso no outro dia tive uma ideia, às vezes dá-me assim umas ideias que eu aponto, que é: eu podia ter um negócio de unhas. Unhas de gel.
Sim.
Pessoal, se um dia me virem isto no shopping, é um negócio do tio.
O tio agora também tem um negócio de nails.
Exato. Não sei, ainda não meti nisso.
Então e o que te fez mudar de Nuno Duarte para Gel? Ou quando é que isso aconteceu?
Não foi uma opção minha. Isto aconteceu quando eu tinha 14 ou 15 anos, já contei esta história várias vezes, mas aqui repito, que eu tinha 14 ou 15 anos e eu usava muito gel na cabeça na altura, assim que uma pseudo crista. Tinha a mania que era assim um punk rock, um puto maluco. E então um colega meu, que era o Eduardo, nunca mais me esqueço dele, começou-me a chamar: "Lá vem ele cheio de gel. Lá vem ele cheio de gel, lá vem ele cheio de gel, lá vem o gel, lá vem o gel, lá vem o gel" e ficou Gel.
Pronto, ficou Gel. Ok. E é mais fácil estar com essa máscara do Gel ou sem máscara e sendo Nuno Duarte?
Pois é o que eu te digo, isto está tudo um bocadinho misturado nesta altura. Quando tu dizes a máscara, é um bocadinho esta energia que eu emano. Para ser aqui um bocadinho metafísico.
Que acaba por Nuno Duarte também ter, essa energia.
Sim, mas eu isso divido bem, não tenho problemas. Eu sou uma pessoa que gosta muito de socializar, gosto muito de estar no meio das pessoas. Sou aquele tipo de cara que sai e fala a toda a gente. Conheço os vizinhos todos, as pessoas das lojas, as pessoas que eu não conheço, falo-lhes à mesma, sorrio pra toda a gente, mas depois também gosto, sobretudo quando mais reservado, de estar mais tranquilo. Não tenho sempre esta necessidade de depois estou em casa assim: "Cabrada, para aqui ninguém". Não, consigo dividir isso bem, mas considero-me uma pessoa sociável.
Antes de começarmos aqui a falar dos Homens da Luta, óbvio, temos mesmo de-
Aqui na Rádio Observador pode falar dos Homens da Luta.
Mas temos de falar. Mas como é que olhas para as coisas, para o que tu fazias antes? Há claramente um antes e um depois, agora, e apesar de continuas presente e és o tio Gel, mas há uma diferença, certo?
Sim, claro.
Como é que tu olhas? Voltarías a fazer tudo?
Essa pergunta, esse tipo de retórica pra mim nunca fez muito sentido, porque aquilo que eu fazia, ou que eu já fiz, foi sempre com base no meu instinto. Eu sempre fui uma pessoa muito repentista, por assim dizer, uma pessoa que segue muito o seu instinto. Por exemplo, eu sou péssimo naquilo em que vejo muitos colegas que são muito bons nisso, e eu às vezes até fico com uma certa inveja disso, que é um tipo de gestão de carreira. Eu às vezes conheço colegas músicos e comediantes que já têm a carreira toda planeada para os próximos três, 10, 15 anos. Eu nunca fui assim.
Tu és de impulsos.
É, eu sou de impulsos. E então eu olho pra trás e às vezes penso assim: "Épa, realmente, houve aqui algumas escolhas que se calhar não foram bem as certas". Mas por outro lado, também houve outras coisas que eu fiz baseadas puramente no impulso, no instinto, no de repente ter a epifania do: "Não, tenho que fazer isto" e ficar cego para o resto, que é um bocadinho aquilo que me marca a mim e que olhando pra trás, eu já fiz tanta coisa diferente. Desde comédia, mas eu comecei a fazer comédia, eu já tinha 29 anos, eu já tinha trabalhado como barman, motorista, organizado festas transe, manipulador de bonecos do contrainformação. Eu fiz 30 por uma linha, fui barman, fui DJ, sempre fui muito ativo.
Portanto trabalho não te assusta.
Não, não me assusta nada. E então quando eu fui pra comédia, foi um bocadinho porque estava a dar errado aquilo que era a minha grande paixão da minha vida. A grande paixão da minha vida é a música, só que eu não tenho jeito nenhum pra música. Mas, no entanto, eu não deixo que isso me demova. E na altura, eu tinha uma grande paixão pela música. Tinha ali 23, 24, 25 anos, já fazia outras coisas, mas aquela coisa da música puxava-me, estar em palco e cantar. Eu quando era miúdo, o meu sonho, as minhas brincadeiras era muitas vezes fechava-me no quarto, metia os discos do meu pai, dos Doors e do Mick Jagger, e estava ali a fingir que era o Mick Jagger, o cantor, em frente a uma multidão. Esse era o meu sonho. E depois isso com a idade não esmoreceu, antes pelo contrário. Eu com pouco jeito, tinha a sorte de ter um irmão que é um bom músico, mas que nem sempre lhe apetecia ajudar-me, e eu compreendo, porque às vezes um cana rachada como eu não dá muito gozo. Mas eu ali continuava e fui para Roadie trabalhar com os Gift, etc. Sempre aquela ideia de fazer a minha música e expressar aquilo que eu era, os meus sentimentos, abrir o meu coração. O que eu pensava do mundo, uma coisa intensa. E assim foi. Fiz o meu disco, vendi o carro que eu tinha para fazer videoclipes e depois comecei a mandar esses videoclipes. Eu lembro-me perfeitamente o primeiro, era um que eu tinha uma bomba. Isto era há 20 e tal anos. Mandei para os sítios Canal Sol, Curto Circuito com o Rui Unas. E houve ali um momento que me marcou. O cara começou a pegar no meu videoclipe e a gozar com aquilo, a rir-se. E toda a gente se ria no estúdio do meu videoclipe com a bomba, onde eu estava a abrir o meu coração e a dar tudo. E eu assim: "Olha-me este cara. Eu aqui, um cara a mostrar o que está dentro da pele e eles riem-se". Mas ao mesmo tempo aquilo foi um sinal. Que eu pensei assim: "Eu se calhar, estou no lado errado."
Mas sentiste que estava a encaminhar mais para o lado da comédia?
E de repente eu pensei assim: "Não, a cena do riso, se calhar há aqui um lugar para mim."
Uma abertura.
E aí comecei a fazer os meus primeiros sketches, os meus primeiros personagens, nessa motivação de: "Ok, há aqui uma abertura." Apanhei também uma altura, fui um privilegiado, eu e muitos da minha geração, fomos uns privilegiados por apanharmos um boom da comédia, que em Portugal se calhar já não acontecia desde depois do 25 de abril. A gente teve ali esse boom pós 25 de abril, com o pessoal que já vinha da revista, os Camilos de Oliveiras, Ivanes Silvas, os Nicolau Branas. E depois veio o grande Herman, que ocupa os 20 e tal anos a seguir. E depois ali no início do ano 2000, há um grande boom da comédia, primeiro com o Levanta-te e Ri, o stand-up comedy, e depois com a abertura da SIC Radical, o aparecimento do Gato Fedorento, outros fenómenos. E eu, de repente, vi-me ali no meio, ou seja, a fazer a música e de repente a ver que as pessoas se riam da música que eu fazia e ao mesmo tempo estar a haver um boom da comédia e aquilo tudo ali começou a... Ou seja, o meu instinto disse: "Não, rapaz, é para aqui. Tenta ir para aqui e nunca mais parar."
E assim foi. Tu numa entrevista disseste que tinhas uma gana para chocar, que tinhas e que já não tens tanto.
Sim.
Como é que isso desapareceu? Achas que foi também relacionado com a idade?
Desapareceu fazendo. Eu cresci no subúrbio e eu entrei muito na cena da comédia e ainda hoje tenho inimizades no meio à pala disso. Eu entrei muito pé na porta e aqui estou eu, e eu sou diferente de vocês, e eu vou mostrar que sou diferente de vocês. E então um bocadinho naquela onda, hoje em dia os miúdos do hip-hop usam muito isso, que chamam de beef. Eu entrei muito numa cena de beef, de me diferenciar, um bocadinho também para chamar a atenção, já vinha com 20 e muitos, 30 anos, e eu assim: "Não, tenho que fazer aqui qualquer coisa para dizer aqui estou eu, meus amigos, e aqui vem algo novo". E então tinha muito esse mindset, essa mentalidade de fazer para chocar, para provocar reação, para provocar impacto.
Dar que falar.
Provocar impacto. A própria estética que eu adotei, e o meu irmão depois quando começou a fazer comigo, a nossa estética de fazer as coisas na rua, no meio da realidade, de misturar a ficção com a realidade, com os personagens, o que provocava muitas situações imprevisíveis, inusitadas, desde irmos presos a levarmos porrada, sei lá, tanta coisa, marcou essa diferença. Mas havia esse grande intuito de provocar, de marcar a diferença, de ter impacto pela provocação, pela rebeldia, por assim dizer. E isso era algo natural. É claro que depois, fazendo isso, as coisas passam. As coisas passam porque saem de ti. Eu nisso tive uma grande transformação ao longo dos anos e uma transformação que me levou, ou que me tem levado, ou que me trouxe a um lugar mais calmo. Trouxe-me a um lugar mais calmo, mais tranquilo, onde eu estou em paz, sobretudo comigo, que era uma coisa que eu sempre fui. Sempre fui um miúdo e depois um jovem adulto muito revoltado. Não só politicamente, filosoficamente, esteticamente, tudo que era revolta, desde a música.
E eras revoltado por quê? Porque sentias que não havia espaço para ti? Ninguém te entendia?
Não sei. Como é que eu tenho que dizer? Eu não sou de famílias privilegiadas, ok? Eu nasci no seio do povo, por assim dizer, da classe média baixa, do subúrbio, e numa família politizada à esquerda. Portanto, eu acho que essa revolta já anda, se calhar, na minha família, na genética, já há muitos anos. E para mim passou. Para mim e para muitos outros. E de alguma maneira, a comédia Primeira a música, mas depois a comédia, mais profissionalmente, ajudou-me a canalizar essa raiva. Felizmente, eu tive a comédia e a expressão artística pra canalizar essa rebeldia, essa raiva que eu sentia, a raiva perante coisas que ainda hoje se passam, tipo a desigualdade, o preconceito, tanta coisa que se passa hoje em dia. E que eu sentia isso na pele. E como sempre fui uma pessoa, sou muito mau a esconder o que eu sinto.
És muito expressivo, és transparente.
Sou muito mau a esconder o que eu sinto. Portanto, de repente, a expressão artística e a possibilidade de ter programas na televisão, que a gente está falando uma altura pré-internet, quando a televisão era tudo. De repente, um canal, e eu expressava aquilo que eu sentia e isso tinha ressonância. Ou seja, tu quando emites algo, se não tem ressonância, às vezes pensas: "Se calhar não é bem isto". Mas quando tem ressonância-
Não cai em saco roto, não é?
É, então não. E tu sentires que: "Ok, eu estou a abrir o meu coração, estou a mostrar o que eu sinto com alguns truques do entretenimento, mas de repente, o pessoal está a sentir isto. Estou aqui a tocar em qualquer coisa".
E como é que olhas para essa-
Desculpa. Isso era tipo combustível pra alimentar ainda mais esse ciclo.
E como é que olhas para esse início que tiveste mais provocador, mais impulsivo? Como é que olhas agora à distância já de alguns anos, já com mais calma.
Rio-me. É assim, eu nunca compreendi bem aquelas pessoas que dizem o seguinte: "Se voltasse atrás, fazia tudo igual". Isso pra mim é uma grande treta. Na minha ótica, eu se voltasse atrás, não fazia tudo igual. Havia coisas que eu não faria. Mas quando olho pra trás e pra aquilo que eu fiz, não é que me envergonho a mim próprio, que ainda não acontece, pode ser que venha a acontecer, mas eu penso assim: "Bem, onde é que eu estava com a cabeça pra andar a fazer estas merdas? De onde é que aquilo saía?"
Nessa lista de coisas que tu não farias, consegues mencionar uma? Que queiras e te sintas à vontade pra partilhar.
Se fosse hoje, eu talvez não entrasse tanto com o pé na porta numa lógica de provocar os colegas. Coisa que eu fiz na altura. Eu hoje não o faria, porque hoje eu já conheço toda a gente.
Alguma vez pediste desculpa?
Não.
Mas sentes que essas pessoas te perdoaram?
Eu não ofendi ninguém pessoalmente. Pra mim, o intuito do bife nunca era um intuito pessoal, era um intuito estético. Ou seja, eu sou diferente de vocês. E eu vou mostrar que sou diferente de vocês. Vocês ao pé de mim são meninos. Era um bocadinho esta a estética.
Mas achas que essas pessoas te perdoaram, entre aspas, ou não?
Não. Sobretudo os cômicos. Os cômicos não perdoam nada. Sobretudo quem goza com eles. Esquece.
É um dos temas que podemos continuar a analisar na segunda parte, Catarina.
Os cômicos não perdoam nada.
Fiquei agora aqui.
Vamos voltar a isso, já a seguir.
A maioria. Há muitos que conseguem, mas a maioria, não.
Não esquece.
Não, não esquece. O cômico é muito sensível. O comediante é alguém muito sensível e é alguém que, sobretudo se é um bom comediante, e temos muitos, tem o ego inchado, porque a comédia incha o ego.
O riso incha o ego.
A comédia, ou seja, o resultado da comédia, que é as pessoas rirem-se e dão-te aquela injeção de aprovação. Isso incha o ego, mas depois quando alguém te ataca, esquece. "O que é que ele foi dizer de mim?"
Nós não fomos esquecer e já voltamos à conversa. Vamos pegar exatamente nesse tema, ainda temos muito para explorar, até porque tens um espetáculo na estrada e nós queremos saber tudo. Já na segunda parte, hoje temos Gel em 40 minutos na Rádio Observador. Agora fazemos uma pequena pausa pras notícias. Voltamos já já. Estamos de regresso e hoje à conversa com Gel, em 40 minutos. Temos ainda muito pra falar nesta segunda parte, mas tinhas falado aqui da comédia e de como chocaste tanta gente, especialmente também do meio mais ligado à comédia. Mas voltando aqui só aos Homens da Luta, eu sinto e queria bastante falar. Quando vocês foram representar Portugal no Festival da Eurovisão da Canção, na Alemanha, estávamos em 2011, pros mais distraídos. Levaste muitas críticas, vocês levaram muitas críticas.
Graças a Deus. A ausência de crítica destrutiva.
Vocês foram apanhados de surpresa, primeiro que tudo.
Não.
Vocês acreditavam que iam-
Eu tinha quase certeza que a gente ia ganhar, cá. Por causa da mecânica do festival na altura. Isso foi uma epifania, outra vez, foi tipo uma cena de instinto. Eu lembro que eu estava à noite, isto era meia-noite, uma da manhã, estava em casa a ver televisão e de repente passa o anúncio e os Homens da Luta já existiam em formato de banda. Porque começaram como uma dupla no nosso programa Um personagem entre vários, mas depois formamos uma banda e então já andávamos na estrada, já tínhamos disco gravado, etc. E eu, de repente, estou vendo a RTP e aparece lá: "Festival da Canção, estão abertas as inscrições". E eu assim: "Isto é um sinal pra mim". Exatamente, isso faz sentido para os Homens da Luta. Os Homens da Luta são personagens que vivem em 1975, ou seja, que vêm de 75 para os dias de hoje numa máquina do tempo. Portanto, Festival da Canção é isto. Inscrevemo-nos e no primeiro ano fomos desqualificados. Por culpa minha.
Não foi à primeira.
Não, por culpa minha. Fomos desqualificados por culpa minha, porque eu não li os regulamentos. Meti uma música que a gente tinha gravado no nosso álbum e que a gente já tinha tocado ao vivo dezenas de vezes. Aquilo ia pra uma votação online, na altura eram selecionadas 24 canções das que eram enviadas, eram metidas num site online e as 12 mais votadas iriam à final. E a nossa estava logo no cimo das mais votadas, porque a gente tinha muitos seguidores. E então a nossa malta logo tudo ali a votar em massa, nós já primeiros, já destacadíssimos, e alguém foi ler os regulamentos: "Ah, mas esta enganação dos Homens da Luta não pode entrar, porque eles já ficaram históricos". E eu fui ler aquilo: "Caraças". Saímos e dissemos: "Para o ano voltamos". E então no ano seguinte fizemos uma música original, concorremos outra vez, outra vez o mesmo processo, fomos qualificados, vamos lá e pimba, limpamos aquilo. Perante um Teatro Camões, é algo que eu nunca me vou esquecer. Nós fomos anunciados os vencedores, os Homens da Luta, na última votação do público, aquilo dá uma reviravolta, que nós fomos os mais votados, saímos quase os últimos da lista para os primeiros. Os Homens da Luta ganham, tudo a assobiar. Os festivaleiros, do público festivaleiro, ferido, que ainda hoje não lhes fechou a ferida de tanto sal grosso que ali levaram dentro. Tudo a assobiar, a gente com a taça na mão e o meu pai, que faleceu um ano a seguir, com uma camisola nossa de Homens da Luta, abandonou o lugar dele lá atrás e foi em frente ao palco, e isso está no YouTube, nós assim com a taça, tudo a assobiar, eu e o meu irmão com a taça na mão e o meu pai assim cá embaixo a dançar com a camisolinha dos Homens da Luta. Há uma expressão que é dançar na cara das inimigas. É tão bom. Já o fiz tantas vezes e nessa foi mesmo uma daquelas que melhor soube. Porque aquele choque. Estamos a falar do festival, estamos tudo a cagar pro festival. O festival era um aborto que andava ali na RTP já há anos, aos caídos. E pronto, a seguir a nós mudaram logo as regras. A ver se me convidaram. Eu estou farto de dizer isto, vou dizer nas entrevistas, eu digo, mas eles não me convidam, eles sabem bem. Eu gostava de lá ir outra vez ao festival.
Não tinhas esse debate.
Eu quero ir ao festival, o festival não me quer lá.
Mas ias com os Homens da Luta?
"Inscreve-te". Não, não ia para os Homens da Luta. "Inscreve-te", diz ele. "Inscreve por quê?" Então eu já ganhei o festival, devia ser convidado, como são muitos. Já foi o José Cid há uns anos. Não, eu ia com o Carlinhos, o machista gay, pro festival, com quatro dançarinos de tanga, todos musculados.
Chocarias ainda mais.
E eu a dar-lhes palmadas no rabo, tu ias ver.
Então, mas com os Homens da Luta-
Ia chorar lá e eu com outra taça pra casa.
Com os Homens da Luta, obviamente que teve repercussões em termos sociais, achas que em termos políticos também? Estávamos na altura com a intervenção da troica. Sentias isso de que maneira?
Idiotas úteis. É o que se chama a artistas que fazem aquilo que nós fazemos.
Tu sentiste um idiota útil?
Ya. Idiota útil. Para um lado e para o outro.
Mas consentidamente? Ou sentiste isso depois?
Sentes consentidamente, ou seja, sentes que estás no meio de algo que é maior que tu, mas que de alguma maneira tu estás a ter um papel nisso. Os Homens da Luta, quem se lembra, era um número que tinha muita aderência, porque era um paradoxo que batia no interior de muita gente, que era: nós ao mesmo tempo fazíamos a luta, com a reivindicação. Solidarizávamo-nos com os trabalhadores em luta, fossem eles quais fossem, e depois a seguir à luta íamos comer marisco, íamos pra baixo de strip. Ou seja, éramos hedonistas. A revolução era já, e a seguir à revolução vinha logo os benefícios da luta. Era esta a nossa utopia. E isto batia bué. Batia bué porque de uma certa maneira nós trazíamos uma energia às manifestações, uma energia hedonista, por assim dizer, histriônica, com música e com animação. A luta é alegria. Este era o nosso lema, foi com este tema que nós ganhamos o festival. E de repente nós éramos uma energia para o protesto e estávamos numa altura onde estava havendo muito protesto. Estamos a falar ali do fim do Sócrates. E eu lembro que nessa altura, em cenas nossas, aparecia desde pessoal da extrema-direita à extrema-esquerda, que adorava os Homens da Luta, todos. Ou seja, os Homens da Luta faziam aqui uma síntese que era aquilo que se estava a passar. Havia um grande descontentamento geral e os Homens da Luta, de uma forma surreal, por assim dizer, ou quase absurda, eram a imagem desse protesto, dessas gerações que queriam protestar, mas que queriam protestar, como eu tenho que dizer, de uma forma sem ligação aos partidos. Eu lembro que houve ali uma grande manifestação no 12 de março, que foi logo uma semana a seguir a nós termos ganho o festival, uma manifestação que nós aderimos em força e pusemos as nossas redes sociais, que eram muito grandes Ao serviço dela e que foi uma manifestação que teve centenas de milhares de pessoas na rua, onde foi talvez a primeira manifestação espontânea, gigantesca que houve em Portugal, que não estava ligada nem às CGTP da vida, nem a nenhum partido, mas que ao mesmo tempo estavam lá todos aqueles que se opunham na altura ao PS e ao Sócrates, tudo ali metido, desde os PCPs, aos PSDs, aos CDS e tudo. E tu de repente estás ali no meio e às vezes havia momentos onde eu pensava: "Isto não vai durar. Isto é efémero. Vai ter que haver uma altura onde eu vou ter que pôr um ponto final nisto." E pus com uma candidatura política. Foi a catarse que eu fiz para fechar dentro de mim.
Chegaste a ser autarca?
Não, fui eleito por poucos votos. Fui quase eleito em Cascais, vereador. Tivemos uns milhares de votos, tivemos 2%, dois e tal por cento, mas numa campanha fora de comédia. Numa campanha onde nós, que era o grupo dos Homens da Luta, decidimos candidatar-nos fora de personagens, fazer uma série de propostas e basicamente a mensagem que eu queria mandar era que qualquer tipo de protesto faz sentido, é saudável, muitas vezes até necessário, mas sempre a desembarcar na democracia. Foi um bocadinho esta a mensagem que eu quis mandar. Ok, isto do protesto faz sentido, mas para a democracia. Ou seja, o protesto faz sentido se depois tiver uma expressão democrática, porque se for só o protesto destrutivo ou o protesto com um objetivo totalitarista, qualquer que seja a ideologia, não interessa. E eu quis fechar os Homens da Luta com essa nota. Ok, a gente agora não são os Homens da Luta, isto desembarca aqui numa candidatura que era independente e que aqui está para vocês verem.
E falando do fecho dos Homens da Luta, estamos outra vez numa altura de muita contestação.
Onde pedem todos os dias os Homens da Luta, dezenas de vezes.
Era isso que ia perguntar.
Dezenas de vezes pedem-me os Homens da Luta.
E vocês sentem esse impulso para algum dia voltar ou é um capítulo fechado?
Não, é muito difícil voltarmos. Pode ser que ocasionalmente, talvez já falámos eu e meu irmão, talvez fazer tipo um concerto, mas voltar à atividade como a gente estava, isso está fora de questão.
Seria uma coisa mais de one shot.
Não, porque eu aprendi a lição. Eu se fizesse agora com os Homens da Luta, isto ia dar jeito ao Chega, ia dar jeito aos mais extremistas, porque ia ser outra vez entrar na lógica do idiota útil e andar tudo a surfar a onda que tu crias, e eu não me interessa isso. Portanto, os Homens da Luta estão ali como um capítulo que está fechado e bem fechado para mim e para o meu irmão também. Está bem fechado para nós. Fizemos o que tivemos que fazer, fizemos o que fizemos. Está tudo registado, está tudo gravado. Eu tenho um arquivo gigante que não sei o que é que vou fazer com ele no futuro, mas está ali tudo.
Mas de vez em quando gostas de lá voltar? Costumas rever?
Não muito. Eu não sou saudosista, não tenho muito esse estímulo. Às vezes, de vez em quando, lembro-me de alguma coisa pontual, vou ao arquivo, tiro um bocadinho e meto no Instagram ou no Facebook. Às vezes, quando se passa alguma coisa que eu me lembre: "Este assunto eu há uns anos fiz algo relacionado com isto", vou lá pontualmente, mas não ando ali a ver: "Olha eu lá, olha o que eu era".
És bom a fechar ciclos.
Sou. Tive que aprender a ser. Sobretudo para seguir em frente. Uma coisa é tu andares a tua vida, sobretudo na vida artística. Tu andares a tua vida toda a fazeres a mesma cena na mesma linha, como eu conheço muitos colegas que o fazem, e bem. Aí é uma maneira. Tu estás sempre ali, esta é a tua linha, fazes o teu plano, marcas o teu objetivo mesmo a médio, longo prazo e segues o teu caminho. Não tenho nada contra quem faz isso. Eu não sou assim. Eu como mudo muito, eu sou um bocado mais mercurial, por assim dizer, eu tenho que fechar os ciclos. E só fechando os ciclos é que depois quase que se abre a possibilidade de haver um novo. Por exemplo, eu ali quando foi os Homens da Luta, eu fechei esse ciclo, tive uns três, quatro anos onde não fiz comédia, estava farto, não me apetecia, andei a fazer documentários, a realizar, etc. E foi esse jejum, por assim dizer, ou foi essa pausa, que abriu a porta para surgir de uma maneira espontânea o Tio Gel do Sal Grosso, que foi outra vez um fenómeno de popularidade na minha carreira e me apresentou a uma geração nova de miúdos. Eu tenho fãs de três e quatro anos. A sério, não deixa de me surpreender. Mas foi por eu ter fechado ali aquela parte, de abrir novamente outra e a seguir o instinto.
Tu és ótimo a fechar ciclos, mas nós também sabemos, e nós portugueses somos ótimos a criar rótulos. Tu achas que na cabeça das pessoas, as pessoas também fecharam esse ciclo? Ou nem sequer pensas nisso, ou sentes na pele que tens aquele rótulo e acabou?
Eu não penso nisso porque isso não é algo que esteja no meu controle. Quando tu tens uma vida pública, quando és um comediante, um ator, um músico, etc. Sobretudo hoje em dia, onde a gente todos temos uma máquina de filmar e um emissor no bolso É inevitável que as pessoas façam uma ideia tua. Eu ando sempre a fingir. Já dizia o Pessoa: "O poeta é um fingidor." Ou seja, eu não sou o Homem da Luta, nem sou o Tio Gel do Sal Grosso, nem sou o vocalista dos Kalashnikov, nem sou o Russo agarrado ao cavalo, nem sou o Vanderlei, nem sou o Carlinhos, o Machista Gay. Mas ao mesmo tempo, todos estes personagens têm um bocadinho de mim. Nem na minha persona Gel, que agora de andar a fazer stand up. Ou seja, há sempre um nível de encenação. E quando tu fazes isso, é inevitável que as pessoas tirem conclusões ao teu aspecto. Dá-me gozo que as pessoas tenham uma ideia diferente de mim do que aquilo que eu sou.
Até te protege da tua intimidade.
Dá-me gozo, eu gosto disso. Eu gosto que as pessoas tenham uma ideia diferente de mim, porque isso é sinal que eu estou a fazer o meu trabalho bem. Eu o que sou realmente, como é que eu te hei de dizer? Eu acho que muitas vezes não é chamado ou eu não sinto a necessidade de chamar isso pra minha vida profissional. Eu considero-me um entertainer. Eu considero-me alguém que está na indústria do entretenimento e que as coisas que eu penso, seja o que for que eu meto lá dentro, seja alguma mensagem de cariz sexual, como era, por exemplo, no Machista Gay, ou política, como era nos Homens da Luta, ou hedonista, como é no Tio Gel. Qualquer mensagem que eu meta, eu meto no meio de algo que é entretenimento.
Sim.
E que as pessoas quando vão à minha procura ou quando veem o que eu estou a fazer, elas querem se entreter. Na altura dos Homens da Luta, houve uma altura onde eu já andava meio misturado. Até foi um bocado um sinal para eu parar com os Homens da Luta, porque aquilo já me andava a influenciar um bocado. Das tantas, eu já estava a fazer muitas vezes mais política do que entretenimento e comédia. E isso já não tinha tanto resultado. Não é fácil fazer isso. Não quer dizer que não seja possível.
Sim.
Só que isso mete num mindset diferente, num mindset de político. Eu estive ali, ou seja, mesmo quando houve a candidatura política, houve uma altura que estava dividido, eu assim: "Isto se calhar pode haver aqui qualquer coisa pra mim ir pra política". Mas depois quando fiz a candidatura, percebi: não, isto era uma ilusão que eu estava a ter. Isto era o personagem que estava me a influenciar a cabeça, que já estava a tomar um bocadinho conta de mim, como a voz do povo e não sei o quê, depois as coisas sobem-te à cabeça. Mas foi preciso eu fazer essa candidatura pra perceber: não, não é por aqui, não é isto que eu quero. O que eu quero é continuar a entreter ou a fazer coisas que de alguma maneira entretenham e tenham mais alguma coisinha lá dentro. Esse é o meu caminho. Mas tens que fazer. Muitas vezes tens que fazer. Eu ensino muito isto à minha filha. Tu tens que fazer pra saber. Tens que fazer e muitas vezes errar e cair. Isto é um bocadinho um lugar comum, mas é mesmo assim. Tens que fazer pra saber. Tu se não fazes, não sabes. Podem-te 30 mil coaches, gajos buéda experientes dizer como é que é a vida e os sentimentos que vais ter se fizeres ou se não fizer. Tudo isso é muito bonito, mas tu só sabes mesmo aqui, tens que fazer, tens que sentir.
Temos apenas quatro minutinhos. Gel, olhando pra tua-
É 10% do programa.
É, exato.
Era o que devia ser o IVA.
Olhando para o teu presente.
Nem falei do meu stand up, pessoal. Eu estou aí com o stand up. Stand up, que é uma coisa maravilhosa.
Vamos ao excesso de bagagem, estás na estrada com ele. O que é que as pessoas podem esperar do excesso de bagagem e também tendo em conta todo este manancial que disseste, que já fizeste.
É assim, um bocadinho isto que o excesso de bagagem é um género de ponto de situação na minha carreira. É algo que eu já andava a adiar há uns anos, sobretudo por causa da quantidade de trabalho que eu tenho tido com o Sal Grosso. Eu há uns anos comecei a fazer stand up e comecei a apontar coisas, ou seja, e o stand up acabou por se tornar pra mim um género de um hobby onde eu canalizava pensamentos, teorias, observações que eu tinha no dia a dia.
Apotavas tudo no bloco.
No bloco, no telemóvel. Ou seja, tipos de pensamento que não cabiam em personagem, eram pensamentos meus. E ali o stand up de repente revelou-se um lugar pra eu explanar isso. E às tantas dei comigo com um molho gigante de coisas e este ano eu decidi, ou seja, pensei no princípio do ano: "Epá, eu a seguir ao verão vou fazer aqui uma pausinha no Sal Grosso, também que o inverno é um bocadito menos mexido em termos de salinas. E então vou marcar as salas e vou fazer o meu stand up e ainda bem que escolhi. Estreei agora anteontem em Barcelos, sala cheia. Tive uma hora e meia a falar.
Uma hora e meia?
Uma hora e meia a falar.
E quando tu marcaste-
E há uma parte, embora não seja um espetáculo saudosista, desculpa.
Não, não.
Embora não seja um espetáculo saudosista, há ali uma parte, um bloco considerável do espetáculo onde eu falo do processo criativo por trás dos personagens que eu criei, histórias de bastidores, histórias de esquadras de polícia, histórias de salas de tribunal, coisas que se passaram comigo, que eu acho que têm graça e pelo menos as pessoas também o acham, porque se riem. O nome excesso de bagagem tem a ver com isso. Este espetáculo é uma hipótese de eu cristalizar uma série de histórias e uma série de observações, pensamentos daquilo que eu sou hoje, e largar um bocadinho essa bagagem. Porque pra mim também esta vida que eu tenho, a vida que eu escolhi ou foi escolhida pra mim. Esta vida é um grande privilégio, porque dá-nos essa hipótese de nós largarmos esse lastro. Estás a ver? Porque, por exemplo, se eu se calhar fosse advogado ou engenheiro Ou outra coisa qualquer. Com isto tudo que eu tenho na cabeça, possivelmente tinha que ir pra terapia.
Mas olha, eu estava a fazer essa pergunta. O espetáculo pra ti não acaba por ser um bocadinho quase terapêutico?
É catártico. Sim. Mas de uma maneira prazerosa. Não é: "Vou chorar a minha infância!" Não é nada disso. E assumir. O meu espetáculo tem uma particularidade, que é um bocadinho também um reflexo daquilo que é o meu estilo na comédia. Eu sou o centro do ridículo naquilo que eu faço. Eu não sou muito aquele comediante de andar a achar defeitos nas outras coisas. Estás a perceber?
Tu és a piada.
"Olha o que é, olha, ele disse isto, olha, ele enganou-se nisto." Não. Eu sou a piada, o ridículo passa-se comigo e estas histórias que eu compilo, esses pensamentos, as histórias dos personagens, etc, têm um bocadinho isso em comum. Eu sou o ridículo e é assim que eu gosto.
Então aí, Gel, para fecharmos mesmo: datas para os espetáculos, que salas é que já estão reservadas para os nossos ouvintes?
Olha, 19 de outubro, Faro, 24 de outubro, Teatro Villaret, em Lisboa.
Atenção, isto não tem aqui qualquer apontamento.
Está quase esgotado também em Lisboa, portanto quem quiser ver que se apresse. E depois vou estar na Nazaré, Benavente.
Atenção, quando os nossos ouvintes estiverem a ouvir isto, já pode entretanto ter esgotado alguma coisa, portanto confirmo.
Já, portanto venham ver. A melhor maneira de se informarem é virem às minhas redes sociais, é só meterem "tio" e aparece logo eu com uma setinha azul, o tio oficial. Tio Gel, Instagram, Facebook, Twitter, TikTok, estou em todo lado.
Portanto, até o final do ano tens muita coisa, estás muito ocupado.
Até o final do ano, princípio do próximo ano, seguramente vão ser mais de 20 espetáculos. E depois, quando começar o tempo a aquecer, volto ao Sal Grosso. Já estou a preparar novas músicas, novas paródias. Sempre a roda no ar e a andar à perna.
Sempre a andar. Hoje com o Gel em "40 Minutos" na Rádio Observador, fica então aqui o convite para o excesso de bagagem. Gel, muito obrigada por teres vindo.
Muito obrigado.
Foi um prazer e nós estamos de regresso para a semana. "40 Minutos" está de regresso para a semana.