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Atriz reservada, diz que se dá a conhecer nas personagens. Teimosa, adora silêncio, vive os momentos ao máximo, gosta de jogar matrecos. Diz que ficou muito contente quando foi convidada para protagonizar o filme A Sibila, adaptação do romance homônimo de Agustina Bessa-Luís. Hoje recebemos na Rádio Observador, Maria João Pinho, em 40 minutos. Maria João, muito bem-vinda.

Bem-vinda!

Obrigada.

Obrigada por ter aceitado o nosso convite. E obviamente, vamos começar por esta experiência, pelo filme da Sibila. Como é que foi a experiência?

Obrigada por estar aqui. Estou muito contente.

Nota-se. Os nossos ouvintes não vêem, mas isto depois vai pro YouTube e acho que pode ser comprovado facilmente.

Essa proposta foi muito generosa, feita pelo Paulo Branco, que é uma pessoa que eu gosto muito e tenho uma enorme confiança no cinema, acho que é a pessoa mais apaixonada por cinema que eu conheço e vê-se no percurso que ele tem feito. E fiquei muito entusiasmada, mas ao mesmo tempo, com aquela sensação de responsabilidade. Porque Agustina é uma escritora difícil.

Era isso que eu ia dizer.

Ela não desvenda muito, a sua escrita é bastante densa. Mas como tenho esse lado inquieto e apaixonante, por um lado meu, por outro lado, não estou sempre nesse lado, foi um: "Ok, bora, é isto". E também, de facto, foi a primeira vez que fui convidada para fazer uma personagem com este arco histórico e, portanto, isso foi um desafio muito maior pra mim e que eu não queria deixar ninguém mal.

E esse papel histórico que fizeste foi o da Joaquina Augusta, não é? A Quina. Como é que foi fazer de Joaquina Augusta? Como é que foi também interpretar esse lado mais histórico, que não sei se fizeste muitas vezes na tua carreira, mas certamente terás de ter um contexto maior, um trabalho de escavação, vamos dizer assim, um bocadinho maior.

Olha, André, eu já tinha feito personagens de época, até de épocas bem mais anteriores. Mas aqui o desafio com a Quina não era a época. Era o seu caráter, era a sua forma de ser e de estar, as palavras escritas pela Agustina para ela. Isso era o desafio, e não tanto a época.

Que desafios é que essas palavras da Agustina deixaram lá, por exemplo?

Primeiro, tentar chegar à Quina, porque há personagens que tu quando começas a ler, lês uma vez, duas vezes, nos ensaios descobres coisas. Há personagens mais fáceis, há personagens que se revelam logo.

São mais planas, não é nesse sentido.

Revelam-se, não são tão misteriosas. Eu vejo as personagens como pessoas, alguém que tu estás a conhecer. Através de ti, obviamente, não estou a viver nessa bolha, mas naturalmente acho que começo a ver assim: quem é esta pessoa? Como é que ela será? À medida que vou lendo, que vou estudando, à medida que lês e vão ficando coisas aqui dentro, no lado imaginário. Elas vão começando a ganhar forma. E aqui no maior desafio, é porque é uma personagem, era uma mulher difícil, que fez escolhas de vida muito particulares pra uma mulher e naquela altura. A Agustina está a escrever sobre a sua tia, a tia Amélia, portanto, a Quina é inspirada na tia Amélia, que existiu, que deixou, de facto, esta história, a história da Agustina com a sua tia, portanto, inspirada nisso. E ao mesmo tempo, eu não sei se a escritora também queria que se soubesse tudo, percebem? Há aqui um misto de mistério.

Certo.

E eu fui tentando aceder a ela. E claro, fiz um trabalho, antes das filmagens, fui ver a casa, a verdadeira casa da Avessada, que hoje em dia já está toda alterada, já tem janelas de alumínio, etc. Tinha a toalha do Mickey pendurada na varanda.

Oh, meu Deus, ok.

Mas caminhei por ali, como a Catarina dizia, no meu silêncio, sentir o espaço. É um espaço que eu conheço, porque eu venho do norte e venho do campo e caminhar por entre as árvores, por entre o milho.

E a imaginação, não é, que tu gostas muito?

Sim. Então também deixas que coisas aconteçam. E as coisas vão acontecendo no teu corpo. Há posturas que eu fui descobrindo. Por exemplo, nesse dia, quando estava a caminhar, dada altura, os meus braços vieram aqui pra trás e eu comecei a caminhar assim. Pensei: "Engraçado". E depois no filme há essa postura da Quina E vais descobrindo coisas às vezes em lugares que não suspeitavas.

E por falar em descoberta, eu estava há pouco a dizer aqui no início, tu és muito reservada. E eu li que às vezes tu dizes que dás mais a conhecer nas personagens. E é engraçado, porque tu quando chegaste aqui, até vinhas um bocadinho ansiosa. E eu perguntei: "Mas por quê?" "Porque este tu falar de mim". Tu queres também deixar um bocadinho, é necessário deixar esse espaço?

Catarina, vou falar-te muito francamente. Há dois lados nessa reserva minha. Por um lado, é o medo. Não é uma questão consciente e tranquila de: sou uma pessoa reservada e está tudo bem.

Mas medo de quê?

Da exposição, da avaliação dos outros. Isto tudo é um percurso. E tu dizes: "Mas este o teu trabalho, estás nesse lugar". Há imensas contradições aqui. Eu tenho agora já mais calma, mas eu tinha pânico social, fobia social. Estranho, não é?

Mesmo.

Mas por acaso é curioso que temos falado com várias pessoas do mundo do cinema, do teatro, da televisão.

Sim, da música.

Da música, e que nos dizem muito isso, que tinham muito medo de estar à frente muita gente, estar a falar com gente estranha e de repente transformam-se completamente.

É. Eu agora ultimamente tenho começado a falar mais, mas agora tenho 45 anos e tenho um outro percurso, então vou ganhando um bocadinho de espaço em mim, mas às vezes as pessoas achavam que até era um bocadinho arrogância da minha parte não falar.

Isso é inevitável, confundir reserva ou timidez com arrogância.

Eu pensava: "Que engraçado, as pessoas não percebem mesmo nada de mim, porque é o oposto. Eu estou em pânico. Se elas soubessem que eu por dentro estou numa aflição terrível". Eu evitava ir a estreias. E não é porque eu estava em casa a achar que era a última bolacha do pacote. É porque eu não tinha coragem de ir. Que desilusão agora as pessoas a pensarem: "Afinal ela não é uma diva". Não, é interessante. E por que tu te revelas mais nas personagens? Porque as personagens podem ser extensões. Nunca és tu. És tu a manifestar com outro tipo de manifestação, com outras palavras, com outra fisicalidade. E isso psicologicamente sempre me ampliou. É quase como não gosto tanto de estar no meu lugar, no meu eu, e gosto dos outros eus, porque no fundo eu estou lá naquela existência, mas distraída. Então aí eu sempre me deixo ir. E eu acho que há um equilíbrio aqui, e talvez por estar tão incomodada comigo própria, ou tão insegura, ou tão insatisfeita neste meu lugar, quando eu vou para o outro, eu sou um bicho, tipo um cavalo, e deixo ir tudo. E claro que isto depois é um equilíbrio que vai sendo feito com o percurso, e eu tenho vindo a fazê-lo, porque eu quero manter a minha saúde mental. E, portanto, é um percurso, mas também há o outro lado, evidente, Catarina. Eu não quero expor-me também a esse lado, essa consciência. Sempre foi uma opção minha preservar o meu espaço íntimo e não o vender.

E sentes que tens conseguido?

Sinto. Eu não quero vender a minha história, a minha história familiar, a minha história com a minha filha, é a minha opção. E tudo tem um tempo. E este é o meu trabalho. Eu respeito, eu não estou a ter aqui uma opinião crítica, cada um sabe e faz as suas escolhas. Não sou eu que vou fazer, mas esta é a minha opção. Foi a minha escolha sempre.

E esses vários eus de que estavas a falar e essas, no fundo, extensões que tu tens quando estás a atuar, quando é que percebeste que tinhas isso? Ou seja, quando é que percebeste que ser atriz podia ser uma opção, até para controlar essa timidez que tinhas?

Foi tarde. O que é tarde? Não há tarde nem cedo.

Era isso que eu ia dizer. Hoje em dia nós podemos fazer tudo. Mas eu também consigo perceber o que é o ser tarde, porque há aquelas pessoas que têm logo, que sabem que querem seguir aquele caminho. E também por aquilo que eu estive a pesquisar, tu não tiveste logo essa ideia.

Não. E porque eu ouvi muito isso. "Mas agora? Mas agora com essa idade? Já é tarde". Sim, nós ouvimos tantas coisas na vida. Já é tarde, já é cedo, agora não podes, agora vens da aldeia e também não pode ser. Há tanto preconceito.

Sofreste esse preconceito?

Sim, sofri um bocado. Passei por ele. Na altura achei sempre que tinha sofrido. Hoje olho para trás e penso: "Olha, ainda bem que sofri, porque esse sofrimento foi um empurrão". Para a minha resiliência e para continuar. Portanto, obrigada, deu-me jeito.

Mas começaste com que idade? Esse tarde significa o quê para ti?

A trabalhar comecei com 27 e a estudar teatro comecei com 23. Sim, 22, 23. E descobri teatro quando entrei na faculdade em Bragança, já tarde, porque eu nunca fui muito boa aluna na escola e falávamos há bocado ainda em off do diagnóstico que me foi feito recentemente de déficit de atenção e hiperatividade. E portanto, eu sempre tive alguma barra, bastante dificuldade em aprender.

E que na altura não sabias o porquê e que agora, anos mais tarde, já conseguem entender.

Crescer e ouvir "és burra". Pronto, e isso dava toda uma entrevista, porque isso só traz bloqueios. E a minha insegurança e todos esses receios vêm disso. Eu sou burra, portanto eu não posso falar. Portanto, eu não posso ir a uma entrevista, porque tu vais fazer-me perguntas. Estão a ver? Isto é tudo-

Está tudo ligado.

Está. Então isso sempre evita isso e as personagens não vão fazer, compreendem? Uma personagem está noutro lugar. Isto é muito interessante, como nós crescemos. Então eu descobri o teatro em Bragança, num grupo amador, um grupo de estudantes, mas que era dirigido por uma pessoa maravilhosa que é a Helena Genésio. E quando eu experienciei com ela e com os meus colegas, na altura, o teatro foi revelador. De facto. O que é isto? É como quando tu sentes um impacto em ti, no teu todo, e sentes: "Este é o meu lugar. E agora, o que eu faço com isto? Porque isto é teatro, não vou chegar a casa e não vou dizer que sou engenheira ou médica". E o meu percurso começou por aí.

Tu quando entraste para a faculdade ias tirar outro curso ou começaste logo?

Ia. Eu andei sempre um bocadinho à deriva.

O que pensaste tirar?

Eu ia tirar Animação e Produção Artística.

Portanto, já estavas assim.

Sim, mas nunca, André, me passou pela cabeça: "Mas queres ser atriz?" Não. E eu já disse isto várias vezes e tenho que o dizer porque é verdade, porque eu venho de uma aldeia, Tiamonde, muito pequenina, muito diferente, mas que há 40 anos muito pouco chegava lá, a todos os níveis. Então eu própria sempre achei isso, que havia coisas que não eram para mim.

Valorizavas esse-

Sim, e portanto, o teatro era uma coisa da cidade ou isso era uma coisa de quem aprendia desde sempre, música ou instrumento ou dança, o que fosse. Mas a aldeia deu-me uma coisa, que foi o imaginário.

E se calhar é por isso que és boa atriz.

Obrigada, querido. Mas sim, o imaginário foi dado.

Não, porque tens essa facilidade de criar.

Porque eu tinha que inventar coisas. Brincar é o quê? É explorar o imaginário.

Tu já nessa altura inventavas os teus mundos, as tuas personagens, no fundo.

E quanto menos adereços tens, mais exploras.

Claro, mais criatividade tens.

Porque tu tens que te desenvolver. De um copo fazes mil coisas.

E já que estás a falar da infância, que memórias é que tens da infância? Tens essas mesmas que acabaste de dizer?

Eu tenho imagens incríveis da minha infância, tive muita sorte. Crescer numa aldeia é incrível, especialmente hoje, que olho para trás. Tenho as coisas mais bonitas que vocês possam imaginar. Por exemplo, acordar de madrugada com os meus avós, acho que vou ficar emocionada. Os meus avós com quem eu cresci eram agricultores e acordávamos, por exemplo, de madrugada para irmos ao moinho moer o milho para depois fazerem o pão. Era um moinho de água, portanto, vais até ao rio. Imagina, isto hoje é uma cena de um filme.

É. Nem as crianças têm essa noção, porque aparece tudo feito.

E o moinho de água, tu estás a ouvir a água, portanto, eles sabiam as correntes do rio, porque tem que ter uma determinada força. O moinho é uma coisa muito pequenina, de pedra, com uma mó de pedra gigante, depois tem uma estrutura em madeira e o milho vai passando. O meu avô punha o milho assim do lado esquerdo, o milho cai, passa, já não me lembro, depois sei que tinha assim uma coisinha em V e caía dentro da mó, que são duas pedras gigantes de granito, que com a força da água circulam e moíam o milho. E ele sai em farinha, o farelo ia para um sítio, depois o farelo era para os animais e a farinha era para uso doméstico. Lembro-me que havia assim um banquinho de madeira, eu ficava com eles. Isto é uma coisa extraordinária. Ou os animais que eles tinham.

E se a infância tivesse um cheiro, seria o cheiro a quê?

Olha, é o cheiro da terra que eu ainda hoje sinto. Por exemplo, quando vêm as primeiras chuvas. Sabem aquele cheiro?

Terra molhada, sim.

Eu adoro esse cheiro O cheiro da fogueira, da madeira queimada.

Ai, tão bom!

Adoro esse cheiro. O cheiro da comida feita nas brasas. Às vezes há cheiros que são parecidos. Acho que é isso. Adoro esses cheiros.

Vamos passar na segunda parte da infância, um pouco mais pra frente da tua carreira, Maria João.

Eu bem disse, nós tínhamos muita coisa pra falar.

O Guilherme disse que teríamos.

Vês?

A primeira parte já foi.

Eu disse! Estávamos aqui em off a dizer: "Isto passa a voar mesmo e tanta coisa pra descobrir". Hoje com Maria João Pinho, em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Fazemos agora uma pequena pausa para as notícias e voltamos já já sequer. Estamos de regresso e hoje à conversa em 40 minutos com a atriz Maria João Pinho. Há pouco estávamos e terminamos muito na infância. Falamos aqui na carreira de atriz, nos desafios. Ser atriz e mãe é o maior desafio?

É. A todos os níveis.

Por quê?

Tenho que pensar um bocadinho nesta resposta.

Que é pra tua filha, se estiver a ouvir.

Lá está, porque não se pode revelar tudo. Porque é um lado muito íntimo. Ser mãe eu acho que é o maior desafio e as mães sabem isso. Ser mãe é o amor maior que nós sentimos, eu não tenho a menor dúvida. Se estamos bem acompanhadas, as mães. Porque as mães não são muito bem acompanhadas.

Achas que não?

Não são.

Quer antes, quer depois do nascimento?

Sim, porque socialmente a mãe tem que trabalhar fora de casa, tem que trabalhar dentro de casa, tem que criar a criança. Claro que há exceções, mas está tudo em cima da mãe.

Ser mãe é quase um emprego. Um emprego extra.

São vários.

E depois é a pressão. Ser a melhor.

E é muita pressão. Não podes falhar, tens que fazer tudo bem. E cada vez mais há essa pressão. Às vezes sentes assim, um sufoco. Mas quando consegues respirar, é um amor que até te leva às lágrimas. Eu amo-te tanto, filha. É lindo. Então andas sempre nestas ondas. Caí assim, não estou a conseguir, e depois uau! E relaxas quando a onda passa.

Isso é mais à noite.

E até me estou a arrepiar, porque é incrível. Isto pra dizer, porque eu não gosto quando se ouve que é tudo giro, e é tudo fácil. Não é! E depois, tu teres um emprego, seja ele qual for, não é só ser atriz, é ter um emprego. Agora, claro que se tens um horário que se ajusta mais ao horário escolar, ótimo. Mas quando não tens, que é o caso de ser atriz, como há mil profissões que não têm, outras mães que têm horários de turnos, etc. É muito mais difícil.

Como é que tu, por exemplo, fazes agora pra gravação de um filme, por exemplo, em que passas se calhar muito tempo fora?

Ou das novelas ou de série que fizeste.

A novela é o horário mais fácil pra estar com uma criança, porque normalmente gravamos no horário laboral. Das 8 às 8. É um bocadinho mais extenso.

Pois.

Pronto, mas depende também do personagem.

E às vezes há gravações de madrugada.

Sim. Mas um filme tem horários, uma série.

E no caso do filme, tiveste mesmo que ir pro norte.

Por exemplo, no filme "A Sibila", a minha mãe veio do norte pra baixo, ficou com a Helena e foi a primeira vez que eu tive esta distância tão longa da minha filha.

Que foi difícil.

Foi difícil, mas ao mesmo tempo necessário e ao mesmo tempo, tudo faz parte da vida. Eu não acho que se deva dramatizar muito. A Helena já tinha cinco, seis anos. Sempre estivemos juntas. Eu expliquei à Helena, obviamente, consciente da idade que ela tem: "A mamãe agora vai fazer o seu trabalho, filha". Eu tenho muito estas conversas com a Helena. E eu acho isso importante, mas não é estar a conversar com uma criança e achar que ela é uma adulta. Não é isso. Mas eu fui percebendo que nós devemos tentar ao máximo com as crianças e com os adultos, assumir mundos. Com calma, não é preciso ser invasivo. "Olha, eu agora preciso ir trabalhar" ou "eu agora estou frágil, agora estou a chorar". E permitir que ela faça o mesmo. E expliquei à Helena: "Mamãe precisa fazer um trabalho que criativamente a preenche mais". Pronto, e fui fazer esse trabalho, não foi fácil, mas depois ela foi há um mês ver a estreia do filme comigo, ao meu colo. Foi uma experiência incrível. E portanto, é ir fazendo este percurso e ir gerindo o melhor possível. E como tudo, às vezes é mais fácil, e é preciso ir Pedindo ajuda.

A tua filha costuma ver aquilo que tu vais fazendo? Tu costumas mostrar-lhe também as novelas, os filmes?

Não.

Nunca?

Não é nunca.

Disseste agora que ela viu o filme. Mas, por exemplo, na televisão ela costuma ver-te ou mostra vontade de querer ver-te na televisão?

Mostra curiosidade agora, porque eu não faço questão, de todo. Até porque as coisas que eu faço não são pra idade dela. Mas se está em casa da avó, vê.

Acaba por deitar um olhinho.

Vê, sim.

E o que é que diz?

É muito giro. Uma vez viu-me assim, porque eu queria muito ver a estreia de uma série que deu na televisão: "Mamã, pareces um homem tão giro. Pareces o máximo, pareces um homem giro". Eu: "Uau, boa!". É engraçado, mas não é só nela, é nas crianças. Verem-te e verem-te na televisão. É muito giro, porque a cabecinha fica: "Como é que tu estás ali e aqui?"

E ao mesmo tempo estás ali, se calhar, com o cabelo esticado e aqui o cabelo ondulado.

Ou não estou com umas olheiras até aqui. Eu não fomento muito isso. O que eu gosto de fazer com a Helena é levá-la a um dia de rodagem, para que ela perceba o trabalho da mãe.

Sim.

E que concretize na sua cabeça.

E não ser só aquela teoria da mãe vai trabalhar, mas trabalhar onde? O espaço.

É isso, Catarina. Eu acho isso importante. Quando eu digo: "Olha, a mamã está a trabalhar", ela sabe onde é, com quem é.

Visualiza logo.

Visualiza.

Qual é a maior aprendizagem, Maria João, deste teu caminho?

Isto é um bocado clichê, mas é mesmo verdade. Nunca nada está fechado. Nós estamos constantemente a aprender, assim estejamos disponíveis para. Eu acho que isso é o lado às vezes mais duro da vida, mas é o lado mais libertador, que é nada está fechado, calma. Porque às vezes a angústia e a ansiedade, e nós não estamos a viver um período nada fácil, a vários níveis. Acho que hoje em dia termos a capacidade de respirar e não perder a fé é um desafio e, portanto, é ir um bocadinho devagar, o mais devagar possível, o mais saudável possível e o mais harmonioso uns com os outros, melhor, porque nós estamos todos no mesmo sítio. Eu acho que as pessoas não se devem iludir. Portanto, eu tenho aprendido isso. Calma. Não consigo sempre, de todo, atenção. Eu não sou essa pessoa, eu tenho momentos muito escuros. Mas vai aos bocadinhos. Aceita que tens medo, aceita que estás a caminhar, olha pra ti. Eu acho que o fundamental é ter a coragem de olharmos pra nós próprios.

E aceitarmos.

E aceitarmo-nos pra depois podermos ir avançando.

Estavas a falar na primeira parte do medo que tinhas em esporte. Agora falaste também de alguns momentos em que tens medo. Ao longo de toda a carreira, qual foi o momento em que tiveste mais medo?

Eu acho que nunca deixei de o ter, mas ele manifesta-se de maneiras diferentes. Sabes que isto é uma profissão que tu nunca sabes quando é que vai acabar, se vai continuar, se vais ter trabalho a seguir, quantos meses vais estar parado. Eu própria muitas vezes digo que não quero mais isto pra mim, quero fazer outra coisa.

E por quê?

Porque gerir esta instabilidade é muito difícil. É mesmo muito difícil. E quando és mãe, é mesmo muito difícil. E eu tenho conseguido trabalhar. As minhas pausas têm sido seis meses, um ano, mas eu sou uma pessoa empática. Eu vivo muito também aquilo que vejo dos meus colegas.

Absorves.

Percebes, há pessoas a passarem mesmo mal, a vários níveis.

E notas que no teu meio está se a viver pior?

Está, porque tu vives num país que não respeita muito aquilo que é teu. Tu vês o nosso governo, já começa por aí. Eu tenho que ter cuidado com o que digo, com as minhas palavras, porque eu não quero ser mal interpretada.

Mas não tenhas medo de concretizar.

Mas acho que o nosso governo, o nosso ministério, devia ser mais sensível com a nossa cultura, com os nossos artistas. Sem isso, nós estamos a perder a nossa identidade. E isso é muito grave, porque senão Portugal daqui a uns tempos é o quê? Temos que pensar nisso. É o quê? É linhos de bacalhau com queijo da serra lá dentro? Não. Entendem o que eu quero dizer? Isto é um exemplo. Nós temos que olhar pra nossa música, pros nossos compositores, pros nossos atores, pros bailarinos, pros pintores, pra aquilo que nos faz pensar e evoluir E sermos autênticos. Depois acolhemos todo o resto, mas esta força não se pode perder. E o nosso público também ir conosco, gostar daquilo que se faz cá e não ser tão crítico. "O cinema é muito parado". O que é um cinema muito parado? Porque hoje em dia só se vive o cinema de ação? Mas nós somos um povo contemplativo, ou não? Isso faz parte da nossa identidade.

E mesmo assim, hoje em dia já está muito diferente, não é?

Mas falta mais.

Mas ainda há. Claro. É tudo um caminho que tem que ser feito e não pode parar.

Vamos gostar daquilo que também é nosso, porque se nós não gostarmos daquilo que é nosso, isto desaparece.

Claro que sim. Estávamos aqui a falar de momentos e de papéis, e obviamente falamos aqui do cinema. Tu és uma presença assídua na televisão, nas telenovelas, e antes de ir à próxima pergunta, começo só por fazer: achas que há isto? Porque há uns tempos tivemos a São José Correia aqui também no "Em 40 Minutos", e a São José diz que há muito, quase um preconceito com quem faz novelas, que fica com esse rótulo, que depois, às vezes, dificilmente consegue fazer cinema. Tu sentes que há?

Já senti, muito, mas agora não sinto, vou dizer assim uma expressão.

Não dás para esse peditório.

Não, eu não estou nem aí, neste momento. E já tive discussões até em audições. Uma vez foi numa audição em teatro, que me fizeram uma pergunta que eu não gostei. Este meu lado nortenho por acaso dá-me jeito às vezes.

Eu não consigo ver, eu acho uma pessoa tão calma, tão tranquila.

Deixa isto acabar.

Normalmente as pessoas calmas são...

Não, atenção com as pessoas calmas, que às vezes são as piores.

Sim, são as piores, exato.

É assim, eu também não venho para aqui, aqui está tudo bem, mas se eu estiver a trabalhar e se tivermos que, por exemplo, defender uma situação da personagem, tu vais ver um lado meu que vais dizer: "Quem é esta pessoa?"

Claro, é o contexto, não é?

É. Depende também. E aqui eu também estou aparentemente calma, porque eu tenho que pensar minimamente no que eu vou responder, para não responder por impulso. Não é para dar uma resposta falsa, é para não responder no impulso, porque isto está a ser ouvido por outras pessoas, não estamos só nós. Então é preciso também ter algum cuidado. Mas não é para dar uma resposta que não é minha, não é isso. É assim, eu quando comecei a trabalhar, vinha do norte e eu comecei precisamente com uma telenovela. E em 2006, 2007, antes da crise, em que as pessoas ainda viviam mais ou menos bem, eu senti muito isso. Senti várias coisas. Primeiro, porque vinha do norte, depois porque vinha do norte fazer uma novela. Eu já sofri com algum preconceito, alguns níveis, mas neste meu percurso, e o que eu sempre defendi é: um ator deve, no meu ponto de vista, ser o mais polivalente possível.

Claro.

Portanto, eu às vezes ponho-me nesta situação. Se eu fosse, e eu gostava de ser um dia, uma realizadora ou uma encenadora, mas mais realização. Quanto mais experiência tu tiveres a todos os níveis como atriz, era a ti que eu queria. Se tu me dissesses assim: "Olha, trabalhei numa padaria e depois fui auxiliar não sei onde e depois fiz este curso e aquele, e já fiz televisão". Ótimo. Por quê? Porque isso dá-te vivências. E o que é criar uma personagem? O que ajuda a criar uma personagem? Vivências. A todos os níveis. E portanto, eu concordo com a São José, cada uma tem a sua história, mas eu percebo perfeitamente o que ela está a dizer. Mas como eu fui abandonando essa carga e também fui fazendo cinema, televisão, teatro. Uma vez essa minha discussão nessa audição foi precisamente isso, porque eu estava a fazer uma novela. Então fui tratada como no grupo tipo esta das novelas. E aí eu respondi, no meu feitio nortenho, que aí vai tudo. Eu disse: "Então, e qual é o problema? Não achas que é muito mais interessante eu estar a trabalhar, estar num outro desafio, estar a criar de uma outra forma, a desenvolver-me enquanto atriz. Além do mais, eu tenho que trabalhar, porque a arte também tem que pagar contas".

Claro.

E, portanto, não podemos dizer: "Ah, sou um artista". Por que o objeto artístico não te vai dar dinheiro? E comes o quê? Pagas a casa como? Não é? Eu acho que isso foi diluindo, sabes por quê? Porque tem que diluir. As pessoas começaram a precisar também de fazer telenovela.

Óbvio. Sim.

Então, e nesse dilema, não sei se já te fizeram esta pergunta ou se sabes a resposta, entre telenovela ou cinema, o que é que preferes?

Já me fizeram essa pergunta e eu adoro trabalhar. A minha resposta é essa, André. Eu adoro trabalhar.

Não conseguias escolher uma das duas.

Não, porque depende.

Depende do papel que te dão, também, certamente.

E acaba também por ser diferente, não é? São experiências diferentes.

São experiências tão diferentes. Por exemplo, tu numa novela gravas 30 cenas num dia. Andas assim tá-tá-tá, isto dá-te uma ginástica, porque tu não estás ali Dá-te uma coisa. Tu no cinema gravas duas cenas por dia, porque a luz é feita, é desenhada, tu tens que ir àquela mar. É uma coisa tão diferente. A relação com a câmera. Tu relacionas-te com o teu colega na contracena, com a câmera. É totalmente diferente. Por isso eu acho que uma coisa ajuda noutra. Eu tenho uma paixão pelo cinema, mais nesta intimidade. Mas, por exemplo, eu vou agora fazer uma novela e eu ando feliz da vida, porque vou ter uma personagem super divertida.

Finalmente.

Ia dizer, finalmente!

Que bom. Olha, estamos quase na reta final.

Escolhe bem a última pergunta.

Escolho bem.

Escolhe muito bem.

É um bocadinho inevitável e eu queria só falar nesta série, porque eu acho que também acabou por ser marcante. Estou a falar da Praxe. Consegues entender aqui os silêncios, não é? Não é uma série fácil, só para contextualizar, conta a história de seis estudantes universitários que vão passar o fim de semana fora, de maneira a celebrar a subida de cargo numa prestigiada associação académica, mas depois essa diversão dá lugar ao terror, quando os jovens acabam por morrer afogados em circunstâncias suspeitas. Tu fizeste esta série, portanto, esta é a última pergunta, não é uma pergunta fácil. Mas foi um dos papéis mais marcantes?

Foi. Foi o papel mais sofrido que fiz na minha vida. Fico até emocionada, porque acho horrível. Acho que as pessoas deviam ver essa série.

Como é que se prepara para um papel tão duro?

Foi ser, sinceramente, o mais generosa que consegui. Eu vou ser mesmo franca. Eu pensei tanto naqueles pais, mas tanto que vocês não podem imaginar. Não quero ser pretensiosa com o que eu vou dizer, atenção, de todo, mas eu queria dignificá-los, eu queria honrar a dor deles, porque, a meu ver, esta é a minha opinião pessoal, eu queria que aquela personagem não fingisse dor, que ela fosse àquele sítio. Agora, é óbvio, que eu não me estou a igualar a eles, de todo, não é nada disso, mas que o público, através daquela mãe, percebesse a dor que eles sentiram. Porque estás a falar de uma coisa muito particular. Aconteceu, nós todos sabemos esta história. E eu acho que realmente quando se ouvem alguns pais, sendo nesta situação ou noutra, não há nada como a dor de perder um filho. Eu acho que não há mesmo. Atenção, eu evitei sempre ao máximo pensar na minha filha aqui. Não queria.

Mas foi inevitável ou conseguiste?

Às vezes, sim. Mas não me inspirava nisso, entendem? Não era: "vou pensar na minha filha, no que seria perdê-la". Não. É que é assim, longe com isso. Estava a trabalhar, a ser dirigida pela Patrícia Sequeira, e ela é exímia a dirigir actores. Estudei muito aquele papel. E depois aquilo é tão forte que é só tu deixares-te ir e vais a sítios. E depois tinha ao lado a Madalena Almeida, que é só a pessoa e a atriz mais incrível que se pode ter. Ela é um amor, ela é incrível. Não só ela, mas as minhas cenas maiores eram com ela. E a contracena é fundamental. Quanto melhor for o teu colega, melhor tu és. Por isso que às vezes fico triste quando as pessoas não percebem isso. Eu só vou ser boa, se tu fores bom.

Claro, trabalho de equipa.

Se fores um tronco, eu vou ser outro tronco ao teu lado.

E era fácil depois separares, quando acabavas as gravações?

Não é fácil. Eu tentava sempre fazer um exercício, por exemplo, não ir logo para casa. Às vezes andava só a deambular antes de ir para casa, para respirar um bocadinho.

Retirar o peso.

É, porque enquanto tu estás a criar uma personagem, elas andam contigo. Não é que tu: "quero sofrer imenso". Não queres, mas ela está em ti, ela está no teu pensamento, porque é um desafio. Sei lá, agora vem-me à cabeça, como um carpinteiro, tem que fazer um armário. Deve pensar: "como é que vai ser a gaveta? Que puxador põe? Põe um puxador redondo, retoâng...?". Sei lá, qualquer profissão, acho eu. E aqui tu também tens a personagem. Não é visível, mas está aqui. E há personagens que ocupam este lugar. E esta mãe, que está fechada na sua casa, que perde uma filha afogada, embrulhada numa capa académica, no Mar do México Também quer morrer. Não quer ficar aqui, mas tem que ficar cá porque tem outra filha. Isto é brutal. E esta história das praxes, desta forma como são feitas, já estava na altura de revermos isto. Queremos acolher os caloiros, então vamos acolher em festa, em amizade, num bom sentido. Não é humilhar, não é aos gritos, não é maltratar. O que é isto? Isto é tão primitivo. Como é que as pessoas no ensino superior se dão a isto? E depois há aquela resposta: "Mas eles aceitaram". Claro que as pessoas aceitam. Aceitam porque têm medo, porque é essa a ameaça que é feita. Se não cedes a isto, não tens em troca aquilo ou aquilo. Eu acho que não faz sentido nenhum nos dias de hoje, este tipo de praxe.

E tiveste contacto com a mãe?

Não. Tive a outros níveis, no meu pensamento e no meu coração, mas não falámos e até Catarina, mesmo a pedido da realizadora, ela pediu-nos: "Por favor, não vejam, porque vamos tentar, isto é a partir dessa história, dessa situação".

Criar.

"Não mexam". E foi tudo tratado com muito respeito e antes que acabem os 18 minutos, dizer, mesmo antes de começarmos o início dessa série, a equipa, o elenco, reunimo-nos e falámos: "Vamos começar, vamos tratar disto, vamos fazer um minuto de silêncio juntos, por respeito ao que aconteceu. E nós que vamos agora tratar este assunto, mesmo que seja a partir, seja o que for, nós vamos entrar nesta bolha com respeito e dignidade pelo que aconteceu". Isso é muito importante. Houve muito respeito e deve haver. Faz sentido que haja.

Claro que sim. O tempo passou a voar. Eu avisei.

Como sempre.

Foi uma pergunta difícil para o fim, mas era inevitável ter de falar nesta série. Foi muito bom ter-te aqui, Maria João Pinho, muito obrigada por teres vindo. Já está, já passou.

Mas eu falo imenso, não é? Eu perco-me nas respostas.

Não, mas aqui é suposto, é isso mesmo, é conversar. Eu avisei-te, era uma conversa descontraída. Por isso, volta quando quiseres e ficamos ansiosos e à espera então por te ver na televisão.

Vocês receberam-me muito bem, obrigada.

Obrigada nós.

Obrigada nós. Maria João Pinho, em "40 Minutos" aqui na Rádio Observador. O "Em 40 Minutos" está de regresso para a semana.

Até para a semana.