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É músico e é fã de Beatles. Estudou música no conservatório, tocou também em bares, em restaurantes. Depois participou no The Voice, virou apenas uma cadeira, mas acabou por vencer o concurso. Atualmente conta com vários singles e também um álbum de estúdio no repertório e hoje conosco na Rádio Observador recebemos Tomás Adrião em 40 minutos. Bem-vindo.
Bem-vindo, Tomás. Como estás?
Falhei alguma coisa aqui na intro?
Não, tá tudo certo.
Tá tudo certo?
São todos factos que aí
Boa, menos mal. Olha, Tomás, se calhar começamos precisamente pela experiência no The Voice. Já vamos falar dos teus novos singles, do teu álbum, de tudo. Mas gostava de começar por aqui. Participaste no The Voice, programa de talentos da RTP. Queria perguntar se primeiro foste tu que te inscreveste ou se foi família e amigos que disseram: "Ele canta muito bem, vamos inscrever o Tomás".
Vamos tramá-lo.
E se sempre quiseste participar num programa deste gênero ou se simplesmente aconteceu.
Eu nunca tive o sonho de participar num programa como este ou querer ganhar. Eu só queria um meio pra atingir um fim, que era queria tocar mais, queria tocar em bares, que era o que eu fazia na altura, e achava que se passasse uma fase ou outra, ia conseguir tocar mais. E foi a partir daí que as coisas mudaram, porque eu tinha um objetivo, que acabou por se tornar outro, por ter passado fase a fase, mas nunca tive aquele objetivo de ganhar. Apenas aconteceu porque tinha de acontecer.
Foste com zero expectativas.
Sim, eu vou sempre com zero expectativas pra tudo, até pra não me desiludir, obviamente. Mas correu tudo bem, obviamente, e foi uma boa fase da minha vida, porque impulsionou também muitas outras coisas depois. Mas é isso, acho que não houve um grande plano detalhado, não me inscrevi e pensei: "Isto vai ser assim".
Então, mas foste tu que te inscreveste mesmo?
Eu penso que sim, que fui eu que me inscrevi, mas já foi há bastante tempo, por isso eu não tenho a certeza se fui impulsionado pra isso ou me inscrevi acho que algo do gênero.
O que importa é que participaste e foi uma boa experiência.
E ficaste na equipe da Mariza Liz, foi a única a carregar no botão. Achas que foi uma feliz coincidência, foi bom trabalhar com ela?
Foi uma feliz coincidência, correu tudo muito bem. Aprendi muito com a Mariza e foram bastante bons momentos que passamos juntos.
Era a mentora que mais querias na altura?
Era a pessoa que provavelmente me identificava mais, obviamente. E acho que foi um bocado sorte ter sido a única pessoa a carregar. E eu não tive que escolher, que eu odeio tomar decisões.
Mas ainda ficavas ali mais 10 minutos a ponderar quem é que ia escolher.
E ainda bem que não tive que escolher. Eu acho que é muito bom as coisas acontecerem, irem acontecendo e da forma que tiverem de ser.
Sim, quase uma forma natural. Aquilo aconteceu e ficaste com a Mariza, e acabou por correr muito bem, não é?
Exato. Se eu tivesse um plano muito marcado, provavelmente ela não virava e eu me desiludia, e minhas expectativas iam por água abaixo.
Claro. Tomás, em alguns casos, por exemplo, estes programas de talentos acabam por abrir várias portas. Sentes que foste um desses casos que esta exposição talvez te tenha aberto algumas janelas de oportunidade?
Eu acho que a exposição é muito temporária. E ela acontece, de facto, na altura que estamos a participar no programa, as pessoas que veem o programa acabam por reconhecer na rua e ter esse impacto automático, quase.
E o pós-programa?
E o pós-programa, exatamente, também acontece. Eu trabalhei com muitas pessoas que eu pensava nunca trabalhar, e nos estúdios nunca pensava ir. Estar aqui no Observador, por exemplo, é tudo circunstância de ter participado no programa. Acho que começa tudo aí. Claro que vamos fazendo outras coisas, as pessoas que participam nesses programas. É o meu caso, fiz um álbum, tô fazendo música, mas tudo aconteceu por causa desse início, por causa dessa exposição temporária.
E como é que foi a altura no pós-programa? Ou seja, tu terminas, vences, depois no dia seguinte tens uma vida nova pela frente, não é? E se calhar já tens que pensar noutras coisas. Como é que foi esse pós-programa? Foi fácil pra ti conseguires seguir?
Eu tava no secundário na altura.
Então não viste.
Eu lembro-me que depois fui pra escola.
Já tinhas fãs na escola.
Era conhecido na altura por isso, porque tava num programa de televisão. Sempre fui um miúdo muito tímido e dava-me com dois ou três amigos, máximo, e continuei a fazê-lo.
E como é que foi depois lidar com isso? Ou seja, tu que dizes ser uma pessoa tímida, eras um miúdo tímido, não é?
Eu lidava da melhor forma possível.
Se calhar tinhas muita gente na escola a ir ter contigo. "Olha, é Tomás!"
Havia pessoas que me conheciam ou começaram a falar comigo por causa dessa circunstância.
Sim.
Mas sempre lidei muito bem. Aliás, todas as pessoas que me conhecem, eu não as conheço, porque me conhecem por causa da música.
Sim.
Eu gosto muito de todas essas pessoas, é o meu trabalho, então adoro que me conheçam sem razão aparente.
Sim.
Mas conta-nos lá, como é que foi essa recepção na escola no dia a seguir? Portanto, tu chegas, fizeram um grande especial.
Eu sinceramente não me lembro. Começava a ter aulas de português ou de matemática, eu sentava-me e-
Tudo tranquilo, mais um dia.
Não sei, eu nunca vivi muito intensamente o programa. Acho que nunca me apercebi ao certo do impacto que teve.
A sério?
Porque era bastante distraído também, ainda hoje sou. Acabei de derramar café aqui no Observador.
Mas ficou tudo limpo.
Mas acabei por não dar grande importância também. Eu acho que é bom pra um miúdo que tá a participar num programa desses, manter os pés no chão.
Levar as coisas também com leveza, não é?
Exato, e com calma.
Com calma.
E acredito que na altura não teve assim, em mim, um grande impacto e ainda bem que não teve. Sempre levei muito na desportiva a questão da música, porque gosto muito de música, é a minha paixão, mas acabei por não dar grande importância, porque sabia que era um programa de televisão, não era um programa propriamente de música. A música vinha depois, era isso que eu tava entusiasmado após o programa. Eu queria ir pra estúdio, gravar as minhas ideias, por mais más que fossem na altura. Porque tive de batalhar muito até conseguir encontrar um estilo que me identificasse, palavras que fizessem sentido pra eu cantar. E o desafio foi depois do The Voice, não foi na altura do The Voice, mesmo pra mim.
Olha, vamos recuar ainda mais um bocadinho no tempo. Quando eras pequeno, já tinhas o gosto pela música e o que costumavas ouvir também?
Sim, eu comecei a estudar música desde muito cedo e tinha gostos um bocadinho diferentes na altura dos meus colegas da escola.
O que gostavas de ouvir?
Gostava muito de ouvir Beatles, Pink Floyd, muitos anos 60, 70, e andava muito para essa zona. Até comecei a aficcionar-me um bocadinho nisso, no sentido em que achava que só aquilo é que era bom. E depois fui crescendo e comecei a ouvir muitas coisas, mas quando era pequeno, ouvia mesmo coisas muito antigas pra idade que tinha e que hoje ainda tenho. Continuo a ter o mesmo gap.
Isso por influência da tua família, daquilo que ouvias em casa, descobriste sozinho?
Os meus pais ouvem música do tempo deles, portanto, dos anos 80, mas eu nunca fui muito apaixonado pela música dos anos 80. E comecei a arranjar alternativas, comecei a usar o YouTube, ia ao YouTube e pesquisava música e depois comecei a simpatizar muito com os Beatles. Era mesmo fã dos Beatles, ainda sou, mas na altura eu passava imenso tempo livre a ver entrevistas, a ouvir as músicas, a vê-los no estúdio. E aquilo entusiasmou-me bastante. Eu estudava música, mas nada tinha a ver com a música que eu ouvia e que estudava no conservatório, era música clássica. Eu queria ser do rock and roll. Comecei a ir por esse caminho, ouvi muitas coisas do gênero e essas foram as minhas maiores influências, porque foram essas bandas que me impulsionaram a querer fazer música.
Bom. Tomás, também numa entrevista disseste que ninguém da tua família está ligado à música de uma maneira profissional, mas que lá por casa todos cantavam. Estavam sempre ligados à música de uma maneira descontraída, mas que acabaste por ser, se calhar, o único/primeiro a seguir, de uma maneira mais profissional. Sentiste-te apoiado pela tua família?
Sim.
Tomar esta decisão.
A minha família adora que eu faça música, apesar de também ter outro trabalho. Gostam do que eu faço, da música que faço e sempre foram muito descontraídos à volta da música. Cantavam em casa, ouvíamos música no carro, nas viagens de férias. O meu pai colocava sempre música na aparelhagem que tínhamos lá em casa e era uma coisa que vivia sempre muito presente na minha vida. Eu estudava música e a partir do momento que comecei a estudar música, estava muitas horas a tocar.
Claro.
E eles estavam já habituados àquilo, às audições, às minhas provas que tinha da altura do conservatório. Sempre foi uma coisa que esteve muito presente na minha família e sempre foi levada com muita tranquilidade.
E por isso apoiaram também as tuas decisões. É ótimo.
Nós sabemos, Tomás, que esta é uma área complicada, não é uma área muito estável. Está sempre muito dependente também da forma como o público muitas vezes até reage às coisas. Tu tinhas algum plano B à partida? Sempre apostaste tudo na música, que numa perspetiva vai ou racha. Como é que foi também essa tua gestão na altura? Estamos na fase secundária, quando uma pessoa já começa a pensar o que é que eu quero fazer no futuro.
Sim, é uma fase um bocado complicada de participar num programa destes, porque começamos com a ideia de que isto é o que eu quero fazer para sempre e tenho aqui uma oportunidade, vou aproveitá-la. Mas o que acontece é que as coisas não acontecem sempre como nós queremos e as expectativas, lá está, são muito perigosas nesse aspeto. Tornou-se difícil viver só da música. Eu vivia em casa dos meus pais e era difícil, mesmo assim, no sentido em que eu sabia que não conseguia sair se continuasse a viver só apenas da música. E comecei a ter uma relação um bocadinho tóxica com a música, no sentido em que isto não me está a dar aquilo que é suposto dar. Não é questão de dar muito dinheiro ou pouco dinheiro, é ser só estável. Portanto, conseguirmos viver de uma coisa que gostamos de trabalhar. E continuei a fazer música de uma forma um bocadinho perigosa pra mim. Tive que ter mais calma. E o que aconteceu foi que eu fui estudar design, design gráfico, e hoje sou designer gráfico a tempo inteiro e faço música nas horas livres. Ontem estive em estúdio até à 00h30.
Meu Deus!
E entrei às 9h.
Isso é que é amor à camisola.
O que acontece agora é que estou a gerir duas vidas, duas vidas que gosto muito, na verdade. Gosto de ser designer e também gosto de ser músico. Mas são dois trabalhos que são necessários nesta altura da minha vida, mas que não estou arrependido de todos, de ter começado a fazer esse plano B, que agora é tudo um plano A. Eu faço música apenas com muito mais descontração e estou mais descontraído a fazer música.
Mas dirias que a música neste momento é o teu plano B? Inverteu-se.
Ou que se calhar não há plano B, não é? Que acaba por ser tudo um conjunto de plano A.
Acho que uma coisa paga a outra também e alimenta a outra. É isso que eu senti, que agora preciso das duas coisas pra conseguir fazer uma das duas.
Claro. Tomás, acabaste também por estudar música, como disseste, no conservatório. Como é que foi o processo pra entrares no conservatório?
Eu entrei numa bolsa, que era uma bolsa de estudo, que havia um concurso, que foram várias crianças na altura. Eu era uma delas e acabei por entrar, ter acesso a essa bolsa. Houve umas pequenas audições e eu acabei por entrar. Foi muito bom na altura, apesar de ter desistido a meio, também aconteceu isso. Como estava a falar há bocadinho.
Eras mais do rock and roll.
Mais do rock and roll. Eu tive muitos problemas com professores de guitarra. Eu tive sempre boas notas, por acaso.
Mas era sempre com os professores de guitarra.
Por acaso era bom aluno, mas ao mesmo tempo era um bocado revoltado com a questão toda de que isto já não é assim que se faz. Na minha cabeça, já não se fazia nos anos 60, por que se deve fazer nos anos 2000 isto?
E ganhavas essas lutas?
Não, não ganhei de todo, porque o conservatório tem esse regime e sempre terá. Eu acho bem que tenha, atenção. Quem queira estudar música clássica deve estudar daquela forma Mas quem não é da música clássica não deve estudar música clássica. Acho que as pessoas devem estudar aquilo que é suposto. E claro que me deu uma escola enorme e hoje em dia sei disso. A base do que eu sei tocar veio a partir daí. Mas eu provavelmente na altura não me apercebi disso, era só um miúdo um bocadinho inquieto que queria pegar na guitarra e fazer uns solos, e não é assim que se faz na guitarra clássica.
Lá está, o rock and roll sempre a vir ao de cima.
Foi no conservatório que achas que descobriste o verdadeiro significado da música para ti?
Quer dizer, agora já percebemos que se calhar não é.
Acho que o conservatório ajuda a ter uma noção do que é a música no sentido mais teórico, mas a questão que eu acho que me identifico mais com a música é a questão do feeling, daquilo que me faz sentir e que eu posso fazer sentir aos outros. E eu acho que só me apercebi do significado da música, principalmente da música que faço, quando um dia estava num bar e saí para arejar e veio uma rapariga ter comigo e disse que a minha música estava a ajudá-la bastante num momento difícil da vida dela.
Uau.
Que bom!
Foram das minhas primeiras músicas a sair e ela disse-me aquilo, eu nunca mais a vi, eu não sei o nome dela nem nada, mas aquilo fez-me ali um clique do tipo: o que eu faço pode impactar a vida de alguém.
Isso é ótimo.
E impacta a minha também, porque eu só escrevo aquilo que acredito mesmo e que faz sentido na minha vida para lançar. Mas se aquilo ao mesmo tempo faz sentido a outra pessoa, é aí que é o verdadeiro significado da música para mim, é esse poder. Foi o que os Beatles fizeram a mim e o que eu posso fazer a alguém, numa escala muito mais pequena, obviamente.
Sim, mas é ótimo. É bom saberes.
E sentes-te orgulhoso disso, não é? Alguém vir ter contigo e dizer alguma coisa que tu criaste, que saiu da tua cabeça, ajudou uma ultrapassar um problema.
Tipo: "Sucesso, fiz".
Sim, é superpoderoso isso. Como é que nós podemos quantificar isso? Não sei. É muito estranho, porque aquilo saiu de uma forma superdescontraída e depois de repente alguém ouviu aquilo e ajudou essa pessoa. É aí que é o verdadeiro significado.
Claro.
Só aprendi isso muito depois, lá está, quando comecei a criar.
Claro que sim. Olha, Tomás, vamos fazer agora aqui uma pequena pausa para atualizar as notícias. Hoje estamos à conversa com o músico Tomás Adrião. Na segunda parte vamos falar de inspirações, de outros talentos e claro, dos projetos do Tomás. Até já, Tomás.
Até já.
Segunda parte de Em 40 Minutos. Hoje estamos a conversar com o músico Tomás Adrião. Bem-vindo mais uma vez, Tomás.
Obrigado.
Na primeira parte falámos da tua experiência no conservatório e como eras mais do rock and roll. Agora gostava de falar de design, também já falaste assim brevemente. És designer e atualmente concilias as duas coisas e vives bem com isso. Dizes que não há nem um plano A, nem um plano B. Em que altura da tua vida é que apareceu o design?
O design só apareceu há dois ou três anos, quando comecei a estudar e depois arranjei um trabalho na área e acabou por ser muito importante também, porque aprendi muitas coisas. Eu trabalhava sempre muito sozinho na música, era tudo à volta do que eu faço e do que eu podia fazer, criar, etc., mesmo que fosse em colaboração muitas vezes, acabava por ser um processo muito solitário. Toda a questão burocrática, todo o trabalho que é necessário para viver da música. E quando apareceu o design, comecei a trabalhar numa empresa.
Escritórios.
Um escritório que trabalha tudo para o mesmo, em conjunto. E isso ajudou-me bastante a conseguir aprender também a trabalhar em equipa.
Trouxe-te outras skills.
Sim, aprendi bastante nesse sentido, que não existe só uma coisa, existem várias. E está a ser muito bom o processo de aprendizagem, de evolução pessoal também.
E encontras pontos de contacto entre o teu trabalho como designer e o teu trabalho como músico, tendo em conta também é uma forma de expressar um pouco a criatividade, a visão que tu tens das coisas.
Exato. Eu tenho muita liberdade, felizmente, na questão de criação de alguns trabalhos que faço, o que ajuda a completar aquilo que existe mais em mim, que é a questão mais criativa. Por isso acho que são trabalhos que estão muito parecidos. Existem muitos músicos que são designers, por alguma razão. E só me apercebi isso quando já estava dentro do design, que tem as duas vertentes mesmo, porque acho que é um trabalho que faz sentido para um músico, é como se estivéssemos a produzir. Nós metemos uma imagem, depois metemos uma textura.
Depois muda a cor.
Aquilo é quase como estivesse a produzir uma música. Quando eu estou a produzir uma música, eu meto uma guitarra, depois meto um baixo, depois meto um pad. E aquilo começa a ganhar cores também, aquilo tem cores e visualmente os programas são parecidos. O que é interessante também, porque aquilo para mim era intuitivo também quando apareceu o design e apaixonei-me também pela área por isso, por ser uma coisa muito dinâmica. Não tinha a ver com contas, sempre fui muito mau com matemática e com palavras também às vezes sou bastante mau com línguas. E acho que a questão das cores, eu também estudei artes e ajuda também por aí.
Sim.
Por acaso, uma pergunta difícil que gostava de fazer por causa de uma coisa que disseste agora, que é aquilo que eu canto, aquilo que eu escrevo também tem cores.
Exato.
Que cores é que tem a tua música? Se tu tivesses de pensar numa cor para a tua música?
A minha cor é definitivamente cor de laranja Cor de laranja? Por que cor de laranja? Não sei, sempre imaginei e depois estou ligado sempre ao fruto da laranja. Nos meus videoclipes a laranja aparece.
Pois, era isso que eu ia dizer, com a pesquisa que fiz do Tomás, até mesmo tens a foto da capa, acho que é do álbum ou de um single, não tenho a certeza, também é em tons laranja.
Exato. A laranja sempre esteve muito presente na minha vida e acredito que se eu tivesse de dar uma cor, se eu fizesse um pôster para a minha música, seria em tons de laranja. Sim, sem dúvida. Acho que é algo novo também para mim, quando eu estou a fazer uma música. A música é totalmente nova e como eu oiço música muito antiga a maior parte do tempo, quando faço música, a música é totalmente nova e a cor de laranja é uma cor quente, é uma cor viva. Não sei, acho que ia por aí.
Tomás, vamos agora falar do teu single de estreia, "À Vontade", saiu em 2018. Acabou por ser meio que um cartão de visita do teu trabalho. O que quiseste transmitir com esse primeiro single, a tua primeira exposição enquanto artista?
Nesse primeiro single estava tudo muito verde ainda, não era laranja ainda. Dessa forma, eu não estava ainda satisfeito com a estética que a música tinha, com a mensagem mesmo, mas foi um trabalho que me orgulho bastante também, porque trabalhei em parceria com a Mariza Liz na altura. Logo depois do "The Voice", nós fomos para o estúdio os dois e foi muito bom.
Desculpa, Tomás, isso cumpre aquela questão que nós não vemos nos programas, porque obviamente aquilo é um programa de televisão, tem também uma parte de espetáculo, uma parte cênica, mas cumpre-se a questão dos mentores verdadeiramente ajudarem os seus alunos fora do ecrã?
Eu acho que tem a ver especificamente com a Mariza, que é a pessoa que eu conheço melhor do "The Voice". Ela foi uma pessoa impecável e conseguiu ajudar-me logo na primeira música, que era a mais importante, provavelmente, que era para começar. Apesar de não ter sido talvez a música com que me identifico mais hoje em dia, ou que as pessoas ouçam aquela música, depois ouçam outras e percebem que há ali uma diferença estética.
Mas é normal, também estás progredindo enquanto artista.
E ainda bem que assim é. Eu espero que daqui a 10 anos, a música seja totalmente diferente do que é hoje. A evolução constante, é isso que eu quero que seja. Não há uma coisa certa, eu não quero manter-me numa estética para sempre. Acho que não é bem esse o caminho, porque tudo o que me ensinaram até agora, as pessoas que eu tenho ouvido até agora, a música que tenho ouvido, os artistas que mais me influenciam, são artistas que foram evoluindo ao longo do tempo. E é isso que me fascina.
Então não és nada contra, por exemplo, quando um artista mais ligado ao pop, depois lança um single mais direcionado para o rock.
Ellie Goulding.
É isso. Mas depois, por exemplo, quem ouve, os fãs acabam muitas vezes por reagir mal, do tipo: "O Tomás era um artista pop e agora por que está a fazer rock? Está a fugir da essência". Não concordas com isso?
Não, acho que os artistas têm várias fases. Pode haver algum interesse pelo meio de fazer algo diferente, mas eu acho que o que move o artista é que quando está a criar, tem que ser livre. O artista é livre e tem de expressar aquilo que está a sentir, as influências que está a ouvir naquele momento. Há alturas da minha vida em que eu estou a ouvir uma coisa muito digital, muito eletrónica, e depois quero fazer uma coisa muito eletrónica, e depois estou a ouvir uma semana inteira uma música super folk, só guitarra e voz, e depois faço só guitarra e voz. Não há uma regra específica. Claro que é importante ter alguma identidade o artista, mas a identidade do artista pode ser essa questão de não ser constante. Isso pode ser uma identidade. Tudo é válido, eu acho.
Claro.
É isso.
Depois, pelo meio, houve a pandemia, que obviamente não ajudou. Como é que viveste essa época também? Porque temos falado com vários artistas que dizem que aproveitaram também para criar, houve ali um espaço para poderem escrever, para poderem compor. Tu lançaste quatro singles nesse ano. A pandemia ajudou também a trazer esses espaços para criares um pouco?
O que é curioso é que eu nunca planeei esse ano, nunca ninguém planeia, obviamente. Mas o que aconteceu é que eu já tinha tudo pronto para aquele ano. Eu não sabia que havia uma pandemia, ninguém sabia. E não era suposto acontecer o que aconteceu, no sentido em que eu não criei por causa do Covid. Eu criei porque já estava criado, as músicas estavam prontas. A primeira música, que era o "Perdido", saiu em janeiro e a segunda música ia sair em março.
Foi ali mesmo no início do confinamento.
No pico do confinamento, ou início, pelo menos. E na altura foi complicado porque não lancei a música, porque na altura a editora onde eu estava a trabalhar aconselhou a não fazer, tendo em conta a situação. Achava-se que iam ser duas semanas, um mês, dois meses, e passou um ano, dois, e tive lançando as músicas, porque estavam prontas e não fazia sentido lançar noutra altura, porque era ali que eu estava a sentir que as músicas tinham de sair e saíram.
Portanto, isto não foi fruto da pandemia, estes já estavam feitos.
A pandemia ajudou-me a criar outras coisas, ajudou-me a criar as músicas que estou a lançar agora. Ajudou-me a estudar design, por exemplo, mas não me ajudou especificamente na altura em que estava a lançar. Foi uma altura complicada, porque não era suposto lançar quando ninguém estava disponível para isso. As pessoas queriam saber é quantas pessoas morriam por dia. Era triste, era uma altura triste.
Isto quase que vem ao encontro aquela conversa que estávamos a ter há pouco do gerir expectativas.
Exatamente. Eu acho que já sofri bastante com isso.
Já tinhas tudo planeado e depois, afinal, veio a Covid e estragou os planos todos.
Mas faz parte, tudo isso são ensinamentos que nós temos que levar para a vida. Temos de perceber que as coisas nem sempre acontecem como nós queremos e temos de dar a volta, arranjar alternativas, evoluir constantemente.
Claro. Em 2021 também editaste o teu primeiro álbum, "Perdoa-se-á em mim pressa para ser feliz". Grande título, tenho a dizer. Identificas-te com o título que escolheste para este primeiro disco?
O título é grande, de facto.
Mas é bom.
É muito comprido e para um disco que às vezes pode ser complicado fazer promoção do mesmo. Nada mais tempo a dizer o título do álbum do que se calhar a explicar o álbum.
Nem daqui explicar o "Perdoa se há em mim".
Exato. Não é muito estratégico, de facto.
Mas é genuíno.
É a frase que faz mais sentido nesse álbum, porque eu tinha 19, 20 anos quando estava a lançá-lo e tinha pressa para ser feliz, mesmo muita.
Já não tens?
Hoje em dia estou mais calmo.
Faz sentido com o "Calma".
Com o "Calma", sim. Eu sou supercoerente com a música que lanço e com o que estou a sentir no momento. Acho que é muito importante isso.
E dizes também que este álbum fala daqueles que procuram respostas.
Exato, eu estava numa fase em que procurava respostas, procurava saber mais sobre mim, sobre o mundo que estava à minha volta, o que é que fazia sentido na altura fazer. E a música que surgia era um bocadinho mais sobre perguntas e não tanto sobre respostas. E acho que agora a música que estou a lançar já são respostas a esse álbum anterior.
É bom ver esse processo, não é?
E é isso, eu acho que as pessoas que tiverem o privilégio de acompanhar este meu problema mental, vão perceber que eu estou a responder a perguntas que fiz anteriormente e espero que isso seja algo contínuo. Espero que para o próximo projeto que esteja a lançar, esteja a responder às minhas perguntas de agora ou às minhas respostas.
E as tuas músicas, os teus singles e os teus álbuns refletem sempre o que vai dentro de ti. Ou seja, tu não escreves ou falas de temas que te são alheios. Por exemplo, contar uma história. Há muitos artistas que fazem isso, um storytelling, mas por coisas pelas quais não passam.
Coisas externas, coisas exteriores. Há músicas que eu tenho e que não existem ainda, não saíram, que são sobre amigos meus, mas são histórias que eu tenho empatia.
Sim, mas são tudo coisas reais.
Coisas reais, claro que não são muito literais, também quero proteger as pessoas quem estou a escrever, a compor, mas tenho feito esse exercício agora neste momento, que é pegar em histórias de outras pessoas e tentar musicalizadas. Mais como um exercício.
Sim.
Tomás, tu contas com algumas colaborações neste "Perdoa se há em mim pressa para ser feliz". Fizeste uma música com a Elisa, com a Cláudia Pascoal. Como é que foi também colaborar com estes nomes? Até porque é também malta muito jovem, não é? Como tu, que estava na altura também em rampa de lançamento. Como é que foi também trabalhar com tanta energia?
Na altura foi supernatural, porque éramos todos amigos, estávamos todos nos mesmos estúdios, nos mesmos meios, o mesmo grupo de amigos. E na altura, fazia sentido ter aquelas pessoas no meu disco, porque me dava com essas pessoas e ainda me dou. Eram e são amigos, então eu senti que fazia sentido. Claro que estávamos todos naquela fase do começo e foi importante para os dois lados, acredito eu. E foi isso, foi muito especial na altura, partilhar estúdio com pessoas que eu goste.
E agora se pudesses escolher uma pessoa qualquer, um artista qualquer para fazer uma colaboração contigo?
Agora só me vem à cabeça o artista que já estou a colaborar e não sei se quero divulgar já. Não, porque ainda ontem estivemos em estúdio todos.
Agora quero muito saber.
Sim, a tua grande referência. Já falaste aqui dos Beatles, por exemplo.
Trazias um Paul McCartney para fazer uma colaboração.
Eu acho que ele não aceitava, mas eu trazia assim num saquinho.
Nunca digas nunca.
Eu falo muito dos Beatles, mas há muitos artistas contemporâneos que eu ouço e que gosto bastante e que gostava um dia de colaborar também. Também artistas portugueses, sendo que eu escrevo em português também. É um bocado ingrato ou hipócrita estar a dizer aqui que só ouço música estrangeira e que nenhum português me influenciou, que é mentira.
Tem tanta coisa boa para cá dentro.
Que eu gosto bastante.
Quem é que são as tuas inspirações a nível nacional?
Atualmente, que eu ouço mais música portuguesa, é o Janeiro, gosto muito de Janeiro. Ouvi muito Miguel Araújo, agora já nem tanto, por acaso. Mas agora, principalmente música portuguesa, é música mais jovem. Gosto muito do António, que é conhecido como Left.
O Graça, sim.
O António Graça, ouço bastante as músicas dele. Todo o Avalanche, que é o álbum que eles lançaram agora.
Agora está no Festival da Canção.
Exatamente. Temos lá três artistas deste álbum.
Sim, Rita Nova também está.
Todos esses meus, que eu tenho o privilégio de chamar amigos, estão disponíveis nas minhas playlists e eu ouço-os bastante e influenciam-me bastante também.
E acho que eles estão a trazer uma boa perspetiva à música portuguesa.
Sim, a questão da colaboração, por exemplo, existe bastante e que já não é muito falado. Há muitos artistas da música pop que têm writing camps com 10, 15 pessoas e ninguém fala delas. São essas pessoas, normalmente, é aquele grupo que está a escrever para eles.
É verdade, é isso mesmo.
E é importante eles realçarem que trabalham em cooperação.
Sim, porque eles dizem que são um coletivo. Um coletivo. Colaborativo. São um coletivo de artistas.
Juntar colaboração com coletivo.
Eu não sei, agora fiz um mix aqui manhoso na minha cabeça, mas eles descrevem-se como um coletivo, uma banda ou um grupo.
E são artistas muito talentosos que me influenciam bastante no que faço. É isso. Acho que é superpresente, porque conheço-os bastante bem, mas ao mesmo tempo, o que eles fazem para fora, faz sentido para mim ouvir e gosto e partilho com toda a gente.
Olha, e voltamos aqui um bocadinho ao teu álbum. Quanto tempo é que demorou a ficar pronto? És muito perfeccionista com o teu trabalho?
Bastante. Penso muito antes de lançar as coisas, e se faz sentido lançar, se não faz.
E dizes isso como uma coisa boa.
Às vezes é mau para o negócio em si. As pessoas querem lançar a música para tocar.
Ficas ali tanto tempo a matutar numa ideia.
Exato. E o que eu faço muito é não acreditar muitas vezes naquilo que está lá. Deixar de alguma forma de simpatizar com aquilo que fiz. Tenho muita insegurança também às vezes naquilo que faço e torna-se difícil às vezes avançar. E o problema de ser artista a solo é muitas vezes isso. Quando é com uma banda acaba por ser mais fácil, porque um puxa para um lado, o outro puxa para o outro, mas a coisa sai. E quando estás sozinho, acaba por ser difícil.
Estás tu e a tua cabeça.
É, e eu estou sempre a autosabotar-me. É difícil às vezes. Acreditar principalmente naquilo que faço a tempo real e depois lançar numa altura mais certa possível.
Tomás, estamos aqui a chegar à reta final da nossa conversa. Antes de acabarmos, obviamente, queremos falar do novo lançamento, o novo single, o "Calma". Pode ser aqui o avanço de um segundo álbum ou de um EP, brevemente?
Sim, está previsto um EP para este ano, sair este ano.
Boa!
Este é o segundo single desse EP, que se chama "Calma". O primeiro foi o "Descompromisso".
E a receção está a ser boa?
Está a ser boa. Eu neste momento sou artista independente, totalmente independente, o que torna tudo muito mais dinâmico também. Tudo o que acontece é uma boa notícia.
Que bom.
É um bom dia. Porque torna-se difícil às vezes sozinho fazer tudo, mas apesar disso, tenho mais liberdade também. Apesar de agora também ser designer, faço as minhas capas, faço os meus posters, faço as minhas publicações.
Quase como um-
Sou gestor de redes sociais
...one-man show
One-man show, exato. E faço a música, obviamente. E está a ser um processo muito interessante da minha vida. É um novo começo e vamos ver o que acontece depois.
Portanto, há promessa para um EP, é isso? Para 2024.
Um EP vai sair de certeza.
E concerto, já temos algum marcado? Vamos poder ouvir-te em algum sítio?
De momento não tenho nada marcado, mas quando tiver é uma coisa que aviso.
É uma coisa que arde o olho.
Digo: "Malta, já está".
Quando estiver, ouvi. É isso, convites.
Tivemos uns concertos interessantes este ano, foi bom. Apesar de tudo, está a ser muito bom.
Boa, então podemos esperar coisas novas para 2024, não é, Tomás?
Exato, claro que sim.
Boa. Muito bem, Tomás, não temos tempo para mais, mas quero agradecer-te mais uma vez por teres estado aqui connosco na Rádio Observador. Hoje conversámos com Tomás Adrião em 40 minutos. Nós voltamos para a semana, Tomás. Obrigada mais uma vez e beijinhos.
Obrigado, Tomás. Até para a semana.