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Evidentemente que é um motivo de preocupação que a extrema-direita tenha mais de 40% na segunda volta de umas presidenciais em França. Ninguém pode ficar tranquilo com isso. O senhor Macron perde cerca de oito pontos percentuais em relação a 2017, os mesmos que Marine Le Pen progride. Ainda assim, eu sempre diria que o melhor resultado possível para preparar as legislativas de junho era uma vitória do senhor Macron. Vou usar o dito popular português: "Candeia que vai à frente alumia duas vezes". Os riscos não estão resolvidos, mas o maior de todos era mesmo hoje uma vitória da extrema-direita nas presidenciais, porque o regime francês, o doutor Paulo Rangel tem razão, não é um regime puramente presidencialista, mas é um regime em que o presidente da República tem uma centralidade política muito superior ao que acontece em Portugal, até com papel executivo muito superior. E na atual situação geoestratégica da Europa e do mundo, o risco era ainda agravado, porque ninguém podia deixar de interpretar uma vitória da senhora Le Pen como, indiretamente, uma vitória do senhor Putin. A situação seria gravíssima, mas eu acho que hoje é mesmo dia para ficarmos satisfeitos com a vitória. Claro, e vamos ver agora como é que vai o senhor Macron, que é um político muito inteligente e muito bem preparado, atuar na perspetiva das eleições legislativas, onde há, de fato, um trabalho a fazer para garantir uma maioria parlamentar coerente com o resultado presidencial.

Há dois meses para fazer essas contas. Paulo Rangel, estamos aqui a falar de extrema-direita ou, como diz, de extrema radical ou populista. De que forma é que essas forças se têm manifestado no Parlamento Europeu? Pela vossa experiência, e a pergunta é obviamente para os dois, de que forma é que essa agenda já entrou na discussão europeia?

Antes deixe-me só dizer que há uma coisa que eu estou totalmente de acordo com o Manuel Pizarro, que é que de todas as eleições, a mais importante para este efeito era esta. Isso sem dúvida nenhuma. Portanto, sob esse ponto de vista, eu não estou a relativizar nada da vitória, pelo contrário, até disse que ela foi mais confortável do que estávamos à espera. E o que eu estou a dizer é o que nós temos pela frente. E que nós não podemos ignorar em termos europeus e em termos de França, mas se olharmos para a Itália, a situação é muito parecida com esta. Porque se nós somarmos aquilo que são as intenções de voto do Salvini e da Meloni, nomeadamente de Fratelli d'Italia, que estão à frente da senhora Giorgia Meloni. Atenção que nós temos resultados nesta casa e num sistema que é um sistema parlamentar, e portanto em que as consequências serão diferentes. Mas eu queria dizer quanto a isso, é o seguinte: no caso do Parlamento Europeu, não há dúvida que a direita radical, entre a extrema e populista, como digo, não é tudo igual, mas é tudo francamente negativo. Portanto, esse é o ponto. É forte. É um grupo forte, é um grupo interventivo. E no caso, e isto agora é por causa do sistema eleitoral outra vez, no caso da França, até a Frente Nacional, ou neste caso agora o chamado Rassemblement National, o reagrupamento nacional, que tem mais deputados dentro dos deputados franceses. E aí Macron tem responsabilidades, porque Macron destruiu o sistema político francês para poder ganhar essas duas eleições. É por isso que eu não tenho esta visão gloriosa que em Portugal, nomeadamente socialistas, nem sei por quê, porque eu não tenho nada de socialista, mas que têm de Macron. Porque Macron não teve nenhum pejo, porque ele já sabe que para ser eleito tinha que pôr de um lado o lobo mau e do outro lado o capuchinho vermelho, que é ele, ou o capuchinho azul, talvez, ou tricolor, neste caso, que é a França. Portanto, esta é que é a questão. Ele fez muito mal ao sistema político francês, porque destruiu os socialistas, destruiu os republicanos. E claro, o que é que acontece? Ele veio dar uma força enorme ao populismo. É por isso que eu não o considero assim uma pessoa tão inteligente. Considero uma pessoa que para ser eleita, é muito inteligente, mas olhou aos seus interesses e não àquilo que eram os interesses da nação e do sistema político.

Manuel Pizarro, quer contradizer esta ideia?

Eu não me quero colocar aqui.

Ou revê-se também nesta leitura?

Não me quero colocar eu aqui na posição de defensor do senhor Macron. O senhor Macron não integra a minha família política e nós temos diferenças importantes, mas vamos lá ver. Talvez a causa da decadência dos partidos tradicionais em França tenha que ser mais procurada no comportamento desses partidos do que no comportamento do senhor Macron. Quer dizer, talvez precisemos dessa análise mais profunda e aliás, isso suscita um tema absolutamente central na vida política das sociedades democráticas, que é necessário que os partidos respeitem o seu eleitorado e respeitem os compromissos com o seu eleitorado e não façam o contrário a isso. E eu acho que em Portugal, nomeadamente o Partido Socialista, tem tido sucesso por isso mesmo, porque respeita o seu eleitorado. E nesta matéria quero dizer que eu faço minhas as palavras do senhor presidente da República. A minha visão sobre o senhor Macron é de um homem que, no essencial, partilha os nossos valores. Nomeadamente os valores democráticos, sociais e europeístas. E mais ainda, é que é objetivamente um aliado de Portugal, até do ponto de vista do interesse nacional.

Bom, isso aí tenho as maiores dúvidas sobre essa afirmação.

Eu sei que o doutor Rangel tem as maiores dúvidas, mas é a minha convicção. Eu acho que Macron é um aliado objetivo do Portugal e mais ainda, na sociedade francesa, é um amigo da imensa diáspora portuguesa que vive em França. E portanto, isso é muito positivo para nós.

Manuel Pizarro, esses lados são folclóricos, porque lhe digo uma coisa, qual foi o presidente francês, desde o Giscard d'Estaing, ao Mitterrand, ao Chirac, ao Sarkozy, ao Hollande, que não fosse um grande amigo de Portugal?

Há momentos.

Não peço desculpa.

Apesar de tudo, os momentos de maior proximidade...

Os Giscard d'Estaing e o Mitterrand desempenharam um papel relativamente a Portugal decisivo.

Os momentos de maior proximidade, não tenho dúvida nenhuma, foram os com o Mitterrand e com o Macron. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Acho que isso é uma história feita.

Isso é um disparate completo, desculpe. Os Giscard d'Estaing...

É a sua opinião, Paulo Rangel.

Não, isto não é uma questão de opinião.

Claro que é uma questão de opinião.

Isto aqui, não faça. Vamos cá, não vamos. Os interesses.

Ó Paulo Rangel, não tente reduzir as opiniões dos outros. Pois eu já sei que o Paulo Rangel quer dar aqui três voltas e atacar o PS. É que não há assunto nenhum. Desculpa, esse é mesmo o vosso problema, o problema que se instalou no PSD. É que a respeito de tudo, querem...

E assim se vê como as eleições francesas não dizem respeito apenas aos franceses.

A respeito de tudo, querem dividir, querem arranjar divisões. Isto é uma coisa insultável.

Não é nada disso. Peço desculpa.

Paulo.

O problema aqui. Não, é que é preciso analisar todas as coisas.

Mesmo para concluir, por favor.

Não, desculpe, com rigor até científico. Quer dizer...

Isso é científico.

Não, desculpe.

A política passou a ser uma ciência.

Uma ciência política.

E você vai ganhar o Prêmio Nobel.

Olha, Manuel Pizarro, eu sei que não quer que eu o desminta, mas eu vou desmenti-lo.

Vai desmenti-lo em 30 segundos, Paulo Rangel. Emmanuel Macron está quase a chegar à zona onde estão os seus apoiantes.

O Giscard d'Estaing, como o Mitterrand, como o Chirac, representam o interesse permanente da França. Não são mais amigos de Portugal, nem são mais portugueses. Olha, o Hollande teve muito mais gestos para com Portugal do que teve o Macron. E no entanto, muito mais gestos