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Helena Mattos, como é que olhas para estes resultados? Porque estivemos, nesta última fase da campanha eleitoral, a admitir todos os cenários.

Uma das canções que se ouvia esta noite dizia: "E um, e dois, e cinco anos mais". Isto traduzido em português. Isto cantavam os apoiantes de Marine Le Pen quando ela entrou na sala e ouvia-se isto. Ou seja, eles contam que ela é, provavelmente, quem vai lá estar. Ou seja, ela conseguiu um resultado, que sistematicamente tem vindo a ganhar em termos eleitorais. Ela é alguém que em 2012 teve, neste caso, 18%, depois sobe para 33% e agora estamos com 41%. Ou seja, este eleitorado acha que é provável ou que é possível que consiga, daqui por cinco anos, um resultado que a passe à frente. E Marine Le Pen tem uma questão: ela tem um partido e está lá. Coisa que Macron não vai poder ser candidato e não tem partido. Os republicanos e os socialistas, ou seja, os gaullistas e os socialistas, também estão como está. Portanto, está mais ou menos tudo em aberto em termos de resultados. Todos nós temos a noção que estamos a viver alguma coisa intermédia. É claro que as legislativas, e é muito importante que o nosso convidado, eu tenho chamado a atenção para isso, o sistema eleitoral francês, nós falámos aqui a propósito disto, para a apresentação dos candidatos, aquela questão dos apadrinhamentos. O sistema eleitoral francês é um sistema desenhado à medida para condicionar os resultados. E, vale a verdade, que os radicais, neste caso os de direita, mas os de esquerda também, até se têm mostrado muito pouco radicais, porque é, de facto, difícil de aceitar um sistema eleitoral em que, por exemplo, um partido que tem 1.500.000 votos, teve oito deputados, e um partido que teve 1.300.000 votos, tem 44 deputados. Mas é isto que acontece em França. Nas últimas legislativas, Marine Le Pen teve 1.500.000 votos, tudo isso em termos grosseiros, claro. Teve oito deputados. Os socialistas, estamos a falar votos de segunda volta, tiveram 1.300.000 e tiveram 44 deputados. Portanto, o sistema foi desenhado há alguns anos, para impedir o Partido Comunista de crescer em excesso, de ter uma representatividade que se podia considerar preocupante, porque os votos podia sempre tê-los, e é um pouco isso que temos aqui agora. Mas é claro que as questões um dia se colocam. Sabemos que estamos a viver algo que vai ter um desfecho e, para já, este desfecho agora vai ser nas legislativas, embora aí o desenho do sistema eleitoral continue a exercer as suas virtudes, por assim dizer. Mas percebemos, o Mélenchon começou a falar, acho que foi dois, três dias antes das eleições, interpelou diretamente o Macron e disse-lhe: "Convidá-lo a fazer dele, Mélenchon, primeiro-ministro". E curiosamente, o Macron vai responder com uma imagem futebolística. Os franceses têm uma imprensa local muito viva, em boa parte este diálogo acontece num espaço muito regional e, portanto, teve alguma cobertura também nessa imprensa. E no Ouest France, nós ficamos, por exemplo, a saber que o Macron responde a esta questão do Mélenchon, dizendo-lhe: "Eu penso..." Ele dá ali o exemplo dos jogos. Nas competições desportivas nunca é muito boa ideia apresentar os resultados antes do jogo. Ele não conhece aquela coisa dos prognósticos que são no final.

Só no final. O João Pinto ainda não chegou. Ainda não teve a notícia.

Mas ele diz: "Eu penso, quando nós estamos numa questão de agenda eleitoral, quando nós estamos a querer confundir as agendas, e aqui a agenda da presidencial com a agenda das legislativas, raramente nós tomamos boas decisões". Isto é como o Macron responde a esta interpelação do Mélenchon. Mas a questão coloca-se, quer dizer, ele tem menos votos. É claro que vai fazer o seu governo, que se note, tenta algumas reformas, sobretudo no campo económico, muito a encontre daquilo que aquela França mais de Mélenchon e Le Pen não quer, a França dos gilets jaunes, não quer, que é, por exemplo, a reforma da Segurança Social. Mas isso percebe-se muito nestes discursos. Eu hoje ouvi estes discursos e é evidente, a Marine Le Pen e o Mélenchon são grandes tribunos de comício. Mélenchon fez um discurso muito curto, muito breve, ao contrário da Marine Le Pen, porque é claro, o campeonato dela neste momento é outro, mas eles são tribunos de comício. O Macron, é óbvio que é muito melhor em debate, em estúdio de televisão, em entrevista, em responder. Os comícios, mesmo de grande vitória, como ele teve esta noite, não são o seu melhor momento, embora eu acho que ele até esteve muito melhor.

Mas há toda uma encenação pra ter em linha de conta, a forma como caminhava ao lado da mulher, de mão dada, com jovens à volta. Era mesmo estranhado.

Os franceses são inigualáveis. Tudo o que seja a pompa, a circunstância, a conceição das grandes cerimónias. Eles têm, por exemplo Eles têm tido muitos problemas de agentes da autoridade que têm sido mortos em incidentes que às vezes são classificados como terroristas, outros não, outros são de criminalidade pura e barbárie. Em geral, por exemplo, o seu ministro do Interior vai a esses funerais e aquilo que é o funeral de um polícia tem, em França, uma dignidade e um aparato que nós pensamos: "Só faltam os Jerónimos." Quer dizer, eles têm, de facto, uma encenação, uma pose. Macron, ou Júpiter, como alguns lhe chamam, tem toda essa noção, pois existe também muito aqui a encenação do homem só, do presidente só. E neste caso ele é mesmo só, porque ele não tem propriamente um partido atrás dele. Mas há, sim, muito toda essa conceção desse aparato. Agora, temos de perceber aqui o seguinte: este discurso que ele fez esta noite, eu achei-o alguns furos acima daquilo que é habitual nele. Ele é muito fraco a fazer discursos de comício. É bom em debates, um bocado arrogante, como é óbvio, mas bom. E no fim, não sei se o nosso convidado concordará ou não, ainda houve ali aquele arrebatamento da França gêmea. Ainda teve ali um bocado de sentimento. O francês é uma língua lindíssima e portanto também proporciona estas coisas. Teve ali um momento no fim, mas quando uma pessoa vê o que são os discursos de vitória noutros países, ou quando se ouviram outros discursos de vitória de outros presidentes em França, a pessoa tem sempre aquela sensação, usando aqui um termo francês, que manca ali qualquer coisa. Aquilo está manco e manque. Parece que falta ali qualquer coisa. Mas foi, sobretudo, um discurso de união, por exemplo, o momento em que ele diz para não assobiarem quando ele diz madame Le Pen, que ele não quer, que lhes tinha sempre pedido para eles não assobiarem. Agora, ouve-se aquele discurso e embora seja um discurso de união, em que ele diz que percebe as razões, que as pessoas estão zangadas, expressaram o seu voto porque estão zangadas, mas nas próprias referências do discurso dele, ele está a anos-luz, na sua bela bolha em que ele vive, que é uma bolha fabulosa, daquilo que é a outra França. A própria conceção, se quisermos, até um pouco paternalista, porque as pessoas estão zangadas, como se eles não tivessem percebido. O próprio ambiente daquela festa. Há, sim, duas Franças, ou três Franças, se quiserem, e isso nota-se muito ali. Agora, o discurso da Marine Le Pen. O do Mélenchon e o da Marine são discursos de tribunos, de comício.

E já discurso de batalha, digamos assim.

Já deve ter partido. Já está nas legislativas. Ela já está nas legislativas. E agora o problema não é esta noite, é o que vai ser daqui para a frente