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E José Filipe Pinto também. Começava por si, porque acompanhou aqui conosco o discurso de Macron. O que lhe pareceu este discurso para um presidente que consegue, ainda assim, um feito importante, uma reeleição e uma margem folgada em relação a Marine Le Pen, apesar de ter perdido muitos eleitores comparando com as eleições de 2017?
Muito boa noite, obrigado pelo convite. De fato, este foi um discurso que eu não sei se é de 2022 ou se é de 2017.
Foram muito parecidos.
Em 2017, Macron disse a mesmíssima coisa: apelou à unidade de França. O problema é muito diferente apelar e conseguir. E por quê? Ele hoje tem uma França ainda mais dividida da que herdou em 2017. Porque em 2017, Macron tinha um ativo, dispunha do ativo que decorria de ser novidade. Era novidade contra o sistema, mas não era populista. É importante explicarmos isso. Ele não era populista porque o discurso dele não se baseava na oposição entre o povo e a elite. Ele acreditava na representação. Ele achava que era capaz de uma melhor representação. Cinco anos no Eliseu não deram essa ideia. E por isso mesmo, hoje à tarde, nós ainda discutíamos pra onde é que iriam os votos de Macron. Este discurso, se repararmos, foi um discurso sem chama. E por que é um discurso sem chama, um discurso sem vibração? Porque, de fato, ele sabe que a situação que tem, o ativo é cada vez menor. Vêm aí umas legislativas que serão a terceira, como Mélenchon disse, serão a terceira fase ou, se preferirmos, a terceira volta das presidenciais. E, Carla, muito simplesmente, o grande trunfo, o maior trunfo de Emmanuel Macron é o sistema eleitoral francês. Maioritária duas voltas, pensado pro Partido Comunista Francês nunca chegar ao poder e por isso mesmo, o que é que vamos assistir? À mesmíssima coisa que temos assistido nos últimos anos, a um crescer do populismo. E atenção, porque tão populista é Marine Le Pen como populista é Jean-Luc Mélenchon. E por quê? O populismo de ambos é que é diferente. O populismo de Marine Le Pen tem vindo a perder a faceta antissistema e a colocar-se na visão cultural ou identitária, muito semelhante à de Orbán na Hungria ou à de André Ventura aqui em Portugal. No outro lado, temos um populismo socioeconômico de Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu, se repararmos bem, praticamente fazer desaparecer o Partido Socialista, de onde ele vem, ele é proveniente do Partido Socialista, e o Partido Comunista. Porque se repararmos, poderia ter havido uma luta esquerda-direita se o Partido Comunista não tem apoiado o seu candidato e tem dado os seus votos a Jean-Luc Mélenchon. Por quê? Porque esses votos seriam suficientes para ultrapassar Marine Le Pen no segundo lugar. É este o ambiente que temos em França, é uma continuação, mais dois meses. E o que é que vamos assistir? Vamos assistir a Macron apelar àquilo que sabe que não vai ter, que é a unidade, e depois a esfregar as mãos de contente, porque o sistema eleitoral francês o irá beneficiar grandemente.