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De facto, houve aqui, Bruno Cardoso Reis, algum déjà vu. O discurso de há cinco anos também apelava muito e tentava refletir muito sobre aqueles que não votaram nele.
Sim, agora é ainda mais importante, porque realmente ele teve aqui alguma perda, embora, mais uma vez, é preciso sublinhar, é uma grande vitória, sobretudo tendo em conta aquilo que é habitual em França, que é cada vez mais, lá está, desde 2002, os presidentes não serem reeleitos. Mas ele, do meu ponto de vista, também está a pensar aqui na terceira volta, ou seja, nas tais eleições legislativas. E acho que ele também tem muito em conta e tem uma visão também muito analítica e muito, se quisermos, fria, muito cerebral da política. É isso também que lhe vale muitas vezes muita aversão ou muita irritação dos seus adversários e de uma parte da opinião pública. Mas ele de facto percebe que há este problema, de facto uma grande polarização em termos da França periférica, lá está, do Nordeste, do Sul, das classes mais pobres e que se sentem mais excluídas e mais perdedoras deste processo de globalização e desindustrialização. Ele tem feito alguns esforços até para contrariar isso. Apesar de tudo, se nós formos ver, a França é dos países europeus com o Estado social mais forte, com o Estado mais forte em geral. O presidente Macron reforçou alguns apoios sociais, por exemplo, a questão sobretudo do apoio às crianças mais pobres, a questão da educação. Portanto, não é verdade que isto seja só retórica. Agora, o problema é até que ponto isso é realmente eficaz, não é? E esse será o grande teste na segunda volta. Eu acho que as palavras certas ele diz. Portanto, lá está, este ser presidente de todos os franceses, esta ideia de não vamos rejeitar estas pessoas, os eleitores da Le Pen. Agora a questão é saber se ele realmente consegue convencê-los, e nomeadamente consegue convencê-los em termos das próximas legislativas para ter uma maioria que funcione. Apesar de tudo, em relação a isso, eu queria aqui também destacar que, mais uma vez, a França é diferente, por exemplo, de Portugal. O presidente francês, mesmo em coabitação, mesmo quando tem uma maioria de outro partido no Parlamento, e portanto tem um primeiro-ministro que não escolheu, que é de um outro partido, tem muitos poderes no campo da defesa e da política externa e, portanto, pelo menos a esse nível, e também da relação com a Europa, embora a relação com a Europa hoje em dia, com as instituições europeias cada vez mais é transversal a todos os ministérios, e portanto aí não é tão verdade assim. Mas apesar de tudo, o presidente tem uma capacidade grande de dar aqui algumas garantias maiores de estabilidade. Em relação ao sistema político, eu acho que estas eleições legislativas que ele esteve a preparar com este discurso vão ser um pouco um teste até que ponto é que o Macron consegue ser uma figura um pouco parecida ao De Gaulle. Ou seja, eu recordo que o De Gaulle era igualmente uma figura que tinha enorme rejeição em muitas fações do eleitorado francês. Era odiado. Houve dezenas de atentados, mais de 10 atentados contra o De Gaulle. Estou a falar aqui de atentados terroristas. Mas ele conseguiu, de facto, fazer uma recomposição do sistema político. Conseguiu, no fundo, anular completamente a esquerda francesa que existia na altura, ou enfraquecê-la muito, e sobretudo a direita francesa que existia na altura, e criar um novo grande partido em torno de si, que acabou por se enraizar. No fundo, vamos ver se isso é possível com o caso do Macron. Eu acho que é menos provável. Apesar de tudo, o De Gaulle tinha outro histórico por trás. Tinha sido líder da resistência contra os nazis, era um general, etc. O Macron, de facto, não tem esse passado. O seu passado até gera também rejeição, ser banqueiro, ser uma espécie de jovem prodígio, sem também um grande currículo político. Mas teremos de ver isso. Mas eu acho que eu leria sobretudo este discurso em termos de começar já a preparar também a campanha, não só a governação, mas a campanha para as legislativas de junho.