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Eu sinceramente, a minha convicção, ou se quiser, não é convicção, o meu feeling talvez seja a palavra, a minha intuição apontava pra um resultado dessa natureza. E vou dizer por quê. Especialmente depois de terem surgido aquelas sondagens que deram 51/49, eu acho que isso criou aqui uma espécie de toque a reunir. No fundo, criou um efeito de voto útil, que aliás, os primeiros estudos à boca das urnas confirmam. Eu tenho estado aqui a seguir de uma forma um pouco caótica, alguns dos media franceses e intervindo também nos media portugueses, mas tenho vindo a seguir, e há um estudo à boca das urnas que diz que 40% dos eleitores que votaram Macron, votaram apenas por rejeição de Le Pen, isto é, sem qualquer adesão a Macron. Isto, no fundo, vem confirmar esta ideia, e por isso é que eu tinha este feeling, de que quando apareceu uma sondagem que criou o perigo real junto das pessoas de que Le Pen poderia até vir a ganhar, ao haver essa ameaça, isso polarizou o eleitorado e motivou, e portanto, deu esta vitória. Que apesar de tudo, não é, e isto é preciso dizer, uma vitória tão extraordinária. Primeiro, a Le Pen aumenta 10%. O Macron perde dois milhões de votos, vem dos 66 para os 58%. Repare, a senhora Le Pen foi muito inteligente, falou imediatamente passados três a quatro minutos, não é normal. Na democracia portuguesa, os derrotados são os primeiros a falar, mas normalmente demoram bastante tempo até admitirem a sua derrota. E por quê? Porque ela está a pensar nas legislativas e tratou de capitalizar, porque não há dúvida que, repare, quando nós pensamos que um partido de extrema-direita ou direita radical, porque enfim, agora está um bocadinho mais suavizado, e o Zé Mura que é mesmo a extrema-direita. Mas enfim, não interessa isso, porque ao fim ao cabo, é sempre a mesma coisa, é populismo, e é populismo antieuropeu e é sempre negativo. 40% do eleitorado francês, mais de 40% estar ao lado de um projeto com estas características, é uma coisa extremamente grave. Nós temos que ter isso muito claro nas nossas cabeças. E vamos ter as legislativas. O Mélenchon também já fez uma pronúncia logo a seguir à Le Pen e disse: "Macron é o presidente eleito mais mal eleito da República Francesa, da história da Quinta República." Também veio com esta alfinetada, mas para quê? Nós se olharmos para os votos da primeira volta, nós temos 30% ao centro, 30% à extrema-direita e 30% à extrema-esquerda, ou se quiser, à esquerda radical e direita radical. Porque há ali várias direitas e várias esquerdas muito polarizadas. E o que eles querem ver é se pela primeira vez conseguem ter implantação depois nas legislativas agora em junho, que serão a 12 e a 19 de junho. Este é que é o ponto. E isso pode trazer a Macron muitas dificuldades, porque se Macron não conseguir, com o seu movimento da República em Marcha, ter uma maioria absoluta, e se eles conseguirem, o que não vai ser fácil por causa do sistema eleitoral, que é um sistema eleitoral majoritário em duas voltas. Mas se eles conseguirem uma implantação em termos de deputados grande, o que não é certo, repare, o Partido Socialista Francês e os Republicanos, que são o centro-direita, enfim, o partido PPE, embora muito mal nas presidenciais, quer nas regionais, quer nas locais, quer nas legislativas, têm uma forte implantação territorial e têm muitas pessoas, muitas personalidades, e as eleições são muito personalizadas em cada uma das circunscrições que têm força eleitoral e portanto podem ter aqui uma representação que possa matizar isto. Mas o Mélenchon está a jogar tudo, e a Le Pen viu-se pelo seu discurso de hoje, tudo nas legislativas, isto é, em garantirem que o próximo governo francês não é um governo do partido de Macron, ou é um governo do partido de Macron dependente de outros, e portanto criando aquilo que nós conhecemos na política portuguesa, mas também na política francesa. Ambos são sistemas semipresidenciais, embora diferentes. Estou sempre a ouvir hoje toda a gente a dizer que é presidencial, enfim. É preciso um bocadinho de rigor nos conceitos.
É mais do que o nosso.
É mais do que o nosso, claramente. Mas quando houve coabitação, e houve coabitação quer com Mitterrand, quer com Chirac, e no caso de Chirac até houve cinco anos com Lionel Jospin, quando houve coabitação, o sistema funciona de maneira muito diferente. E é isto que eles querem impor ao Macron. E o Macron tem agora aqui dois meses, que serão dois meses de uma prova de fogo, para tentar garantir que vai ter estabilidade política no próximo quinquênio.