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Que eu felicite pela sua eleição. Sr. Primeiro-Ministro e Srs. Ministros acabados de empossar, a quem desejo as maiores felicidades, Sr. Primeiro-Ministro e membros do Governo de Santa, a quem agradeço o serviço a Portugal, Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Sr. Presidente do Tribunal Constitucional, Sr.ª Presidente do Supremo Tribunal Administrativo, Excelências, portugueses. É para os portugueses a minha primeira palavra. O vosso voto foi um voto de fé na democracia, ao inverter a abstenção que parecia imparável. Querendo dizer, nos 50 anos do 25 de abril, que o voto vale sempre a pena, a liberdade vale sempre a pena, a democracia vale sempre a pena. Que bom recordá-lo neste 2 de abril, o mesmo dia em que há 48 anos se realizou a votação final global da Constituição, em que tive a honra de participar, uma Constituição debatida em plena e conturbada revolução. Sr. Primeiro-Ministro, acaba de assumir funções por ter encabeçado a candidatura mais votada pelos portugueses, para substituir quem liderou o mais longo governo neste século e o segundo em democracia, sempre com sensibilidade internacional, em particular europeia, que foi e é de interesse nacional. A vitória eleitoral foi difícil, porventura a mais estreita em eleições parlamentares, mas imagino que talvez por isso, a mais gratificante. Ao votar, os portugueses fizeram três escolhas e o somatório dessas três escolhas define um mandato recebido pela coligação, mas também pelo seu líder. Escolheram pelo aumento da participação, exigir do governo, saído das eleições, reforçada aproximação às pessoas e aos seus problemas. Escolheram depois mudar de hemisfério de governo. Não deram ao partido que dispunha de maioria absoluta de mandatos uma nova maioria, nem lhe deram minoria que fizesse maioria absoluta com outros partidos do mesmo hemisfério. Nem deram, e aí por uma diferença muito exígua, ao principal partido desse hemisfério, a vitória eleitoral. Escolheram, finalmente, dar a vitória ao setor moderado e não ao setor radical do outro hemisfério. O mandato parece óbvio, mas é complexo. Por quatro razões: o panorama internacional, a governação económica e social interna, a base de apoio político, o tempo disponível. Primeiro, o panorama internacional. O mundo está pior em 2024 do que em 2023. E pode piorar, dependendo da influência das eleições norte-americanas nas guerras, e da influência das guerras na economia, no crescimento, na inflação e nos juros. O que Portugal pode fazer é pouco e é muito. Pouco, porque o mais importante depende de outros. Muito, porque podemos ter bom senso e fazer na Europa e no mundo o que resolva problemas e não os agrave. E manter a coerência e a credibilidade política e financeira que tanto trabalho nos tem dado a criar e a recriar ao longo de anos de democracia. Segundo, a governação económica e social interna. Aqui o papel é nacional. Onde não temos problemas, não os devemos criar, como no consenso sobre mais crescimento, investimento e exportações, no equilíbrio das contas públicas, na atenção à dívida externa pública e privada, no aproveitamento das vantagens da segurança e certeza nacionais perante a insegurança e incerteza internacionais. Onde temos problemas de custos ou disfunções económicas e sociais que possam romper estruturas fundamentais do Estado ou áreas sensíveis do tecido social, não há como não intervir, com o cuidado de não atingir o núcleo crucial daquilo que não é problema. Terceiro, a base de apoio político. Com uma representação parlamentar como a obtida, importa saber com o que conta o governo e o que deve alcançar. Conta com o apoio solidário e cooperante do Presidente da República, que aliás nunca o regateou ao seu antecessor, mas não conta com o apoio majoritário na Assembleia da República e tem de o construir, com convergências mais prováveis em questões de regime: política externa, de defesa, europeia, financeira, de repercussões internacionais ou de compromissos eleitorais semelhantes. Para convergências menos prováveis, noutros domínios, o diálogo tem de ser muito mais aturado e muito mais exigente. Para decisões como reformas estruturais ou orçamentos de Estado, essa exigência é ainda de mais largo fôlego. Conta, para tudo isso, de um apoio popular que lhe deu a vitória, mas para o qual terá de conquistar muito mais portugueses, ou porque próximos nas ideias ou porque convencidos que o trabalho que faz merece esse apoio alargado. Quarto: o tempo disponível. É muito longo, em teoria, porque é de quatro anos. Na prática, para o que é muito urgente e para o que foi prometido em campanha, é muito curto. Para a saúde, plano de emergência, sem esquecer a estabilização de todo o modelo de gestão do Serviço Nacional de Saúde. Para a habitação, maior abertura ao privado e ao social, atenção às classes médias, sem esquecer os que necessitarão sempre de habitação, de iniciativa pública. Para a educação, pacificação dos anos letivos, em especial na escola pública, sem esquecer os professores. Para a permanente aceleração do PRR e crescente foco no Portugal 2030. Para a localização do aeroporto, a solução da TAP e a contínua aposta na ferrovia. Para a mais visível eficácia da entidade de transparência no combate à corrupção. Noutro plano, mas muito urgente, mais ainda em tempo de guerra, para a valorização do estatuto militar. Em tempo de segurança, para o fim da discriminação entre as várias forças. Em tempo de novos consensos sobre justiça, para a superação de bloqueios e incompreensões que travem a economia, a sociedade, a justiça e a democracia. Sr. Primeiro-Ministro, em suma, o mundo não ajuda. A governação económica e social interna pode ajudar. A base de apoio político, tal como o tempo, dependem do alargamento da primeira e do uso do segundo. E de como atuarem aqueles que só ganham com soluções estáveis para o regime e para os portugueses. Será uma missão impossível? Não creio. Francisco Salgado Zenha gostava de dizer: "há sempre soluções em democracia". E será muito difícil? Certamente. Um clássico, Frei Manuel Bernardes, escrevia no final do século XVII uma obra intitulada de "O Pão Partido em Pequeninos". Aplicável a esta situação, significa: parte-se um problema em vários mais pequenos e resolve-se um a um, sem perder a vista do todo, com paciência, sem elevar expectativas ou criar ambições ilusórias. Pode não ser espetacular. Neste tempo de grandes emoções, paixões, seduções pela sensação imediata, mas poderá ser um caminho com virtualidades. Os portugueses só ganham se, com este ou outro caminho, o Sr. Primeiro-Ministro puder corresponder ao voto que deram à coligação que liderou e até a muito outro que lhe não deram, desde que entendam ambos que é bom que tenha sucesso, porque esse sucesso a todos aproveitará. Tal como os portugueses só ganham se, com a mesma humildade e determinação com que aí aportou, nunca se esquecer deles. Dos jovens que desta vez apostaram no voto, aos menos jovens que se recusaram a perder a esperança, se nunca se esquecer de todos eles. São a única razão de ser da missão que hoje assumiu, porque eles, e eles todos, são Portugal.