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E se está à procura de um encontro com a beleza, é aqui na Rádio Observador. Todas as semanas. Não procure mais. Está aqui. Ouça todos os episódios disponíveis em podcast e no site do Observador. Ao domingo sai um novo episódio, sempre com o maestro Martim Sousa Tavares, que nos guia aqui pela beleza da música clássica e não só.

É verdade.

"Música do Trabalho Agrícola" é o título do episódio desta semana.

Que à partida não tem piada nenhuma.

Que giro! Estás a gostar?

Trabalho braçal, trabalho agrícola. Este episódio é motivado por-

Pensei que ias dizer a história da enxada.

Porque não a história da enxada? Vou tentar perceber qual é a música para isso. O tema de hoje é motivado pelo estudo que eu estou a fazer. Eu estou a fazer um doutoramento, desde setembro passado, em Estudos de Cultura. E um dos termos que mais se usa é o termo Sul Global e Norte Global. Portanto, o Global North, Global South. Já não se usa os países de terceiro mundo ou países em vias de desenvolvimento, etc. Portanto, há este conceito do Norte Global e do Sul Global. E temos trabalhado imenso estes conceitos e tentar aprender com o Sul Global, trazer conhecimento do Sul Global para a nossa academia europeia, etc. E decidi eu próprio que tenho de fazer um episódio sobre o Sul Global, sobre este conceito. Então trago aqui um dos mais importantes compositores do Sul Global. É argentino, chama-se Alberto Evaristo Ginastera, ou Ginastera, como ele preferia. Nasceu em 1916 e morreu em 1983 e é o contrapeso argentino ao brasileiro Heitor Villa-Lobos ou ao mexicano Carlos Chávez, que um dia também cá trarei, só para dar os maiores pesos pesados do continente americano. Quem foi este homem? Ele foi ao mesmo tempo portenho, que é como quem diz, de Buenos Aires. Foi aliás professor do Astor Piazzolla, que é um grande nome. Mas foi um cidadão do mundo. Ele viajou imenso, não só pela Argentina, mas por todos os continentes. Estudou, tocou e contactou com todos os grandes nos Estados Unidos e na Europa. Tanto é que morreu em Genebra e está lá enterrado no cemitério de Plainpalais, num lugar de culto para os argentinos, porque imagina que tens campas lado a lado, o Ginastera e o Jorge Luis Borges. Portanto, numa alegre conversa noutro patamar. E o que é engraçado é que estes países do Sul Global, e portanto estas culturas não ocidentais, se quisermos, ou não europeias, foram em vários momentos da história provocando grande fascínio no velho continente, porque era o primitivismo, era este colorido, que era uma fuga da cultura europeia que estava cansada, tinha este efeito de exotismo que, por exemplo, o jazz também provocou, que era exótico, era a música dos negros, ou as correntes orientalistas, ainda no século XIX, que já aqui trouxemos pelo menos uma vez com a "Rhapsodie nègre" do Poulenc, que era uma peça com uma letra banana, macaco, que não queria dizer nada. E portanto, ao mesmo tempo que estas estéticas fascinavam o velho mundo, estes países do novo mundo, se quisermos, queriam se impor pelo seu nacionalismo e pela sua identidade própria. Por exemplo, os oito batutas do Pixinguinha. Iam para Paris mostrar esta cultura. Então, parece que eles tinham que fazer um trabalho de procurar na sua própria cultura o que importa exportar, o que nós temos de bom que mais ninguém tem. E o Ginastera foi encontrar isso na cultura gaúcha, ou seja, a cultura das planícies, os cowboys da Argentina. Os rancheiros, as grandes planícies, a malta a cavalo, tudo isso.

Os cowboys lá do Sul.

Exatamente, a cowboyada, nem mais. E ele fez isso com um modernismo e uma sofisticação muito complexos. A música dele tem uma força e uma vivacidade que nos marcam e de facto sentimos que isto não é uma linguagem europeia. Muita percussão, há este impulso, sobretudo de instrumentos de percussão nativos, portanto, coisas não europeias. E hoje vou dar a ouvir uma das peças mais famosas dele, que vem de um bailado que ele escreveu, que se chama "Estancia", que ele começa a escrever nos anos 40, mas que só vai ser estreado nos anos 50, por causa da guerra. A produção não foi para frente e ele já tinha a música toda escrita. Então ele disse: "Eu vou agarrar nas melhores peças de música e vou pôr isto tudo junto numa partitura e já que não se faz o bailado, ao menos toque-se a música". E foi logo um sucesso, de tal maneira que quando o bailado estreia, passados quase 10 anos, o público já conhecia a música do bailado, portanto aquilo já não era quase um trabalho original. E o que é a história que ele vai buscar? É uma história colorida, que vai buscar todo este folclorismo, se quisermos, de um rapaz da cidade que se apaixona pela filha de um rancheiro. E portanto há aqui um encontro de culturas entre a cultura urbana, que simboliza o velho mundo, cansado, magricelas, fracote, e este mundo cheio de vivacidade do campo, onde se trabalha com os braços, onde a malta bebe o seu chá mate e come pequenos-almoços de bifes. E o miúdo não consegue seduzir a rapariga, porque ela diz: "Não, os rapazes da minha aldeia põem-te num oito". Então ele lá cresce, bebe muito chá mate e no fim consegue dançar melhor do que os rapazes e conquista. No fundo, ele torna-se um gaúcho ele próprio. É uma das peças mais famosas dele e quando ouvirem vai ficar claro por quê. Nós vamos ouvir a primeira dança, que é a dança dos trabalhadores agrícolas. Portanto, entramos nesta coisa do vigor do trabalho braçal, que é ao mesmo tempo duro e rude, e vais sentir o caráter das pessoas. É tudo muito vivo, tudo muito cru. Parece que é uma música em technicolor, meia torta, porque é bitonal. Tu tens parte da orquestra a tocar numa tonalidade e os baixos estão noutra completamente ao lado. Portanto, isto tem um grau de modernismo rude, mas é fascinante. E tudo o que é dissonante é muito empurrado por ritmos fortes. Eu tenho uma teoria que até as piores dissonâncias da história, que mais custam a engolir, se forem empurradas por um bom riff, um bom ritmo, tu digeres isso muito melhor. Portanto, o mundo ouviu isto e ficou fascinado com a cultura das pampas e dos gaúchos argentinos.

Isto é super cinematográfico, não é?

Isto é Technicolor.

Não sei. Está a ver o John Wayne nas pampas.

Sim, completamente.

A cavalgar por ali fora.

Juan Wayne.

Boa.

E isto é tocado também por uma-

Agora lembraste, eu fui a um restaurante chamado Juan in a Million. Desculpa.

Uau! Incrível.

Um restaurante mexicano. Queria dizer-te uma coisa engraçada: abriu há dias em Lisboa uma livraria que só celebra os autores de países ao sul do Equador.

Pronto.

Que é o Sul Global.

É o Sul Global.

De que falavas aqui há bocadinho. Chama-se Gondwana, e Gondwana é também o nome, antes da separação dos continentes, Gondwana era o continente sul.

Ok, no tempo da Pangeia.

Exatamente. E Gondwana agora é também uma livraria ali junto ao Campo Pequeno, para quem quiser.

Não sabia. Mas lá está, este é um conceito que de facto tem aparecido. A Linha do Equador é um bocadinho, se calhar, uma referência exata, mas tens países a norte do Equador, tipo o Marrocos, por exemplo, que é considerado Sul Global.

Sim.

Mas é assim um conceito, no fundo, é a Europa e Estados Unidos contra o resto do mundo.

Exato.

Basicamente.

Muito bem. Fomos até à Argentina com a música, recorda-me o nome? Alberto Ginastera, filho de um espanhol e de uma italiana.

É verdade.

Mas nascido na Argentina.

É verdade.

Em Buenos Aires. Belo programa, mais um "Encontro com a Oblesa", com o Martinho Sousa Tavares. Ouçam todos os episódios no site do Observador-

Todos

...e nas plataformas podcast. Um abraço e até para a semana.

Para a semana há mais.