Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Encontro com a Beleza na Rádio Observador, sempre com o maestro Martim Sousa Tavares, que nos leva ao mar hoje, às ondas.

É verdade, ao País de Gales.

Olha que bem.

É uma zona do mundo sobre o qual eu sei muito pouco.

Pois, eu também.

Acho que atire a primeira pedra quem puder dizer o contrário.

Os Manic Street Preachers são galeses. É só o que sei. País de Gales.

Eu se calhar sei ainda menos.

Fica cá embaixo.

Sim. Na verdade, o pouco de trivia que eu trago é este nome, Grace Mary Williams. Devo dizer, em primeiro lugar, não se sintam culpados se nunca ouviram falar deste nome. Eu próprio não o conhecia até há coisa de cinco dias, antes de estar a gravar este episódio. E descobri graças ao YouTube, esse fascinante motor de busca involuntário. Sabes, os vídeos relacionados.

Ela ainda não rebentou no TikTok.

Não. E não sei se vai viralizar no TikTok.

Não sei.

Mas aquele motor de busca subtil, que trabalha pra ti, sugeriu-me Grace Williams e eu: "Bom, vamos cá ver". E gostei imenso. Então trago uma peça que ouvi nessa pesquisa. Então, quem é esta mulher, que de resto tem uma vida interessante, mas que fica um bocadinho aquém do seu mérito, como tantas outras mulheres compositoras. Ela é a principal compositora do País de Gales, nasceu e morreu na pequena localidade de Barry. Nasceu em 1906 e morreu em 77.

E nasceu e morreu em fevereiro.

Foi. Pois. Bem, ali deve ser fevereiro o ano todo.

Exato, claro.

Junto ao mar, no País de Gales. É uma destas muitas vidas que não foram tão completas como poderiam ter sido, apesar do reconhecimento universal do seu talento. É que parece que era uma evidência pra toda gente, desde os pais, aos professores, aos colegas, os alunos que ela veio a ter, que ela era uma pessoa brilhante, mas por razões que não se conseguem justificar, a não ser com sexismo, a carreira dela de facto não foi-

Já não é a primeira vez que traças um perfil destes de uma mulher compositora.

Não é, porque de facto é um bocado uma regra. O seu claim to fame ou a coisa vá que a põe no mapa, sobretudo até da história da arte feminista, é ela ter sido a primeira mulher no Reino Unido a fazer a banda sonora pra um filme. Curiosamente, um filme que também foi realizado por uma mulher, que era a Jill Craigie. Foi o filme Blue Sky, em 1949, e a Jill Craigie também é uma heroína do cinema feminista, foi uma das primeiras cineastas. Mas na verdade, há muito mais do que isso, do que esse fait divers de ter feito a banda sonora desse filme. Os pais dela eram ambos professores e o pai dirigia um coro amador, um coro de rapazes, que era bastante respeitado localmente, portanto, ela teve logo acesso a bons professores de música. E logo, a professora de música da escola em que ela andava, que não era uma escola só de música, viu nela imenso talento. Então ela foi muito encorajada. Dali foi pra Cardiff, de Cardiff foi pro Royal College of Music, onde é engraçado que ela vai estudar com o Ralph Vaughan Williams, que era o grande compositor e pedagogo inglês da altura, e foi colega de uma leva de mulheres compositoras que se juntaram naquela altura. Foi coincidência completa, quatro ou cinco brilhantes, que depois cada uma fez o seu percurso e foram todas colegas de carteira, como se diz. Ganha ainda uma bolsa de estudo e dali vai pra Viena aperfeiçoar-se. E quando ela volta depois à Inglaterra, o próprio Benjamin Britten, de quem aqui já temos falado, que era o principal compositor desta geração, quis ajudá-la. E o que é que ele fez? Ele convidou-a a ser assistente pessoal dele. Agora, isto tem muito que se lhe diga, porque há muitas leituras possíveis do que é seres assistente pessoal de um compositor. E o que é certo é que ela recusou. Eu acho que podemos descartar aqui um avanço sexual do Britten, porque ele gostava mais de homens do que de mulheres, portanto, possivelmente queria mesmo ajudá-la.

Esse era um senhor irracível e muito chato.

Sim, eu acho que ela não queria ficar à sombra de um grande nome. Se calhar pensou: "Não, eu chego lá por mim própria". E a verdade é que nunca chegou. Enfim, isto é especulação pura, não se sabe. Mas há uma enciclopédia galesa que tem a biografia mais completa dela, que faz algum enfoque neste detalhe biográfico. Ela lá foi ganhar a vida, dar aulas de música, fazer programas de rádio, mas ia sempre escrevendo muita música. Muita ia pra gaveta, outras ia pra filmes, ia pra peças de teatro, além de música pra se tocar em concerto. Só que pouca gente lhe encomendava música, as oportunidades pra ouvir também não eram muitas. Toda gente dizia: "Ela é muito íntegra, muito exigente". Ela própria destruiu imensos manuscritos de obras que não considerava que mereciam a posteridade. E vai-se desta vida deixando sinfonias, concertos, tem uma ópera baseada num conto do Maupassant, mas onde é que para tudo isso? Adorava saber. E é engraçado porque várias referências dizem: "Esta peça era muito boa, esta peça não sei o quê", mas há pouca coisa. Agora, ela tem um canal no YouTube, se tiverem curiosidade, que foi assim que eu cheguei lá. O canal tem o nome dela, Grace Mary Williams, e ela está a viver um renascimento, se quisermos, porque a historiografia está muito atenta hoje a mulheres no arco da história, a fazer seja artes, seja política, seja o que for. E a verdade é que só desde 2024 saíram pelo menos cinco discos que eu tenho conseguido encontrar com a música dela. Alguns são edições de gravações de arquivo que foram encontrar lá perdidas numa BBC qualquer, outros são músicos, de facto, a tocar estas peças. Agora, nós vamos ouvir uma das joias da coroa da Grace Williams, que é uma peça de 1944, escrita num momento em que ela estava evacuada no Lincolnshire, juntamente com os seus alunos, por causa da guerra, portanto, tiraram-nos lá pra trás. Chama-se Sea Sketches, esboços marítimos, só pra orquestra de cordas. Nós vamos ouvir um dos temas, chama-se Sailing Song, e ouçam bem o colorido que há nesta música só com instrumentos de corda, é espetacular.

"Sea Sketches".

É verdade. "Sailor's Song". Não te sentiste um bocadinho mareado?

Senti-me superbem a ouvir isto. Achei que ela tem uma sensibilidade fora do comum.

Eu até me senti um bocadinho enjoado.

Sim. Estava a pensar na realidade portuguesa. Somos um país tão ligado ao mar. Podíamos ser uma potência na escrita de canções ligadas ao mar. Se calhar, não somos.

É verdade. E é engraçado que já vários compositores estrangeiros escreveram peças ou quando vieram a Portugal ou inspiradas em Portugal, que têm que ver com o mar, porque eles próprios vêm cá e têm esse impacto. E nós, enfim, temos algumas, mas não é expressivo.

Não, é o desígnio nacional do mar que ainda está por cumprir, pelo menos na música.

É verdade. Falta cumprir Portugal, como disse o professor.

Exato. Mas ela também tem um mar, se calhar, bem mais revolto que o nosso.

Sim, de certeza. Isto era uma viagem tranquila numa gaivota, lá em Berry. Era assim que soava.

Era um dia de sol.

Sim, sentem-se as nuvens bem cinzentonas por cima desta música.

Sem dúvida. Grace Williams ou Grace Mary Williams, acompanhem também esse canal de YouTube, porque valeu aqui ao Martim Sousa Tavares esta descoberta. Muito engraçado e continuamos, se calhar já noutros programas, aconteceu de percebermos quão é grande o talento de várias mulheres que depois não viram sucesso na vida ou em carreira.

Para a semana vamos ter um caso também de uma mulher que, essa sim, cheia de sucesso.

Vamos a ele. Para a semana está de regresso o "Encontro com a Beleza" com o Martim Sousa Tavares.

Bora lá, 2h08.

Um abraço.