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Este é o Encontro com a Beleza da Rádio Observador, sempre com o maestro Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Ora viva.
Bem-vindo de regresso.
É verdade. E hoje para corrigir um erro que a história teima em perpetuar.
É verdade. Já aqui falamos várias vezes disso, acho eu. Ainda na semana passada ouçam esse programa dedicado a Grace Williams.
É isso, esta assimetria dos géneros em que parece que a história consagra os compositores e as compositoras têm muita dificuldade, mesmo quando a sua música é universalmente reconhecida como sendo boa, em conseguirem fazer-se ouvir. E já nem falo em vida, mesmo depois da morte. Onde está agora a Grace Williams' Postmortem Experience, para citar um projecto que fez renascer José Pinhal e que eu sei que levas muito em gosto. E eu também. Hoje vamos falar de uma mulher que, para além de ser muito mais jovem do que seria a Grace Williams se estivesse viva hoje, está a dar cartas e dá muito gozo ser testemunha do seu sucesso. Chama-se Nadia Sirota, é norte-americana, nasceu em Nova Iorque em 1983, num berço privilegiado para quem quer seguir música. Ela é filha de um compositor e maestro, também importante, chamado Robert Sirota. Portanto, ela nasceu o mais possível dentro da música. Ela escolheu a viola d'arco como instrumento e fez toda a sua formação na Juilliard, em Nova Iorque, que é só a melhor escola de música do mundo, que tem também aquele efeito que é, por exemplo, por que é que os pais ricos põem os filhos nos colégios internos? É para eles, já em miúdos, fazerem networking.
Exatamente, para serem amigos de outros famosos.
Na Juilliard é inevitável que isso aconteça, porque aquela escola é tão boa que quando tu vais para lá, os teus colegas vão sempre ser pessoas que daqui a 10, 15 anos estão no topo. Portanto, qualquer que seja a geração em que tu entras na Juilliard, tu já estás aí. Ela faz parte, de facto, dessa geração. No caso de compositores, ela pertence a uma grupeeta, eu vou lhe chamar, porque eles são todos muito amigos e têm todos mais ou menos a mesma idade, que estão a dar uma nova face à música contemporânea. Nós já tivemos aqui a Caroline Shaw o mês passado. Mesma geração, colabora com eles também, mas outros nomes que poderei aqui um dia trazer e que alguns ouvintes poderão conhecer, Nico Muhly, Marcos Balter, Missy Mazzoli, entre outros. Enfim, é esta grupeeta. De certeza que eles têm um grupo no WhatsApp. No WhatsApp não sei, porque não se usa muito nos Estados Unidos, mas noutra aplicação qualquer. E gravam todos uns com os outros, tocam nos projetos uns dos outros. É uma forma de estar muito indie. Eu também falei disso o mês passado, todos colaboram com todos. Esta Nadia Sirota toca muito bem, para além de compor. Ela já gravou para o David Bowie, gravou para Arcade Fire, gravou para Meredith Monk, que também tivemos aqui o mês passado, gravou para The National, gravou para Sufjan Stevens, entre muitos outros. Portanto, é mesmo indie. E eu acho que esta forma de estar, que vimos na Meredith Monk, que vimos na Caroline Shaw, que veremos na Nadia Sirota, é a nova escola de Nova Iorque, se quisermos. Nova Iorque já teve várias escolas ao longo do tempo. Esta é a atual, que é um modernismo muito colaborativo, não só entre as pessoas, mas também entre os géneros. É muito atenta à cultura contemporânea, desempoeirado, é pouco dado aos códigos intelectuais e muito virado para a fruição pura e dura, que é tu ouvires e gostares, que é o que eu sei que vai acontecer assim que ouvires 10 segundos desta música. E ela é feita a par e passo com uma forma de estar nova também, que tem que ver com os espaços em que ela é tocada. Eu penso, por exemplo, no National Sawdust, em Brooklyn, para quem conhece e já foi, que é um espaço de música clássica contemporânea em que tu sentes que estás num lugar como se o Lux e o Barbican se cruzassem, de repente nasce aquilo. Então é óbvio que a música que se vai fazer ali também é diferente. Ela própria compõe, é instrumentalista, está em imensos projetos, como seria de calcular, também dá aulas na Manhattan School of Music, e esta é a minha parte preferida sobre ela. Ela teve durante uns anos um podcast fascinante chamado Meet the Composer, que era parte dos podcasts da New York Public Radio, que em 2015 ganhou um prémio importantíssimo, que é o Peabody Award, e era um podcast dedicado só a compositores contemporâneos. Um episódio por semana, foi para o ar entre 2014 e 2017 e eu já devorei imensos episódios. Portanto, eu recomendo imenso. Se falam inglês e compreendem, ele está em todas as plataformas.
Meet the Composer.
Meet the Composer.
O conceito é giro, claro.
É fascinante. E eles estão lá, os compositores também. Portanto, recomendo imenso. O primeiro disco que ela própria vai lançar com as suas composições chama-se "First Things First", é de 2009, e foi disco do ano no seu segmento pelo New York Times. Portanto, estamos a falar aqui de outra overachiever. E nós vamos ouvir uma música desse disco, chama-se "Etude I", em que ela toca a viola d'arco e o Nico Muhly, que é um dos tais compositores que falei, amigalhões da grupeeta, toca um órgão elétrico fofinho e pelo meio anda lá alguém a tocar harpa. Eu sei que vão ouvir e gostar.
Espetacular. Fez lembrar o Owen Pallett.
Isto faz lembrar tanta coisa.
Os Arcade Fire têm este lado também, às vezes.
Sim, completamente.
O que eu adoro aqui é a diferença entre a viola d'arco e o violino. São muito parecidos.
É um instrumento mais grave, toca uma quinta abaixo do violino.
O aspeto é igual. São quatro cordas.
É um bocado maior.
As cordas são as mesmas, o arco.
São cordas um bocadinho maiores, a afinação é um bocadinho mais grave. Está entre o violino e o violoncelo.
E também sinto aqui muita coisa da Islândia. Ela já colaborou com alguns músicos islandeses, aquela onda do Sigur Rós.
Sim, há um nome que faz parte da grupeta deles, que tem um nome islandês que eu propositadamente deixei de fora, porque é difícil de pronunciar.
Mas esta malta tem esse bocado desta sensibilidade.
É um minimalismo groovy.
Olha, bem dito.
Não vai para a introspeção, mas ao mesmo tempo não é música de festa.
Não, mas é divertida.
É para tu ouvires isto com uma cerveja artesanal. Estás a ver num lugar em Brooklyn, que se chama National Sawdust Center.
Afinal esse sítio existe.
Existe.
Já sabemos onde fica.
Existe mesmo.
E queremos ir lá com o Martim Sousa Tavares.
Por favor, de camisa de flanela e boné de uma marca indie.
Ótimo programa. Ficamos a conhecer melhor Nadia Sirota, nova-iorquina que tem dado que falar e assim vai continuar, pelos vistos.
Certamente.
Principalmente depois de ter aparecido aqui no "Encontro com a Beleza".
Isto vai dar-lhe uma embalagem que ela até aqui não tinha.
Regressamos de hoje a uma semana com outro "Encontro com a Beleza". Um abraço, Martim.
Um abraço.