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Todas as semanas na Rádio Observador temos um encontro com a beleza, sempre com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.

Todas as semanas.

É verdade, sem falhar nenhuma.

Faça chuva ou faça sol.

É verdade. E hoje vamos ao Brasil, diretamente do Rio de Janeiro.

É verdade.

Pixinguinha.

É verdade. Até te digo mais, vamos de Alcanena para o Rio de Janeiro.

Vá lá.

Já te direi porquê. Vamos falar do Pixinguinha, Alfredo da Rocha Viana Filho, mais conhecido como Pixinguinha, porque eu quero trazer aqui o choro, que é um dos gêneros antepassados do samba moderno, e com este autor fascinante, tem uma vida incrível e música ainda mais maravilhosa. Ele nasce no Rio de Janeiro, é carioca, como é óbvio. Nasce no final do século XIX, em 1897, e morre em 1973. Ele pertence à segunda geração de chorões, que são os autores do choro. Chorões e choronas, porque um dos grandes nomes era uma mulher, que era a Chiquinha Gonzaga. A primeira geração de chorões nasce ali em meados do século XIX, portanto ele é, digamos, já a segunda ou a terceira. E o que é o choro? E por que eu o trago aqui? É uma mistura das várias influências que convergem ali no Rio de Janeiro, cidade imperial. Tens, por um lado, a influência europeia trazida pelos portugueses, por outro, a influência africana trazida pelos escravos, os lunduns, etc. E depois tens também aquele balançar de lá mesmo, indígena. Se puseres numa batedeira uma polca que vem da Europa com uma modinha que nasce ali com ritmo africano, tens basicamente o choro, tens basicamente a identidade brasileira em música. Então quem é este homem? Ele é um de 14 filhos de um músico amador, que era um grande dinamizador de rodas de choro domésticas. Portanto, o pai dele, em casa, juntava assim o quem é quem da nata dos músicos cariocas. Aliás, chamavam-lhe o Círculo do Calado, porque ele tinha as partituras de um tipo, que era o Joaquim António Calado, que era considerado o pai do choro, e passavam lá todos, incluindo o Villa-Lobos. Esse ainda não, o Villa-Lobos.

O Villa-Lobos.

Credo. E apesar de este ser um gênero que era bastante popular, o choro, ele tinha uma raiz educada e até acadêmica. O próprio Calado tinha sido professor de flauta no Conservatório Imperial. Portanto, tens aqui este lado de uma coisa muito popular, muito corriqueira, que se faz sem mais, mas, por outro, gente que sabe, gente que estuda música, tudo isso. Como é óbvio, o Pixinguinha puseram-no a aprender rapidamente. Os irmãos ensinaram-lhe a tocar cavaquinho, depois ele próprio construiu uma flauta feita de lata e tocava naquilo. Ele vai se tornar um jovem adulto na altura do advento do fonógrafo e das orquestras de cinema. Então a carreira dele faz-se por aí, a gravar. É considerado um virtuoso da flauta, é um grande improvisador e formou um grupo que vai ser importantíssimo pra história cultural do Brasil, chamado Os Oito Batutas, que eram uns virtuosos que foram contratados, imagina, pra entreter na sala de espera de um cinema. Só que eles eram tão bons que as pessoas começaram a ir ali pro foyer do cinema pra ouvir a música e não pra irem aos filmes. Portanto, ficavam todos ali a atrapalhar o público e ninguém entrava, ninguém comprava bilhete. Já na altura, eles eram tão bons e davam tanto que falar, que eles dividiam a elite conservadora, porque, por um lado, considerava-se que eles elevavam a cultura brasileira, este lado mais nacionalista, por outro, eles incomodavam aqueles que eram mais racistas, porque havia ali vários negros. Eles chegaram a tocar pro rei Alberto I da Bélgica, por exemplo, que foi lá, o que não está nada mal pra um grupo que nasce pra entreter quem vai ao cinema. Em 1922, eles foram mesmo numa digressão pra Paris e isso foi o escândalo nacional. Foi um caso muito debatido na imprensa na altura, não só pelo racismo, mas também porque esta música estava associada às classes baixas. Então como é que é? Vai uma excursão de brasileiros pra Paris e mandamos Os Oito Batutas do Pixinguinha. E isto foi importantíssimo. Eles voltaram da Europa completamente modernizados, europeizados, se quisermos. O Pixinguinha passou a tocar saxofone. Eles vestiam-se com trajes do sertão, por exemplo. Passaram a tocar de smoking ou de paletó.

Terno.

Exato, de terno. E o nome passou a ser Jazz Band Os Batutas. E pronto, daqui em diante a carreira do Pixinguinha fez-se assim ao sabor de muitos contratos com diferentes bandas, empresários teatrais, casas discográficas, rádios. Ele fez de tudo que se podia fazer: arranjou, compôs, dirigiu, tocou, até administrou, mas foi perdendo um bocadinho o pé com a mudança do gosto musical. Mas foi sempre considerado uma espécie de monumento vivo da música brasileira. Por exemplo, já nos anos 60, ele já estava quase reformado, o Vinícius, no seu auge, convidou-o para fazer um projeto a meias e não se percebe quem é que está ali a dar prestígio a quem. Se é o Vinícius que está a trazer o prestígio do Pixinguinha ou o contrário. E pronto, ele morreu depois de uma vida cheia de peripécias. A morte dele também é muito macaca, porque ele morreu enquanto estava num batizado. Portanto, ele estragou o batizado, como é óbvio. E tendo em conta que isto foi em 73, ainda andará por aí a pessoa que estava a ser batizada e em cujo batizado faleceu o Pixinguinha. Isto dá uma história pra toda a vida.

Pixinguinha que morreu acho que um ano depois da mulher.

Exatamente.

São estas coisas dos cônjuges.

Eram muito ligados.

Há um filme chamado "Pixinguinha, Um Homem Carinhoso", com o Seu Jorge.

É, e nós vamos ouvir o "Carinhoso", que é um tema de 1928 e é o seu greatest hit. E vamos de Alcanena pra o Rio de Janeiro, porque isto é de um concerto. Vamos ouvir uma gravação live on tape, de um concerto que eu fiz em Alcanena há coisa de duas, três semanas, e achei esta música tão bonita na altura que disse: "Eu vou pedir para ali na mesa de regência fazerem uma gravação, porque eu quero passar isto no 'Encontro com a Beleza'".

Obrigado por isso, Martim.

De nada.

Fale mais vezes, por favor.

Vou tentar. Se ouvirem umas tossezinhas, é porque é uma gravação, de facto, ao vivo.

"Carinhoso", Pixinguinha.

É verdade.

Aqui dirigido por Martim Sousa Tavares.

Sim, eu estava meio a dirigir, meio a dançar. Isto é tão difícil não o fazer.

Sabes que há uma coisa que os brasileiros têm com estas flautas, que me remete sempre para o Brasil, este tipo de flautas. Não sei se é por causa do sítio do "Pica-Pau Amarelo".

Mas é tradicional na roda de choro, a roda de samba, teres esta junção que nós fizemos. Era uma orquestra de cordas clássica, com uma guitarra que se ouve bastante bem a dar o ritmo, uma bateria, uma flauta e está feito.

Rio de Janeiro, via Alcanena, no "Encontro com a Beleza" desta semana com Martim Sousa Tavares, que nos trouxe aqui também a história do Pixinguinha. Obrigado por isto.

É verdade, um grande chorão.

Um abraço.

Um abraço.