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E começa agora mais um Encontro com a Beleza, todas as semanas com o maestro Martim Sousa Tavares, aqui na Rádio Observador.

Cá estamos.

Estou a gostar muito desta viagem de outubro por compositores vivos.

É verdade.

E traz um best-seller esta semana.

É verdade. Este é o compositor vivo mais tocado, consegue suplantar até o John Williams. Chama-se Arvo Pärt. Fez 90 anos no passado dia 11 de setembro, somos quase gêmeos, e é o ícone cultural máximo da Estónia. De facto, não consegues pensar em muitos ícones culturais da Estónia, não é?

Não. Da Estónia só me lembro de um piloto de rali chamado Ott Tänak. Mas todos têm nomes espetaculares na Estónia.

Sim, espetaculares. Aliás, o Arvo Pärt é conhecido entre os músicos como o Arvo Parvo devido ao nome.

Não deve ser muito parvo para chegar onde chegou.

De parvo não tem nada. Eu digo que ele é o ícone cultural máximo da Estónia porque também tem 90 anos. Ele é grande. Agora, quão grande é o Arvo Pärt? Eu vou falar não do percurso dele, mas para dar uma ideia, vou dizer que desde 2010 existe o Arvo Pärt Center e que desde 2019 está num edifício maravilhoso. Convido-te desde já a procurar Arvo Pärt Center. Já é um projeto de arquitetura magnífico do escritório Nieto Sobejano, de Madrid, mas que fica numa península, que é uma floresta de pinheiros, que está rodeada pelo mar Báltico e que lá no meio tem este edifício. Estás a ver as imagens?

Não, mas estou a imaginar e estou a gostar.

Isto é delicioso. E o que é que o Arvo Pärt Center tem? Tem todo o arquivo do próprio compositor, todos os manuscritos, etc. Mas tem uma biblioteca muito cozy, com uma lareira, que tem todos os livros dele e da mulher dele. Tem um centro de exposições, tem, é claro, um auditório com 150 lugares onde fazem concertos e gravações e tem um café maravilhoso com vista para tudo aquilo. Tem uma programação interessantíssima, o Centro Arvo Pärt. Tudo isto emana desta pessoa. Eu ainda nem falei da pessoa, estou a falar do centro. Mas uma programação que tem concertos com a música dele, apresentações de livros e filmes sobre ele, conferências e palestras a partir da música dele, mas tudo organizado num ritmo muito sereno, cheio de nexo e com um profundo respeito pelas ideias dele. E que ideias são essas? Que ideias tão geniais são essas que geram este centro e muita música? São as ideias de um homem que nasceu na ainda União Soviética, os Estados Bálticos pertenciam à União Soviética e ao Império Russo, e que teve o seu percurso musical até interrompido pelo serviço militar obrigatório. Nos anos 50, ele teve que parar o que estava a fazer e foi dois anos cumprir essa função. E depois, nos anos 60, ele fazia parte daquilo que era a vanguarda obscura antissistema na União Soviética, que existia, mas que era altamente reprimida. E para ganhar a vida, como muitos outros, ele fazia bandas sonoras de filmes soviéticos, que era uma indústria muito pujante, sempre com banda sonora orquestral. Portanto, muitos desses reprimidos sobreviviam dessa forma. Ele tem um momento de crise espiritual nos anos 70, em que ao longo de vários anos não escreveu nenhuma nota de música dita séria, continuou a fazer as bandas sonoras para pôr comida na mesa, mas de música instrumental, tudo mais, não escreveu nada. Foram uns anos de silêncio. E daí ele emergiu, ele quebrou esse silêncio com um estilo completamente diferente. Ele deixou aquela linguagem modernista, de vanguarda, agressiva, áspera, e encontrou uma nova técnica de composição, a que ele próprio chamou o nome de tintinnabuli, do latim tintinnabulum, que é um pequeno sino. Portanto, música que tem a ver com as reverberações, com a delicadeza dos sons no silêncio. É um estilo que é intimamente seu. Na verdade, não existe sequer uma escola que siga Arvo Pärt, nem sequer ele ensina. Portanto, no dia em que ele morrer, isto morre com ele, mas é uma linguagem que se reconhece em poucos segundos. Tu ouves uma peça do Arvo Pärt e em quatro ou cinco segundos dizes: "Isto é Arvo Pärt", traz a assinatura dele. Ele escreveu muita música sacra, ele próprio juntou-se depois à Igreja Ortodoxa.

Para casar, pelo que percebi.

Sim, mas eu acho que por convicção, também. Ele é um tipo muito convicto.

Estava ali a surgir mais ou menos na altura do casamento dela com o seu ministro.

Deve ter ajudado, mas esta espiritualidade dele está em toda a música, mesmo na música instrumental, como é o caso da peça que vamos ouvir e que é precisamente a peça que quebra esse silêncio. Portanto, vamos ouvir a música com a qual ele regressa da sua crise. É uma peça que se chama "Für Alina", que vai para a lista que também tem o "Für Elise", por exemplo, que também é para piano, tal como a do Beethoven, e inaugura este estilo tintinnabuli. É um minimalismo, não é minimalismo sacro, mas é uma espécie de essencialismo e lá está, muito ligada à matriz ortodoxa, com as ideias da pureza, a depuração, a busca pela verdade, etc. Vamos a isso. Incrível isto.

Não achas incrível? A pessoa passa anos em crise, em silêncio.

E volta com isto.

E volta com isto.

Estava a ver as fotografias do Arvo Pärt Center. Isto é incrível.

Há fotos dele a segurar em sininhos e a estudar as ressonâncias.

Já falámos noutros programas a importância do silêncio na música.

Completamente.

Ele explora isto.

Sim, ele explora o tempo do silêncio.

Ele pede uma coisa que é: tu tocas as notas até elas desaparecerem. Só voltas a tocar as seguintes quando as anteriores já tiverem a ressonância, elas têm que dar espaço umas para as outras. É engraçado que esta música, esta peça é de 76, ele tem outras muito famosas logo destes anos, o "Cantus in Memory of Benjamin Britten", "Fratres", "Tabula Rasa", "Spiegel im Spiegel", são assim um best of dele, anos 70, tudo música muito simples e pura, com milhões de escutas em todas as plataformas. Portanto, isto vai muito fundo nas pessoas.

Entre ele e o John Williams, trocam de posição várias vezes ao ano para quem é o mais escutado.

Sim, sendo que um joga no capítulo Jurassic Park, Star Wars, etc.

Imagina.

E o outro joga com sete notas só.

Eu estava a ver as fotos deste Arvo Pärt Center. Isto é incrível.

É maravilhoso.

Parece uma espécie de Comporta, mas com mais natureza ainda.

Sim, e sem a especulação.

Isso é exactamente o que eu ia dizer.

Exatamente. Isto é maravilhoso e de facto, ver a programação daquele centro, é isto que me dá confiança de que estão a fazer o trabalho certo.

A arquitectura disto, a floresta à volta disto, isto é incrível.

Tudo faz sentido e tudo respeita, de facto, a visão deste homem que ainda está vivo.

Estou fascinado.

É maravilhoso. E de facto, quão grande é Arvo Pärt? É grande o suficiente para ter este centro.

Steve Reich dizia que ele preenche com a sua música uma necessidade humana que não tem nada a ver com as modas.

Exatamente. É verdade.

Engraçado esta definição do Steve Reich a propósito do senhor Arvo Pärt.

E tu ouves duas notas disto e percebes logo.

Muito bem, Arvo Pärt no "Encontro com a Beleza", esta semana com Martins de Sousa Tavares, claro. Fechamos assim o mês de outubro.

É verdade. Outubro é um compositor morto.

Era isso que eu ia dizer. Guardamos mortos durante o próximo mês.

Já voltamos ao obituário.

Este outubro foi só dedicado a compositores vivos e contemporâneos. Gostei muito. Obrigado, Martins. Um grande abraço.

Até para a semana.

E até novembro.

Até novembro