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Este é o Encontro com a Beleza, com o Martim Sousa Tavares, todas as semanas aqui na Rádio Observador. Pode ouvir todos os episódios também pelo Spotify, pelas plataformas de podcast e no site do Observador. Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o André Maia.
Olá.
Martim, como estás?
Estamos bem.
Estamos ótimos.
Estamos bem.
Gosto muito do título deste episódio do Encontro com a Beleza.
Eu sabia que ias gostar.
O jazz e a clássica entram num bar.
E o que é que acontece a seguir?
Essa é a minha curiosidade, ajuda-me.
O que é que acontece? O que eles pedem para beber?
Bebem um copo, um bourbon.
Não, neste caso, se calhar, bebem uma vodkazinha. Uma vodkazinha. É da Rússia?
Vamos para esse lado.
Vamos. Vou introduzir aqui Nikolai Kapustin, um nome talvez desconhecido de muitos, um compositor que nasceu na Ucrânia em 1937, que é como dizer que nasceu na União Soviética. Morreu em 2020 em Moscovo. Apesar de ucraniano, ele mudou-se para a capital da União Soviética e por lá ficou, ali morreu. Portanto, um ucraniano, um soviético, um russo, um judeu também, que dentro da União Soviética também foram um subgrupo muitas vezes ostracizado, com grandes artistas. Estou a pensar no Brodsky.
Eu ia dizer, uma comunidade artística muito grande.
Vai aqui uma grande sopa. O que é incrível, porque o nome dele vem da palavra couve. Kapustin vem de kapusta, que é couve. Está aqui o homem das couves.
Certo.
Quem é este tipo e por que ele é esta síntese da clássica e do jazz? Vão ouvir e vão ver o que é. Eu próprio só comecei a ouvir falar dele nos anos 2012, 2013, lembro-me que foi quando estava a viver em Itália, e foi através dos related videos do YouTube, que é todo um mundo.
Sim. E é infinito.
Sim, e é uma forma incrível de a pessoa ser alimentada de coisas que não conhece. E no YouTube há uns vídeos que eu adoro ver, que é a música, mas em vez de ser com o videoclipe, é com a partitura.
Uau!
Porque estas peças não têm videoclipe, se calhar.
Uma coisa que a mim não me interessa nada ver. Mas a ti deve ser a tua cena.
Eu tenho um canal no YouTube. É como se fosse um lyric video, mas com a partitura a avançar. Exatamente. Eu tenho um canal no YouTube que criei há 15 anos e nunca apaguei. E tenho lá um, custa-me imenso apagar aquele vídeo, porque ele tem perto de 150 mil visualizações.
Uau!
E é o único de uma peça do Grieg em que alguém se deu ao trabalho de juntar a partitura. Está lá o meu serviço público no YouTube. E foi assim que eu descobri o Kapustin e percebi logo porque é que ele está dentro dessa trend e porque é que o algoritmo pede Kapustin. Porque, de facto, ele é mesmo a síntese destes dois gêneros que muitas vezes andam abraçados, mas que são fundamentalmente diferentes, o jazz e a clássica. De onde é que ele vem, exatamente? Ele vem do lado clássico, como podemos imaginar, nascido na União Soviética na primeira metade do século XX. O jazz não se ensinava ainda nas escolas, ele fez estudos altíssimos de piano, fez o Conservatório de Moscovo. Basta dizer que estudou piano no Conservatório de Moscovo, para nós percebermos que ele não andava a brincar. Estudou com o mesmo professor que foi professor do Horowitz, por exemplo, um dos grandes pianistas de sempre da clássica. Ele tem esses pergaminhos. Mas ao mesmo tempo, isto nos anos 50, o jazz começa a entrar por portas transversas em Moscovo, é ouvido em bares, é ouvido muitas vezes até no circo, curiosamente.
Acho que até já falámos um bocadinho disso aqui.
Sim, as orquestras de variedades introduzem o teatro, muitas vezes o jazz no circo. Os elefantes faziam piruetas e estava-se a ouvir jazz.
Que estranho.
E ele fica fascinado com aquilo e às tantas já está ele próprio a tocar, está a apanhar aquilo de ouvido e está a aprender. E depois, a certa altura, o jazz entra mesmo na União Soviética e para os amantes do jazz, o jazz soviético é uma cena à parte. É um coquetel mix que ficou ali, misturou-se pouco, porque mesmo os músicos do jazz americano não faziam muitas digressões para aquele lado. Os soviéticos também não podiam sair. É quase que uma espécie, um subgrupo biológico, genético específico. Há uns tempos li um texto do Mia Couto, que diz que na Ilha de Moçambique há uns crocodilos que são diferentes geneticamente dos crocodilos do mundo inteiro, porque estão numa ilha e ficaram ali retidos. E eu acho que o jazz soviético é um bocadinho o mesmo.
Engraçado.
Do ponto de vista genético, são ali uma ilha. E este compositor escreve as suas partituras. Ele não diz nem que aquilo é clássico, nem que aquilo é jazz, as pessoas que decidam, mas é uma fusão perfeita, porque às tantas parece que estamos a ouvir o Thelonious Monk, mas de repente passa-nos o Rachmaninoff à frente. Tudo isto numa batedeira, mas sempre muito original e fica muito no ouvido. Vamos trazer aqui uma gravação histórica de uma das peças. Ele tem muitas peças para piano, podia ter escolhido imensas. Escolhi uma que se chama "Toccatina", de um dos estudos de concerto, são peças que são feitas para serem difíceis, para dar muito trabalho a estudar aos próprios pianistas, que é tocada pelo próprio em 1985. Quando ele grava isto, ele ainda não é ninguém. Hoje em dia, ele é muito famoso. As peças dele, os pianistas do mundo inteiro adoram tocá-las como encore depois de um concerto clássico, porque isto é fresco, é virtuoso, é brilhante e soa a uma coisa nova.
Puxa a apoteose no final.
Completamente. O que nós vamos ouvir agora, e eu escolhi trazer esta, porque tem um certo groove do próprio autor. Hoje em dia, se forem ouvir um pianista, tipo a Yuja Wang a tocar isto, tocam ao dobro da velocidade. Torna-se um exercício de destreza, uma coisa que convence pelo brilho, mas aqui eu acho que tem um certo sabor, um bocadinho mais troculento, e vejam lá se não é o jazz e a clássica num bar.
Uau! O que acharam do senhor das couves? Senti mais jazz do que clássica. Estava a ver coisas engraçadas sobre o Nikolai Kapustin e as fotos do senhor não coadunam nada com esta música. Descreve-o. Parece um avô de um anúncio para o Natal, de um chocolate. Tem os olhos um bocadinho caídos nos cantos. Puxa logo para baixo. Eu nunca diria: "Aquele é pianista, aquele é músico e aquele é capaz deste tipo de mistura clássica e jazz". Primeiro pensa-se logo nos norte-americanos, os virtuosos do jazz e do free jazz. Estavas à espera de ver um Bill Evans? Claro, estava à espera de ver um senhor gigante até de outra cor, se quisermos, mas não é o caso dele. E agora estão as pessoas no Google: "Kapustin, com K". Ora vejam. Desiludam-se. É incrível como isto não joga com esta música que acabamos de ouvir e que é espetacular. Estava a ouvir isto há montes de tempo. E disseste que tocam atualmente isto a dobro da velocidade. Tocam isto muito mais rápido. Não vou gostar. É diferente. Isto já é acelerado. Eu acho que isto tem o groove. Daqui para cima já é fogo de artifício. É isso que eu ia dizer. Completamente. Enfim, gostei muito deste tema. De resto, Nikolai Kapustin em destaque, um ucraniano soviético. Estava aqui a ver, a mulher dele morreu quatro dias depois dele. Jura? É sério. Desgosto amoroso, provavelmente. Não sei. Alla Kapustina, a mulher de Nikolai Kapustin. A dona Couve? Exato. Agora ia fazer piadas que não se podem. Muito bem, "Encontro com a Beleza", com Martim Sousa Tavares, sempre na Rádio Observador, disponível em podcast. De resto, para a semana estamos de regresso com mais um "Encontro com a Beleza". Está a ser bom este dezembro. Obrigado, Martim. Estou sempre aqui, com expectativas altas. Um abraço. Um abraço.