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Seja muito bem-vindo a mais um encontro com a beleza. Acontece todas as semanas na Rádio Observador, sempre com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
É verdade, se não for comigo, cuidado, é contrafação. Denunciem e deitem fora.
Como é que estás? Bem disposto?
Estou bem, mas hoje um pouco constrangido.
Por quê?
Porque queria ter feito um programa com este tema faz hoje dois meses. Só que eu confundi, achei que era para 7 de dezembro e até anotei que era uma efeméride bonita e afinal foi a 7 de outubro, que era celebrar os 70 anos da lenda viva do Yo-Yo Ma, que é talvez o violoncelista mais famoso de sempre, é uma pessoa incrível, e quando ia começar a fazer a investigação sobre ele, vi: "Ah, mas afinal era em outubro". Portanto, Yo-Yo, se estiveres a ouvir-nos, desculpa.
Ele vai ouvir.
Eu acho que sim. Bem, quando ele fez 70 anos, teve todas as homenagens possíveis, portanto esta vem um bocadinho depois. Será especial por isso. Quem é Yo-Yo Ma? É um violoncelista, mas dizer que é um violoncelista é pouco. Ele é embaixador para a paz da ONU desde há uma data de anos. Em 2020, o Times considerou-o uma das 100 pessoas mais influentes de todo o mundo.
Ele tem um ótimos na educação, estou aqui a ler.
Não, esquece. Esse homem é a educação. Já lhe deram todos os prêmios possíveis, gravou perto de 100 discos, ganhou 19 Grammys.
É muito bem informado, diria.
É, em todos os sentidos. Toca, como é óbvio, um violoncelo Stradivari de 1712, que lhe foi oferecido pela própria Jacqueline Du Pré, que dizia: "Ah, eu este violoncelo não consigo controlá-lo. Toca tu nele". E o Yo-Yo Ma-
Era uma criança prodígio, não era?
Era, exatamente. É engraçado, ele é americano, mas chinês originalmente, porém nascido em Paris. Os pais dele eram ambos músicos com alguma importância na China e fugiram durante a Guerra Civil Chinesa para escapar ao comunismo, naqueles anos duros entre o governo Kuomintang e o Partido Comunista Chinês. Foram se exilar em Paris, depois acabaram por ir para os Estados Unidos, o que foi ótimo para o jovem Yo-Yo Ma, porque aos três anos os pais já tinham percebido que tinham ali um prodígio. Isto com os chineses é assim, aos três anos tu começas.
Claro, se não começar, já vai tarde.
Exato. Esperar pelos quatro, cinco, não vale a pena. Aos três anos ele já tocava vários instrumentos, ao ponto de aos quatro, o pai dizer: "Bom, ok. Time to get serious, vamos lá escolher um só". Ele supostamente queria o contrabaixo, porque era grande e divertido, e o pai disse: "Não, contrabaixo não, vais antes tocar violoncelo". E pronto, perceberam que era um prodígio. Entretanto, eles mudam-se para os Estados Unidos, primeiro para Boston e depois para Nova York, o que calha superbem para a vida do Yo-Yo Ma, porque pode assim ir estudar na Juilliard, que é aquela escola que eu disse que qualquer ano em que tu entres na Juilliard, tu vais ser colega de curso de grandes gênios. Mas, como tu dizes, bem informado, por quê? Vai estudar violoncelo na Juilliard, mas vai também tirar o seu diploma de antropologia na Universidade de Harvard.
Sempre que ele consegue.
Exatamente, porque sobra tempo. Estuda no comboio. De resto, universidade essa onde mais tarde lhe deram o honoris causa. Ele deve ter para aí 30, 50 honoris causa.
Também tem 19 Grammys.
Já disse isso, exatamente. Dezenove Grammys. É incrível a carreira deste homem. Aos sete anos, e isto é muito bonito, porque eu acho que isto nunca aconteceria hoje em dia. Nos Estados Unidos, ele tocou para o presidente Eisenhower, mas também para o presidente Kennedy, numa cerimônia na televisão, com o Bernstein a dirigir a orquestra, que era um evento de angariação de fundos para aquilo que viria a ser o que é hoje o Kennedy Center for the Performing Arts, que fica ali em Manhattan e tem várias salas.
Que agora é o Trump que manda.
Exatamente, agora é o Trump que manda naquilo.
Que mandou toda a gente embora e disse: "Agora sou eu".
Desfinanciado, exatamente. No programa, tinha vários cantores, com o Bernstein ali com a orquestra, às tantas entra o Yo-Yo Ma pequenino, com sete anos, a tocar violoncelo, acompanhado pela irmã, que tocava piano. A irmã com 11 anos. E isto era por quê? Por que eles entravam? Porque o Bernstein e o programa queriam mostrar o orgulho que os Estados Unidos tinham em acolher estes expats, estes imigrantes brilhantes que escolheram os Estados Unidos como a sua casa. Isto nunca hoje em dia aconteceria. E é engraçado porque o Bernstein está então no início da carreira do Yo-Yo Ma, e o Yo-Yo Ma está também no fim da carreira do Bernstein. Um ano antes do Bernstein morrer, ele aceitou escrever uma peça especificamente para o Yo-Yo Ma, e no dia em que o Bernstein morreu, no quarto do hospital, estava a assistir a um concerto do Yo-Yo Ma na televisão. Uma forma bonita como um está no princípio da carreira. Ligadíssimos. Bom, já toda mundo ouviu Yo-Yo Ma, quer saibam, quer não, porque ele entra nas bandas sonoras do Morricone, nas mais famosas, entra nos filmes do John Williams, ou a música que eu hoje vou pôr a tocar, que só no Spotify tem 376 milhões de escutas. No Spotify, só. Mesmo o Spotify pagando, como é que é? Tipo 0,001 cêntimos. Até pagando isso, isto tem que dar algum dinheiro. Ele já colaborou com todos os músicos que vocês possam imaginar. Eu nem vou falar dos da clássica, mas do Bobby McFerrin a Metallica, de James Taylor a Carlos Santana, de Miley Cyrus ao Sting, enfim, literalmente todos. Ele é tocado lá com a mais alta cúpula de humanistas do planeta. Queres falar com quem? Com o Kofi Annan, queres falar com o Papa Francisco? Os que estão vivos. Tem o telefone deles todos. E entre os seus infinitos projetos, eu vou escolher um que acho muito bonito, que é o ensemble da Rota da Seda, que ele fundou, que junta músicos e repertórios dos países e dos lugares que estavam unidos pela antiga Rota da Seda, que atravessava a Ásia desde a costa da China, no Pacífico, até atravessava a Ásia Menor, o Médio Oriente, Norte África, entrava pela Europa de Leste e ia para a Europa Central. Já esteve em todas as causas possíveis, desde ser o primeiro músico a tocar no Ground Zero, no 9/11, à pandemia, à desflorestação, à neurociência, já colaborou com António Damásio, enfim, eu não sei o que mais dizer. Quero dar os parabéns ao Yo-Yo Ma. E vamos ouvir, vamos dar mais uma escuta a esta música, que não precisa de introduções, mas que é um prelúdio de uma suíte de Bach. Onde é que já tinhas ouvido isto?
É um hit. É um hit que anda em todo lado. Acho que já foi usado, sei lá, num anúncio de perfume.
De certeza, todas as playlists para estudar.
Ou se usar água de colónia nesta altura de Natal.
Tudo. Mas esta, provavelmente, se conhecem esta música, conhecem-na na versão do Yo-Yo Ma. Porque acho que o algoritmo funciona por agregação. Imagina, há muitas versões desta música. Tu queres encontrar uma, o algoritmo vai-te dar a mais ouvida, portanto ela torna-se ainda mais ouvida. 376 milhões de escutas. Fogo, é incrível.
Tu consegues distinguir quando é o Yo-Yo Ma a tocar?
Não.
É difícil.
Impossível. Acredito que um entendido consiga, ou reconhecendo o som do violoncelo dele ou reconhecendo a sua forma de tocar. Agora não passo horas suficientes a ouvir Yo-Yo Ma.
Bom, ficamos a conhecer um vulto.
Um vulto mesmo, um humanista, um homem de causas e uma figura da cultura mundial.
Está a ir para os 70 anos. Parabéns.
Já fez muito para a idade que tem.
Chegamos um bocadinho atrasado, mas fomos a tempo, Martim Sousa Tavares, esta semana no "Encontro com a Beleza", dar os parabéns a Yo-Yo Ma. Gostei muito de o conhecer, Yo-Yo. E até para a semana, Martim.
É isso, é o efeito Yo-Yo.