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Este é o Encontro com a Beleza, na Rádio Observador, com o maestro Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Ora viva.
Como estás?
Bem.
Vamos fechar o mês, não é?
O mês e o ano. Estamos na 52ª semana do ano, para fechar 2025.
É por isso que se chama estação terminal.
Quantos episódios tivemos este ano, meu caro Nelson?
52.
52. Não falhámos nenhuma semana.
Incrível.
Faça chuva, faça sol.
Nós cá estamos.
Nós cá estamos a capitanear este caminho.
Alguém tem que o fazer.
É isso mesmo. Alguém tem que o fazer, alguém tem que levar o país para frente. Mas quero aproveitar a ocasião para dizer que fechamos não apenas o ano, mas vamos também encerrar este podcast. Agora sim, um ponto final, uma estação terminal, em bem.
Achas que as pessoas vão acreditar no que estás a dizer?
Poderão não acreditar.
Passa o ano não há episódio e elas têm a confirmação.
Podão estar em negação. Até porque, na verdade, este podcast já teve uma interrupção no momento em que eu estava a escrever o meu primeiro livro, mas de resto, desde setembro de 2022 até agora fomos bastante certinhos. Acho que parámos em agosto, ali um par de anos, mas não sei quantos episódios temos no bolso, talvez uns 200, uma coisa assim.
É todo um espólio para descobrirem ao longo de muito tempo. Até cá havia saudades.
Eu chamo-lhe um legado. Eu chamo isto o nosso legado. E é engraçado.
É um prazer fazer parte dele.
Mas é mesmo um capítulo bonito da minha vida. E é engraçado, porque de setembro de 2022 até agora passou muita água debaixo da ponte e a minha vida foi extremamente dinâmica, mas acho que isso não transpareceu aqui. Isto, apesar de tudo, foi um espaço de viagem em velocidade de cruzeiro, em altitude de cruzeiro.
Tu estás aqui numa missão, Martim. Ela foi conseguida.
Pois, não sei, mas eu sinto que como todas as viagens.
Levou para a beleza.
É isso. Eu acho que como todas as viagens, esta também tem que ter o seu momento de terminar, tem que ter a sua estação terminal e eu sinto que esse momento chega agora. Eu não decidi terminar por falta de carinho, nem dos ouvintes, nem do observador. Ou seja, pelo contrário, sei que há muita estima por este podcast, as pessoas fazem questão de me dizer e de me escrever, mas eu gosto dos ciclos da vida, gosto que as coisas se mantenham frescas e honestamente sinto que o meu trabalho aqui está feito. É claro que eu só raspei a ponta do iceberg. Continua a haver muita música para ouvir, continua a haver muitas histórias para contar, mas o que eu queria, o importante, está feito, está mostrado, que é esta atitude de mente aberta, a curiosidade e aquilo que eu considero humanismo, a forma como as coisas se podem cruzar e conviver, mesmo sob este chapéu alargado da música clássica. Portanto, eu considero que este é o legado que eu deixo ao observador, que nós deixamos aos ouvintes, e quero convidar as pessoas a revisitarem estes episódios, porque são centenas. Quem é que se lembra do que nós fizemos em outubro de 2022 ou em fevereiro de 2023? Puxem lá para trás. Eu acho que, ao contrário de outros podcasts, que se calhar andam mais ao sabor dos acontecimentos e passado um mês já não fazem sentido, eu acho que estes continuam a fazer sentido. Portanto, para acabar em beleza, como é que uma pessoa conclui uma viagem destas? Eu pensei: vou escolher o meu compositor favorito deste momento e da minha vida, talvez, que já aqui trouxe antes.
Se é que quiser desta semana.
Não, da vida. Já acompanha há algum tempo. Se imaginaram que eu vou dizer Kurt Weill, então acertaram. Eu não vou contar a vida dele, que já abordei num episódio logo em setembro de 2022, portanto, eu disse logo ao que vinha. Vou sim falar sobre esta música específica, que é maravilhosa, e é uma verdadeira celebração da vida e daquilo que há para viver em todos nós. A canção chama-se "One Life to Live", e eu gosto tanto dela que incluí-a num espetáculo que eu próprio escrevi de tributo ao Kurt Weill, que estreou em 2024 no São Luís, que se chama Speak Low, com a Catarina Wallenstein a brilhar e que continua em cena ainda por 2026 adentro. É de um musical da Broadway, que se chama Lady in the Dark. A letra é do Ira Gershwin, um dos grandes letristas e irmão do George Gershwin, e é do período americano do Kurt Weill. Portanto, ele é um alemão, já está expatriado, e eu vou só repetir o quão awesome é ter um alemão a contribuir para o chamado Great American Songbook. Portanto, todas estas canções icônicas, quase todas, são ou de expatriados ou de filhos de expatriados. Portanto, é engraçado como a cultura americana, de facto, é construída por todos. Sendo que o Kurt Weill também já tinha imensos êxitos em alemão, como é óbvio, ele era uma celebridade nos anos 20, na Alemanha de Weimar, e tem pelo menos um êxito em francês também, porque o primeiro exílio dele foi em Paris. Então, estamos em 1943, na Broadway. Este musical é um sucesso. Três anos depois, ele é posto em filme com a Ginger Rogers, que na altura era a grande estrela no papel principal, e coincidiu com o verdadeiro momento de afirmação do Kurt Weill noutro país, noutra língua, através do seu imenso, eu vou dizer, infinito talento. Dá a ideia que se o mandassem para a China, ao fim de alguns anos ele estava a fazer êxitos também em chinês, ou se o mandassem para o Brasil, etc. Era fixo, por acaso tinha sido giro. Ou Argentina, tinha sido giro. Ele ainda haveria de viver uma vida serena até 1950, profundamente enraizado na sociedade americana. Ele assim que lá chegou, disse que nunca mais ia dizer uma única palavra de alemão. Portanto, ele assumiu mesmo aquele bem-estar não só material, mas de paz, uma sensação de paz e de liberdade. E ele, apesar de não ser americano, de ser alemão, ele não era indiferente aos temas sociais, como por exemplo, a segregação racial, que lhe custava imenso a aceitar. E enquanto patriota do seu novo país, ele decidiu que também tinha que dar voz a essas causas. E um dos musicais mais bonitos e tocantes dele, na verdade, é o último que ele escreveu, e é precisamente sobre isso, chama-se Lost in the Stars, e passa-se na África do Sul, e é mesmo a última coisa que ele fez antes de morrer aos 50 anos. Morte precoce. Então, vamos ouvir uma versão cheia de energia e divertida, cantada pela Ute Lemper, como não, a grande voz deste repertório, que como boa alemã que é, manda ali uma calinada na pronúncia, hás de reparar, que há uma frase que diz milestone, mas ela diz millstone.
Eu adoro o sotaque dela.
É isso, mas que isso lhe seja perdoado, porque a música é muito boa e ela está cheia de snica e, de facto, só temos uma vida para viver.
There are many minds in circulation. Believing in reincarnation. In me you see one who doesn't agree. Challenging possible affronts. I believe I'll only live once. And I want to make the most of it. If there's a party, I want to be the host of it. If there's a haunted house, I want to be the ghost of it. If I'm in town, I want to be the toast of it. I say to me every morning. You've only one life to live. So why be downy? Let's let the sun in. And bloom can jump in the river. No use to beat on the doldrum. Let's be a matter of team. Each day is numbered. No woman slumbered. With only one life to live. Why let the goblins upset you? One smile and see how they run. And what does worrying net you? Nothing. The thing is to have fun. All this may sound kind of heady to me. But it's the best I can give. Soon comes December. So please remember. You've only one life to live. Just one life to live. What you collect at the grindstone. Becomes a millstone in time. This is my thesis. Why go to pieces? Step out while you're in your prime. You may say I'm an escapist. But I would rather by far. Be that than be a retapist. Lead me, speed me, straight to the bar. Just laugh at old man repression. And sentiment you won't live. Then you're the winner. I'm off to dinner. I've only one life to live. Just one life to live.
Parece os créditos finais.
Não é? Dos Looney Tunes. É anos 40.
Foi ótimo.
Acho que são anos 40.
A Ethel Merman é a maior. Nunca se livra da colagem à Marlene Dietrich e à Édith Piaf.
Mas acho que ela própria explorou essa colagem.
É o género dela.
Essa coincidência de serem parecidas. Mas é uma grande senhora.
É mesmo.
Ótima sugestão para terminar aqui.
"One Life to Live", eu adoro esta música. Deixa-me sorridente, deixa-me cheio de energia. Estação terminal, é verdade, que é um dos passageiros que tem que sair, quer queira, quer não, porque a vida é assim. Foi um gosto também.
E acho que o fizeste muito bem e acho que é um trabalho de facto importante. E não é arrogante dizer que é um espólio. Explorem este "Encontro com a Beleza". São muitos os episódios e foi um gosto fazê-lo.
Estão cá todos para vocês na prateleira. Não os deixem ganhar pó. Continuem a ouvi-los.
Se calhar vai ser um all time hit, o "Encontro com a Beleza".
Se calhar, por que não?
Como falámos alguns episódios atrás.
E por que não? Enfim, quero agradecer muito ao Observador, o convite que me fez em 2022, a ti, que estiveste em todos os episódios, salvo erro. Acho que talvez só num episódio, fizemos sem ti e concordámos que foi péssima ideia.
Deve ter estado constipado.
Ou estavas de férias, já não me lembro.
Estava resfriado.
Exatamente. Obrigado a ti, Nelson.
Obrigado eu, Martim.
Que copilotaste isto muitíssimo bem. E obrigado aos nossos ouvintes que estimam este podcast, que nos ouviram, que nos acompanham, que o recomendam e, por favor, não deixem de o fazer. Não deixem de o ouvir só porque terminamos por aqui.
Martim, até sempre.
Até sempre. Um abraço.