Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E já cá está comigo o maestro Martim Sousa Tavares. Está no ar o "Encontro com a Beleza", uma vez por semana, sempre na Rádio Observador e também disponível em todas as plataformas podcast. Olá, Martim, bem-vindo.

Vamos a isso.

O Martim hoje faz uma pergunta: que instrumento é este?

É verdade.

É tipo um quiz, vamos tentar adivinhar.

É porque eu garanto que se eu não dissesse nada, se ouvíssemos primeiro a música e depois eu falasse, dificilmente as pessoas chegariam ao instrumento. Porque a questão é que não é só um instrumento, é um instrumento que está preparado, é um piano preparado. Já alguma vez ouviste falar do conceito de piano preparado?

É tuning?

É, literalmente. É, exactamente. E ele deixa de estar homologado, portanto, não pode ir pra estrada. Mas saca uns efeitos muito giros.

Em termos de sons, porque o Liberace tinha uns bonitos.

Exatamente. Mas piano preparado é qualquer piano que é preparado para ser uma coisa diferente. Eu já vi aqui em Portugal o piano lareira.

O que é isso?

É um piano vertical, que em vez de placas de madeira, são placas de vidro, e lá dentro tem uma lareira verdadeira, com fogo verdadeiro. E vi também o piano aquário. Tal como o nome indica, é um piano-

Como é que sai o fumo? Que estranho.

Não sei, mas foram duas engenhocas que vi no ateliê do Fernando Rosado.

Mas são engenhocas, não têm efeito nenhum sonoro.

Não, mas tu tocas, tu podes tocar. Tanto num como no outro.

Deve ficar um bocado diferente, não?

Exatamente. Sim, imagino que sim. Mas o piano preparado, quem é o inventor desta coisa? Chama-se John Cage, que é o maior enfant terrible da música clássica de todos os tempos. Ponto final. Ele nasce em 1912, morre em 1992. É famoso porque tem uma peça que é só silêncio, que é o 4'33", aquela peça em três andamentos, que são quatro minutos e 33 segundos em que ficamos só parados, que é um jogo sobre como o silêncio não existe, o silêncio enquanto tal, o silêncio puro não existe. Portanto, nós podemos ficar quietos durante quatro minutos e 33, mas vamos ouvir uma cadeira a ranger, vamos ouvir uma pessoa a tossir, vamos ouvir seja o que for. Ele próprio foi pra uma câmara anecoica, que são aqueles espaços desenhados por engenheiros acústicos para eliminar o som, e descobriu que nem aí existe silêncio, porque ele conseguia ouvir o seu próprio coração a bater, a sua própria corrente sanguínea. Fez essa peça famosa, mas tem uma, que vais adorar saber isto, uma peça dele que demora 639 anos a ser tocada.

Como assim?

Assim mesmo. Chama-se "As Slow as Possible" e foi instalada num órgão na Alemanha, onde está a ser tocada desde 2001 e prevê-se que vai terminar em 2640.

Ok.

E ela, de facto, é as slow as possible, portanto, tu vais lá e aquilo está lá 24 horas por dia, o órgão está a tocar, e sabe-se quando é que as notas vão mudar. Imagina, a próxima mudança é no dia 2 de janeiro de 2027. Então as pessoas juntam-se nesse dia para ver a nota a mudar. E agora a próxima mudança é só daqui a um ano.

Eu gostava de ir lá ver isso.

Podes ir. Fica na Alemanha, acho que é na igreja, agora não me lembro o nome do santo, mas se procurares John Cage, Organ.

Essa história é incrível.

É fascinante. E inventou também entre muitas outras coisas.

Ele era muito apreciado pela malta da indie também e do rock.

Completamente. E pelos ecologistas do som. É espetacular.

Sonic Youth, Frank Zappa, é tudo fã de John Cage.

Exatamente. A cara dele provavelmente está no Sgt. Peppers, é uma daquelas muitas que lá estão. Então ele vai inventar o conceito do piano preparado em 1940. E como é que isto surge e o que é que isto é? Ele quer fazer a música para uma coreografia, que se ia fazer num espaço em que ele queria ter instrumentos de percussão, mas só havia um piano e não dava para trazer ali outros instrumentos. Então ele pensou: "Bom, eu vou então transformar o piano num instrumento de percussão", que ele já é, porque a mecânica do piano, tu carregas uma tecla e há um martelo que bate numa corda. E ele pensa: se o martelo, em vez de bater na corda, bater num objeto que eu ponho na corda, vai dar outro som. Então ele começa a experimentar. Quem já viu as cordas dos pianos, cada nota tem três cordas esticadas, depois as mais graves já só têm uma, e entre essas cordas dá para pôr parafusos, porcas, pregos, borrachas, clipes, recortes de papel, etc. E elas ficam lá entaladas em diferentes sítios das cordas e ao tocar saem uns barulhos bizarros. De facto, deixa de ser um piano. Ele gostou imenso da ideia, isto em 1940, e entre 1946 e 1948, ele cristalizou o conceito do piano preparado nas sonatas e interlúdios para piano preparado, que são 20 peças. Nós vamos ouvir uma delas e que são consideradas um dos seus auges artísticos. Ele transforma, literalmente, a orquestra num instrumento percussivo. Na partitura, ele diz o que tens que pôr e onde, com medidas exatas das porcas, os materiais, etc. E depois escreve a partitura. Os teus dedos andam a tocar nas teclas, mas em vez de ouvirmos as notas, é uma batucada, basicamente. Mas com imenso groove, é giríssimo. E isto é um compositor que ainda inventou muito mais coisas depois disto. Ele ainda teve uma crise espiritual, porque ninguém o compreendia. Pudera, vamos ouvir esta música e percebe-se.

Virou budista.

E é aqui que ele vai trocar aulas com uma música que vem da Índia e que está nos Estados Unidos e quer aprender música ocidental. E ele diz: "Eu ofereço-te aulas de música ocidental, se tu me ofereceres aulas de música indiana". Então aqui ele vai se virar para filosofias de meditação, depois o zen, etc. E liberta-se completamente. O radicalismo dele é a libertação total dos sons, é ele aceitar quaisquer sons num plano de igualdade. Uma nota musical ou uma lata de Coca-Cola a cair ao chão, para ele tem o mesmo valor. E há nisto também um aspecto político, a ecologia dos sons, a liberdade dos sons, a igualdade dos sons, enfim, podemos ver pra onde é que isto vai. Nós é que ainda não nos libertámos, porque esta música ainda parece estranha. Portanto, piano preparado John Cage. Estás preparado pro piano preparado?

Estou preparado e acima, estou muito curioso.

Bora.

Vamos a ele. Dizes que é um piano?

Isto é um piano. Ou melhor, isto é o que resta de um piano.

Parecia uma guitarra a maior parte do tempo.

Ou um sino. É muito bizarro.

Adoro o que ele faz com os silêncios, de facto, é uma das marcas dele. E nesta peça dá para notar.

São super dramáticos.

Mas faz super sentido. Gostei muito.

Agora imaginas o que foi alguém ouvir isto em 1940?

Sim. Está louco.

Alguém que em 1940 tivesse 60 anos, era uma pessoa nascida em 1880. Portanto, uma pessoa vitoriana. Claro que ninguém compreendeu.

Estava a querer uma história engraçada de uma banda chamada Penguin Cafe Orchestra, que quando o Cage morreu, compôs uma peça com as letras Cage Dead, com uma melodia, com o C-A-G.

Sim, porque são tudo letras de notas.

Exatamente. Fiquei curioso para ouvir esta Cage Dead.

Nunca tinha pensado nisso. Dead Cage?

Cage Dead. E ele compôs consoante estas notas, o C-A-G.

Exatamente. Engraçado.

Penguin Cafe Orchestra. Vou pesquisar também agora, fiquei curioso.

Mas esta é uma peça que muitos pianistas têm relutância em tocar, porque estão a ver o que estão a causar ao teu próprio instrumento.

Sim.

Ele não fica nas melhores condições.

Pois, claro. Imagino. E tens o trabalho de o fazer. Há um tutorial para saber como pôr os objetos?

Ele dá um livro de instruções com a partitura, em que te diz exatamente entre quais cordas, a quantos centímetros das extremidades é que vais pôr uma porca de oitavada, por exemplo, de não sei quantas polegadas, porque é tudo em medidas americanas.

Martim, quando é que apresentas um?

Adorava.

Isto é uma ideia espetacular, adorava de ver.

Pois é.

John Cage, e que história de vida também.

O piano preparado.

O piano preparado e um norte-americano que ainda hoje é o herói de muita gente. Thom Yorke diz ele que é um dos seus heróis. Do Radiohead.

É engraçado, porque ele apesar de ter sido muito radical, sempre foi muito elegante. Ele não era nada de "vamos pôr bombas", era sempre muito elegante, só defendia as ideias dele.

Giro, gostei muito. John Cage em destaque no "Encontro com a Beleza" desta semana, sempre aqui na Rádio Observador, com o Martim Sousa Tavares, que regressa de hoje a uma semana. Um abraço, Martim.

Até para lá.