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Vai ser inaugurado amanhã o Centro Interpretativo do Estado Novo, Regime e Resistência. Vai ficar instalado na Escola Cantina Salazar, em Vimieiro, Santa Comba Dão. Fica a poucos metros da casa onde nasceu o ditador. Um projeto que gerou anos e anos de polémicas entre os que consideram que se trata de uma espécie de museu de homenagem a Salazar e quem defende que a iniciativa é meritória, serve para albergar o estudo do Estado Novo, um período que necessita obviamente de ser estudado. É sobre isto que vamos falar agora. Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França e quem é o nosso convidado, Judite?

Luís Nunes, é vice-presidente da Câmara de Santa Comba Dão. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade.

Muito boa tarde.

Este centro interpretativo é um local de estudo ou de homenagem a Salazar?

Não é de homenagem, de todo. Não é esse o objetivo, não é esse o propósito. Acontece que vamos utilizar uma escola construída na altura do Estado Novo, que tem a designação inscrita em granito no exterior, Escola Cantina Salazar. Vamos ter uma sala de aula representativa ao estilo da época, onde também estará uma fotografia do Salazar e do Presidente da República e um crucifixo, como era tradição nessa altura. Mas todo o resto do espaço vai ser dedicado à exploração de materiais da época, nomeadamente do acervo documental que a Associação Cultural Efémora, que é nossa parceira neste projeto, vai disponibilizando e vamos arrancar precisamente com o tema sobre a censura durante o Estado Novo, censura na música, na literatura e noutras partes do regime que era uma prática comum.

Luís Nunes, há uma colaboração, já o disse, com a Efémora, de José Pacheco Pereira. Também foi uma forma de tentar afastar eventuais polémicas?

É uma forma, sobretudo, de trazer aqui uma certa objetividade que o acervo documental e os documentos históricos nos permitem ter sobre este período da história, para além das emoções naturais que possa haver e das opiniões políticas, ideológicas. Portanto, a documentação do espólio da Efémora permite essa análise mais fria e objetiva daquilo que foram determinados aspetos do Estado Novo. Ou seja, neste caso, desta primeira exposição que vamos ter, temos a obra censurada, mas também o documento do censor, que justifica o motivo da censura. E isso, para muita gente, será uma novidade, perceber que a censura tinha todo um processo também burocrático que ficou registado e esses documentos estão disponíveis. Portanto, cada um interpretará depois por si aquilo que são as razões, neste caso, da censura e nos temas futuros, porque isto é uma exposição que se pretende rotativa em termos temáticos, cada um fará a sua interpretação. O espaço também vai permitir debates. Vamos ter um auditório para debates, para mesas redondas, como aliás vamos ter já na inauguração, e portanto, também para discutir diferentes aspetos associados a este período da nossa história recente.

É certo que a campa de Salazar tem sempre flores frescas, pelo que percebi, e há quem passe pelo Vimieiro numa espécie de romaria de homenagem a Salazar. Estamos a falar de tempos de grande polarização. A Câmara não teme estar, de alguma forma, a criar aqui um altar ao ditador?

Não, não há nenhum altar ao ditador. Acontece que Salazar era desta aldeia, foi enterrado na sua aldeia e a casa dos pais é nesta aldeia. Portanto, nada disso foi demolido, existe. A campa, sobretudo, existe e há uma romaria de pessoas que vêm de todo o país, inclusivamente às vezes do estrangeiro, que procuram a campa de Salazar. Quanto a isso, nós nada podemos fazer, nem devemos fazer, na minha opinião.

Claro.

Mas de todo existe um altar. O que existe, efetivamente, e isso continua a acontecer, quer em Santa Comba Dão, quer noutras cidades do país, por exemplo, a celebração até de missas invocando o nascimento ou a data de falecimento do ditador. Mas isso não se consegue impedir, porque é de iniciativa privada. Aquilo que representa a iniciativa do município, que é criar este centro interpretativo, não pretende, de todo, ser nem uma homenagem, nem um altar, nem um mausoléu a Salazar. Não é nada disso que se pretende. Antes pelo contrário, é criar um espaço que regule essa tendência, criando aqui um espaço de reflexão, de análise nos aspetos diferentes que caracterizaram o Estado Novo, que se insere numa época histórica em que o fascismo de facto dominou potências importantes na Europa e que teve as consequências que todos nós conhecemos.

E esta ideia demorou muitos anos a concretizar, mas é um pouco transversal. Autarcas do PS, autarcas do PSD estiveram envolvidos sempre nesta ideia, Luís Nunes.

Exatamente. Ou seja, não se trata de um projeto nem de um partido, nem de outro, ou seja, nem do PSD, nem do Partido Socialista, que historicamente governaram o município de Santa Comba Dão. Inclusivamente, esta associação com a Efémora resultou de um protocolo assinado no ano passado, em 2025, ainda pelo Executivo Socialista, e que nós decidimos naturalmente continuar e concretizar. Ou seja, neste momento o que houve foi a vontade de assumir que este projeto é para concretizar. Nesta perspetiva De ser um centro interpretativo do Estado Novo Regime e Resistência, e vai ser aberto a partir de amanhã, com uma exposição que marca precisamente não o aspecto elogioso, mas um dos aspectos críticos do Estado Novo e de outros regimes fascistas, que era o controle da opinião pública, através da censura na música, na literatura, na imprensa. Portanto, há aqui uma vontade de concretizar isto, independentemente do partido que governa.

Tem iniciativas já previstas? Há um caderno de uma agenda para este centro interpretativo?

Sim. Amanhã vamos arrancar com uma mesa-redonda, em que vamos ter não só o doutor Pais Pereira. A mesa-redonda vai ser moderada pelo Nuno Galopim, mas também pelo Rui Vierneery. E vai ser anunciada amanhã a comissão científica que a Efémera vai constituir para fazer a programação e vão ser anunciadas as primeiras iniciativas já para este ano. Mas isso vamos guardar para amanhã, para termos aqui alguma novidade também para anunciar amanhã.

E qual é a expectativa em relação a visitas?

Há a tal procura natural que já existe pelo Vinheiro e por tudo que tenha a ver com Salazar e o Estado Novo, e que certamente vão alimentar de forma natural este espaço. Depois, já temos, há algumas semanas para cá, quando anunciamos que de facto se ia concretizar a abertura, escolas que pretendem visitar a exposição da Efémera e o espaço. Portanto, nós esperamos ter uma procura mista daquilo que é o turismo propriamente dito, o turismo histórico, se quiserem, mas também as visitas pedagógicas, nomeadamente por parte de escolas. E depois, o programa que vamos ter com diferentes mesas-redondas temáticas vão certamente também alimentar aqui a visita ao espaço. Essa é a nossa perspectiva. Portanto, não é propriamente na perspectiva do retorno econômico do turismo tradicional, mas de um turismo pedagógico, de um turismo cultural que procura este espaço.

Já agora, fale-nos um pouco do local onde vai ser instalado o centro interpretativo. É a Escola Cantina Salazar, isto tem uma história por trás.

Sim. O edifício foi aberto no início dos anos 40, provavelmente em 1940, uma obra do Estado, que depois tem a particularidade de ter uma cantina associada. E essa cantina foi mantida por donativos de privados, que totalizaram 255 mil escudos, que posteriormente o Estado inclusivamente institucionalizou como sendo critério para as escolas poderem ter cantina. Isto é de 1946, a legislação que diz que as cantinas que tenham donativos privados superiores a 200 mil euros podem ter uma cantina associada. E, portanto, esta escola tem essa particularidade que associava não só uma escola pro ensino primário, mas também um refeitório que permitia às crianças terem refeições. A escola funcionou até o ano letivo de 2008, 2009, quando depois abriram os centros escolares modernos em Santa Comba Dão. Portanto, nós inclusivamente temos alguns funcionários dos mais jovens que ainda tiveram aulas nesta escola, claro, com uma configuração mais moderna das salas.

Manteve o nome gravado no granito, na parede.

O nome está gravado no granito, exatamente. Portanto, na fachada do edifício mantém-se a gravação em pedra granítica, Escola Cantina Salazar.

Luís Nunes, deixe-me aqui mudar um bocadinho de tema, sendo vice-presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. Aproveitando a sua presença, estamos aqui com N manifestações, sobretudo em Lisboa e Porto, relacionadas com a questão da habitação. E nós pensamos sempre que isto é um problema, e é obviamente um problema em Lisboa e Porto, nas grandes cidades. A sua realidade aí nesta altura, em termos de habitação, de oferta, qual é? Só para percebermos também aqui um pouco no distrito de Viseu, para perceber como é que as coisas estão aí.

Obviamente que não tem nada a ver com a situação de pressão que existe sobre habitação em Lisboa. O que nós temos verificado e que para nós, enquanto município e concelho, tem sido positivo, é o aumento da procura efetiva. Portanto, isso acaba por ser importante porque no interior onde tem havido um movimento que por vezes é de despovoamento, nos últimos anos, o concelho tem crescido em termos de população. Nós neste momento, desde o último Censo de 2021 até às estimativas do INE em dezembro de 2025, conseguimos crescer cerca de 5, 6%. E isso obviamente reflete-se também na procura de habitação, mas não temos de todo a pressão demográfica sobre a habitação, como existe em Lisboa, Porto, outras cidades de maior dimensão. O que percebemos é que, de fato, há um crescimento da procura, por via de pessoas que estão a regressar ao interior do país, por via da imigração também, que é um movimento muito significativo que compensa o despovoamento. Portanto, os problemas da habitação aqui não se colocam do mesmo modo e inclusivamente Santa Comba Dão, ainda recentemente numa notícia de jornal, era destacado como um dos concelhos do distrito onde a habitação também era mais barata. Portanto, acaba por ser uma procura que, no nosso caso, ainda é benéfica pra desenvolvimento do território. Naturalmente, se esse crescimento se mantiver, a própria procura e a própria oferta ao nível da habitação vão ter que se ajustar. E neste momento, nós iniciamos o mandato há menos de um ano, mas ao longo deste ano já surgiram vários investidores a quererem também construir em Santa Comba Dão, empreendimentos imobiliários, porque reconhecem a procura.

Até que ponto é fácil, por exemplo, uma câmara municipal querer construir casas? Falamos muito da questão da oferta e da necessidade de construção. Se a Câmara Municipal de Santa Comba Dão quiser construir um empreendimento com 150 fogos, conseguia fazer isso num curto espaço de tempo?

Objetivamente, o nosso município não tem condições para tal, mas é preciso reconhecer que o governo e o Instituto da Habitação, IHRU, têm lançado programas de apoio à habitação social ou de rendas controladas. Esse financiamento existe, o que acontece é que as linhas de financiamento que abriram este ano foram, sobretudo, para concretizar projetos que tenham ficado sem financiamento ou por concluir no âmbito do PRR. Nós aqui em Santa Comba Dão herdámos uma situação em que não houve essa previsão, esse projeto de construir habitação, o que havia era um projeto para reabilitar a habitação social que nós temos, mas que também não chegou a ser concretizado. Portanto, foi uma oportunidade perdida para aproveitar os fundos do PRR para requalificar a habitação social. Do ponto de vista objetivo, o município não tem condições para lançar, do ponto de vista de investimento necessário, somos uma câmara pequena, com um pequeno orçamento, não tem condições para agora arrancar com um projeto dessa natureza. Não temos qualquer capacidade financeira para o fazer, apesar de reconhecermos existirem linhas de financiamento que permitem, até a certo ponto, obter financiamento para a construção da habitação social.

Luís Nunes, muito obrigado. Ficamos com esse dado. Acho que é um dado positivo de um aumento da população em Santa Comba. É sempre bom ver esse movimento para outras cidades do país. Muito obrigado, Luís Nunes, por ter estado neste Espicaador da Rádio Observador.

Obrigado, boa tarde.