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Começa agora o Explicador das manhãs 360. Esta quarta-feira e depois do acordo de cessar-fogo no Médio Oriente, convidamos para estar conosco o secretário-geral das empresas portuguesas de combustíveis e lubrificantes, António Comprido. A moderação deste explicador é da Carla Jorge Carvalho e do Bruno Vieira Amaral.
E é notícia do dia o acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irão. E a pergunta que lhe faço, António Comprido, bem-vindo a este explicador, obrigado por ter aceitado o nosso convite, é que impacto é que o acordo de cessar-fogo poderá ter para o preço dos combustíveis e quando é que é expectável que seja sentido?
Bom dia, muito obrigado pelo convite para participar no programa. Bem, há que ter em conta o que são os aspectos psicológicos que afectam o mercado, portanto, a reação das bolsas, e depois os aspectos físicos, efectivamente, do trânsito dos produtos, quer do crude, quer dos produtos refinados. O anúncio, obviamente, teve um efeito imediato. Hoje caiu bastante o preço do crude. Há pouco estive aqui a verificar, estava à volta dos 94 dólares por barril, quando ontem estava a 111, 112. Esse efeito é imediato. No entanto, o conflito no Irão terá consequências de mais médio e longo prazo. Para já, não está definido quando é que há a reabertura total do Estreito de Ormuz. E mesmo depois da reabertura do Estreito de Ormuz, o produto não chega imediatamente às refinarias mundiais, nomeadamente à Europa, ou, no caso concreto, por exemplo, do gasóleo e do jet, são mesmo já os produtos refinados que chegam à Europa. Isso vai demorar algum tempo, depende do nível de destruição que tenha havido nas instalações petrolíferas.
Que também ainda não se sabe que nível de destruição, mas o facto do preço do barril de crude ter descido, e de forma até significativa, pode indicar que para a semana haverá uma descida no preço dos combustíveis?
Temos que olhar, e isso ainda não tive a oportunidade de ver, para o mercado dos produtos refinados. Há dois mercados distintos, um que tem a ver com a matéria-prima, que é usada nas refinarias, que é o crude, e aí, de facto, houve uma descida. As refinarias vão comprar crude mais barato ou vão repor o crude que estão a usar, produto mais barato, mas não sei exatamente o que se passou com os produtos refinados. Normalmente acompanham com alguma diferença temporal e também entre eles é diferente. Nós, por exemplo, durante esta crise, tivemos uma escalada de preços no combustível para aviação que ultrapassou todos os outros combustíveis. Seguiu-se o gasóleo também com uma escalada de preço bem superior à do crude e depois a gasolina, que ficou pelo aumento do preço do crude ou até um pouco mais abaixo. Isso tem a ver com o cabaz de produtos que é produzido pelas refinarias e pelos padrões de consumo, que não são iguais para todos os produtos.
António, ainda não sabe. Só para precisarmos isto, hoje é quarta-feira, quando é que poderemos saber se os preços já poderão refletir este alívio, pelo menos da tensão no Estreito de Ormuz, para a próxima semana?
Eu percebo a ânsia de querer saber logo o que é que vai acontecer no preço da bomba, mas a situação é um pouquinho mais complexa do que isso. Mas deixe-me dizer, o que acontece é que em Portugal, a refinaria fornece os produtos a um preço que é baseado na média das cotações da semana anterior. Hoje é quarta-feira, nós ainda só temos as cotações de segunda e de terça. Aliás, segunda não houve cotações porque foi feriado em Inglaterra. Não temos ainda uma ideia de qual vai ser a média do preço desta semana, se ela vai ser inferior ou superior à da semana anterior. Neste momento é prematuro estar a fazer qualquer previsão de qual será o impacto nos preços dos combustíveis na próxima semana.
Mas isso vai no sentido, António Comprido, de uma das críticas que normalmente é feita às gasolineiras, que é de que os aumentos são mais rápidos do que as diminuições dos preços. Ou seja, quando há um aumento dos preços do crude e das cotações dos produtos refinados, isso reflete-se mais depressa no valor que se paga quando se abastece numa bomba de gasolina. Isso é uma percepção errada?
É uma percepção completamente errada. Isso é um mito que se criou baseado numa célebre frase de um economista americano que disse que os preços sobem como foguetes e descem como plumas. Na realidade, neste caso concreto, e estamos a olhar aqui para o mercado dos produtos refinados, isso não é assim. Basta às pessoas, se as pessoas quiserem seriamente olhar para os números, peguem na análise da evolução que várias entidades fazem, incluindo a EPCOL, mas obviamente entidades mais independentes como a ERSE, que faz a supervisão do mercado, como a própria DGEG, verifica-se que as subidas e as descidas dos preços acompanham ao mesmo ritmo as cotações dos produtos. Isso é um mito, é uma percepção e, como sabe, estas coisas, como se costuma dizer, uma mentira repetida muitas vezes acaba por ser tornada verdade. Já muita gente assume isso Ou sendo a realidade, mas não é. Os números mostram que não é e as descidas e as subidas fazem-se ao mesmo ritmo.
António Comprido, já aqui falámos que não sabemos, neste momento, a dimensão da destruição das infraestruturas energéticas no Médio Oriente. Isto quer dizer que aquela ameaça, aquela possibilidade de haver escassez no mercado europeu de combustíveis, ainda não está excluída de todo?
Não, não está excluída. Até porque deixe-me dizer uma coisa, apesar do fecho de Ormuz, até agora têm estado a chegar todas as cargas de navios que tinham passado pelos estreitos antes do fecho. Praticamente só agora é que elas estão a chegar aos mercados. Portanto, a interrupção que houve ao longo destas semanas só se vai sentir a partir de agora nas próximas semanas. Essa ameaça continua a existir, de risco de abastecimento, principalmente no caso dos destilados médios, ou seja, dos combustíveis para aviação e do gasóleo, não tanto da gasolina. Portugal estará um bocadinho melhor do que está a média europeia, porque a produção da nossa refinaria praticamente consegue garantir as necessidades do nosso mercado, embora em situações de pico, nós ainda tenhamos que importar cerca de 20% dos combustíveis para aviação. Temos que importar, portanto, a nossa produção não é suficiente. Também vai depender o que é que vai acontecer com os mercados. Nós sabemos que há companhias aéreas que já estão a cancelar voos, que já estão a mudar rotas, portanto, é provável também que as pessoas se retraiam face ao preço dos bilhetes de avião, que estão a crescer muito. Pode haver aí uma retração no consumo. Do lado dos combustíveis rodoviários, que enfim, é aqueles que nos afetam mais imediata e diretamente, também pode haver alguma retração face ao aumento de preço que se tem vindo a verificar. Contudo, historicamente verificamos que não há uma grande correlação entre o consumo e o preço. Isto significa que a maioria dos consumos são consumos obrigatórios.
Necessários.
Que não se podem parar. Tem tudo a ver com o transporte comercial, obviamente, e mesmo o próprio transporte privado, a maior parte dele são transportes que têm que ser feitos. Os filhos têm que continuar a ir pra escola, as pessoas têm que continuar a movimentar-se e, portanto, não há uma grande correlação. Mas o risco, indo mais diretamente à vossa pergunta, o risco existe, porque o risco continua a pairar e há vários estudos e várias pessoas, e a própria comissária para a energia europeia já alertou para uma eventual escassez de produtos, estando até em estudo para ser apreciado num próximo Conselho Europeu, medidas do lado do consumo, para eventualmente reduzir o consumo e permitir com isso equilibrar e fazer face a esta eventual crise.
Sérgio António Comprido, o que nos está a dizer é que mesmo que o estreito de Ormuz seja hoje reaberto definitivamente, sem que volte a haver constrangimentos no estreito, ainda podemos sentir não só alguma escassez de combustíveis, como até algum aumento do preço derivado do encerramento a que assistimos até ontem ou até este momento.
Sim, ou pelo menos não a redução que nós gostaríamos de ver acontecer. Portanto, como eu disse, o aspecto psicológico, esse já se sentiu hoje, já houve uma verificação, mas aquilo que resulta do equilíbrio entre a oferta e a procura ainda está por apurar, porque como eu disse, mesmo que o Estreito de Ormuz abra hoje, os produtos só chegarão ao destino dentro de várias semanas. É evidente que, entretanto, os países têm os seus stocks, conseguem gerir essa situação, é para isso que existem as reservas de segurança. Não há um risco imediato de escassez de produto. Há é uma situação ou há uma posição de precaução de tentar evitar que se chegue a essa situação e poderão ser tomadas algumas medidas. Mas a abertura do Estreito de Ormuz seria uma excelente notícia, a confirmar-se, mas não vai eliminar o problema de um momento para o outro. Isto é uma guerra que terá algumas consequências de média duração, eu quero dizer, alguns meses. Portanto, o ano 2026 será um ano atípico em termos deste mercado. Se a guerra de fato acabar e se não houver grande destruição da infraestrutura de produção e de exportação de petróleo e produtos petrolíferos a partir do Médio Oriente, enfim, os mercados irão acalmar, mas os efeitos ainda estão aí para durar algum tempo.
António Comprido, muito obrigada pelas suas explicações e por acalmar aqui um pouco também algumas expectativas mais eufóricas relativamente ao preço dos combustíveis. Foi importante ouvi-lo. Bom dia, António Comprido, é o secretário-geral das Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes.
Bom dia.
Um bom dia.
Obrigado.