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Além das populações e das infraestruturas públicas, as empresas na região de Leiria foram fortemente afetadas pela tempestade Cristina, há duas semanas. Completam-se agora duas semanas. São milhões de euros de prejuízos e uma lenta tentativa para voltar a produzir. Sou Ricardo Conceição e comigo neste explicador está a Judite França, quem é o nosso convidado, Judite?

O nosso convidado é Fernando Pinho, é docente de Engenharia Civil na Universidade Nova, na Faculdade de Ciências e Tecnologia. Bem-vindo e obrigada pela disponibilidade. Fernando Pinho, qual deve ser a prioridade depois da devastação?

Olá, muito boa tarde, muito obrigado pelo convite e já agora, se me permite também, apresentar as minhas condolências a todas as famílias afetadas por essa verdadeira tragédia que nos está a assolar. Uma vez que se constata todo este grau de devastação, o que se deve seguir será uma análise organizada dos danos que resultaram deste evento. Nós temos que pensar rapidamente na reabilitação de todas aquelas estruturas, edifícios de habitação, edifícios industriais, de todos aqueles elementos de suporte de energia elétrica, tudo isso. Isso, evidentemente, está numa fase mais avançada, por razões óbvias, de funcionamento de todas as restantes instalações que dependem de energia elétrica. Mas o que é necessário fazer é realmente um estudo de diagnóstico dos estragos, dos danos que resultaram deste evento, para que possa haver um trabalho de reabilitação que tenha qualidade e que permita resistir a próximos eventos desta dimensão. Eu diria que o que é preciso fazer, de fato, é um levantamento adequado por técnicos credenciados, tipicamente por engenheiros civis, na maior parte dos casos, noutros casos poderá haver outras especialidades, que de fato façam esse levantamento criterioso dos danos causados.

Mas a necessidade primária das pessoas é, sobretudo, tapar telhados. Há tempo para fazer uma identificação dos danos estruturais enquanto lhes chove em casa?

Claro que não. Neste momento, como disse há pouco o senhor presidente da Câmara de Leiria, o que nós temos que fazer, realmente, é atender a esta emergência, que é evitar que se continue a danificar os bens e o patrimônio, muitas vezes, de uma vida, que está ali sujeito a estes danos. Portanto, o que é preciso é, de fato, rapidamente evitar que a chuva, obviamente, danifique o que sobrou. Eu me refiro à fase seguinte, quer dizer, a fase seguinte nós temos que repor todas aquelas estruturas de telhados, aquelas estradas, enfim, tudo aquilo que foi devastado deve ser reposto, mas em condições que permitam, tanto quanto possível, resistir a próximos eventos, que parece que começam a ser mais frequentes do que nós gostaríamos ou do que estava previsto. Portanto, o que eu refiro é a fase seguinte. Agora, claro, temos que atender às necessidades imediatas e, na verdade, não estou a ver outra solução que não seja, na maior parte dos casos, lonas, que obviamente têm que ser devidamente fixas. E não podemos também, por outro lado, correr riscos de pessoas que não tenham capacidade, às vezes até pessoas já de uma certa idade, que põem a sua vida em risco, como aliás vimos, infelizmente, nos últimos dias. E portanto, tem que ser feito por técnicos que tenham noções de segurança em obra e que saibam também fazer estes trabalhos de caráter emergente, que é necessário fazer.

Professor Fernando Pinho, e até que ponto é que as universidades, as faculdades, podem também dar uma ajuda, nomeadamente engenharia civil, arquitetura, enfim, até que ponto é que a academia também poderia dar uma ajuda neste esforço agora de recuperação?

Eu penso que essa questão é uma questão excelente. Quer dizer, no fundo, a universidade tem uma missão de dotar o país de meios, de recursos humanos capazes de, naturalmente, enfrentarem os desafios que se nos colocam. E as universidades, e aqui eu refiro um pouco mais às escolas de engenharia, que eu conheço bem, no fundo, trabalho numa escola de engenharia já há bastante tempo, que é aqui na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, departamento de engenharia civil, mas há no país escolas de engenharia, muitas, de grande qualidade, também escolas de arquitetura, que não só em termos do seu corpo docente, como também de alunos de anos um pouco mais avançados, se poderia criar aqui, eventualmente, uma equipe. Tinha que ter uma coordenação, essas coisas têm que ser devidamente organizadas para haver uma concentração de esforços. E também, se me permite, eu acho que era importante, e está a ser feito, eu, em pretensão à Ordem dos Engenheiros, tenho aliás funções na própria Ordem dos Engenheiros, de eleição, portanto, fui eleito para um cargo nacional da Ordem, e eu tenho a certeza, aliás, já foram tomadas medidas nesse sentido, nomeadamente na região centro da Ordem dos Engenheiros, mas que a Ordem dos Engenheiros, tal como a Ordem dos Arquitetos e outras associações profissionais, por exemplo, conservadores, restauradores, pessoas que são técnicos de alta capacidade, eu penso que estes grupos profissionais, mais obviamente a engenharia civil, a arquitetura e as especialidades afins Juntamente com a universidade, e sob uma tutela, uma organização que provavelmente teria que ser de natureza governamental, que pudessem criar aqui uma estrutura de missão com o objetivo de apoiar a população, porque é esse o espírito que nos move, quer ao nível das ordens profissionais, quer ao nível da universidade, no sentido de apoiar a população a que quando este grau zero da intervenção, que é de facto evitar, é o mínimo que se pode fazer, é evitar que a chuva continue a degradar. Numa fase subsequente, esta vasta equipa, e note que muitas dessas pessoas que eu refiro são da zona centro, são pessoas da zona, portanto conhecem bem as estradas, as casas, têm lá familiares, há um sentimento que liga todos esses técnicos.

De pertença.

De pertença e isso facilita tudo. Eu acho que nós, enquanto país e enquanto sociedade que tem essa missão, um meio técnico, que tem como missão dotar o país dessas capacidades, penso que de facto era uma excelente iniciativa se este grupo pudesse ser criado sob tutela geral, e que se começasse pelo tal levantamento e depois se quantificasse o dano. Nós temos uma noção de que o dano é enorme, é gigantesco. Nós vimos as imagens. Mas quantificar exato, quer dizer, começar a fazer a avaliação de quanto vai custar a intervenção, quanto vai demorar a intervenção, por onde é que se vai começar.

Para ter aqui também um caminho para a população.

Exatamente, temos que ter um plano. A engenharia civil tem muito essa questão do planeamento. Mas para planearmos uma intervenção, nós temos que saber a dimensão dessa intervenção. Temos que começar pelo princípio e depois seguir os passos por ordem sequencial.

Professor Fernando Pinho, muito obrigado. Professor de Engenharia Civil da Universidade Nova, da Faculdade de Ciências e Tecnologia.