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Nigel Farage venceu ontem umas eleições intercalares, foi de novo eleito deputado pelo Reform UK e conseguiu mais de 22 mil votos, 60,3%. Os partidos tradicionais podemos dizer que boicotaram esta eleição e o principal adversário de Farage foi um humorista que se identifica como Count Beanface, ou seja, o Conde Cara de Caixote do Lixo, e aparece mesmo sempre com um caixote do lixo a cobrir-lhe a face. Esta personagem conseguiu 9455 votos, ou seja, 26,9%. A taxa de abstenção foi de 55% nestas eleições para o círculo de Clacton-on-Sea, no sudoeste de Inglaterra. On-Sea é mesmo uma vila costeira, com praia e tudo. Há mais um dado interessante: no boletim de voto constavam 34 candidatos e o papel tinha quase um metro, o que dificultou a contagem dos votos na madrugada desta sexta-feira. Por regra, os candidatos acompanham a contagem, mas Nigel Farage não esteve presente. O nosso convidado é Bruno Cardoso Reis, é historiador, conhece bem a política britânica, é comentador da Rádio Observador, viveu e estudou no Reino Unido. Bem-vindo, Bruno.
Obrigado.
Importa, se calhar, começar por compreender o porquê destas eleições agora.
Olá, Ricardo, e olá a todos. Basicamente, é porque Nigel Farage estava sujeito a uma investigação parlamentar porque terá violado as regras parlamentares que obrigam a registrar, portanto, a declarar qualquer tipo de benefício financeiro que se recebe, mesmo que seja uma oferta. E neste caso, estamos a falar de uma oferta de £5 milhões de um empresário da cripto. Nigel Farage alega que foi uma prenda puramente pessoal, porque há essa exceção para prendas dadas por familiares, etc. Mas realmente o argumento não é visto como muito credível. O empresário da cripto não é familiar de Farage e é uma oferta bastante significativa.
É um belo presente.
É um belo presente. Quando Nigel Farage se demitiu, nas regras britânicas, cada círculo eleitoral é unipessoal, é para eleger um deputado, uma pessoa concreta, e não há substituições, não há o segundo ou terceiro na lista, como acontece em Portugal. Tinha de haver uma eleição, ele recandidatou-se, e isto foi apresentado realmente como uma espécie de manobra para tentar evitar o escrutínio parlamentar, uma jogada populista na linha dos movimentos de Nigel Farage, que basicamente disse: "Bem, isto eu vou entregar a questão ao povo".
Exato. No fundo, Bruno, ele consegue ou tenta legitimar uma conduta irregular ou ilegal pelo voto.
Sim, exatamente. No fundo, é esta a ideia: as instituições estão sempre contra mim, como estão contra vocês, e eu vou agora entregar aqui a decisão ao povo. Mas obviamente, num Estado de direito, as questões de irregularidades financeiras, de crimes, etc., não são decididas por voto de mão no ar. Há regras para cumprir, ganhe-se ou perca-se eleições. O Parlamento já retomou a investigação, suspendeu a investigação quando Nigel Farage deixou de ser deputado, mas agora retomou-a, uma vez que ele já foi reeleito. A maior parte dos analistas, e eu tendo a concordar, parece uma vitória um pouco pirrica de Nigel Farage, porque realmente ele pensou que ia ter uma campanha contra candidatos de outros partidos, os tais partidos do sistema. Ora, esses partidos recusaram sair a jogo. Como referiste, basicamente, ele concorreu contra um humorista que mesmo assim conseguiu 26% do voto. Também é verdade que Nigel Farage basicamente consegue fixar o voto, ele até subiu ligeiramente, não chegou a subir mil votos. A abstenção foi enorme, como também referiste, a maior parte dos eleitores aparentemente decidiram não votar, mas os que votaram mobilizaram-se para novamente apoiar Nigel Farage. Isso também mostra que este movimento populista tem alguma resiliência. Agora, é importante dizer que realmente quer Nigel Farage, quer o seu partido, estão realmente em perda acentuada. Em outubro do ano passado, o Reform atingiu o seu pico em termos de média de sondagens, à volta de 31%, era o partido com mais intenções de votos em outubro do ano passado. Desceu para 23%, mais ou menos em média nas sondagens agora, caiu quase 10%. Já foi ultrapassado pelo Partido Trabalhista, que está no poder, e Nigel Farage é o político mais impopular da Grã-Bretanha, ou seja, tem uma enorme taxa de rejeição. Só era ultrapassado pelo anterior primeiro-ministro, o Keir Starmer, que entretanto se retirou da política, mas atualmente realmente é o campeão pela negativa na popularidade ou impopularidade. Tem um saldo negativo de -25%. Há um ano era mais ou menos -6%, também caiu muito, e o primeiro-ministro atual é o político britânico mais popular. Agora, resta ver se isto dura. A aposta aqui do Reform é que consegue dar a volta e que qualquer tipo de acusação contra Nigel Farage realmente acaba por não colar.
E alimenta aquela narrativa populista, como dizias há pouco, de eles, o poder instalado, seja a justiça, a economia, a política, enfim, eles estão contra nós, contra o povo e vão tentar travar-nos de qualquer forma. Alimenta um pouco essa ideia.
Sim, eu acho que o grande perigo do populismo é mesmo esse. Muitas vezes esses partidos identificam problemas reais ou problemas que as pessoas veem e consideram como reais, por exemplo, a questão do descontrole na imigração. E esse problema acabou por ser reconhecido por todos os partidos, inclusive pelos próprios trabalhistas. Aliás, uma das coisas que torna a vida mais complicada à Farage ou ao Reform é que, de facto, as entradas ilegais têm estado em queda muito acentuada. Mas o ponto é que a solução para isso, para problemas como a desindustrialização, o impacto muitas vezes terrível da globalização em certos setores, em certas regiões, a solução para isso é um homem, um messias, um salvador, um homem providencial, um líder que se confia que vai resolver todos os problemas, a quem nenhuma das regras se aplicam. Estes partidos também apostam muito no discurso anticorrupção. Um outro escândalo paralelo a este, é que um dos braços direitos de Nigel Farage, o homem que lhe pagava as redes sociais, o apartamento em Londres, etc, foi condenado por fraude nos Estados Unidos. Na verdade, foi acusado pelo FBI, depois de uma operação clandestina de escutas, ele foi apanhado a oferecer-se para fazer branqueamento de capitais de traficantes de droga. Mas nada disso, aparentemente, impede, pelo menos aqui, o núcleo duro de apoiantes do Reform. E a questão é saber qual é essa porcentagem, ou seja, se esta porcentagem dos 20 e poucos por cento é a linha de resistência ou se o Reform continuará a cair. Mas há claramente muita gente na Grã-Bretanha, inclusive nesta zona de Claxton, que basicamente a Nigel Farage ou ao Reform perdoam tudo aquilo que acusam outros de fazer. E realmente o problema do populismo que vemos em países como a Venezuela, por exemplo, com o Chávez ou com o chavismo, ou o peronismo na Argentina, é que muitas vezes acabam por destruir a economia e as instituições, porque realmente é este regime em que tudo é permitido ao nosso líder. As pessoas identificam-se quase que em termos pessoais com esse líder e, como eu digo, permitem tudo a ele, nenhuma regra se aplica.
E Bruno Cardoso Reis, mas o fato dos partidos tradicionais não terem concorrid mesmo antecipando uma possível derrota, acaba por ser um erro ou não?
Eu penso que é uma aposta eventualmente questionável. No fundo, pode ser que até já uma espécie de reconhecimento antecipado da derrota. A mim parece-me que o argumento utilizado faz algum sentido, que é, por um lado, não aceitar esta ideia de que esta eleição poderia de alguma forma absolver Nigel Farage ou isentar das regras e, portanto, anular o efeito da existência de regras, por exemplo, declaração de rendimentos no Parlamento. E por outro também, retirar-lhe a possibilidade dele utilizar com grande eficácia este argumento dele contra o sistema, porque como é que ele consegue utilizar isso numa campanha em que do outro lado tem um candidato que é um comediante, que é o tal Conde, digamos, caixote do lixo, que obviamente se apresentava, dizia sempre: "Eu é que sou o candidato antissistema", não é? Não este senhor, que até vem da finança, do comércio de matérias-primas e ganhou milhões e que agora está envolvido em todos estes escândalos envolvendo milhões. Portanto, desse ponto de vista, eu percebo. Agora, a questão é que não é uma estratégia, obviamente, para uma eleição geral. Isso não é replicável quando for mesmo a sério, quando estiver para decidir quem é que irá governar o Reino Unido, quem é que terá a próxima maioria parlamentar. E isso pode acontecer. Há especulações de que Andy Burnham, que foi eleito no seu círculo eleitoral, mas não se apresentou como primeiro-ministro numa eleição geral, poderá querer fazer mais eleições nos próximos meses, no próximo ano. E aí há algum receio entre os responsáveis do Reform Party e dos seus apoiantes de que o partido possa não estar preparado e que possa estar ainda a sofrer do impacto negativo destes escândalos.
Porque a política no Reino Unido, acho que posso usar esta expressão, está um cadinho em frangalhos, não?
Sim, é uma tendência geral de polarização, de crescimento dos populismos à esquerda e à direita. Claramente, o sistema também tem aqui algumas culpas no cartório, não deu resposta a uma série de questões muito importantes, desde a habitação à questão da desindustrialização, à questão da imigração. Mas a tendência também é para uma fragmentação do sistema, ou seja, a emergência de novos partidos. Isso vê-se por toda a Europa. E a questão é que realmente no Reino Unido, como aliás nos Estados Unidos, porque tem um sistema eleitoral que é assente em círculos uninominais, em que o vencedor fica com tudo e o partido que fica em terceiro lugar muito raramente consegue eleger deputados, precisa de ganhar em algum círculo, se ficar em terceiro em todo lado, não tem nenhum deputado. Isso acaba por disfarçar um pouco mais essa fragmentação no caso da Grã-Bretanha. Aqui o que está a acontecer também, ou o que pode acontecer, é que pela primeira vez desde que o sistema político atual britânico começa a surgir, no início do século XVIII, com o surgimento de um primeiro-ministro, de um parlamento mais poderoso, desde essa altura que nós temos um partido conservador, um partido Tory. Os trabalhistas, nesse aspecto, são aqui a novidade, só têm mais ou menos 100 anos. Antes eram os liberais que eram a oposição de esquerda aos conservadores, mas os conservadores são a grande permanência no sistema político britânico. Ora, o Reform Party está, apesar destes crises, apesar de tudo, a ter vantagem sobre os conservadores nas sondagens e portanto pode se apresentar eventualmente como a alternativa aos trabalhistas.
E isso terá consequências na política externa do Reino Unido, ou não?
Aí teria consequências muito significativas, embora apesar de tudo há limites para a margem de manobra na política externa mesmo de um país como a Grã-Bretanha, que apesar de tudo é uma das 10 maiores economias, faz parte do G7, do G20, membro permanente do Conselho de Segurança, uma potência nuclear, embora dependa muito dos Estados Unidos. Mas a verdade é que já condiciona um pouco e condicionaria ainda mais, sobretudo nesta questão da relação com a Europa. Ou seja, já condiciona um pouco porque, por exemplo, os trabalhistas poderiam apostar numa aproximação muito maior à Europa ou eventualmente até numa tentativa de voltar a aderir à União Europeia, mas sabem que isso eleitoralmente seria uma enorme prenda para Nigel Farage e portanto há limites até onde é que eles podem ir. E, por outro lado, do lado europeu, do lado da União Europeia, também há muitas vezes reservas a fazer maiores concessões ao Reino Unido, não só por causa daquela ideia de que é preciso evitar que o Brexit se torne uma moda, portanto que os países comecem a achar que é mais vantajoso estar fora da União Europeia do que dentro, mas também porque concessões que sejam feitas agora a um governo eventualmente mais pró-europeu, que tem mais simpatias em Bruxelas e nas capitais europeias, depois isso pode ser eventualmente revertido, posto em causa, aproveitado por alguém como Nigel Farage, que fez toda a sua vida política na oposição à União Europeia, a defender a saída da União Europeia. Ele é pela primeira vez eleito para o Parlamento britânico apenas em 2024. Nos 20 anos anteriores, foi sempre eurodeputado, portanto é uma das ironias da história é que foi o facto da União Europeia ter um sistema proporcional, em que portanto os partidos têm eurodeputados em função realmente dos votos que recebem e não num círculo uninominal, foi isso que permitiu ao Nigel Farage, ao Partido do Brexit, que depois deu origem ao Reform, ter palco, ter financiamento e ter palco político.
Obrigado, Bruno, obrigado pela tua ajuda. Bruno Cardoso Reis, historiador e comentador da Rádio Observador, que viveu e estudou no Reino Unido.