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28 anos, jogador de futebol no Liverpool e na Seleção Nacional Portuguesa, Diogo Jota morreu esta madrugada, juntamente com o irmão, num acidente de automóvel em Espanha. Nos próximos minutos recordamos o percurso de Diogo Jota, em particular na Seleção Nacional, com o homem que promoveu a estreia deste jogador na equipa das Quinas. Fernando Santos, antigo selecionador nacional, é nosso convidado nesta tarde política. Uma entrevista conduzida pela Judite França e pelo Miguel Cordeiro.
Fernando Santos, muito boa tarde.
Boa tarde.
Vamos falar nos próximos minutos de Diogo Jota, 28 anos, morreu esta madrugada num acidente de viação, juntamente com o irmão, que aconteceu em Espanha. Antes de olharmos para a carreira do jogador e do acompanhamento que também teve com o Diogo Jota, como é que recebeu esta notícia neste dia de hoje? O choque também desta informação, a morte de Diogo Jota.
Sim, foi um choque. O problema é esse. Foi um choque quando de manhã me telefonaram a dizer a tragédia que tinha acontecido. Foi um choque. Um choque tremendo. Naturalmente, porque perda de vidas é sempre um choque. Perda de vidas de alguém conhecido, um choque maior. Depois, perda de vidas de alguém com quem temos uma relação forte, ainda maior. E acho que foi o que aconteceu. Um choque brutal. Mas o primeiro momento, agora, obviamente, as coisas começam a tentar se equilibrar, foi pensar neles, os dois, não só no Diogo, como no irmão, o André e pedir a Deus que as almas deles possam descansar em paz, naturalmente, mas também muito na família, porque é um momento extremamente doloroso para aquela família, para os pais que perderam os filhos, para as mulheres que perderam o marido, os filhos perderam o pai. Tudo o que dissermos é pouco. É muito pouco e, portanto, a única coisa é pedir a Deus que ajude esta família a tentar recuperar, que não vai ser nada fácil e vai durar muito tempo, naturalmente, para que as pessoas possam ultrapassar e nunca chegarão a ultrapassar. Seguramente, nunca chegarão a ultrapassar, porque é uma coisa que não se consegue. Esta perda da separação, do afastamento de pessoas que nos são muito próximas, muito queridas, no caso dos pais, da mulher e dos filhos. É terrível, mas só o tempo irá fazer passar de alguma forma, irá acalmar, não se fazer passar, passar nunca passará.
Claro.
Portanto, é isso. Pedir, na realidade, que eles tenham essa força.
Sim.
Que não vai ser nada fácil.
Jota era nesta altura jogador do Liverpool, jogador da Seleção Nacional. Estreou-se com a camisa da Seleção em novembro de 2019. Já tinha estado presente em algumas convocatórias antes, incluindo a Liga das Nações. Certo, e não jogou. Mas já lá vamos a esse ponto. Foi Fernando Santos que promoveu a estreia de Jota. Na altura, tinha 22 anos de idade, o Diogo. Como é que recorda esses momentos da chegada do Diogo Jota à Seleção Nacional?
O Diogo era um jogador que já estava há muito tempo enquadrado naquilo que era as nossas observações, pelo percurso que ele tinha feito, principalmente já no Paços de Ferreira, mas depois também no Porto e depois quando seguiu. O Hélio Sousa conhecia-o muito bem, das camadas jovens também, porque ele representou muitas vezes as camadas jovens portuguesas. Portanto, era um jogador que estava sempre no radar. Foi convocado algumas vezes, esteve inclusivamente na Liga das Nações, depois não teve a oportunidade de jogar, mas porque o plantel de Portugal já em 2019 era um plantel também muito forte.
Ele aceitou bem essa não presença em campo durante a Liga das Nações, que depois foi conquistada?
Naturalmente. Tinha o Rafa, estava Gonçalo também, que por acaso até fez o gol da final.
Sim.
E portanto, ele encontrou-se muito bem no espírito da Seleção. Na Seleção não é o importante jogar ou não jogar, o mais importante era estar, e estar naquela família e procurar todos em conjunto, todos nós em conjunto, levar a equipe a fazer coisas boas. E portanto, ele encontrou-se muito bem e foi como fez ao longo da sua carreira, porque a carreira dele é uma carreira excecional. Começou, não sei se no Contomar. Eu tenho mais ouvido é na realidade já no Paços de Ferreira, mas ele foi seguindo a pulso, foi conquistando as coisas a pulso, chegou ao Porto, como há bocado falámos, a carreira dele fala por ela. E ele na Seleção fez exatamente o mesmo percurso. Chegou, adaptou-se, até pela sua forma de ser, adaptou-se, foi lutando por seu lugar. Era um miúdo espetacular, muito humilde, mas com determinação, com objetivo, com caráter, no sentido positivo do caráter.
Era firme, era um rapaz firme?
Era um rapaz firme, muito convicto daquilo que tinha de fazer, do que as pessoas queriam que ele fizesse e sempre em prol da equipe. Para ele, a equipe esteve sempre acima dele.
Sabemos que o Diogo Jota era um jovem que estava sempre muito agarrado aos videojogos, como muitos jovens hoje em dia. Alguma vez isso foi um problema?
Não. É verdade que, sim, ele gostava muito daquele jogo virtual e nos últimos quatro anos, pelo menos, ou nos dois últimos anos da Seleção. Sim, mas isso era no tempo livre dele, no tempo de espaço dele, também ele gostava de ter o seu espaço, naturalmente, mas estava muito com os colegas, jogava muito com os colegas, conversava muito com os colegas. E portanto, que agora todos eles têm os seus espaços e nos seus espaços cada um faz o que acha que gosta mais.
Mas ele cumpria as horas de sono. Não ficava com horas por dormir por causa dos jogos, certo?
Não. Eles são grandes profissionais. Pode-se fazer tudo. Há o tempo próprio para se fazer isso e ele aproveitava para fazer aquilo que gostava, como outros podem ler ou para Ou para jogarem outra coisa com eles, snooker ou isto. Alternar uma coisa com outra.
Sim. O primeiro gol do Diogo aconteceu num jogo frente à Croácia, Portugal venceu por 4 x 1, foi no Estádio do Dragão. Lembra-se como é que foi vivido esse momento na seleção e pelo Diogo?
Na seleção não se vive momentos individuais, vive-se momentos coletivos. A gente tinha vindo da vitória na Liga das Nações, esse era um jogo também para a Liga das Nações. E o Jota entrou muito bem. O Cristiano, nessa altura, não estava. Nesses jogos não esteve, alguns jogos esse não esteve. E o Diogo aproveitou muito bem esse espaço. Agora, claro que jogando no centro do terreno, que era um dos lugares que ele mais gostava, tinha mais dificuldade, porque estava o melhor do mundo à frente. Mas ele adaptou-se muito bem, ele jogava também com muita facilidade numa das alas, principalmente à esquerda, para tirar partido das suas qualidades e, portanto, adaptou-se muito bem. E claro, para ele foi um momento de celebração, porque jogar o primeiro jogo oficial e fazer um gol é sempre um momento de grande celebração para qualquer jogador.
Em 2021, no Euro 2020, Diogo Jota já assumia um papel importante na equipa. Como é que foi esse crescimento enquanto jogador?
Sim, tem a ver com isso. Tem a ver com o crescimento que ele foi fazendo nessa Liga das Nações. Depois chegou o Europeu, que foi em 2021, era 2020, mas foi 2021. Ele já participou regularmente nos jogos de apuramento. E, portanto, ele afirmou-se porque ele foi fazendo gols com alguma regularidade. Nessa altura, jogava Bernardo à direita e ele à esquerda e Cristiano no meio. E, portanto, a afirmação dele foi uma afirmação natural, e é alguém que fazia gols com muita facilidade e isso era importante para a seleção. Eu acho que é importante realçar a parte humana dele, mais do que as consequências dele. Mas lembrar também, por exemplo, em termos daquilo que era a sua parte humana e também de espírito de grupo e de equipa. Ele, por exemplo, não esteve em 2022 no Catar.
Era aí que eu ia chegar.
Porque ele teve um problema de lesões.
Foi, pela negativa, um momento marcante para ele na seleção, a ausência do Mundial 2022, porque foi praticamente um mês antes. Mesmo a nível de grupo e a nível do Diogo, como é que foi lidar com toda essa situação? Era um jogador que era titular na altura.
Sim, claro. Era um jogador que estaria convocado e que normalmente teria uma porcentagem elevada de ser titular nesse campeonato. Não pode estar, e o futebol é isso, porque felizmente Portugal tinha e tem, e continua a ter muitos jogadores, e não é fácil jogar na equipe portuguesa, só jogava quem tinha esse mérito. Eu ia dizer isso porque o que marcou foi que, na realidade, o Diogo, perante essa adversidade, que a ele custou muito, naturalmente, todos queriam estar presentes num campeonato do mundo, mas ele esteve, ele foi lá. Ele foi lá ter conosco e quis estar conosco e esteve lá três ou quatro dias lá em Doha conosco.
Quando é que foi esse momento? Antes da fase grupos, durante a fase grupos?
Durante a fase grupos, ele esteve conosco, assistiu a um ou dois jogos, se não me falha a memória, mas não me falha, com certeza. Assistiu a um ou dois jogos e estava conosco, ia lá ao hotel, estar conosco, estar com os colegas, dar força. Isso mostra muito o que era o Diogo.
Sim. E essa ligação à equipa manteve-se sempre. Apesar de estar ausente, ele acabou por estar perto da equipa, como referia. Era uma peça importante também a nível de balneário. Há sempre esta discussão, há jogadores que têm essa presença importante no balneário. Como é que era a presença de Diogo?
Na seleção, todos são importantes no balneário, porque só se pode ganhar quando é uma família. Se é uma família, são todos importantes, todos se sentem importantes, joguem mais, joguem menos. Todos se sentem verdadeiramente importantes. E o Diogo era claramente um desses jogadores. Como todos os outros. Obviamente, todos gostam de jogar, mas o que é importante é que saibam, e todos sabem, e o Diogo sabia bem, que sim, que há tantos e que todos têm valor para jogar. Mas nesse campeonato do mundo é importante realçar isso. O ele querer estar conosco, o ele querer estar com a equipa, apesar da dor que sentia de não poder participar.
E conversou com ele na altura, certamente, quando ele esteve convosco no Catar. Que conversas é que acabavam por ter? Era sobre a estratégia da equipa, era sobre o dia a dia?
No Catar não falávamos sobre a estratégia da equipa. Ele não estava nas palestras. Podia estar, até, mas não era o caso. Nós estávamos centrados, em termos de jogo, estávamos centrados à volta dos outros. Agora, o que é importante foi ele estar presente. Estar presente, o Ano transmitir aos colegas também a sua presença. Os colegas recebem isso muito bem. Quando aconteceu, por exemplo, os dois jogadores que tiveram lesões, que se lesionaram logo no primeiro jogo e já não puderam jogar mais nesse campeonato do mundo, o caso do Daniel e do Mendes, e que ficaram conosco durante mais de uma semana, não quiseram sair, continuaram conosco. Isso mostrava, na realidade, o espírito e o ambiente de família e de muito querer daquela equipa. Que ainda hoje se mantém, naturalmente.
Claro. Depois desse mundial, o Fernando Santos acabou por deixar a seleção. Voltou a falar com o Diogo?
Sim, porque eu fiquei com uma relação do Diogo muito próxima. Ficamos com uma relação próxima e, portanto, várias vezes ao longo destes anos falámos ao telefone, ou quando havia uma lesão ou mudava de seleção ou mudava de clube ou coisa do tipo. Fomos sempre mantendo essa conversa, saber como é que estava, como é que estava a família. Fomos mantendo sempre essa ligação, sim. Agora já não vamos poder ter mais.
Conhecia a família. Começou esta conversa precisamente a dar essas condolências.
Os filhos. Sim, conheci algumas vezes. Inclusive os pais acho que os vi também algumas vezes, mas mais no contexto dos jogos, em que eles iam ver os jogos. Muito complementar. Não tinha uma relação pessoal com ele.
Claro. Mas esta relação que mantiveram, mesmo à distância. Olhando para a carreira que acabou por ter o Diogo Jota destes anos para cá, desde 2022, desde que deixou de ser selecionador, como é que vê também essa evolução que conseguiu o jogador, que teve sempre essa motivação? Estamos a falar de um jogador que fez aquele percurso alternativo. Não esteve nos três grandes.
Não esteve.
Não esteve no início da formação e chegou aos grandes na mesma, por via alternativa.
Muito trabalho, muita ambição, muita vontade. Obviamente, tem que ter qualidade, porque se não tivesse qualidade, não conseguia, mas ele tinha as suas características e nessas suas características ele tinha muita qualidade. Depois é muito trabalho e foi isso que ele conseguiu. Não se chega a uma equipa como o Liverpool e não se ganham os títulos que ganha no Liverpool e jogando como titular no Liverpool, se não tivermos essa ambição, essa vontade, essa determinação, não se chega lá. Tudo foi mérito e fruto do trabalho dele. Os treinadores ajudam, mas o mérito é sempre do jogador, e é fruto do seu trabalho.
Ele era dos jogadores que facilitava a vida dos treinadores?
Sim, pelo menos eu acho que sim. Depois não sei, não posso dizer, mas acredito que sim, porque aquilo que conheço do Jota, o Diogo nunca ia criar problemas aos treinadores.
E como é que acha que vai ser recordado? É uma pergunta difícil.
Sabe, é assim, o tempo faz tudo. E neste momento, o país está dorido por aquilo que aconteceu, até pela forma trágica, algo que é inesperado, algo que ninguém espera. Uma coisa que dói muito. Depois, obviamente, uma figura pública também. Como eu dizia, infelizmente, na vida estas coisas acontecem todos os dias. Se calhar estaria a acontecer em qualquer lado neste momento. Mas nós estamos a falar de alguém que nos era querido, que jogou na nossa seleção, com quem trabalhei e, portanto, é natural que o sentimento seja diferente. Depois, temos essa outra parte, que é a parte da dor de todos os seus familiares. Depois, daqui a uns anos, vamos nos lembrar disso. Vamos lembrar que o Diogo Jota teve um acidente de carro. O tempo vai correndo. E eu acho que será bom, e com certeza que o país sempre fará isso, principalmente a nível da seleção, que seja sempre recordado. Porque é uma morte trágica, já aconteceu no futebol português também. O Luís Filipe, aconteceu isso, um jogador do Porto, não sei se se lembra, mas teve um acidente de carro também, já lá vão muitos anos. Portanto, é um momento de impacto muito forte, depois com o tempo as coisas esquecem. Agora, a gente ainda se recorda que aconteceu isso também com o Luís Filipe. Portanto, vai acontecer um pouco assim. Quem vai sentir sempre diferente é a família.
Há aqui uma situação que aconteceu há alguns anos também com outra seleção, com outro jogador de seleção, neste caso o Quintana no pato de andebol. E ainda hoje, muitos jogadores dessa seleção, que cruzaram também balneário com o Quintana, vão dedicando vitórias, vão falando da importância do jogador também para a equipa. Olhando para a nossa seleção, acabou de conquistar um troféu, terá uma competição muito em breve. Diogo Jota também vai ter essa aura, podemos dizer assim.
Da parte da federação também, não tenho dúvidas. Mas da parte dos jogadores, sim. Tenho dúvidas que no primeiro jogo oficial que haja, os jogadores irão fazer uma homenagem e depois algumas irão acontecendo. Falou agora do caso do Quintana, mas depois do tempo, quem jogou com ele vai se lembrar, todas as outras pessoas vão se lembrar, mas não da mesma forma, isso é perfeitamente normal. Como é normal também hoje estarmos todos a falar, e o país está a falar, e todos os órgãos de comunicação social estão a falar do Diogo. É perfeitamente normal, se calhar as pessoas não compreendem porquê. Mas é perfeitamente normal. Era uma figura pública, era um jogador de seleção portuguesa, portanto, é perfeitamente normal estas homenagens que neste momento são justas. Agora, não esquecendo todos os outros, a maioria a gente não conhece, a maior parte das pessoas não sabemos quem foi, quem era. Mas é assim, isto é normal e também o tempo depois torna normal estas coisas acontecerem.
Fernando Santos, muito obrigado por ter estado conosco esta tarde aqui na Rádio Observador.
Obrigado. Obrigado