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É um dos três nomes fundadores do Bloco de Esquerda, convidado a regressar para fazer parte das listas do partido às eleições legislativas do próximo dia 18 de maio. Luís Fazenda é entrevistado agora no Explicador pela Judite França e pela Vanessa Cruz.

Muito bem-vindo, Luís Fazenda, à Rádio Observador. O senhor continua a ser dirigente do Bloco de Esquerda, mas deixou de ser deputado há coisa de 10 anos e, permita-me a inconfidência, acaba de chegar à idade da reforma. O que o leva a querer regressar agora ao Parlamento?

O Bloco de Esquerda fez um apelo a todos os fundadores e outros dirigentes, de modo a que todas as gerações se sentissem representadas nas listas nestas eleições legislativas. Entendemos que há um momento de urgência, que o trumpismo como modo de política se espalha internacionalmente, acompanha uma viragem política à extrema-direita muito significativa e essa mudança de paradigma político cruzada com a necessidade que nós temos e sentimos de defender os princípios de uma democracia constitucional e da atual Constituição da República, levou a esta participação conjunta de todos nós, das várias gerações. Nós, no Bloco de Esquerda, temos gerações que se acrescentam, não gerações que se substituem.

Mas o discurso político normalmente aponta pra necessidade de renovação, de trazer jovens pra política. Não faz sentido?

Faz todo sentido. A lista de Aveiro que eu vou encabeçar, só eu estrago a média de idade, porque de resto é composta por imensa gente.

Mas sabendo que o Bloco de Esquerda tem conseguido eleger poucos deputados, prova disso é o grupo parlamentar, muitos dos deputados que estarão na sua lista não vão ser eleitos, para dizer, não será nenhum dos que estão atrás de si serão eleitos.

Os fundadores aceitaram o desafio de se candidatar em distritos difíceis. Ou seja, onde a eleição vai ser apertada, onde vai ser uma batalha mais dura. São distritos onde o Bloco de Esquerda já elegeu em anteriores momentos, e que nós queremos recuperar esse score eleitoral e essa capacidade de intervenção nesses distritos.

E acha que atrai o voto jovem?

Com certeza. Mariana Mortágua será candidata. Muitos outros que são bastante jovens, são candidatos. Nós temos uma média de idades no grupo parlamentar que faz inveja, do ponto de vista da sua juventude, a qualquer outra bancada. E isso não se vai alterar pelo facto de alguns dos velhinhos dirigentes do Bloco de Esquerda se candidatarem nestas eleições.

O Luís Fazenda falava há pouco dessa emergência, tendo em conta que Donald Trump é o novo inquilino da Casa Branca, e também Francisco Louçã e Fernando Rosas, os outros dois fundadores que foram chamados agora para este combate eleitoral, também sublinharam isso mesmo. Mas esta emergência é mais internacional ou é mais nacional, por causa da fragmentação do eleitorado e do crescimento do Chega? Há pouco também até referiu essa questão da extrema-direita. Ou é até, sobretudo, uma emergência interna do Bloco de Esquerda, pelo facto de o partido estar de modo baixo, tendo em conta o facto de ter menor representação parlamentar e sobretudo estes últimos casos dos despedimentos?

Dois factos aí. Há vasos comunicantes entre a situação internacional e a situação nacional. O Bloco de Esquerda, nas últimas eleições há 10 meses, cresceu em número de votos e nós consideramos que temos todas as condições para crescer. Quanto aos casos que me fala, o Bloco de Esquerda cumpriu com a lei e até acima da lei.

Mas contornou a lei.

Contornou, exato.

Não, o Bloco de Esquerda cumpriu a lei. Teremos versões diversas acerca disso. Até como corre o inquérito, no final, fazem-se as contas. A presidente da CIT disse claramente que a lei tinha sido cumprida.

Mas a CIT devia ter sido consultada, não é? E não foi.

Não, porque era uma comissão de serviço, não era um contrato de trabalho.

Não era uma comissão de serviço até ter sido transformada em comissão de serviço, era um contrato de trabalho inicialmente.

Não, era uma comissão de serviço.

Desde o início?

Sobre isso não vale a pena.

Mas considera que o Bloco de Esquerda não tinha nenhum mea-culpa a fazer neste caso?

Os mea-culpas que o Bloco de Esquerda tinha a fazer, já fez.

Mas isso não tem implicação nas eleições.

Mas não o fez de consciência intranquila ou com qualquer peso numa responsabilidade que não tem, nem nunca teve. A luta política é isto. Aproveitam-se determinadas situações para fazer campanha e ela foi feita, mas a vida vai mostrar aquilo que nós sempre dissemos: cumprimos a lei e até acima da lei. Isso não cremos que tenha direta ligação com a necessidade de formar uma posição de voto por parte das eleitoras, dos eleitores, daquilo que é verdadeiramente importante. Não é o caso da empresa Montenegro, com sede no seu próprio domicílio. Não é esse o caso. Nós não queremos vir pra campanha eleitoral discutir casos. Nós queremos falar é do descaso do país. O descaso do país é que é a temática central desta campanha. É por que a habitação está mais cara com o governo Montenegro, e ela já era caríssima com o governo do Partido Socialista. Por que a situação do Serviço Nacional de Saúde, urgências e NEM está pior do que estava? Por que as listas de espera para cirurgias estão piores do que estavam, na generalidade das situações? Por que ainda há Falta de professores nas escolas. Agora não se fala disso, mas há falta de professores nas escolas. Por que é que nós temos um sistema fiscal que é iníquo? São esses os problemas que afligem as portuguesas, os portugueses, o dia a dia, e que têm a ver com a possibilidade de termos ou não uma vida mais digna, aquela que a própria Constituição da República aponta como uma sociedade justa em Portugal, e não temos ainda, e essa é a nossa luta, e é por isso que nos vamos bater nesta campanha eleitoral, como em todas as outras. Desta vez com uma maior urgência do ponto de vista da dignidade da democracia constitucional, da dignidade do próprio órgão Parlamento, cuja dignidade, de facto, precisa ser restaurada.

Um Parlamento que tem agora uma maioria de direita. Essa luta de que está a falar, Luís Fazenda, será em prol de uma reedição da geringonça no pós-eleições? Eu pergunto-lhe isto também porque Fernando Rosas dizia esta manhã aqui na Rádio Observador, num outro programa, a comissão de inquérito, "que o Bloco não faltará a soluções que apontem nesse sentido". Estou a citar.

Nunca faltámos, mas não é essa a questão. Convenha que a cenarização da governabilidade vai ser uma temática arrastada durante a campanha eleitoral e sem novidade alguma. Portanto, o que importa aqui é garantir, de facto, que os eleitores, as eleitoras, vão às urnas, escolham conscientemente, escolham de acordo com propostas políticas, não com cálculos que não levam a nada. Houve alguém que pediu uma maioria absoluta, essa maioria absoluta foi um desastre. Enfim, há alguém que hoje em dia está a pedir reciprocidade para cenários de bloco central. Nós tivemos, foi um cenário de reciprocidade de bloco central, viabilizou o orçamento e muitas leis. Ora, parece que não funcionou tão bem. Portanto, o que é importante agora é, de facto, garantir a presença nas urnas das portuguesas e os portugueses que estão irritados com estas eleições, que não queriam estas eleições, só têm estas eleições devido à precipitação e a um abuso de confiança eleitoral por parte do primeiro-ministro. Mas, a partir daí, depois se verá qual é a consequência eleitoral de cada força, as possibilidades que têm em conjunto ou em separado. Não convém fazer cenários antes do sufrágio.

Mas independentemente dos cenários, quando pensa no eleitorado e na vontade do eleitorado, não teme o voto útil no Partido Socialista?

Sempre combatemos o voto útil dos partidos maiores. Isso não é novidade, não será agora. Agora, nós temos que deixar muito claro aos eleitores que a nossa proposta é aquela mesmo, não é bem a do outro lado. Portanto, não há um efeito de contágio entre os vários partidos à esquerda, como não há entre os vários partidos à direita. Embora tenha referido que há uma maioria de direita no Parlamento, é na prática uma maioria de direitas.

Que não se entendem.

Que até ver, não se entendem, ou pelo menos não se entendem na República, porque nos Açores entenderam-se. Vá-se lá saber se não se virão a entender no futuro. Mas não vale a pena discutir esses cenários, porque esses cenários são todos, eles completamente artificiais neste momento.

Mas permita-me só insistir aqui num ponto. Pedro Nuno Santos foi uma figura importante para a geringonça em 2015. Terá de mudar agora de atitude para fomentar aqui uma aproximação com o Bloco de Esquerda no pós-eleições, que permita essa maioria de esquerda?

O líder do Partido Socialista fará aquilo que ele melhor entender. Não sou eu que vou deixar recados nesta matéria ao líder do Partido Socialista.

Mas a esquerda terá que pensar de forma pragmática se quer vencer essas direitas que estão no Parlamento.

Claro, com a sua proposta política, com a sua combatividade, com a sua luta no terreno, com este apelo a todas as gerações para estarem presentes. Nos 50 anos do 25 de abril, sim, cá estamos. É essa a mensagem.

E sobre as presidenciais, já agora, há também pragmatismo aqui à esquerda ou não? Deveria unir-se no apoio a um único candidato?

Era importante que os setores democráticos se unissem numa candidatura para as eleições presidenciais. Veremos no pós-legislativas como é que as coisas se encaminham.

Sendo que do lado do PS há aqui dois nomes para já à partida em cima da mesa, ainda não são candidatos, nenhum deles, ainda nenhum avançou, mas António José Seguro, António Vitorino, algum deles poderia recolher o apoio do Bloco.

Não vou, como calcula, comentar candidaturas que não existem ainda, sequer.

O senhor é cabeça de lista por Aveiro, como me disse agora ainda há pouco, distrito em que o partido deixou de eleger em 2022. Qual é a sua ligação a Aveiro?

Minha ligação é uma ligação partidária, já antiga. Costumo estar presente em Aveiro em muitas iniciativas do partido, da sociedade civil. Tenho, enfim, uma ligação que é antiga, não é de agora.

Moisés Ferreira foi o cabeça de lista nas últimas legislativas, agora vai em segundo, o senhor vai em primeiro. O objetivo é pelo menos conseguirem ser os dois eleitos?

Ou mais, se fosse possível.

Sim, mas eu estou aqui a perguntar por mínimos.

Não, nós não estabelecemos esse tipo de objetivos. Queremos manter e alargar o grupo parlamentar como tal. Veremos o que é que os portugueses entendem que nós merecemos.

E tem algum receio do ambiente que vai encontrar nesse regresso ao Parlamento, que é muito diferente também daquele que experienciou?

Receio? Não, nunca tive receio de participar na vida parlamentar, nem na vida política em geral. Se me quer perguntar se eu reflito no atual caldo de cultura que existe no Parlamento, sim, muito. Eu, como presumo bem, sou um observador interessado da vida parlamentar e desgosta-me profundamente um caldo de cultura que é de rufiagem política, de um certo hooliganismo partidário que temos assistido, não respeitando mulheres, não respeitando deficientes, não respeitando mães, não respeitando todo um conjunto de deputados e deputadas a quem são assacadas críticas por características particulares, isso é algo inaceitável. Agora, parafraseando uma determinada força política, há que pôr a casa na ordem.

Como é que se combate o Chega no Parlamento?

Combate-se politicamente, mas também se combate com as regras do próprio Parlamento.

E aí é uma crítica à Guiá Branco.

O Parlamento tem regras.

E as regras não foram cumpridas, a Guiá Branco não fez cumprir as regras?

Recordo-a bem. Há muitos anos atrás, quando foi a guerra do Iraque, eu próprio apareci com uma T-shirt contra a guerra do Iraque na bancada do Parlamento. E o presidente convidou-me a sair da sala e eu saí da sala. Mas não criei uma balbúrdia, nem um pânico constante, nem coisa alguma. Portanto, sempre tivemos a capacidade, e o presidente da Assembleia tem a capacidade de excluir da sessão os deputados que não estejam, de facto, a respeitar o decoro parlamentar, não estão a respeitar o convívio democrático, não estão a respeitar a capacidade de contrastar políticas, que é para isso que os portugueses elegem deputados, para fazer as leis, para fiscalizar o governo, para contrastar políticas, para criar horizontes de futuro. Está ali a montra do que o país pode ter. Se a montra é aquela, aquilo nem para saldos. E portanto, isso só vai aumentar o descrédito na política, que é exatamente o que nós não pretendemos. Nós percebemos que partidos da extrema-direita com estas características não encontrem valor algum no Parlamento. E portanto, quanto mais desvalorizado ele estiver, provavelmente, julgam que será melhor para os seus objetivos estratégicos de tomada do poder. Mas há todo um campo enorme da democracia liberal, da democracia social, que não entende isso assim. E muito pelo contrário, quer manter o Parlamento no centro da capacidade da vivência democrática.

E que força mínima é que o Bloco de Esquerda deveria ter no Parlamento, em número de deputados, para que esse combate seja mais eficaz?

Insisto, nós queremos alargar o número de votos e deputados. O que for, soará. Cá estamos para assumir todas as responsabilidades.

Cá estará também Luís Fazenda, que vai regressar a este combate eleitoral. É candidato a deputado, cabeça de lista por Aveiro. Muito obrigada por ter vindo ao Explicador da Rádio Observador.

Muito obrigado, Eva.