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Os partidos políticos estão a ultimar as listas para as eleições legislativas antecipadas, são no próximo dia 18 de Maio. O governo colocou os governantes como cabeça de lista nos diferentes distritos. No Partido Socialista, notícia desta tarde, Pedro Nuno Santos sabe agora que não conta com Fernando Medina. O período de pré-campanha está em destaque no Explicador. Recebemos nos próximos minutos João Costa, socialista, antigo ministro da Educação, e também Duarte Pacheco, antigo deputado do Partido Social-Democrata. Começamos por João Costa, do PS. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco neste Explicador. Fernando Medina recusa integrar as listas do Partido Socialista às próximas eleições legislativas. Foi anunciado esta tarde. Está a preparar-se para ser candidato à liderança socialista caso Pedro Nuno Santos saia derrotado nesta eleição?
Muito boa tarde. Boa tarde também ao Duarte Pacheco, é um gosto partilhar este espaço com ele. Eu não sei. Eu penso que o Fernando Medina, na nota que torna pública, diz que são decisões pessoais. Eu não diria que alguém que queira ser secretário-geral queira ficar fora do Parlamento, porque o lugar do Parlamento é um lugar em que se consegue um protagonismo político que fora não se consegue. Portanto, ele também faz questão de dizer que está fortemente empenhado na vitória do PS, portanto não faço qualquer leitura de uma tentativa de se afastar de algum possível resultado menos bom para o PS. Vou fazer boa fé da palavra dele quando diz que são motivos pessoais. Todos nós temos os nossos motivos. Eu próprio também já fiz saber quando fui consultado na minha concelhia que não tenho intenção de ser candidato a deputado, e também por razões profissionais e pessoais, portanto não acho que seja necessário extrapolar nada de muito transcendente neste tipo de decisões.
Mas Fernando Medina já tinha feito essa declaração de voto quando foi o chumbo do governo, quando houve a votação da moção de confiança, houve esse posicionamento. Agora esta intenção de não seguir nas listas. Não vê, de facto, aqui nenhuma tentativa de posicionamento para o que pode ser o futuro do Partido Socialista?
Eu fiz uma leitura muito pessoal da declaração de voto do Fernando Medina na altura. É bom lembrar que o Fernando Medina, a par de outras pessoas, estamos a lembrar, por exemplo, o Eduardo Cordeiro também, viveu vários anos sob suspeita no processo do Tufilacte, sem ser alguma vez ouvido pelo Ministério Público, com fugas constantes de informação do Ministério Público para alguns órgãos de comunicação social. E eu li aquela declaração de voto como a de alguém que reage muito a um tipo de contexto de desconfiança em relação aos políticos e de algumas afirmações à boa maneira da extrema-direita. Qualquer pessoa que passa pela atividade política está necessariamente associada a processos de corrupção. Portanto, eu fiz, em primeiro lugar, essa leitura daquela declaração de voto. Pode ser uma ilusão minha, mas conhecendo o Fernando Medina e conhecendo o que ele passou também a nível pessoal durante todo esse período, confesso que essa foi a primeira interpretação que fiz, e não propriamente de alguém que está a projetar uma candidatura no futuro, mas pode ser uma grande ingenuidade minha, não escondo.
Duarte Pacheco, bem-vindo também, obrigada por estar conosco. As sondagens têm sido favoráveis à AD. Com o caso Spin on Viva, não era de esperar que, de alguma forma, a Aliança Democrática fosse penalizada?
Muito boa tarde, também os meus cumprimentos para si, Judite, para o Miguel e para o João Costa, que é sempre um prazer poder discutir política com ele. Ora bem, a sua pergunta é interessante, mas permita-me ainda que faça esta nota em relação ao Fernando Medina. Eu tenho pena. Eu estou nessa linha, eu compreendo que se ele quisesse ter ambições e fosse a um mapa estratégico, era preferível estar no Parlamento, porque isso estava a assumir que pensa que o PS iria perder, que abriria-se uma luta pela sucessão e o líder da oposição deveria estar no Parlamento. Não vejo isso. Sempre que alguém com a qualidade de Fernando Medina deixa o Parlamento e deixa a política ativa, eu acho que perdemos todos. E portanto, eu tenho pena, mas desejo ao Fernando as maiores felicidades na sua vida pessoal e profissional, visto que da política ele vai se afastar. Sobre a AD, dizer o seguinte: tudo aquilo que nós sabíamos em termos de avaliação do governo era globalmente positivo. O governo ainda não fez um ano em funções, procurou resolver muitos daqueles problemas que foram herdados com as classes profissionais do Estado e apresentou medidas para ir resolvendo problemas estruturais noutros. Alguns ainda não há resultados visíveis, e o maior exemplo é a saúde, em que de facto foram criadas expectativas que não foram cumpridas, daí alguma desilusão, mas sabemos que se fosse tão fácil resolver os problemas da saúde ou da justiça num ano, já estaria resolvido há muito tempo, significava que os governos não tinham feito porque não tinham esse objetivo e esse fim. Não, os governos tinham, só que a situação não é assim tão fácil. Mas globalmente, as pessoas fazem uma avaliação positiva da atuação do governo e por isso é natural que a coligação que suporta o governo apareça bem posicionada nas sondagens. Poderia esta questão pessoal do Primeiro-Ministro tê-lo afectado drasticamente? Eu acho que teoricamente, se houvesse uma acusação, se houvesse algo mais, se as questões e as investigações que estão em curso, imediatamente na Procuradoria, viessem com alguma coisa mais forte, poderia, porque estamos a falar do chefe do Governo. Estas coisas hoje já estão a ficar cansadas e o maior exemplo é isso mesmo. É o facto de as sondagens indicarem que isso já não afecta os resultados, como porventura alguns podiam pensar que seriam favas contadas quando fôssemos para eleições.
João Costa, faço-lhe a mesma pergunta. Os eleitores parecem relevar o caso Pinão Viva, pelo menos a ver pelas sondagens. Entende por quê? Partilha desta opinião de Duarte Pacheco de algum cansaço?
Eu diria o seguinte: aquela frase muito batida já nesta crise política de que estas eleições não interessam particularmente a nenhum dos partidos e que não interessam a ninguém. E eu diria quase uma certa unanimidade que existe em alguns sectores do PSD, aos mais vocais, de que estas eleições foram provocadas pelo próprio Primeiro-Ministro, batem certo com estas sondagens. Em princípio, em tese, nós estamos no fim de um ciclo político muito curto. Portanto, os resultados destas sondagens também são mais ou menos expectáveis, tendo em conta que houve um ciclo longo com o PS e há um efeito de cansaço em relação aos governos que o governo da AD ainda não experienciou, até porque teve um primeiro ano de uma postura quase de campanha eleitoral permanente, eventualmente antevendo o que poderia vir a ser um chumbo do orçamento de Estado no final deste ano. Houve, num primeiro momento, um despejar do excedente que foi herdado na resolução de algumas questões mais laborais, sem termos uma visão muito clara de uma visão integrada, por exemplo, para toda a administração pública, que fosse respondendo aos grupos mais reivindicativos à administração pública, sem ter uma abordagem que abrangesse todas as carreiras. Mas aquilo que me parece também é que há uma dúvida instalada, ou seja, toda a gente entende que há muitas questões por explicar no caso concreto do Primeiro-Ministro, que é uma questão pessoal, não é uma questão do Governo, é uma questão só dele e ainda as notícias que saíram esta semana, a mim enquanto cidadão, perturbam um pouco. Penso que era a Ana Fa Lopes que hoje escrevia no Público e com muita propriedade, que dizia: "Se tudo aquilo que se passa em relação ao Primeiro-Ministro fosse sobre um ministro, esse ministro já se tinha demitido ou já tinha sido convidado à demissão pelo próprio Primeiro-Ministro". Mas nós temos aqui esta circunstância estranha, que é como isto afecta o Primeiro-Ministro, ele mantém-se e quer-se submeter a uma avaliação da sua condição pessoal, arrastando o Governo todo atrás. Para mim, e talvez não seja essa a opção do meu partido, é muito importante que as eleições não sejam sobre o caso Pinão Viva, mas sejam exactamente sobre a governação e sobre alguns planos que se começavam agora a ver ou quais eram ou qual era a sua falência. A AD apresenta-se enquanto governo com uma visão, eu quase diria, naïf, bastante ingénua, de que problemas estruturais, como o Duarte Pacheco dizia e bem, se resolviam com planos de emergência, com coisas de 30 dias, de 60 dias, de 90 dias, fosse na saúde, fosse até na educação, com as questões muito complexas da falta de professores, e foram batendo de cara na realidade que problemas complexos não se resolvem com planos de emergência e alguns são problemas, inclusive, que não são só nacionais, são problemas conjunturais ao nível europeu. E portanto, era preciso ver exactamente, perceber, é preciso que haja clareza nestas eleições, nos programas eleitorais, de se dizer exactamente quais são as soluções que vão ser apresentadas para estes problemas mais estruturais e sobretudo num contexto que é diferente do que tínhamos há um ano, que é saber que há uma convocação dos vários países para porem fundos na defesa, na segurança, e esse dinheiro vai ter que sair de algum lado. E então quais são as opções dos principais partidos na despesa social, o que é que vai acontecer? É muito importante que haja clareza aqui, porque senão vamos estar só a avaliar um governo que esteve em campanha eleitoral permanente e que nem sempre foi muito claro sobre aquilo a que vinha. Começámos agora a ver na saúde, com as propostas das parcerias público-privadas, qual é a agenda clara do Governo nesta matéria. Também, por exemplo, na falta de lugares para as crianças na educação pré-escolar, com o crescimento de contratos de associação, em vez do alargamento de salas na rede pública. É muito importante que haja clareza, que haja transparência e, a meu ver, que esta campanha não seja centrada, como o Primeiro-Ministro parece querer, na credibilidade do Primeiro-Ministro, mas sim nas opções de governação, porque essas é que são as questões que preocupam as pessoas No seu dia a dia, como é que pagam as suas contas, as dificuldades que têm com a habitação neste momento, e é aí que nós precisamos, de facto, de clareza.
João Costa falava aqui em ter o governo na campanha. Já falámos das listas do Partido Socialista, mas Duarte Pacheco, de facto, a Aliança Democrática coloca os ministros como cabeça de lista numa série de distritos. Esta é a estratégia para as eleições. Isto pode confundir-se com o que é campanha eleitoral, o que é governação, estar aqui quase a colocar a governação a votos. Como é que vê esta escolha de cabeças de lista feita pela Aliança Democrática?
Eu tenho ainda que rebater algo que disse o João Costa.
Claro.
E respondendo à sua pergunta, para dizer o seguinte: aquilo que o governo fez, nas palavras de João Costa, a resolver alguns dos problemas dos carreiros profissionais, foi eleitoralismo e, por outro lado, não tinha uma visão global, que era essa a posição do Partido Socialista. João, por favor, quem abriu o problema foi o governo do Partido Socialista, quando deu um aumento extraordinário para a Polícia Judiciária e que pôs em guerra todas as outras forças de segurança, precisamente porque não foi vista globalmente. E se calhar pensava que passava despercebido, só que as outras forças de segurança aperceberam-se do que estava a acontecer e que os seus colegas iam receber e eles não. E a partir daí abriu-se uma caixa de Pandora. E alguém tinha que pôr um fim a isso, para que o Estado voltasse a funcionar, porque era impossível as coisas andarem com conflitos tão graves e tão permanentes. Já não era que fosse recorrente, era permanente com os diversos setores da função pública. Agora, chegados aqui, a apreciação que eu acho que seria, que devia ser a campanha eleitoral, concordo com o João, é discutir política, aquilo que o governo tem como projeto, e o Partido Socialista terá o seu e os outros partidos terão, para que os eleitores possam escrutinar qual é, da sua óptica, a melhor solução para o país. Ora bem, o governo, como disse, tem uma avaliação positiva. E o que o primeiro-ministro e o líder do PSD quiseram foi precisamente dizer: "Olhe, essa é a equipa que está a governar Portugal, se querem que essa equipa continue, sabem em quem é que têm que votar." E reforçando a sua capacidade de ter a maioria para poderem governar. Porque senão, se calhar chegamos a outubro e podemos ter o problema outra vez com o orçamento chumbado e um Presidente da República sem condições de poder convocar eleições. E os portugueses já estão cansados de tantas eleições. O problema da imprensa do primeiro-ministro claro que aborreceu muita gente. Dentro do PSD as pessoas ficaram surpreendidas, fora também, mas era isso o motivo para que o governo caísse? Para a maioria dos portugueses, não é.
João Costa, queria ouvir o João Costa sobre esta questão, só para depois podermos falar ainda um pouco daquilo que têm sido as sondagens, daquilo que parece ser a confiança do primeiro-ministro, mas perceber com o João Costa se esta escolha de ministros para cabeça de lista lhe parece também uma opção normal por parte do governo, sendo que o objetivo máximo é claro, ser reeleito.
Eu concordo com a análise que o Duarte faz. O que o primeiro-ministro está a fazer com esta opção é tentar desviar a atenção do seu caso pessoal, para tentar dizer que é o governo que está sob avaliação nestas eleições. Ora, o que fez cair o governo não foi a ação dos ministros. O primeiro-ministro arrastou os ministros para a sua situação. Aliás, eu até achei um bocadinho confrangedora a forma como, quando o primeiro-ministro se recusava a prestar esclarecimentos, ter posto os ministros numa sequência de idas à televisão a repetir a mesma narrativa. Até confesso que me chocou particularmente ouvir a Ministra da Justiça a desvalorizar o que pode indiciar vir a ser um problema de, por exemplo, de respeito da lei no que diz respeito à exclusividade no exercício de funções. Ouvir uma Ministra da Justiça a dizer: "Ele está a tratar dos seus filhos." Quer dizer, isso não é aceitável. Portanto, eu acho que a opção passa um bocadinho por aí. É uma estratégia como outra qualquer, mas eu acho que é uma estratégia de algum desvio da atenção sobre uma matéria que infelizmente, está em discussão nestas eleições. E digo infelizmente, porque repito o que disse há pouco, não é isso que preocupa os cidadãos, não deve ser esse o centro da discussão sobre diferentes opções políticas e programáticas. Acho que a discussão tem que estar centrada exatamente naquilo que são as grandes linhas de orientação política.
Só para fechar, até porque temos apenas mais um minuto e meio, Duarte Pacheco, falar um pouco de Montenegro. As sondagens têm dado todas vantagem à Aliança Democrática, mas podemos dizer, nesta altura, que Montenegro segue para a fase de pré-campanha, para a campanha, com demasiada confiança?
Eu não sei se sai com demasiada confiança. Eu acho que é natural que tenha confiança. Tem confiança até porque ele tem esses indicadores que lhe põem nas mãos e que demonstram que parte à frente, é sempre melhor partir à frente do que partir atrás. E em segundo lugar, porque tem confiança no trabalho realizado e que vai ser avaliado pelos portugueses. Agora, eu digo é calma. Até lavar os pratos é a vindima. E todos nós recordamos a campanha de doutor Jerónimo de Sousa com o doutor Ferro Rodrigues, em que o doutor Jerónimo de Sousa parte para um grande avanço e recaiu à justa, e todos nós tínhamos a perceção que mais uma semana de campanha e o doutor Ferro Rodrigues ganhava as eleições. Ou a segunda campanha de Passos Coelho versus António Costa, em que quando se iniciam as eleições, a campanha e a pré-campanha, a AD estava atrás do Partido Socialista e depois ganhou com quatro pontos de avanço ou cinco sobre o Partido Socialista. Portanto, as campanhas, de facto, contam. E com os indicadores das sondagens, em que há cerca de 40% de portugueses indecisos.
Sim, certo.
Tudo isso, tudo é possível.
Tudo pode mudar.
É bom ter confiança, mas ter os pés no chão também é muito importante.
Duarte Pacheco, João Costa, muito obrigado por terem estado conosco neste Explicador.
Obrigado.
Muito obrigado.