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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, esta segunda-feira, com a antiga líder do PSD, Manuela Ferreira Leite. Manuela Ferreira Leite, bom dia, bem-vinda a este Explicador. Já conhecemos as listas de candidatos a deputados apresentadas pela AD, que são lideradas, em grande parte, por membros do governo. Isto é um bom sinal? Quer dizer que Luís Montenegro quer, sobretudo, levar a governação a eleições?
Não sei se quer levar a governação a eleições. O país vai a eleições, como bem sabe. Não é determinante. Os cabeças de lista que vão a votos, de conselho, têm alguma influência, mas nem sempre são determinantes. O que é verdadeiramente determinante é o sentimento geral das pessoas, se o país está melhor ou se está pior, se se espera melhorias ou não, se as políticas conduzem a resultados. Isso é que é o elemento determinante quando as pessoas votam. Portanto, penso que a escolha das listas tem com certeza a sua importância, mas não me parece um elemento decisivo.
Disse que o essencial, de fato, é o sentimento da população e dos eleitores sobre a sua vida. Polêmicas e casos, como o caso da Spin on Wiva, acha que não vão ter influência ou vão ter pouca influência nesta eleição?
Olha, eu acho que em épocas anteriores talvez tivesse alguma influência, neste momento, eu acho que não. E acho que não, porque toda esta discussão me tem cheirado muito, peço desculpa do que eu vou dizer, mas tem me cheirado muito a um salazarismo felizmente remoto. Porque nessa altura é que a grande maioria do povo era de uma classe em que não tinha iniciativas próprias, não tinha empresas, não desenvolvia o país. Só tinham esses privilégios quem era do regime. A situação atualmente não é a mesma e, portanto, aquilo que é natural é que alguém progrida, que pense no seu futuro, que se desenvolva, que trabalhe. Estamos muito longe da ideia de que, como nos tempos anteriores, em que é suficiente o pão e vinho sobre a mesa para as pessoas serem felizes. Nessa circunstância, eu minimizo ou, por outra, valorizo todos aqueles que não precisam da política e que a ela se entregam. É muita pena que uma parte importante do país ou das pessoas que têm qualificações, que têm qualidades, que têm iniciativa, não se dediquem mais a essa contribuição para o bem-estar dos outros. Sempre critiquei isso e tenho muita pena, e lamento muito que o país possa enfrentar uma situação em que arrasta os melhores da sua contribuição pública e se concentre em problemas que, como bem sabe, a maioria deles são suspeitos.
Mesmo que as sondagens indiquem que há uma maioria de portugueses que acha que Luís Montenegro não deu as explicações que devia, no tempo em que devia.
Eu acho que os portugueses que vão votar não vão pensar nesses aspectos. Se pensarem, é pena que não tenham sido esclarecidos ou, várias vezes, pelo contrário, incitados a pensar o contrário, e que possam ir influenciados por aspectos que eu pessoalmente não valorizo, porque conheço as pessoas, sei que são honestas e que não me influencia.
Olhando aqui para as-
Uma mensagem agora, se não se importa. Eu acho que, em todo caso, a grande maioria das pessoas, aquilo a que é sensível é ao sentimento de que alguma coisa mudou, estava a mudar no país. E não podemos nunca negar isso. Não podemos negar que, a despeito de se baixarem impostos, que iam aniquilar o orçamento, que a despeito de se terem feito atualizações e que se estava a continuar a fazer e que se espera que se continue a fazer em muitas classes profissionais. A despeito de todas essas medidas que todos de mão na cabeça diziam que isso ia arruinar as contas, se verificou efetivamente que a consequência foi exatamente o contrário. Sentiu-se que o país estava a mexer, que estava a progredir, que isso beneficiava as pessoas, e esse é que eu acho que é o sentimento sério quando as pessoas vão votar.
Está a olhar, quando fala das contas públicas, certamente para-
Não só das contas públicas. Falo das contas públicas, que não foram avaladas pelas medidas que foram tomadas. Falo no crescimento econômico.
Não, sem dúvida. E das medidas que elencou há pouco, mas referiu também que isso não pôs em causa o equilíbrio das contas públicas.
Não, não pôs.
Está certamente a olhar para o superávit, o excedente de 0,7% que foi comunicado no INA na semana passada, das contas 2024, mas também é certo que muitas das medidas não tiveram ainda o seu total impacto no ano passado.
Exatamente. Quando tiverem, será melhor.
Mas, por outro lado, não podem pôr em causa o equilíbrio das contas públicas?
Não, não podem. Não podem pela simples razão de que ou os aumentos de vencimentos que foram feitos Atingem classes mais carenciadas e elas têm uma propensão ao consumo muito grande e, portanto, o crescimento vem por esse consumo. Ou aconteceu, como bem sabe, que se vê isso nos números que foram publicados, aumentaram as poupanças. O fato de ter aumentado o nível de poupança, os níveis de depósitos que não havia há muito tempo, significa que as pessoas, no fundo, conseguiram inclusivamente ultrapassar o limite das suas necessidades mínimas. E, portanto, atingiu um conjunto grande de população, que não só aqueles que eram os mais carenciados.
Nós estamos de acordo com as sondagens, as indicações que as sondagens vão dando perante um cenário que não será muito diferente do resultado eleitoral de há um ano. A AD mantém a linha vermelha que a separa do Chega e o não é não continua em vigor. Entendimentos com o PS parecem impossíveis. Não teme um bloqueio da governabilidade que vai continuar a partir de maio?
Ouça, é evidente que todos tememos isso. Portanto, é evidente que é algo que nós tememos, mas também tememos que pudéssemos imaginar uma aliança com um partido populista e absolutamente irresponsável, que nós sabemos que não é possível. E, portanto, são as pessoas, é a população que deverá ter consciência do que é possível fazer-se para que o país tenha efetivamente um rumo. Se os portugueses decidirem que preferem que não exista esse rumo com alguma segurança, estamos em democracia e temos que aceitar os resultados. E temos que não desistir, não baixar os braços e continuar, na medida dos possíveis, fazer aquilo de que o país precisa e qualquer pessoa exige que isso aconteça. Sente-se, e não tenho dúvidas de que a grande maioria das pessoas sente, que houve alguma coisa que estava a mexer no país, que tinha estado parado e que estava a desbloquear. O que está a passar com o Banco de Fomento é algo de absolutamente inédito nas zonas anteriores. Portanto, isso significa que efetivamente estava a mexer-se, estava a evoluir, estava alguma coisa a ser alterada no país, em menos de dois meses.
E acha que esse sentimento é superior então, eventualmente, ao ruído e às desconfianças que o caso Spin off Viva pode trazer para Luís Montenegro e para o PSD?
Ouça, se o não fizermos, realmente estamos num país que está doente. Se realmente optamos por tomar decisões com base em suspeições, muitas vezes em falsos testemunhos. Em vez de pensarmos no nosso futuro, naquilo que nos interessa, no que mexe o país, na nossa vida, no nosso futuro, dos nossos filhos, dos nossos netos, se pusermos isso na balança e tendermos para um lado errado, é a decisão dos portugueses e é provavelmente o seu araquiri.
Nós ainda sobre a governabilidade pós-eleitoral, Pedro Siza Vieira foi ministro da Economia do governo de António Costa, e ele defende, de facto, nesta fase de incerteza internacional, entendimentos entre o PSD ou AD, se quisermos, e o PS. Defende também esta via. Vamos agora esquecer por um momento se ela é possível ou não com estes líderes, mas acha que esta é uma via necessária para o país?
Admito que é uma via que seria muito útil para o país que tal acontecesse. Não tenho nenhuma dúvida acerca disso. Temos exemplos na história anterior em que isso sucedeu, ou por iniciativa do Partido Socialista ou por iniciativa do PSD. Não há memórias negativas sobre essa matéria. E, portanto, é exigente que qualquer acordo nessa matéria sobre assuntos que inegavelmente são em benefício do futuro do país. Sabe que é este aspecto que mais me incomoda. É que estando todos conscientes dos benefícios que vêm para o país e para as pessoas, de determinado tipo de medidas que precisam de ser tomadas, de determinada tranquilidade que é necessário estabelecer para manter a confiança no investimento. Sabendo todos, eles sabem todos, não são ignorantes, não sabem mais do que eu ou não sabem mais do que qualquer outra pessoa. Sabemos todos o mesmo. Não há teorias divergentes, não há opções diferentes. São estas, todos sabem isto. E no meio disso, dizem que não. E em termos só de questões partidárias, optam por caminhos diferentes, é realmente não ter a ideia de que o país e os interesses das pessoas é muito mais importante do que os interesses partidários, ou do que a segurança do lugar de um A ou de um B. Enquanto isto não for exatamente o grande problema e a grande questão que deve estar em discussão, vamos nos entretendo com outro tipo de discussões que podem ser interessantes do ponto de vista de comunicação social Mas são verdadeiramente negativas do ponto de vista do país.
Acha que é esse facto que tem impedido entendimentos entre o PSD e o PS, a colocação dos interesses partidários à frente dos interesses do país?
Só pode, a menos que as pessoas sejam tão ignorantes que julguem que não é isso.
E acha que com estes protagonistas atuais, Luís Montenegro na liderança do PSD e Pedro Nuno Santos na liderança do PS, algum tipo de entendimento vai ser possível nos próximos tempos?
Isso não me pergunte a mim, porque é algo que está com certeza no pensamento de cada um deles e eu não estou. Mas pelo menos da parte do Partido Socialista, tem que com certeza haver alguma alteração no seu posicionamento em relação aos interesses do país.
Por que diz isso?
Porque partindo da hipótese que o PSD poderá ter, e espero que tenha, um resultado superior, mas não suficiente, para governar em maioria, que possa contar com um partido que historicamente sempre defendeu as liberdades, as igualdades, a melhoria social e, portanto, que faça jus à sua história e que possa de alguma forma contribuir para que o país, exatamente neste contexto tão incerto, possa de alguma forma progredir com tranquilidade, com sentido de Estado, com interesse pelo crescimento do país ou interesse na melhoria do bem-estar das pessoas e que passamos a vida em conflitos que têm pouco a ver com isto.
Luís Montenegro tem sido criticado também agora ao longo das últimas semanas, pontualmente, por exemplo, por ter incluído Hernâni Dias, que se demitiu há poucos meses de secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, por questões éticas, por ter colocado Hernâni Dias, por exemplo, a liderar a lista por Bragança. Também agora por estar a escolher não ir a alguns debates. Acha que isto são atitudes, algum esticar de corda, de provocação mesmo de Luís Montenegro?
Não o tenho na conta de fazer provocações dessa maneira. Acho que relativamente à questão do secretário de Estado, já foi explicado, não tem nenhuma incompatibilidade em relação a ser candidato a deputado. Se as pessoas entenderem que assim não é, têm à sua disposição o voto para o mostrar. Portanto, não vejo que haja um esticar de corda. Acho que há uma linha de decisão sobre a lista dos deputados, que ainda por cima, como sabe, não tem essa influência decisiva no resultado. Quanto à questão que...
Dos debates.
Dos debates. Admito que tenha que haver alguma gestão, que seja por um problema de gestão de tempos disponíveis. Está-se numas eleições no meio de uma situação verdadeiramente muito absorvente em termos de reuniões, especialmente fora do país, que haja alguma necessidade de gerir o esforço e o trabalho que neste momento significa estar-se num governo com grandes exigências internacionais, com reuniões a toda hora e que não seja possível gerir o tempo. Portanto, admito que seja mais uma questão de gestão do que propriamente de qualquer desprezo, obviamente, que não é, sobre os diferentes partidos.
Manuel Ferreira leite, quase a chegar ao fim. Nós daqui a menos de um ano teremos outra eleição presidencial. Surpreende haver algumas figuras da área do PSD, históricos como António Capucho ou Carlos Carreiras, a apoiar Gouveia e Melo?
Vamos lá ver. Não tenho como surpreender, nem que seja de surpreender. Há vários candidatos ou haverá vários candidatos e cada um posiciona-se por motivos vários, que neste momento não sou capaz de avaliar. Nunca em nenhuma eleição, todo um partido vota na mesma pessoa.
Sim, mas o candidato natural da área do PSD é Marques Mendes, como sabemos.
Sim, mas acredita que em nenhuma eleição presidencial, todos os militantes de determinado partido votaram no seu candidato apresentado pelos partidos. Há uns que dizem e outros que não dizem. A diferença está só aí.
Mas estes sinais não podem mostrar uma certa divisão maior do que é natural, como diz, nesta eleição presidencial, precisamente entre Marques Mendes e Gouveia e Melo?
Não, a única coisa que pode mostrar é que o facto de haver dispersão nessas votações é haver pessoas que por quaisquer motivos discordam de escolhas que são feitas e que dizem pessoalmente. Quantas pessoas dirão que vão votar em A e afinal não vão votar em A, só como disseram? Eu não faço disso um caso, porque ninguém é suscetível de não ser. Entre duas opções, entre três opções ou entre cinco opções, haver uma que as pessoas, por quaisquer motivos, até de amizade ou de convívio, não faço ideia, pensam votar noutras pessoas.
Mas pela dinâmica das sondagens, acha que Gouveia e Melo tem, de facto, potencial para vir a ser o próximo presidente da República?
Eu me limito a olhar para as sondagens e também lhe digo que me limito, por um lado, a andar para as sondagens e concluo que quem criou o Gouveia e Melo, quem lhe fez uma campanha absolutamente gratuita, em que ele ainda não deve ter gasto um cêntimo, foi a comunicação social. Há cinco ou seis meses que só se fala, em todas as intervenções de natureza pública, não por parte das pessoas, mas por parte da comunicação social. Portanto, ele tem feito uma campanha gratuita à conta da comunicação social, porque senão eu acho que uma vez que ele ainda não anunciou que ia ser candidato, as pessoas podiam sonhar durante a noite, agora não se sabia que havia realmente uma adesão tão grande. E essa adesão é tanto maior quanto mais ele estiver calado e quanto mais a comunicação social falar dele.
Não vê também nessa dinâmica e nos números das sondagens, um sinal que pode ser de alerta para os partidos políticos, uma vez que ele apresenta-se precisamente por vir de fora, se quisermos, da política profissional?
Exatamente. O que é verdade, é um sentimento genérico e é aí que os partidos têm culpa em se terem tornado de tal forma acantonados a determinados aspectos que nada têm a ver com o bem-estar das pessoas. É exatamente esse erro que os partidos têm cometido e que devem recuar se querem salvar uma democracia. De resto, como todos sabemos, o nascimento de partidos populistas tem esta consequência. É assim em toda a Europa, está a acontecer em toda a Europa e nós pensávamos que não chegava cá. E chegou. Ou bem que nos entendemos, ou bem que temos consciência, ou bem que temos esclarecidos, ou bem que percebemos que estamos a ir num caminho nessa direção, estamos todos a trabalhar afincadamente para que tal nos suceda a nós também.
Muito bem.
E é esse problema que eu acho que deve ser a grande meditação nas eleições. Queremos ou não queremos seguir o caminho que os outros países estão a seguir, nomeadamente na Europa?
Muito bem, fica essa nota final. Manuel Ferreira Leite, obrigado pela disponibilidade, por ter estado neste Explicador. Explicador que regressa para a segunda edição, depois das notícias das 18h, na tarde política da Rádio Observador. Bom dia e boa semana.
Bom dia, muito obrigado.