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Explicador da Rádio Observador, recebemos Paulo Lopo. É ainda o presidente da SAD do Estrela da Amadora, mas fechou recentemente a venda da equipa a um grupo alemão, num negócio a rondar os €40 milhões. Paulo, obrigado pela disponibilidade. O negócio já foi publicamente anunciado. Perguntava-lhe quando é que vai ser feita esta transição de liderança e também a forma como vai ser feita esta transição, tendo em conta que o atual CEO, Francisco Lopo, vai continuar. Foi uma condição que impôs ou foi uma escolha já dos novos donos?

Boa tarde a todos. Não, foi uma escolha dos novos donos. Na perspectiva deles, até gostariam que eu continuasse também, mas eu preferi me afastar, porque acho que chegou a minha altura. Portanto, fiz o meu trabalho, o meu trajeto, aquilo que me tinha comprometido, que era agarrar naquilo que se estava a fazer com o CD Estrela, recriar o Estrela da Amadora e conduzi-lo à Primeira Liga. Este grupo de investidores que entrou considerou que o trabalho que estava a ser feito do ponto de vista estrutural era bom e quis manter a equipa toda. Eu, por uma questão de princípio, preferi não ficar, mas obviamente que o Francisco, que é o CEO do clube, ficará e será ele que fará e garantirá a transição de forma ordenada.

Este grupo alemão tem vários nomes conhecidos, como Thomas Müller ou Mats Hummels. Estas figuras do futebol fazem parte do processo de gestão, foram interlocutores diretos ou terão apenas o papel de financiadores?

Não, têm-se, nesta fase, o papel de financiadores. Eles não são os principais investidores. Os principais investidores saíram hoje no comunicado que o Estrela da Amadora fez. São grupos grandes, é um grupo grande do qual eles também fazem parte, mas a expressão deles neste negócio é pequenina, é quase que residual. No entanto, acabam por se chamar mais a atenção pela grandeza do nome, por serem pessoas muito conhecidas no futebol internacional.

Como é que surge este mercado alemão? Porque já há uns tempos o Estrela tinha conseguido um excelente negócio com a Alemanha, no caso de Sidnei Cabral, que foi comprado e depois revendido mais tarde por um valor muito superior. Como é que houve esta abertura também do Estrela ao mercado alemão?

Nós, como éramos um clube com poucas condições financeiras, naturalmente, teríamos que fazer um scouting muito mais aprumado e teríamos que procurar mercados onde os outros não estavam presentes ou estariam menos presentes pra podermos fazer a diferença, porque hoje a concorrência do Estrela da Amadora, a grosso modo, são multiclubes, clubes grandes, clubes com financiadores por trás, com fundos de investimento. E, portanto, o nosso departamento de scouting trabalhava muito bem em alternativas diferentes, nomeadamente a terceira liga alemã, a segunda liga francesa e, se calhar, curiosamente, pelo sucesso que nós tivemos nos atletas que fomos buscar à Alemanha, isso possa ter despertado um pouco mais curiosidade aos investidores alemães, porque na maior parte dos investidores, eles têm origem alemã, e eles tenham reparado mais no Estrela da Amadora. Se calhar, observando melhor o Estrela da Amadora, as condições que o Estrela tinha, o fato de ser o único cassado no país que é detentora de um estádio, o fato de termos recuperado, ter feito um trabalho de gestão desportiva e financeira que nos trouxe até aqui em seis anos, provavelmente todas as vendas que fizemos, mais de €40 milhões nestes últimos três ou quatro anos, fizeram com que eles olhassem de forma diferente pro nosso projeto e tivessem gostado.

Havia interesse seu em vender ou o negócio surgiu e então decidiu avançar?

Havia interesse em vender, porque eu acho que para aquilo que me era possível fazer como gestor, eu tinha conseguido fazer aquilo que me tinha proposto. Nós quando aqui chegamos, o clube praticamente era residual, não tinha uma expressão significativa, não tínhamos o estádio, a Taça de Portugal tinha sido hipotecada, não tínhamos o sintético pras crianças. Portanto, o que é que nós conseguimos fazer? Nós recuperamos o estádio, compramos o estádio, o bingo, nós recuperamos o sintético pra formação, que foi muito importante. Colocamos todas as equipes importantes sub-17, sub-19 nos campeonatos nacionais. E, portanto, eu acho que se estava a fechar um ciclo, o Estrela está há quatro anos na Primeira Liga. Eu sentia que para darmos o próximo passo, era importante a entrada de novos investidores, porque a concorrência é muito agressiva entre fracos.

Deixa eu só perguntar se para este processo de venda contribuiu também, porque há uns meses foi notícia algumas dificuldades financeiras do Estrela. Havia aqui também uma necessidade de garantir a sobrevivência do clube?

Não, a sobrevivência, não. As dificuldades financeiras foram um pouco empoladas. O fato de se fazer um PER não se traduz só em dificuldades financeiras, traduz-se mais em dificuldades de tesouraria do que em dificuldades financeiras. Portanto, eu acho que se olharmos bem pra todos os clubes nacionais, todos os clubes nacionais têm dívidas, algumas 10 vezes mais, 20 vezes mais, alguns casos, do que o Estrela da Amadora. Portanto, o Estrela da Amadora é um caso relativamente igual aos outros. A gestão de tesouraria que muitas vezes é diferente da gestão porventura, não é? E nós, como havia um problema grave com o Flamengo, que nos podia cortar a possibilidade de continuar a competir ao mesmo nível, não tivemos outro remédio que não ter que recorrer ao PER. Aquilo que os investidores viram no Estrela da Amadora foi o potencial de ser um clube perto da cidade da Amadora. O fato de ter uma boa equipe, uma boa estrutura, uma boa equipe interna, ter muitas crianças. Estão aqui na nossa formação mais de 600 crianças e temos um potencial de crescimento enorme. Já saíram daqui grandes jogadores. Somos uma das maiores cidades do país, temos uma massa associativa ótima, acho que faz todo sentido para os investidores, um clube como o Estrela da Amadora.

E este investimento pode fazer o Estrela chegar a que patamar?

Nós tivemos muitas abordagens para a venda do clube. Não é uma situação fácil escolher o próximo step. Acho que é muito importante escolher bem. Eu penso que das 10 ou 15 propostas que nós tivemos ao longo destes últimos dois anos, esta foi aquela que nos garantia uma melhor qualidade de futuro. Eu penso que estão reunidas condições pela experiência das pessoas que vêm liderar o projeto, nomeadamente o Ioannis, que tem mais de 10 anos de Bayern de Munique. Estão reunidas condições com a equipe que nós deixamos, com o técnico que nós escolhemos ainda, o Pepa, reunidas condições para o Estrela da Amadora fazer uma época muito tranquila e daqui a dois ou três anos estar na primeira divisão a lutar pelos lugares europeus, porque é isso que faz sentido a um clube com a dimensão do Estrela.

E este grupo deu-lhe também garantias de respeito pela história do Estrela. É um clube, como já referiu, com um estádio icônico, muito ligado à comunidade. Essa ligação também ao Estádio José Gomes tem essas garantias?

Certamente, até porque elas estão garantidas também através do protocolo com o clube. E isso pra mim é fundamental. O Estrela da Amadora nunca poderá nem mudar de nome, nem mudar de símbolo, nem mudar de cores. Isso é uma coisa que é intrínseca ao clube, à cidade. Portanto, não há nada que possa fazer mudar isso, nem nunca vai mudar. Eu serei sempre um fiel depositário daquilo que é a história e as origens do Estrela da Amadora e se um dia não forem respeitadas, eu mesmo serei o principal interveniente a que as coisas sejam repostas. Nunca vou permitir que isso aconteça, porque nós somos mais do que um clube só. Nós somos mais do que as pessoas que o gerem no momento. O Estrela da Amadora é um clube que ficará pra eternidade, ficará para sempre. Nós somos só fiéis servidores do clube enquanto estamos a trabalhar pra ele.

Num cenário negativo, de descida de divisão, por exemplo, o Estrela da Amadora tem condições para se manter?

Tem. Sempre teve, mesmo comigo cá, sempre teve essas condições para se manter. A qualidade da gestão e das vendas. Eu diria que hoje fala-se muito no negócio que foi a venda do Estrela da Amadora, mas eu vou lhe dizer que eu acho que o grupo alemão fez um excelente negócio, comprou um clube com muitos ativos, com ativos de muita qualidade. A equipe do Estrela da Amadora, que era a equipe principal, sub-19, sub-23, sub-17, tem muita qualidade, vão recuperar muito facilmente o valor investido. Do ponto de vista do real estate, as condições que estão criadas com os protocolos que estão a ser negociados com a Câmara para o novo estádio são muito bons. Acho que o Estrela da Amadora tem tudo para crescer muito. Não acredito sequer na possibilidade de descida de divisão. A única coisa que eu posso garantir é que se um dia alguma coisa corresse mal ao Estrela da Amadora, a mesma pessoa que há seis anos comprou, eu voltaria a pegar. Isso não tenho a mínima dúvida.

Fala-se muito desse caminho feito em seis anos, até daquele valor dos €72 mil pelo qual comprou o clube na altura. O que é que contribuiu para esta valorização desde 2020 até aqui?

Eu diria que foi um conjunto de muitos fatores. Eu acho que o Estrela queria muito, porque tinha acabado e estava a renascer através do CD Estrela. Portanto, o Estrela queria muito, a população da Amadora queria muito, os adeptos queriam muito, a cidade queria muito. Nós trabalhamos bem e fomos muito abençoados, porque no primeiro ano que entramos para o Campeonato de Portugal, ainda não havia a terceira liga, nós em 92 clubes, creio eu, subiam dois e nós fomos um deles. E depois no segundo ano mantivemos na segunda liga, no terceiro ano subimos à primeira e temos mantido até hoje. Por isso eu diria assim, foi uma grande equipe dentro do campo, mas também uma excelente equipe fora do campo, no back office daquilo que é o Estrela da Amadora, mas também uma vontade muito grande da cidade, dos adeptos, de todas as entidades vivas aqui da nossa cidade, que permitiram que em conjunto, porque este trabalho nunca se faz sozinho, faz-se em conjunto, o Estrela chegasse ao patamar que chegou.

O futebol português tem já vários investidores privados nos clubes, mas estas transações diretas da maioria do capital são raras. Essa porta está a abrir-se em Portugal e já agora, acha que vai chegar aos três grandes, por exemplo?

Olha, em relação a isso, infelizmente, já não são tão raras. Nos clubes de pequena, média dimensão é praticamente a generalidade e quando não são, estão em vias. Isto é um fenômeno que aconteceu na economia a outros níveis, noutras indústrias, como na farmacêutica ou na distribuição. Há uma tendência clara de globalização e, portanto, aqui também vai haver essa tendência. Nós em Portugal temos um problema, que é um problema de dimensão. O nosso país é um país com uma pequena dimensão, não reunimos o Pessoas suficientes para tornar a nossa economia tão apelativa, acabamos por ser um pouco engolidos pelos clubes, por fundos europeus, por multiclubes. Em relação aos grandes, a minha opinião é que a dimensão dos nossos clubes grandes é tão grande que lhes permitiria internacionalizar. Se fosse eu que tivesse essa decisão nas minhas mãos, naturalmente que internacionalizaria os clubes grandes. Por quê? Porque a dimensão do nosso país não comporta a continuidade do crescimento destes clubes se eles não se internacionalizarem. Porque o clube que fica em último lugar na primeira liga inglesa recebe tantos direitos televisivos como o Benfica. E isto é uma concorrência muito desleal. Portanto, o Benfica se internacionaliza, por exemplo, as dificuldades vão ser cada vez maiores. Se nós olharmos para aquilo que aconteceu em Inglaterra entre o Manchester United e o Manchester City, o United há 20 anos era duas ou três vezes maior que o Manchester City. E hoje essa realidade é completamente inversa. Por quê? Porque o City criou o multiclube, porque o City está representado em todos os cantos do mundo, tem 12 clubes que lhe pertencem. Portanto, conseguiram perceber onde é que existe a matéria-prima, onde é que existe a transformação e onde é que existe o produto final. E eles estão presentes em todas as fases do negócio. Eu diria que Portugal hoje é uma referência na distribuição, na transformação. Daqui partem os melhores jogadores do mundo, normalmente. Portanto, quando um jogador vem de um país de formação, de matéria-prima, como é o Brasil ou Uruguai, sabe que ao vir para Portugal está a abrir as portas para poder ter uma visibilidade enorme nos principais campeonatos da Europa.

O Paulo, mesmo não tendo esse poder de decisão nos três grandes, fecha agora um negócio de 40 milhões. Está a ponderar reinvestir alguma parte desse dinheiro noutro clube?

Para já, não tenho uma decisão tomada sobre o meu futuro. Acho que neste momento o futebol é uma coisa muito desgastante. Eu acho que as pessoas às vezes não têm bem noção, porque nós trabalhamos a semana toda para trabalharmos depois ao fim de semana em pico de estresse. Portanto, quando se está no futebol, não se tem tempo para descansar. É de oito em oito, sempre, a todo momento. Agora, eu deixo em aberto o que o futuro terá para mim. Neste momento, preciso descansar, refletir bem sobre o futuro, ver se posso ser útil ou não ao futebol português. Naturalmente, já tive imensas abordagens, imensas propostas, mas eu neste momento não estou sequer recetivo a ouvir. Acho que neste momento o mais importante é descansar um pouco, refletir e depois ver.

Deixe-me só insistir e já estamos mesmo a terminar, porque há pelo menos um dos três grandes que há dois anos disse que estava disposto a receber um parceiro minoritário, que é o Sporting. Essa seria uma boa possibilidade, por exemplo.

Não, eu acho que o Sporting teria que ter um parceiro minoritário de uma dimensão bem diferente da minha. Acho que a grandeza do Sporting não se compadece com aquilo que eu posso ajudar nesta posição. Acho que um Benfica, um Sporting e um Porto poderão receber algum investimento de investidores de capital estrangeiro, mas eu pessoalmente sou da opinião que nos três casos eles deviam ter a ambição de chegar mais longe. Eu, aquilo que poderei um dia vir a ajudar num outro projeto, é do ponto de vista da gestão. Dada a experiência que eu tenho, o sucesso que eu alcancei, isso sim, do ponto de vista da gestão, sim, do ponto de vista do investimento, nunca. Acho que o futebol português precisa de gestores, precisa de pessoas com coragem, efetivamente, porque foi preciso muita coragem para nós começarmos este projeto do Estrela da Amadora, mas para já vou esperar, vou ficar sentado, a descansar e a pensar de que forma é que eu poderei, no futuro, caso o futebol assim o entenda também, servi-lo.

Paulo Lobo, muito obrigado pela sua disponibilidade para se juntar a nós e dar aqui também alguns detalhes deste negócio da venda do Estrela da Amadora. Obrigado por se ter juntado à Rádio Observador.