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Temos connosco no Praça Café, onde estamos em direto nesta emissão especial, nesta sexta-feira da Rádio Observador, para fazer o balanço um mês depois da tempestade, o João Lavos, comandante dos Bombeiros de Vieira de Leiria.
Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. Deixe-me começar por lhe perguntar como é que foi aquela madrugada do dia 28.
Boa tarde a todos, muito obrigado pelo convite. É claro que essa madrugada não foi uma situação muito fácil de se viver por quem estava nas instalações naquele momento. Ou seja, foi uma situação um pouco, entre aspas, dramática, por assim dizer, e de terror, até porque os elementos estavam todos acordados e da força do vento que se fazia sentir e do fato dele ter arrancado os portões que protegem o nosso parque de viaturas e ver os portões a passar pelo meio dos veículos e a saírem nos outros portões do outro lado, foi muito difícil ver esta situação e tudo isto que estava a passar naquele momento.
Houve alertas, houve conferências de imprensa da Proteção Civil Nacional, Instituto de Meteorologia, mas de alguma forma este temporal surpreendeu-vos. Estavam de prevenção no quartel, imagino.
Sim, o temporal surpreendeu-nos. No entanto, de todos os avisos que fomos recebendo, nós preparámos equipas para estarem a reforçar o corpo de bombeiros. Ou seja, reforçámos o nosso corpo de bombeiros com cerca de 15, 16 elementos nessa noite, mais 10 elementos do que aquilo que é habitual. Além disso, também tínhamos equipas preparadas nas casas deles, que depois contactávamos caso fosse necessário, para reforçar mais outras situações que fossem surgindo. No entanto, e estando a acompanhar a meteorologia, não era expectável que os ventos fortes entrassem diretamente pela zona da Praia da Vieira e atravessassem Praia da Vieira, Vieira Leiria, Monte Real, Leiria e por aí fora. Apesar disso tudo, respondemos dentro das nossas capacidades a todas as ocorrências que foram chegando e naquilo que era a nossa deslocação, porque havia muitas árvores caídas nas vias e era muito difícil. Mas pelo menos nessa madrugada, até às 11h da manhã do dia, conseguimos libertar todas as vias principais de acesso à freguesia, neste caso, para que as pessoas pudessem circular.
Imagino que muitos bombeiros tivessem problemas nas suas próprias casas. Como é que fizeram? Tiveram de abandonar os seus espaços para ir acudir às populações?
Sim, a maior parte deles abandonou as suas habitações e deslocaram-se para o quartel e ajudaram, neste caso, a nossa população. Depois, entre alguns espaços de tempo em que íamos fazendo o descanso de alguns elementos e fazendo as alimentações também, íamos à casa de alguns deles e pelo menos tentávamos minimizar aquilo que eram os maiores danos, para que as situações ficassem minimamente resolvidas, até que as nossas ocorrências acalmassem um pouquinho e pudéssemos então ter outra forma de os ajudar na reparação dos danos deles.
Há bocado, o João Lavos estava aí a explicar como foi aquela noite, aquela madrugada. Que danos é que tiveram no quartel?
No quartel, tivemos os portões todos que protegem o nosso parque de viaturas, ou seja, temos oito portões ao todo. Desses oito portões, apenas um ficou no lugar, mas ficou danificado.
De oito, não se salvou nenhum, no fundo, é isso?
Não se salvou nenhum, exatamente. E o único que ficou de pé, ficou no sítio porque estava protegido com um caminhão, que era bastante grande, e de alguma forma protegeu o vento de chegar junto daquele portão. Todos os restantes portões foram danificados. Depois disso, tivemos o telhado do edifício principal e dos edifícios de apoio, que era onde temos as nossas oficinas e a nossa cozinha, que ficaram também bastante danificados. E depois, associado ao vento, com as chuvas que vieram, tivemos muitas infiltrações em todo o edifício, que também nos causou algum constrangimento e causa neste momento, pelas umidades que se encontram nas paredes e agora com a questão de aparecer o bolor e isso tudo, dificultou-nos esta situação. No imediato, aquilo que tentámos resolver foi pelo menos telhar as partes onde nós iríamos utilizar, e neste caso era a parte onde estavam situadas as camaratas para que os operacionais pudessem dormir, e também toda a zona onde nós confecionávamos as refeições para os operacionais. Tudo isso foi logo no momento, no próprio dia, tentado solucionar de uma melhor forma possível.
Também usaram lonas, como muitas famílias.
Usámos algumas lonas, mas depois com a ajuda das pessoas, a solidariedade foi tanta, o qual agradeço a todos, chegaram algumas telhas que conseguimos, de alguma forma, também minimizar com o uso dessas telhas que foram chegando.
Mas nesta altura o quartel está totalmente operacional?
O quartel sempre se manteve operacional.
Exato.
Não está 100% operacional, porque temos a falta ainda, e neste momento estamos a começar a fazer as obras de reparação. Pela falta dos portões, nós não temos a capacidade de manter o quartel, em termos de conforto, o melhor possível, porque não conseguimos fechar as fachadas onde estavam os portões. Já temos as paredes muito danificadas pela entrada das umidades, o bolor que aparece nessas paredes. Traz-nos algum desconforto. A parte operacional, que é o mais importante para que o quartel funcione, neste caso, a central de comunicações, as camaratas para os operacionais pernoitarem, o espaço para eles fazerem refeições, as casas de banho, tudo isso, neste momento, está operacional, que é o principal. Agora o resto vamos recuperando e reerguendo aos poucos.
Por falar em comunicações, o SIRESP funcionou nesses dias?
O SIRESP funcionou nesses dias, não funcionou a 100%, tivemos algumas quebras e algumas falhas, mas naquele momento foi a única forma que tínhamos para comunicar com as equipas que estavam na rua, com alguma dificuldade, porque foi muito difícil, muitas das vezes, fazer algumas comunicações. E na zona da Vieira já temos identificadas algumas zonas de sombra, onde não há qualquer rede. Mas fazíamos deslocar os veículos para uns sítios onde sabíamos que poderia haver e conseguíamos comunicar com eles e transmitir as ocorrências que iam surgindo ao longo das horas.
Como é que as pessoas comunicavam convosco?
As pessoas deslocavam-se ao quartel e iam pedir ajuda diretamente ao quartel. Nós estivemos os primeiros dois, três dias sem qualquer tipo de comunicação, sem internet, nem outra coisa qualquer, e as pessoas deslocavam-se ao quartel para que nós fôssemos socorrer as pessoas. A partir daí, conseguimos estabelecer internet através da rede Starlink, através de internet usada nos satélites.
Mas isso foi uma iniciativa vossa ou foi uma decisão mais central?
Foi através da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, que nos cedeu um equipamento desses e que estivemos a utilizar para depois termos comunicações através de e-mails ou outra coisa qualquer. Passado cerca de cinco, seis dias, já tivemos internet reposta no quartel e podíamos fazer a comunicação já normal através do uso dos equipamentos informáticos.
E estão preparados para outra? Ou estamos preparados para outra?
Não estamos ainda preparados para outra, mas já foram identificadas várias situações daquilo que poderemos melhorar futuramente para que, em caso de uma situação destas acontecer novamente, nós estejamos ainda mais bem preparados. O Leslie, em 2018, foi uma situação parecida, mas muito inferior a esta situação. Nós fizemos algumas adaptações ao quartel na altura com a situação do Leslie e, através disso, tivemos algumas melhorias que detetámos agora com esta situação. Detetámos ainda outras situações anómalas.
Pode dar-nos exemplos?
Por exemplo, garantir a internet permanentemente no quartel através de uma rede dedicada, neste caso, através de satélite. Ou seja, sempre que haja uma falha, termos essa internet disponível, como temos, por exemplo, da Starlink. Temos também a questão da falta de água na estrutura do edifício. Neste momento, a nossa ideia também é adotar e colocar um compartimento de água que leve uma metragem de água.
Isso por causa da falta de eletricidade, não?
Por causa da falta de água.
Por causa da falta de água mesmo.
Exatamente. Tivemos a falta de água. A falta de eletricidade nunca tivemos, porque como temos um gerador já dedicado, em caso de emergência, ele funcionou, esteve sempre em pleno. Depois é a questão da água, que tivemos essa dificuldade d'água para os sanitários. Já identificámos isso. Já temos também um plano previsto para essa situação, para resolver e para ser futuramente também uma das outras situações. Depois também a questão do telhado, o facto de tentarmos ao máximo evitar menos danos com os ventos. E nós temos que pensar que isto poderá acontecer mais vezes e certamente com estas alterações climáticas poderão surgir mais vezes. Também neste momento, todas as reparações que iremos fazer, iremos tentar já fazer de alguma forma em que o quartel fique um bocadinho mais estável relativamente àquilo que é a chegada do vento e que possa levantar as telhas ou outra coisa qualquer. Como já existem novas soluções. O quartel tem 30 anos, foi construído em 1994. Neste momento, estamos a adaptar de uma outra forma para quando o vento venha, estejamos preparados.
Mas para isso é preciso dinheiro.
Para isso é preciso dinheiro.
E quando é que se arranja o dinheiro?
Não sabemos. Essa é a parte pior. É claro que não temos ainda informação nenhuma de onde é que virão os apoios para estas situações. É claro que algumas pessoas têm nos ajudado monetariamente também. Outras pessoas têm nos ajudado com equipamentos e materiais de construção. Agora, esta parte fundamental do dinheiro é a parte que nos causa aqui mais transtorno, até porque além dos danos que nós tivemos no quartel, tivemos também nalgumas janelas, depois também temos os veículos que foram danificados pela saída dos portões, porque eles estavam dentro do parque de viaturas e muitos deles foram danificados e isso nós não sabemos quem é que cobrirá essas despesas.
E temos os incêndios quase a chegar.
E daqui a dois meses temos a época reforçada do dispositivo especial contra incêndios. É mais uma situação difícil para nós, porque também em caso de incêndio temos que empenhar muitas equipas no terreno.
E as viaturas não estão todas 100% operacionais, é isso?
Não estão todas 100% operacionais. Estão operacionais no momento, para já, para responder, mas precisam de outras reparações, por exemplo, são questões estéticas, riscos nas pinturas, se calhar um farolim partido, mas isso são situações que vamos agora resolver. Isto já acalmou mais um bocadinho, vamos tentar resolver agora neste período. Tudo aquilo que era mais urgente foi reparado logo de imediato.
Deixe-me só perguntar-lhe para terminar, como é que está a Vieira Leiria agora?
Vieira Leiria, neste momento, está a reorganizar-se e a tentar recuperar desta situação que aconteceu. É claro que isto afetou muita gente, afetou toda a população, todos eles, e são muito unidos neste aspeto e estamos a tentar, de alguma forma, entre todos, reerguer-nos e recuperar tudo aquilo que foi habitações ou outras situações, para tentarmos voltar à normalidade, o que vai demorar ainda bastante tempo.
João Lavres, muito obrigado por ter estado aqui nesta emissão especial da Rádio Conservadora, em direto a partir de Leiria. João Lavres é comandante dos Bombeiros de Vieira Leiria.