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É presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira desde 2021, recandidata-se agora a um segundo mandato pelo Partido Socialista. A menos de dois meses das eleições autárquicas, falamos precisamente do ato eleitoral, mas também do que está para resolver no município e ainda damos um salto ao tema dos incêndios. Fernando Paulo Ferreira é o convidado do primeiro explicador desta tarde política, uma entrevista conduzida pela Raquel Abecasis e pelo Vasco Maldonado Correia.
Bem-vindo, Fernando Paulo Ferreira. Obrigado por estar conosco na Rádio Observador. É recandidato à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e tem para já uma novidade. Ao contrário do que aconteceu nas últimas eleições, PSD e CDS avançam em listas separadas. Viu com surpresa a candidatura de Paulo Núncio, uma das figuras principais dos centristas, e surpreendeu esta candidatura separada do PSD? Não estamos a conseguir ouvir. Agora sim, Fernando Paulo Ferreira.
Sim, senhor. Estava a dizer que uma vez que o PSD descartou o CDS nesta candidatura autárquica, porque iam juntos há bastantes anos, parece-me uma candidatura natural para assegurar que o CDS se apresenta a eleições no nosso concelho. De resto, não tenho assim muito mais a acrescentar.
A semana passada, o candidato centrista Paulo Núncio esteve também aqui na Rádio Observador a apresentar algumas das bandeiras que leva na sua candidatura e reconheceu que Vila Franca de Xira é um território difícil para o CDS. Olhando para os resultados das últimas autárquicas, a esquerda toda junta obteve na altura cerca de 70% dos votos no Conselho. Acredita agora que esta tendência se mantenha ou depois dos vários atos eleitorais que tivemos entretanto e sobretudo das últimas legislativas, teme que essa realidade venha também a alterar-se no município de Vila Franca de Xira?
É verdade que estas últimas eleições legislativas trouxeram diferenças relativamente ao que era habitual. De qualquer das formas, o trabalho que temos vindo a desenvolver no nosso concelho dá-nos expectativas muito seguras de que poderemos continuar a desenvolver o nosso projeto. Agora, como eu costumo dizer, só depois das eleições é que a gente pode descansar sob o ponto de vista da preparação do que é o trabalho no dia imediatamente seguinte. Eu creio que estas eleições autárquicas em todo o território trarão composições dos executivos municipais que hão de obrigar, certamente, a uma grande capacidade de negociação e articulação no terreno, território a território. E no que nos toca, estamos absolutamente preparados, como até aqui, para trabalhar com as diversas forças políticas no desenvolvimento do Conselho.
E está preparado, portanto, para liderar uma câmara com muito mais influência do CHEGA do que aquilo que teve até aqui. Até aqui tinha apenas um vereador, tendo em conta os resultados eleitorais das últimas legislativas, é provável que o CHEGA venha a aumentar a sua representação.
Vamos ver. Até agora, as eleições autárquicas sempre foram diferentes das restantes eleições, uma vez que as pessoas se reconhecem também nos diversos candidatos. O CHEGA apresenta-se praticamente no território inteiro com um único candidato, que é o doutor André Ventura, que aliás aparece em todos os outdoors autárquicos pelo país fora. E portanto, estamos aqui numa situação em que não sabemos muito bem qual é a reação do eleitorado. Eu espero que continue a ser fiel às pessoas que conhecem o seu território e com quem têm vindo a trabalhar ao longo dos anos.
Mas caso essa tendência de crescimento do CHEGA se verifique, está completamente afastada a hipótese de um entendimento com esse partido, caso os resultados venham a ditar que essa é a única maneira de manter uma governação estável?
Como lhe disse, o resultado das eleições é que vai ditar quem são os parceiros e com que parceiros se pode vir a trabalhar. Aqui no Conselho de Vila Franca de Xira, o Partido Socialista tem sempre encontrado pontos, fundamentalmente com a coligação liderada pelo Partido Social Democrata. Aliás, com vantagens em termos de estabilidade política. Vamos ver o que nos dirá.
Mas não afasta completamente essa hipótese.
À partida, afasto, tendo em conta o comportamento que localmente o CHEGA tem tido através do seu vereador, que aliás agora de novo candidato às eleições. Mas o equilíbrio nas autarquias faz-se não só com a composição da Câmara Municipal, mas como sabem também com o que é a composição da Assembleia Municipal e das diferentes freguesias. Portanto, é preciso aqui fazer muitas contas antes de começar a poder tirar conclusões.
Mudando de tema, já referiu que um dos grandes objetivos deste mandato, que está a aproximar-se do fim, foi a aproximação de Vila Franca de Xira à área metropolitana de Lisboa. Sente que essa meta foi cumprida neste mandato ou ainda há trabalho a fazer em caso de reeleição?
O trabalho autárquico nunca está verdadeiramente terminado Mas esse é um objetivo que tem vindo a ser cumprido. Vila Franca tem estado na mira dos grandes investimentos privados, produtivos. Recebemos os maiores investimentos logísticos nacionais, que foram no território de Vila Franca de Xira, dando uma dinâmica grande ao que é a plataforma logística Lisboa Norte, que é a porta de entrada na capital do nosso país. Mas conseguimos também diversificar esses investimentos, colocando-nos no mapa ibérico das novas tecnologias, com a construção do Lisbon Campus, que está neste momento a ser construído, e é um investimento de mais de €1 milhão nesta área das novas tecnologias. Mas todos os dias aparecem novas vontades de investimento. Por exemplo, ainda agora, está a ser preparada a entrada de uma nova empresa ligada à tecnologia, nomeadamente à tecnologia dos drones, a Beyond Vision, que vem para umas antigas instalações da Cofersan, junto ao nó de Alverca, aproveitando o que é esta dinâmica em torno da aeronáutica, que tem vindo a crescer a partir da OGMA, com os investimentos enormes que foram feitos nestes últimos quatro anos. Portanto, o caminho é mesmo este, criação de emprego qualificado, e colocar-nos no mapa dos grandes investimentos a nível nacional.
E para esse objetivo é também importante a melhoria dos transportes públicos e do acesso às várias freguesias de Vila Franca de Xira.
Isso sem dúvida. Sob o ponto de vista da mobilidade em transporte público, a entrada em funcionamento da Carris Metropolitana veio melhorar imenso o que é a mobilidade neste momento, quer dentro do concelho, quer do concelho para Lisboa.
Mas ainda não conseguiu ver aquilo que disse ser um desejo seu, o metro de Lisboa a chegar a Vila Franca, nomeadamente à freguesia de Vialonga.
Era isso que eu ia dizer. No âmbito do estudo em que nós participamos da mobilidade na área metropolitana de Lisboa, está já previsto a extensão em transporte pesado, vulgo metro, até Vialonga.
Para que ano é que isso está previsto?
O ano não está previsto ainda, o estudo está neste momento em discussão pública, mas já se percebeu que é absolutamente inevitável para essa zona, nomeadamente Vialonga, que haja ali uma opção de transporte pesado. Eu digo muitas vezes que no contexto da mobilidade, o que é bom para cada um dos territórios é bom para o conjunto da área metropolitana de Lisboa. E os grandes investimentos devem ser pensados para criar dinâmicas no conjunto da área metropolitana de Lisboa. E o transporte pesado, de facto, é um deles, mas também há uma reivindicação nossa e este mandato que fizemos não são um estudo de tráfego, mas um estudo prévio também para a construção de um futuro nó na autoestrada, na zona da Póvoa de Santa Iria, na zona dos Caniços, que é particularmente importante, uma vez que a Estrada Nacional 10, neste momento, até depois das obras que fizemos, que tem passeios, ciclovias, etc, é muito mais uma avenida urbana do que uma estrada nacional. E, portanto, é mesmo preciso abrir mais nós. Tenho vindo a encetar contactos, quer com o senhor ministro das Infraestruturas, quer com a Brisa, na perspectiva da negociação que está a ser feita neste momento do contrato com a Brisa, poder incluir a construção desses nós, para os quais o estudo prévio a Câmara Municipal já ofereceu. Tenho muita expectativa que isso venha a acontecer. Mas estamos também a trabalhar, por exemplo, com Loures, na criação de uma via paralela à Estrada Nacional 10, entre as cidades de Alverca, Póvoa de Santiria e o IC2, uma espécie de prolongamento do IC2, que é também uma via muitíssimo importante para descongestionar a Estrada Nacional 10. Estamos disponíveis para assumir as nossas responsabilidades e também para exigir do governo que cumpra com as suas.
Ao longo deste mandato, e é inevitável falarmos sobre saúde, as urgências do Hospital de Vila Franca de Xira têm estado sob pressão constante. Os serviços pediátricos continuam encerrados aos fins de semana, há também muitas dificuldades nos serviços de ginecologia e obstetrícia. Podemos assumir que a gestão dos serviços de saúde foi um dos falhanços deste mandato, ou um ponto negativo?
Um falhanço, não do mandato autárquico, mas seguramente da legislatura, porque o PSD quando veio dizer que os problemas da saúde eram facilmente resolúveis, percebeu-se rapidamente, e eu creio que o PSD também já percebeu, que não estava a falar verdade. E por isso a saúde é talvez o grande problema no Conselho de Vila Franca de Xira, que até nem se compreende, porque em termos de instalações, quer o novo hospital tem todas as condições possíveis para funcionar, quer também a rede de centros de saúde, unidades locais de saúde, que são modernas e que têm todas as condições para funcionar. E portanto, há aqui uma grande falta de médicos e as opções que têm sido tomadas têm sido erradas, porque não se compreende que se estejam a fechar urgências pediátricas e urgências de obstetrícia nos sítios onde as pessoas de facto vivem e que se mantenham abertas apenas em Lisboa. Ora sabe-se que no centro de Lisboa vive cada vez menos gente, vive cada vez mais gente à volta de Lisboa, e é à volta de Lisboa que o governo tem estado a decidir fechar as urgências pediátricas e obstétricas.
E que papel é que a autarquia pode ter na melhoria desse problema, que assumo que é o maior problema do conselho?
Nós temos feito tudo o que está ao nosso alcance. Aliás, tenho trabalhado nisto com os cinco presidentes de câmara da área de influência do hospital, uma vez que o Hospital de Vila Franca de Xira não serve só o nosso concelho, serve cerca de 250 mil pessoas. E temos trabalhado em conjunto para pressionar o governo e pressionar a senhora ministra para que sejam criadas as condições necessárias para que as urgências funcionem. Aliás, viu-se aqui nos últimos dias também mais uma criança que veio a nascer no meio da rua. E isso não faz nenhum sentido. E sobretudo quando, como eu digo, e é verdade, as pessoas vivem à volta de Lisboa. Portanto, é à volta de Lisboa que precisam destes cuidados urgentes. E isto tem causado muitíssimos constrangimentos às populações. Vila Franca está na área metropolitana de Lisboa, estamos na área metropolitana de Lisboa, mas Alenquer, Benavente, Arruda, Azambuja já não estão. E essas pessoas estão muito mais longe do centro de Lisboa do que as próprias de Vila Franca de Xira. Não se compreende esta insensibilidade por parte do governo. Nós, aliás, vamos mandar uma nova carta, um pedido de audiência à senhora ministra, quer em conjunto, os cinco, quer individualmente. Temos feito vários pedidos e a senhora ministra ainda não arranjou meia hora para atender os presidentes de câmara. Estamos-lhe agora a fazer uma espécie de ultimato. Espero que encontre um bocadinho para atender os cinco presidentes de câmara, que representam um quarto milhão de pessoas.
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Um dos temas que o governo já pôs em cima da mesa em matéria de saúde é o regresso das PPPs. O Hospital de Vila Franca era uma dessas PPPs. Tanto quanto me recordo, o senhor opôs-se ao fim dessa PPP. Gostaria de voltar a essa solução no Hospital de Vila Franca de Xira? E é uma das reclamações que tem?
O Partido Socialista em Vila Franca de Xira não tem nenhum tipo de preconceito relativamente às soluções de gestão. Aliás, a PPP foi o que tornou o novo Hospital de Vila Franca de Xira uma realidade. E ainda por cima, os municípios todos aqui à volta, e Vila Franca muitíssimo em particular, ajudaram financeiramente na realização e na concretização daquela grande obra. E, portanto, não tenho nenhum preconceito relativamente a essa matéria.
E acha que poderia ser útil para resolver os problemas?
Eu creio que poderia ser útil, tendo em conta que o Estado não dá as mesmas condições de gestão às administrações públicas dos hospitais do que tem as administrações privadas. E isso no contexto da gestão hospitalar é absolutamente ineficaz, porque as soluções, a administração até pode saber quais são e pode até encontrá-las, mas depois não consegue implementá-las, tem um conjunto de regras que dificultam a sua ação. E, portanto, a figura da PPP não estava a funcionar mal e se a opção do governo for essa, por nós, não nos opomos. O que a gente quer é um hospital que funcione, queremos urgências abertas e queremos que as pessoas tenham respostas em saúde, que não têm neste momento.
Falou há pouco, Fernando Paulo Ferreira, sobre a falta de meios humanos em Vila Franca de Xira e olhando também para a atualidade nacional, naturalmente para os incêndios. A autarquia de Vila Franca de Xira está disponível para prestar apoio às comunidades afetadas pelos fogos. Há essa disponibilidade, há recursos para isso?
Nós já estamos desde o dia 1 de agosto a participar ativamente no combate aos incêndios. Temos bombeiros e temos viaturas, desde 1 de agosto, que participam nos diversos cenários: Aveiro, Coimbra, Guarda, Porto, Vila Real, Viseu. Estamos a falar de cerca de 200 operacionais que têm andado a ajudar nestes cenários. Aproveito até para dar uma palavra de solidariedade, não só aos bombeiros e bombeiras que estão a atravessar momentos de grande dificuldade, mas também aos meus colegas autarcas que têm o seu território a arder. E nestas situações, os presidentes de câmara, e já os tenho ouvido, e já ouvi também alguns a falar na vossa rádio, sentem sempre uma grande solidão, uma vez que, sob o ponto de vista da intervenção nacional, ela normalmente tarda e é muito burocrática. E, portanto, é mesmo preciso que Portugal comece a pensar num sistema de proteção civil que consiga dar uma resposta quando ela é necessária. Eu diria que é quase independente do ministro da Administração Interna do momento. Era mesmo importante que Portugal fizesse uma reflexão profunda sobre esta matéria.
Fica clara essa ideia. Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, obrigado por ter estado neste Explicador da Rádio Observador.
Obrigado.