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Foi eleito presidente do Comité Olímpico e ilibado em direto nas televisões pelo Diretor Nacional da Polícia Judiciária, enquanto decorriam as buscas à Federação Portuguesa de Futebol, que liderou durante 12 anos. Pela vitória e pelo inusitado do episódio, Fernando Gomes é a figura da semana. Começamos o nosso pódio de sons, não pela voz de Fernando Gomes, mas pelo silêncio. O silêncio de quem tinha a seu lado Luís Neves, Diretor da Polícia Judiciária, que o ilibava de qualquer relação com as buscas que àquela hora decorriam na sede da Federação Portuguesa de Futebol, que Fernando Gomes liderou durante 12 anos.

Dizer que o doutor Fernando Gomes e o doutor Tiago Craveiro não são visados nesta investigação. Não há qualquer indício. A investigação já tem anos, tem um objeto bem delimitado, temos os suspeitos bem identificados e, por isso, era aquilo que eu vos tinha a dizer. E dizer ao doutor Fernando Gomes, agradecer o trabalho que fez à frente da Federação e, sobretudo, desejar as melhores felicidades nesta nova etapa da sua vida e para nós, enquanto país e para o desporto, sobretudo para a juventude, é muito relevante.

Com o carimbo de inocente, Fernando Gomes manteve-se em silêncio, agradecido por terem sido desmentidas as notícias que o davam como arguido na operação Mais-Valia, relacionada com a venda da antiga sede da Federação.

Na tomada de posse e sem uma única palavra sobre as notícias até então conhecidas, Fernando Gomes dedicou-se por inteiro aos Olímpicos.

O Comité Olímpico de Portugal é, a partir de hoje, a minha vida, a tempo inteiro e em exclusivo, sem amarras e sem agenda que não seja a defender os atletas, o olimpismo e o desporto nacional num todo.

Mas a última década à frente da Federação Portuguesa de Futebol é o fundamental da carreira de Gomes. Da conquista do Europeu em 2016 à organização e vitória da Liga das Nações em 2019, passando pela construção da Cidade do Futebol, pela estreia do Canal 11, à afirmação do futebol feminino ou o sucesso do futsal. Gomes deixa obra para mostrar.

Nos 110 anos da Federação, já Fernando Gomes expressava gratidão por todos os que o tinham acompanhado à frente da instituição.

Ao longo destes anos, muitas vezes tenho referido que a gratidão é a memória do coração. Hoje, mais do que em qualquer outro momento ou contexto, o afirmo com toda a emoção. Termino com uma convicção: temos treinadores que inspiram, jogadores que nos fazem vibrar e clubes bem estruturados. A Federação Portuguesa de Futebol tem hoje uma estrutura sólida, fundada em equipamentos modernos, cultura da excelência e colaboradores e quadros que muito nos orgulhamos.

E tal como Pedro Proença, o novo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, também Fernando Gomes liderou a Liga Portugal entre 2010 e 2011.

Mas olhemos para o palmarés à frente do maior organismo do futebol em Portugal. Paris, 10 de julho de 2016, será o episódio mais feliz da seleção portuguesa, ao derrotar a França no Stade de France, na final do Euro 2016. Um gol de Éder colocou Portugal no topo do futebol europeu e alcançou o primeiro grande título internacional.

E quem não se lembra desses momentos? Seguiu-se a vitória na Liga das Nações, em 2019, já depois do direito a competir como campeão europeu na Taça das Confederações. Fernando Gomes foi o rosto do sucesso ao alcançar o que mais ninguém conseguiu em quase 115 anos da história da Federação Portuguesa de Futebol.

Nos seus mandatos, o dirigente contou com os selecionadores Paulo Bento, Fernando Santos, o engenheiro do sucesso de 2016 e, por último, o atual, o espanhol Roberto Martínez.

Com o futebol masculino e Cristiano Ronaldo como alavanca para o crescimento da própria Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes não descurou a vertente feminina e foi durante a sua gestão que o número de praticantes cresceu e Portugal disputou as primeiras fases finais.

Em 2017, a equipa feminina jogou o primeiro Europeu, a que se seguiu nova presença em 2022, e este ano voltará à competição na Suíça, reforçando o crescimento da modalidade praticada por mulheres, que também se estrearam no Mundial. Foi em 2023.

Para além do futebol, Fernando Gomes cedo criou um núcleo duro de modalidades a serem desenvolvidas. Para além do futebol e do futsal, uma das primeiras decisões foi juntar o futebol de praia à esfera da Federação.

A aposta no futsal levou a um título inédito no Mundial de 2021 e no futebol de praia, a FPF, sob o comando de Fernando Gomes, conseguiu mais dois títulos em Mundiais e em cinco Europeus.

Mas antes de chegar à Federação e à Liga de Portugal, Fernando Gomes começou no dirigismo no Futebol Clube do Porto, clube onde teve um papel importante, primeiro como basquetebolista e depois como dirigente da Federação Portuguesa de Basquetebol. E isso leva-nos ao passado de Fernando Gomes. Por altura dos 10 anos à frente da Federação Portuguesa de Futebol, o jornalista João Marcelino publicou uma biografia de Fernando Gomes. É nela que nos inspiramos para ir às origens de Fernando Gomes, nascido no Porto, na freguesia de Cedofeita, a 21 de fevereiro de 1952.

É filho de uma família de parcos recursos e muito ligado à mãe. Era o mais novo de três irmãos. Antes de ir pra escola, ajudava os pais nas rotinas da mercearia da família, na Ramada Alta. No regresso e com jeito para matemática, geria as contas correntes dos clientes do negócio, muitos dos quais ainda compravam a fiado.

A morte do pai, Delfim, quando Fernando Gomes tinha 13 anos, retirou-lhe o primeiro companheiro de bancada. Foi o pai que o levou aos primeiros jogos de futebol do Futebol Clube do Porto, no antigo Estádio das Antas.

Mas foi no basquetebol que Fernando Gomes começou por se notabilizar no desporto. Como dizíamos há pouco, iniciou-se a jogar num poste improvisado a partir de um mastro de uma bandeira com uma rede, antes de fazer as provas de entrada na equipe do Futebol Clube do Porto, claro está, com 13 anos. Jogou então basquetebol de alta competição, sempre nesse clube, até aos 30, ganhando cinco títulos nacionais e até uma Taça de Portugal.

Da carreira lembra muitos jogos memoráveis. Um em especial, a que se referiu numa entrevista à Daniela Oliveira, no programa "Alta Definição", da SIC, e reza assim: "Estavam cerca de 10 mil pessoas a assistir no Pavilhão Rosa Mota. Fiz 33 pontos nesse jogo. É daqueles em que tudo sai bem. Os jornais do dia seguinte diziam que tinha nascido um novo norte-americano na cidade do Porto." Em 1972, o jovem base, de 19 anos, seria mesmo passeado aos ombros pelas ruas da cidade Invicta, depois da conquista do título de campeão nacional.

E feita esta viagem ao passado, vamos ouvir um amigo de Fernando Gomes.

É alguém que conhecemos essencialmente do mundo da política. O ex-deputado do PSD, Hermínio Loureiro, à margem da política, acompanhou Fernando Gomes em muitos dos desafios como dirigente esportivo. E hoje fala-nos disso mesmo.

Hermínio Loureiro é amigo de longa data do doutor Fernando Gomes. Pedia que nos contasse um episódio que partilhou com ele e que ache que define o doutor Fernando Gomes.

O doutor Fernando Gomes é uma pessoa extraordinariamente reservada, mas quando está rodeado dos seus amigos, consegue exteriorizar os seus sentimentos. Tem um bom coração. Relativamente à reserva, vou vos contar aqui uma história que é absolutamente verdadeira, que tem a ver com a indefinição sobre qual é que é a sua paixão partidária. Ou seja, os elementos do Partido Socialista acham que Fernando Gomes é do PSD. As pessoas do PSD acham que o doutor Fernando Gomes é socialista, porque ele trabalhou com vários primeiros-ministros, ainda recentemente com Pedro Passos Coelho e com António Costa, e manteve relações de excelência com os dois. E, portanto, a dúvida persiste, e eu acho que ninguém ainda sabe qual é que é a paixão partidária do doutor Fernando Gomes. Se é mais social-democrata, se é mais socialista. Recentemente, também com Luís Montenegro, tem uma excelente relação, mas mesmo com essas boas relações, daí não se consegue extrair em quem é que no dia da votação, o doutor Fernando Gomes coloca a cruzinha, se no PSD, se no Partido Socialista. E eu acho que essa dúvida vai ficar para todos até o fim da sua vida.

A dúvida aqui manifestada por Hermínio Loureiro à conversa com a Raquel Abecasis. Das preferências políticas de Fernando Gomes, nada sabemos. E pro futuro?

E agora um desejo pro futuro do doutor Fernando Gomes.

Fernando Gomes, agora quando assumiu a presidência do Comitê Olímpico de Portugal, anunciou na sua tomada de posse que tinha abandonado todas as suas funções, quer na UEFA, quer na FIFA. E isso indicia que se vai dedicar de corpo e alma ao olimpismo, aos atletas, às federações. E, portanto, eu auguro um futuro promissor no seio do olimpismo, a nível nacional, mas também a nível internacional, tendo em conta a forma como consegue estabelecer relações por esse mundo afora. Foi assim na UEFA, foi assim na FIFA e não tenho a menor das dúvidas que será assim também no olimpismo, a representar Portugal, mas a fazer networking e a estabelecer boas relações com todos os países por esse mundo afora. Portanto, não tenho dúvidas que Fernando Gomes será também, ao nível do olimpismo, uma referência internacional e que levará bem longe o nome de Portugal.

Do futebol para o olimpismo, a ver vamos se a passagem de Fernando Gomes pelo Comitê Olímpico Nacional vai deixar um rasto semelhante ao da vitória no Euro 2016 de futebol. A ver vamos se vamos ter algum atleta a decretar um dia de feriado nacional.

E terminamos sempre esta rubrica a perspetivar o futuro próximo da figura da semana. Para onde vai então Fernando Gomes?

Nos tempos mais próximos, vai estar empenhado na preparação do próximo ciclo olímpico. Fernando Gomes assumiu esta semana a presidência do comitê. O mandato é de quatro anos. Os sapatos a calçar não são nada fáceis.

Os tempos mais próximos devem também esclarecer se a Justiça entende que Fernando Gomes atuou à margem da lei no processo de venda da antiga sede da Federação Portuguesa de Futebol, um caso que ainda está em investigação. Fernando Gomes já disse que não teme ser constituído arguido. De resto, não acredita que vá assumir essa condição de arguido no âmbito desta investigação.

Mas apesar das certezas já pronunciadas por Fernando Gomes, caso venham a levantar-se dúvidas sobre o papel que teve neste caso, será que vamos ter instabilidade nas instituições do desporto, tal como no país político?

O tempo, sempre o tempo, dar-nos-á a resposta a esta pergunta com que fechamos esta edição da figura da semana. Na próxima sexta-feira, nova semana, nova figura. Esta semana foi Fernando Gomes.